Lupi já era

Até quando Lula vai segurar seu Ministro da Previdência?

Por Hubert Alquéres

Quanto mais chegam à luz do dia dados sobre o escândalo dos descontos não autorizados por aposentados do INSS, mais se complica a situação do ministro da Previdência, Carlos Lupi. E quanto mais abre a boca para justificar sua incompetência e omissão, mais se torna evidente que já passou da hora de Lula demiti-lo. Se não o fez até agora foi por injunção política, por temer a chantagem do PDT de sair da base do governo caso sua principal liderança deixe de ser ministro.

O partido fundado por Leonel Brizola tomou as dores de Lupi, a ponto de seu líder na Câmara, deputado Mário Heringer, esbravejar: “demitir Lupi é demitir o partido.” O presidente fica, assim, prisioneiro de um aliado histórico, em um momento em que a fragilidade de sua base de apoio o tem levado a engolir sapos homéricos, até em decorrência da erosão da popularidade de seu governo.

A letargia em estancar a sangria provocada pela maracutaia dos descontos não autorizados tem um custo político altíssimo para Lula. Atinge no seu âmago a imagem de um governo que se diz comprometido com a defesa dos mais vulneráveis. Os aposentados, na sua grande maioria, estão entre os mais desprotegidos da sociedade, tendo de sobreviver com uma aposentadoria indigna. Chega a ser um escárnio retirar, de forma ilegal e criminosa, o dinheiro que fará falta para aquisição de remédios tão necessários nessa etapa da vida.

Não houve, até agora, um sentido de indignação nas declarações e ações de Carlos Lupi. Ao contrário, quando o escândalo adquiriu visibilidade, o ministro da Previdência tratou de defender o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto – afastado pela Justiça e depois demitido por Lula -, em vez de prestar contas das ações de sua pasta para demonstrar que não se omitiu e não prevaricou.

Preferiu terceirizar a culpa. Primeiro atribuindo a proliferação dos descontos não autorizados como uma “herança maldita” dos governos Temer e Bolsonaro. Disse uma meia verdade. De fato, descontos de contribuições para associações e sindicatos teve início em 2019, mas só assumiram escala gigantesca no governo Lula. Os números são cristalinos: eles avançaram 273% em relação ao último ano de Bolsonaro.

Há um caso emblemático do “milagre de multiplicação” de associados. Em 2021, a Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos tinha 3 (três) associados. Em 2024, no terceiro governo Lula, seus associados passaram a ser 600 mil, faturando 91 milhões de reais. Quem conhece um mínimo sobre o mundo sindical e associativo, sabe que um salto tão gigantesco de associados é absolutamente impossível.

Há uma profusão de dados a comprovar que havia um grande elefante na sala do INSS e só o ministro Lupi não via. Ou, se via, não tomou as medidas necessárias. Um levantamento da Controladoria Geral da União apontou que só no primeiro semestre de 2024 mais de 742 mil beneficiários do INSS registraram pedidos para cancelamento do desconto associativo. Detalhe importantíssimo: desse montante, 709 mil, ou seja, 95,6% do total, informaram que não tinham autorizado o desconto feito pelas associações.

Ora, se a investigação da CGU constatou tamanha irregularidade, por que o Ministério da Previdência e o INSS não fizeram uma investigação própria, uma vez que Lupi sabia, desde janeiro de 2023, que havia denúncias de fraudes nas mensalidades ilegais descontadas de aposentadorias e pensões? O governo Lula foi alertado sobre o crescimento exponencial das fraudes por órgãos como Tribunal de Contas da União, CGU, Ministério Público, Conselho Nacional da Previdência Social e auditores do próprio INSS.

Há um agravante revelador da omissão do ministro. Na reunião do Conselho Nacional da Previdência Social de 12 de junho de 2023 a então conselheira Tônia Galleti solicitou a discussão sobre os acordos de cooperação técnica das entidades que tem desconto de mensalidades junto ao INSS. Se seu pleito tivesse sido atendido, o escândalo teria se tornado público bem antes. Em declarações posteriores, Tônia disse que alertou Lupi sobre a farra dos descontos não autorizados já na posse do ministro, no início de janeiro de 2023.

O próprio ministro admitiu ter conhecimento das denúncias há mais tempo. Em uma entrevista desastrosa à Folha de S. Paulo reconheceu que “tem muita safadeza” no INSS, acrescentando: “tento resolver, mas não sou Deus”. Essa desfaçatez aparece em outras declarações de Carlos Lupi, para quem “tudo no governo é demorado”. Se é assim, só resta aos aposentados rezar a Deus, para que a divina providência dê um jeito para não serem assaltados por quadrilhas de falsários, como as investigações vem revelando.

Enquanto Lupi vai se mantendo no cargo, fantasmas rondam o Palácio do Planalto, reavivando episódios que Lula gostaria de ver esquecidos. O passado parece voltar ao presente, relembrando um caso semelhante, quando Carlos Lupi, então ministro do Trabalho do governo Dilma, foi demitido. A principal acusação foi a de que o Ministério do Trabalho, sob sua gestão, teria favorecido ONGs ligadas ao PDT em convênios com recursos públicos, sem fiscalização adequada. Além disso, surgiram denúncias de cobrança de propinas para liberar esses repasses. À época, Carlos Lupi se jactava: “só saio do governo à bala”. Era bazófia.

Lula pode agora fazer o mesmo? Não há ainda uma resposta, mas é possível diante do potencial do escândalo. A memória coletiva do brasileiro é muito marcada por essas grandes crises de corrupção, que foram massivamente cobertas pela mídia, julgadas judicialmente, e que contribuíram decisivamente para o desgaste do Partido dos Trabalhadores e para o impeachment de Dilma Rousseff.

Quando ocorre agora um novo escândalo, mesmo que seja menor em escala ou diferente em natureza, a associação automática com o Petrolão ou o Mensalão é reativada: “de novo corrupção em governo do PT”. 

O Rio de Janeiro continua lendo

Ao reconhecer o Rio de Janeiro, a Unesco aponta o livro como ferramenta de cidadania, memória e transformação social.

Por Hubert Alquéres e Sevani Matos

No último dia 23 de abril, o Rio de Janeiro foi oficialmente nomeado Capital Mundial do Livro pela Unesco, tornando-se a primeira cidade de língua portuguesa a receber essa distinção. A cerimônia de abertura, realizada no Teatro Carlos Gomes, contou com a presença de autoridades, representantes da Unesco e figuras proeminentes da cultura brasileira, como os escritores Ruy Castro e Conceição Evaristo. Performances artísticas de nomes como Fernanda Abreu, Toni Garrido, Gregório Duvivier e Elisa Lucinda, inspiradas em obras da literatura nacional, deram o tom da celebração, reafirmando a riqueza, criatividade e a diversidade da nossa produção literária.

A escolha do Rio não se deu por acaso. Desde o Império, quando D. João VI desembarcou de Portugal trazendo consigo a Imprensa Régia e a Biblioteca Real — marcos fundadores da vida literária e intelectual do Brasil —, a cidade se afirmou como polo de uma literatura que foi decisiva para a formação da identidade nacional. Escritores como Machado de Assis, Lima Barreto e Euclides da Cunha contribuíram enormemente para a caracterização do Brasil como um país ímpar que então engatinhava. Nas páginas de suas obras projetava-se a alma de um povo com uma cultura também única.

O compromisso do Rio com políticas públicas de incentivo à leitura, vem destes tempos. Até hoje a cidade abriga instituições fundamentais para a memória e o estímulo à leitura, como o Real Gabinete Português de Leitura, a Biblioteca Nacional, a Biblioteca Parque e a Academia Brasileira de Letras. São espaços que guardam o passado e projetam o futuro da literatura brasileira.

A antiga capital do país também se destaca pelo vigor de suas bibliotecas populares e comunitárias, espalhadas por diversas regiões da cidade. Esses espaços cumprem um papel essencial na democratização do acesso ao livro, promovendo atividades culturais, encontros com autores e ações de mediação de leitura que contribuem para a formação de leitores críticos e socialmente engajados. Ao lado delas, resistem com vitalidade as livrarias clássicas do Rio de Janeiro — como a Argumento, a Travessa e a Blooks —, que se reinventaram como polos culturais vibrantes, pontos de encontro de intelectuais, artistas e amantes da literatura. São lugares que mantêm viva a tradição literária da cidade, reafirmando seu compromisso com a leitura e o pensamento.

A literatura brasileira sempre foi uma forma de compreender o país e de questioná-lo — e o Rio de Janeiro é, há séculos, um dos principais palcos dessa narrativa coletiva. A nomeação como Capital Mundial do Livro é, portanto, um gesto simbólico e pragmático: fortalece a cultura do livro, apoia o mercado editorial e estimula a formação de novos leitores.

Durante o período da distinção, o Rio sediará uma série de eventos literários, incluindo a Bienal do Livro e uma edição especial do Prêmio Jabuti, que será entregue no Theatro Municipal da capital fluminense e irá destacar as melhores iniciativas de fomento à leitura na cidade. Essas iniciativas visam projetar o livro e a leitura como pilares de cidadania e desenvolvimento humano. O apoio da Unesco, aliado ao esforço da Secretaria Municipal de Cultura, tem sido essencial nesse processo. Merece reconhecimento especial o trabalho do secretário Lucas Wosgrau Padilha, cuja articulação institucional e sensibilidade cultural têm sido decisivas para a concretização das ações previstas.

É fundamental que a educação esteja integralmente inserida nesse movimento, como destacou o secretário municipal Renan Ferreirinha em entrevista à jornalista Míriam Leitão, na Globonews. Por isso, integrar escolas e educadores ao calendário de atividades é estratégico para ampliar o impacto das ações, formar leitores permanentes e gerar pertencimento entre os jovens. A literatura não deve ser um privilégio, mas um direito.

Nos palcos e nas páginas, estavam nomes como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Raquel de Queiroz e Mário de Andrade — vozes clássicas que moldaram nosso imaginário. Mas também os novos e vigorosos talentos da literatura contemporânea: Itamar Vieira Jr., Jefferson Tenório, Aline Bei, Tereza Romão, Fabrício Corsaletti e Rosa Freire d’Aguiar. A literatura infantil, base de tantas trajetórias leitoras, foi representada por Monteiro Lobato, Ziraldo, Chico Buarque e Mauricio de Sousa.

O Rio de Janeiro, com sua beleza e complexidade, oferece agora ao mundo uma vitrine viva da literatura brasileira. Que este ano seja marcado por uma efervescência literária capaz de inspirar outras cidades e fortalecer a presença da nossa palavra no cenário internacional. A Capital Mundial do Livro é também, simbolicamente, a capital de uma nação que precisa, mais do que nunca, redescobrir-se através da leitura.

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O fim melancólico do PSDB

Por Hubert Alquéres

O PSDB vive a sina do personagem Policarpo Quaresma do livro de Lima Barreto. Marcha para um triste fim. O partido que por seis disputas presidenciais foi um dos polos da política brasileira, nem de longe é a sombra dos tempos em que, como governo, modernizou o Estado, promoveu reformas estruturantes e estabilizou a economia com o Plano Real. Os tucanos deixaram de ser relevante no cenário nacional e hoje deparam-se com a necessidade de encontrar uma fusão com outra legenda – possivelmente o Podemos – para cumprir a cláusula de barreira na eleição de 2026. Essa é a condição. Só assim para continuar existindo no Parlamento.

Se concretizada, a fusão não se dará por afinidades ideológicas ou convergências em torno de um projeto para o Brasil. Acontecerá pelo mais absoluto pragmatismo, pois o Podemos é a única sigla que aceita a exigência dos tucanos de a legenda PSDB continuar existindo por meio da junção da sigla dos dois partidos. Outras alternativas, como a fusão com o MDB, o PSD e os Republicanos, fo idescartada porque aceitam a incorporação dos tucanos, mas não uma fusão que os leve a mudar de nome.

Por esse caminho, o PSDB simplesmente seria absorvido por outro partido maior, hipótese que sua cúpula não aceita. Mas isto pode acontecer como uma diáspora tucana, com cada parlamentar, prefeitos ou governadores da sigla seguindo seu próprio caminho. Em São Paulo, onde já houve uma revoada de prefeitos e militantes tucanos para o PSD, a tendência é esse fenômeno se acentuar. Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra já migrou para o partido de Gilberto Kassab. O governador do Mato Grosso do Sul também deve seguir caminho próprio. Também Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul e hoje o tucano com maior visibilidade no cenário nacional, sinaliza que   pode seguir o mesmo caminho de Raquel Lira e ingressar no PSD, no início de maio.

Em política, a junção de dois partidos pequenos – o tamanho das bancadas federais do PSDB e do Podemos é praticamente o mesmo – não gera um grande partido. No caso concreto, redundará, no máximo, em um partido médio, com 25 deputados federais, se todos eles acompanharem a fusão. Pode ser suficiente para escapar da cláusula de barreira, mas não para tornar a nova agremiação em um ator relevante da vida política nacional. Faltará um requisito fundamental: expectativa de poder.

O fim melancólico do PSDB se traduz em números. Os tucanos já foram a segunda bancada na Câmara Federal, quando elegeram 98 deputados, nas eleições de 1998. E até 2018 foram um dos principais partidos no parlamento, contando com uma bancada que lhe assegurou protagonismo político até as eleições de 2014. Durante 28 anos os tucanos governaram o Estado de São Paulo, chegando a ser, em 2010, o partido que mais elegeu governadores e o segundo que mais elegeu prefeitos, em 2016.

O ocaso dos tucanos adquiriu visibilidade em 2018, quando seu candidato a presidente, Geraldo Alckmin, teve menos de 5% dos votos. E acentuou-se em 2022, quando elegeu apenas 13 deputados federais. Em seu bunker, São Paulo, elegeu apenas dois deputados federais, o mesmo acontecendo em Minas Gerais, estado no qual governou por vários mandatos. A hecatombe veio em 2024, com seu candidato a prefeito de São Paulo obtendo apenas, 1,6% dos votos e não elegendo um só vereador na capital paulista. Quatro anos antes, foram eleitos 176 prefeitos no principal Estado do país, em 2024 elegeu apenas 21 prefeitos. Nacionalmente, também foi um desastre. Não elegeu um só prefeito nas capitais do país.

O definhamento do PSDB se dá no mesmo momento da ascensão do bolsonarismo, uma pista relevante para entender a sua crise terminal. Os tucanos aderiram, acriticamente, ao antipetismo radical e estéril, tornando-se o estuário do voto de uma direita de valores não democráticos que se abrigava no seu ninho, por falta de opção. Bolsonaro deu visibilidade e retirou do armário essa ultradireita, de viés antidemocrático.

Sua crise agônica expressou a transmutação de um partido originalmente de centro-esquerda em um partido de centro-direita, com algumas ramificações bolsonaristas, particularmente em sua bancada de parlamentares. Mas também a incapacidade de defender o legado de quando foi governo e seus valores fundantes. Tampouco formulou um novo projeto nacional condizente com as profundas transformações ocorridas em escala planetária e que impactaram no Brasil de hoje.

Quando se olha para seu passado, impossível negar que o PSDB foi a socialdemocracia dos tempos da globalização, acompanhando as transformações ocorridas em suas congêneres europeia, particularmente na socialdemocracia inglesa de Tony Blair e da Espanha de Felipe Gonzales.

Sim, o PSDB foi formado por intelectuais de uma esquerda liberal nos seus valores, assim como o é a esquerda americana do Partido Democrático, e com a mentalidade similar à da moderna socialdemocracia europeia. Na sua origem estavam políticos progressistas como Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Franco Montoro, Tasso Jereissati, José Serra, José Richa e tantos outros, descontentes com a forma ossificada de se fazer política do PMDB. Como afirmou em seu manifesto de fundação, nasceu com a pretensão de ficar longe das benesses do poder e próximo do pulsar das ruas.

Inegavelmente, essa socialdemocracia prestou relevantes serviços ao país, nos oitos anos em que ocupou a presidência do país. Promoveu a distribuição de renda ao acabar com a hiperinflação que penalizava as camadas mais pobres, democratizou o acesso à telefonia, avançou na universalização dos direitos sociais básicos, particularmente na Educação, com a “revolução gerenciada” de Paulo Renato Souza, e na Saúde, área em que José Serra se afirmou como o melhor ministro da história do país. Para não falar no programa Comunidade Solidária de Ruth Cardoso, com sua visão emancipacionista e no modelo de gestão implantado em São Paulo por Mário Covas, até hoje uma referência de compromisso com a coisa pública.

Esse PSDB não existe mais. Desapareceu, assim como a maioria de seus quadros históricos deu lugar a uma nova geração de dirigentes de estatura menor. Os tucanos poderiam encerrar sua história de maneira mais grandiosa e não de forma tão melancólica. O desfecho trágico de Policarpo Quaresma significou a derrota do idealismo diante da realidade dura e corrupta da sociedade e da política da época. O triste fim do PSDB representa o abandono dos seus valores fundantes em nome de um pragmatismo que lhe dê uma sobrevida, ainda que seja respirando por aparelhos.

O perigo vem de dentro

O que a aula de Nina Ranieri ensina sobre democracia

Por Hubert Alquéres

Pela primeira vez, a Faculdade de Direito da USP elegeu uma mulher como professora titular na área de Teoria Geral do Estado. Nina Beatriz Stocco Ranieri foi aprovada em concurso público para ocupar a cátedra deixada pelo atual ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. A banca examinadora foi presidida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.

Sua aula de erudição — Ideia atual de Estado Democrático — propôs uma reflexão precisa sobre os riscos que ameaçam as democracias contemporâneas. A corrosão é por dentro, institucional, silenciosa, promovida por regimes que mantêm as aparências democráticas enquanto esvaziam seus fundamentos.

O tema não poderia ser mais atual. Em tempos de desgaste da cultura política e descrédito nas instituições, é essencial recuperar os alicerces do pacto democrático. Foi o que Nina fez em uma exposição densa, articulada e politicamente necessária.

Com referências como Kim Lane Scheppele, Steven Levitsky, Daron Acemoglu e Hannah Arendt, a professora mostra que os ataques à democracia hoje não se manifestam por rupturas abruptas, mas por erosões graduais. A ameaça vem de líderes eleitos que, uma vez no poder, distorcem as regras do jogo e fragilizam os pilares da ordem constitucional.

Ao contrário dos regimes abertamente autoritários, os modelos iliberais operam sob fachada institucional. Manipulam procedimentos, esvaziam a função das instituições de controle e convertem a legalidade em instrumento de dominação. A Constituição permanece — mas perde sua força como referência comum.

Assim é na Hungria de Viktor Orbán, na Rússia de Vladimir Putin, na Polônia do partido Lei e Justiça, na Turquia de Erdoğan e na Venezuela de Nicolás Maduro — governos que mantêm eleições e símbolos democráticos enquanto minam seus fundamentos por dentro. Nos Estados Unidos, sob Donald Trump, os ataques às instituições vieram à tona na tentativa de subverter o resultado das urnas e na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

Num cenário marcado pela desinformação e polarização digital, a aula de Nina abre espaço para refletir sobre o papel das redes sociais na crise da democracia representativa. Hoje, algoritmos promovem discursos simplificadores, fortalecem lideranças populistas e corroem a confiança nas instituições — fenômenos que afetam diretamente a qualidade do debate público e a resiliência democrática. A tecnologia, longe de neutra, tornou-se parte ativa da disputa pelo imaginário político.

A fidelidade à democracia exige vigilância constante, sobretudo quando discursos populistas apelam ao coletivo para justificar o desprezo pela técnica, pela legalidade e pela mediação institucional. Nem toda democracia em crise se converte em autoritarismo, mas todo autoritarismo começa pela degradação silenciosa dos seus freios e contrapesos.

O foco da aula, no entanto, não é apenas a denúncia. É também a defesa de um caminho: não basta preservar os ritos formais. É preciso sustentar uma cultura política que resista às tentações do poder sem limites. E isso começa pela educação — não só a educação escolar, mas a formação política e institucional da cidadania.

Ao afirmar que “as democracias decepcionam, mas não traem”, Nina propõe uma distinção essencial: a frustração com os limites da democracia não deve abrir espaço para soluções autoritárias travestidas de renovação. A saída não está na sua negação, mas em sua radicalização pela via da responsabilidade, da transparência e da participação.

A aula propõe um olhar firme sobre a complexidade das democracias contemporâneas, recusa os atalhos do autoritarismo e revaloriza o pacto democrático que nos sustenta como sociedade. Os conceitos clássicos de democracia e Estado estão em transformação — e essa mudança exige mais do que normas jurídicas ou decisões judiciais. Exige práticas culturais, educação política e um pacto ético em torno das regras do jogo.

Esse ponto não é alheio à trajetória da professora. Nina Ranieri há décadas atua na defesa da educação pública como um pilar da cidadania. Em sua passagem por cargos na USP, no Ministério da Educação e em organismos internacionais, sempre reafirmou que formar sujeitos capazes de compreender as instituições é uma tarefa tão urgente quanto garantir a equidade no acesso à escola. Sua visão da democracia é inseparável de uma aposta na educação como instrumento de emancipação — e como antídoto contra as soluções autoritárias pretendidas como de eficiência.

Em tempos de ceticismo, sua aula é um gesto de confiança crítica. Propõe a educação como escudo contra o autoritarismo, a crítica como antídoto ao cinismo, a esperança racional como base de reconstrução institucional.

E não é irrelevante que essa lição venha do interior da universidade pública. A aula de Nina é uma forma de resistência — e de compromisso. Sua vitória é um justo reconhecimento pessoal, mas também um lembrete de que a universidade deve continuar sendo espaço de pensamento rigoroso e defesa vigilante da democracia.

No Brasil de hoje, isso vale muito.

Trumpismo, a negação do reaganismo

Por Hubert Alquéres

Em 6 de agosto de 1983, o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, fez um pronunciamento radiofônico à nação sobre comércio internacional e que permanece atual e revelador. Suas palavras servem como um alerta sobre os riscos do protecionismo comercial que voltou à cena com força sob a liderança de Donald Trump, cuja agenda tarifária ameaça desestabilizar a economia global e corroer a hegemonia americana. O discurso foi transmitido de Camp David, Maryland, e está disponível no site oficial da Biblioteca Presidencial Ronald Reagan.

Em 1987, Reagan voltou à carga e, num vídeo resgatado recentemente nas redes sociais chinesas, declara em alto e bom som: “Tarifas altas inevitavelmente levam à retaliação de outros países e ao desencadeamento de guerras comerciais. O resultado são tarifas cada vez mais altas e menos concorrência. Assim, em pouco tempo, devido aos preços artificialmente elevados por tarifas que subsidiam a ineficiência e a má gestão, as pessoas param de comprar. No longo prazo, tarifas contra importados resultam em colapso de mercados, falências de empresa e milhões de empregos perdidos”.

A advertência do presidente americano não foi proferida por acaso. Naquele momento havia uma pressão bipartidária para a adoção de tarifas contra o Japão e a Coreia do Sul, sob pretexto de proteger a indústria americana que não conseguia concorrer com os produtos dos dois países asiáticos.

Em vez de ceder, Reagan advertiu os Estados Unidos para não repetir erros do passado, citando as consequências negativas da lei Smoot-Hawley, adotada em meio à depressão dos anos 30. Por meio dessa lei, foram estabelecidas tarifas para a importação de mais de 20 mil produtos, provocando uma retração de 60% no comércio mundial. Em vez de contribuir para a recuperação da economia do país, agravou a depressão econômica e suas mazelas sociais.

Revisitar a doutrina Reagan é fundamental para entender o quanto o caminho trilhado por Donald Trump é a negação do “reaganismo” e do seu legado. Essa doutrina esteve em sintonia com o espírito da Cúpula de Williamsburg, Virginia (EUA), realizada em maio de 1983 em uma conjuntura de recessão global, alta inflação e tensão comercial entre os países desenvolvidos. Apesar das divergências sobre políticas econômicas, os países do G7 acordaram apoiar o livre comércio e se opor ao protecionismo, além de se comprometer com o combate à inflação, o crescimento sustentado e o fortalecimento dos mecanismos multilaterais. Não só econômicos, como o GATT, mas também geopolíticos, como a OTAN.

O reaganismo foi uma doutrina com uma visão liberal da economia, pautada na diminuição do papel do Estado, no desenvolvimento tecnológico e na integração dos Estados Unidos com a economia mundial, que anos depois levariam à formação das cadeias produtivas globais. Tinha uma mensagem de economia de mercado, com forte apelo individual e à identidade nacional americana. Apostava, sobretudo, no “American Dream” de que as pessoas poderiam prosperar por meio do seu esforço pessoal.

Reagan acreditava que o sucesso vinha da iniciativa pessoal, e não da dependência do Estado. Defendia menos intervenção do governo na economia, redução de impostos e livre mercado como caminhos para alcançar o sonho americano.

Inegavelmente, sua era foi de prosperidade econômica nos Estados Unidos, que saiu da recessão do final dos anos 70 e gerou novos empregos. A Globalização, da qual foi um dos grandes artífices, propiciou a emergência de uma nova potência, a China, a diminuição da pobreza extrema, o acesso a bens de consumo para centenas de milhões de pessoas, embora tenha ampliado a desigualdade de renda e gerado um exército de perdedores. No balanço final, a globalização gerou mais benefícios do que que danos. Tanto para a economia mundial, como para a população.

A doutrina Reagan influenciou a política americana por quatro décadas e reconfigurou o mundo. A maioria dos presidentes americanos que o sucederam mantiveram os principais fundamentos da “reaganomics”. Até mesmo os democratas Clinton e Obama. Também houve continuidade de sua geopolítica, pautada na defesa do “mundo livre”, no multilateralismo e no fortalecimento e expansão da OTAN para países do leste europeu. Para Reagan, os imigrantes era uma fonte de dinamismo econômico. Sua visão encontrava respaldo diante do papel jogado por imigrantes na história americana.

A exceção foi Donald Trump. Sua política, principalmente neste segundo mandato, não representa apenas uma ruptura do “reaganismo”. É a negação dos valores que permearam seu país e o mundo nos últimos quarenta anos. Os Estados Unidos consolidaram-se como o líder de um mundo unipolar até a assunção da China como segunda grande potência econômica do mundo.

As diferenças entre o reaganismo e o trumpismo são oceânicas. Afinal, Reagan foi um árduo defensor do livre comércio e dos órgãos multilaterais. Trump é protecionista, impôs tarifas unilaterais e minou acordos comerciais multilaterais. Reagan assinou anistia para milhões de imigrantes irregulares em 1986. Trump adotou uma postura hostil à imigração, com deportações e construção de muro na fronteira. Reagan foi um internacionalista, acreditava no papel dos EUA como liderança global priorizando as relações com as democracias ocidentais, particularmente com a Europa. Trump é isolacionista, com forte viés intervencionista, cético com alianças tradicionais (como a OTAN) e elogios a autocratas como Putin. Donald Trump pensa no isolamento da Europa, numa espécie de ressureição do espírito de Yalta, com a divisão do mundo em áreas de influência entre os Estados Unidos, a Rússia de Putin e a China de Xi Jinping.

A diferença entre os dois está também no estilo e na retórica política. Enquanto Ronald Reagan tinha uma mensagem de otimismo e fazia política de forma civilizada, até mesmo com adversários, a retórica de Donald Trump é agressiva, divisionista e personalista, frequentemente contra instituições, e até a membros do próprio partido. São diferenças da água para o vinho. Um foi, antes de tudo, um construtor de esperanças. O outro um livre atirador inconsequente.

Cada um entra na história da maneira como constrói a estrada de sua vida política. A estatura de cada um depende do próprio feito. No acervo de Reagan está o papel que desempenhou para o desmanche do maior inimigos dos Estados Unidos, na sua época: a União Soviética. Já Trump pode ser lembrado pela história como o presidente que facilitou o caminho para a China se tornar na principal força econômica do mundo.

A mitomania de Trump está levando a isso. Aos Estados Unidos entrar em rota de colisão com o mundo inteiro, deixando de ser confiável para parceiros históricos que estiveram sempre ao seu lado. Seu “Dia da Libertação” representa o Armagedon da Ordem Mundial duramente construída após a Segunda Guerra Mundial. Vai entrar para a história como quem transformou o país símbolo do capitalismo em arauto do isolacionismo. E a China, país de uma ditadura do partido único como o guardião do multilateralismo e do livre comércio. A história tem suas ironias.

Anistia não é a agenda do país

Sem apoio popular e dissociada das prioridades nacionais, proposta de anistia revela os limites da estratégia bolsonarista e o empobrecimento do debate público

Por Hubert Alquéres

Grandes jornadas, como a luta pela anistia nos tempos da ditadura militar, as Diretas Já, o “Fora Collor” e o impeachment de Dilma, se afirmaram porque, além de encher as ruas, conquistaram os corações e mentes dos brasileiros. Em outras palavras, galvanizaram a opinião pública e se tornaram uma causa nacional como parte importante de sua agenda política. Esses requisitos não estão presentes na atual campanha pela anistia aos presos por participar da intentona bolsonarista do 8 de janeiro de 2023 e que resultou numa chocante depredação do patrimônio público.

É sob essa ótica que deve ser analisado o ato realizado domingo em São Paulo, na Avenida Paulista. Se o objetivo era conquistar a opinião pública a ponto de se tornar irreversível a aprovação pelo Congresso Nacional do projeto da anistia, a manifestação não logrou êxito. Ao contrário, revelou os limites de sua capacidade de conquistar novos apoios fora do núcleo já convertido. Não que tenha sido um fiasco em termos de público, longe disso.

Não é desprezível um ato com 45 mil pessoas, segundo o Monitor do Debate Político do Cebrap, ou com 55 mil pessoas segundo o Datafolha. Quando cotejado com a raquítica manifestação contra a anistia convocada pela esquerda realizada uma semana antes, o ato do último domingo evidenciou que o bolsonarismo continua sendo a única força política com poder de mobilização. Esse é um fenômeno recente no Brasil, uma direita com base de massas.

Os números e a presença de sete governadores — quatro dos quais com pretensões presidenciais e de olho no espólio de Bolsonaro — podem levar à leitura equivocada de que o ex-presidente saiu do ato revigorado por ter dado uma demonstração de força. No frigir dos ovos, o ato apontou os limites do bolsonarismo e da própria bandeira da anistia para os golpistas. Bolsonaro prega para os seus e, como sua base é radicalizada, radicaliza no discurso, dificultando mais ainda a tramitação de sua bandeira no Congresso Nacional.

A presença dos governadores no ato da Avenida Paulista não deve ser interpretada como apoio irrestrito à anistia, mas como um gesto estratégico. O evento ofereceu visibilidade e funcionou como aproximação calculada com o eleitorado bolsonarista — ativo relevante para quem almeja protagonismo em 2026. Subir ao palanque evita o rótulo de traidor, mas envolve riscos: quanto mais presos à lógica da radicalização, menor a capacidade de dialogar com o eleitorado mais amplo, que busca uma alternativa moderada e viável.

Nesse contexto, a inelegibilidade de Bolsonaro pode ser vista, por muitos, como uma oportunidade. Sua ausência abre espaço para novas lideranças disputarem o campo conservador sem enfrentá-lo diretamente, além de reduzir a temperatura do debate e permitir pontes com o centro político.

Ao adotar a tática do intimidamento do presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB), Bolsonaro estreita as possibilidades de ampliar seu campo de alianças no Congresso Nacional.

O grande problema da bandeira da anistia é sua rejeição pela maioria dos brasileiros. Pesquisas do Datafolha e da Quaest mostram que 56% são contra perdoar os responsáveis pelo 8 de janeiro, enquanto os favoráveis não passam de 34% a 37%. Além disso, 52% consideram justa a decisão do STF de tornar Bolsonaro réu, e o mesmo percentual defende sua prisão por tentativa de golpe.

O Congresso, em certa medida, reflete esse sentimento. Se houvesse apoio popular à anistia, ela já teria avançado. Mas a realidade é outra — agravada pelo erro estratégico de Bolsonaro ao confrontar os presidentes da Câmara e do Senado.

Sem respaldo nacional, a anistia se torna um instrumento de sobrevivência política: tenta evitar uma possível prisão e reverter a inelegibilidade para 2026.

Ao ser atacado, Motta teve um comportamento equilibrado com exata noção do momento delicado em que o país vive. Por um lado, compreende que as prioridades do país são outras – não a anistia; por outro, aponta a necessidade de se revisitar a dosimetria dos já condenados, no sentido de corrigir injustiças.

Para usar a expressão do cientista político Bolívar Lamounier, “vemos hoje uma disputa entre dois populistas sem projetos”. O Brasil não pode se resignar a uma polarização marcada pela ausência de propostas consistentes para os seus reais desafios. A bandeira da anistia, assim como outras pautas artificiais, desvia o foco do que realmente importa: crescimento econômico sustentável, educação de qualidade, fortalecimento das instituições democráticas, redução das desigualdades e conexão com o que acontece no mundo. O país precisa reencontrar sua agenda pública — aquela que nasce do interesse coletivo e que mobiliza a sociedade em torno de um projeto de nação.

As Arcadas e o dever de preservar o pluralismo

por Hubert Alqueres

A Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, com sua história bicentenária, sempre se apresentou como bastião da liberdade, espaço do pensamento crítico e da convivência entre diferentes ideias. Foi ali que se redigiram cartas em defesa do Estado Democrático de Direito e ecoaram vozes contra o arbítrio em diferentes momentos da vida nacional. As Arcadas, como são conhecidas, cultivaram ao longo do tempo uma reputação de pluralismo e civilidade intelectual.

Por isso, preocupa o rumo de alguns acontecimentos recentes. O caso de um estudante impedido de colar grau, mesmo após ter cumprido todos os créditos com desempenho reconhecidamente excelente, é ilustrativo de um cenário mais amplo. A decisão judicial que anulou sua expulsão, apontando desvio de finalidade e desproporcionalidade, acendeu um sinal de alerta sobre os limites da atuação institucional quando esta se afasta do devido processo legal.

A sentença é clara: os fatos usados para justificar a expulsão ocorreram, em grande parte, fora do ambiente universitário e em contexto pessoal. A fragilidade das provas e a ausência de imparcialidade no processo administrativo comprometem o princípio fundamental da legalidade. Não se trata de relativizar comportamentos inadequados, mas de reafirmar que toda apuração precisa ser pautada por critérios objetivos, respeitando a presunção de inocência, e o amplo direito de defesa.

Este episódio soma-se a outros que vêm tensionando o ambiente da tradicional faculdade. Houve conflitos públicos entre professores, denúncias graves de assédio, tentativas de excluir docentes por divergências ideológicas — como no caso da professora Janaina Paschoal, que enfrentou resistência de parte do corpo discente ao tentar reassumir seu cargo após mandato parlamentar. Seja qual for o juízo que se tenha sobre suas ideias, é inaceitável que uma universidade pública recuse, por preconceito político, o exercício legítimo da docência por uma professora concursada.

O pluralismo não se defende apenas no discurso. Exige coerência institucional, serenidade diante dos embates e, sobretudo, um compromisso ético com a escuta. Não há democracia acadêmica possível se ideias divergentes forem tratadas como desvios morais ou riscos a serem neutralizados.

A cultura do cancelamento, mesmo quando travestida de zelo ético, fere os princípios que as Arcadas sempre buscaram honrar. Nunca é demais relembrar: os fins não justificam os meios. A sanção administrativa não pode ser utilizada para punir posições impopulares ou para responder a pressões de grupos organizados. Universidades não devem funcionar como tribunais ideológicos — mas sim como espaços de formação plural, de aprendizado mútuo, de tensão criativa entre diferentes.

Se as Arcadas desejam continuar sendo um símbolo da liberdade no Brasil e honrar as belas páginas da história que escreveu, precisam reafirmar com clareza que o pluralismo é um valor inegociável e que o Estado de Direito começa com a observância dos direitos consagrados em nossa Constituição.

O impasse provocado por Bolsonaro

Por Hubert Alquéres 

A direita pode se dividir em diversas candidaturas, na próxima disputa presidencial. Não que lhe falte alguém com potencial de aglutinar o seu campo e de dialogar com o eleitorado do centro. Todas as análises convergem para o nome de Tarcísio de Freitas, como o único com esse poder de aglutinação e de ampliação. Essa possibilidade esbarra na obstinação de Bolsonaro de repetir a estratégia de Lula de 2018, mantendo sua candidatura até a undécima hora, quando o Tribunal Superior Eleitoral negar o seu registro.

A subordinação à estratégia de Bolsonaro funciona como grilhões nos pés dos presidenciáveis deste campo. É praticamente inviável a vitória de qualquer um deles sem o seu apoio explícito. A despeito da sua inegebilidade e da prisão após seu julgamento no STF, Bolsonaro continua sendo o grande eleitor do seu campo, por ter dado voz e visibilidade ao conservadorismo e reacionarismo que não vinham à luz do dia.

Isso explica por que os grandes players da direita – Tarcísio, Ratinho Jr, Zema e Ronaldo Caiado –  se manifestaram em solidariedade a ele, imediatamente após ter sido considerado réu pela Primeira Turma do STF. Não poderia ser diferente para quem sonha em contar com seu aval em 2026. Mas daí a concluir que todos eles acompanharão Bolsonaro até sua candidatura ser impugnada pela TSE, há uma enorme distância. Continua válida a frase segundo a qual em política, acompanha-se o velório, até a cova, mas não se pula junto com o caixão.

Bolsonaro, claro, se esforçará para prolongar ao máximo a hora de passar o bastão. Nessa estratégia enquadra-se a manifestação convocada para o próximo domingo na Avenida Paulista e o esforço para o Congresso aprovar uma anistia que viria a lhe beneficiar mais à frente. São apostas de risco e de difícil êxito. Caso a próxima manifestação reproduza o fiasco do ato de Copacabana, será um tiro no pé.

Contudo, quanto mais o tempo passar mais será submetido a pressão para se subordinar ao adágio “rei morto, rei posto” e indicar um nome capaz de unificar. Essa pressão tende a vir de fora para dentro, como um movimento da sociedade.  Em política, o vácuo é sempre preenchido. No caso concreto, se não for por uma candidatura unitária, será por várias candidaturas da direita. A divisão desse campo pode prejudicar suas possibilidades em 2026, por meio de uma equação simples: quanto mais a direita se dividir, maiores as chances da esquerda na próxima eleição presidencial.

Em termos concretos, a estratégia de Bolsonaro de priorizar a reversão da sua inelegibilidade, como se ela fosse possível, posterga a incontornável necessidade da direita se aglutinar em torno de uma candidatura capaz de adotar um discurso voltado para um campo mais amplo do que o bolsonarismo.  Pablo Nobel, marqueteiro de Tarcísio em 2023 e conselheiro político do governador, resume em poucas palavras a equação sobre a qual a direita deve se debruçar: “Sem Bolsonaro não dá. Só com Bolsonaro não basta”.

A grande dificuldade é convencer o ex-presidente a passar o bastão a tempo. Não é um problema só do timing. É também do perfil de quem será o escolhido. Se seu objetivo for indicar um candidato apenas para “defender o seu legado” (como Haddad foi para Lula em 2018) em vez de unir a direita, vai contribuir para a cristalização de várias candidaturas de um mesmo espectro político.

Ao contrário de Lula, que é única liderança do campo da esquerda e sob ela tem o controle absoluto, a direita tem uma situação muito mais multifacetada, com lideranças e partidos com luz própria. Dificilmente esse campo acompanharia, em bloco, uma candidatura cujo ungido por Bolsonaro fosse alguém do seu núcleo familiar. Nessa hipótese a balcanização da direita por meio de várias candidaturas poderá se consolidar.

Para ter chances de vitória, a direita precisa ir além do discurso bolsonarista e dialogar com setores empresariais, agronegócio, evangélicos e até aquela classe média que deseja um candidato moderado, sem polarização extrema.

Os olhos se voltam para Tarcísio de Freitas, o nome que mais se adequa ao figurino traçado. Para se viabilizar, o governador paulista tem de se equilibrar em uma corda bamba extremamente tênue. De um lado, tem de se manter fiel a Bolsonaro para não ser carimbado pelo eleitor de extrema-direita como traidor e, de outro, não pode aparecer como um simulacro do bolsonarismo, pois isto espantaria os eleitores avessos ao radicalismo que ameaça o Estado Democrático de Direito. Isso explica movimentos aparentemente contraditórios do governador de São Paulo, como subir palanque do ato de Bolsonaro em Copacabana e ao mesmo tempo elogiar a Justiça Eleitoral.

O risco é desagradar a gregos e troianos. Aos bolsonaristas quando assume uma postura mais moderada.  Aos eleitores do centro quando sobe no palanque do ex-presidente e faz um discurso ao gosto do bolsonarismo de raiz.

Encontrar o ponto de equilíbrio exige uma operação delicada. Ter o bolsonarismo em seu palanque, mas não se caracterizar como um candidato ventríloquo de Bolsonaro. De certa maneira, a candidatura de Ricardo Nunes na disputa da prefeitura de São Paulo conseguiu essa proeza. A conferir se Tarcísio fará milagre semelhante. De certa forma, ele já deu demonstrações de ser capaz de trilhar o caminho do meio e de se pautar pelo pragmatismo.

Como os demais candidatos do mesmo espaço, Tarcísio é prisioneiro do timing de Bolsonaro e de sua estratégia. Espertamente, o ex-presidente busca ganhar tempo, prolongando, ao máximo, a indefinição do seu sucessor. Joga, assim com a esperança dos pretendentes a sucedê-los de vir a ser o escolhido, quando chegar a hora da verdade. Sem perceber, todos eles ficam acorrentados à cruzada do ex-presidente por uma anistia que o beneficie e lhe dê condições de disputar de novo a presidência da República.

A mão pesada do STF

Por Hubert Alquéres

O 8 de Janeiro não foi um simples ato de vandalismo. Tudo indica que fez parte de um plano orquestrado, no qual a invasão das sedes dos três Poderes buscava instaurar um clima de caos que justificasse uma intervenção das Forças Armadas. A necessidade de punir os envolvidos não está em debate — o que se exige é que isso ocorra com razoabilidade, proporcionalidade das penas, individualização das condutas e pleno respeito ao direito de defesa.

Esperava-se do Supremo Tribunal Federal uma postura de sobriedade, observando tais critérios na hora de aplicar a dosimetria das penas, de acordo com a responsabilidade de cada um. Não é o que temos assistido. Na ânsia de dar uma punição com caráter pedagógico e persuasório, a Suprema Corte tem aplicado indistintamente penas altas, até 17 anos de prisão, como se todos os réus tivessem a mesma participação, praticado os mesmos crimes e com a mesma responsabilidade.

Assim, abre espaço para ser criticada de fazer “julgamento coletivo”, sem dimensionar corretamente a participação de cada réu nos atos. Como as sentenças são definitivas pelo fato de se dar na última instância da Justiça, os réus não têm instâncias superiores a recorrer, o que poderia mitigar a pena. Até por ser a única e última palavra ao mesmo tempo, o STF deveria primar pela contenção em sua sentença.

A mão pesada do STF na aplicação por atacado de penas rigorosíssimas gera, inevitavelmente, injustiças, dando munição para a oposição bolsonarista construir a narrativa de perseguição política por parte da Suprema Corte. Diga-se de passagem, o sentimento de que as penas dadas até agora ultrapassaram a razoabilidade é compartilhado no parlamento por um espectro que vai bem além da fronteira do bolsonarismo.

Sintoma disto é o projeto de lei apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB), estabelecendo que somente quem teve participação relevante, como financiadores ou líderes, em crimes de golpe de Estado ou de abolição do Estado de Direito será enquadrado com maior rigor penal. Se aplicada nos envolvidos do 8 de janeiro, as penas mais pesadas iriam para o chamado “núcleo crucial” e mais alguns líderes e seus financiadores. 

Já o “baixo clero” do golpismo que serviu como massa de manobra, invadindo e depredando as sedes dos três Poderes, seria apenado de forma mais branda.

O debate extrapola o parlamento. O tema diz respeito à observância do Estado de Direito Democrático, portanto à sociedade como um todo. Para produzir bons resultados, não se pode ficar prisioneiro da polarização. Nem cair na armadilha de calar-se sob o pretexto de “não fazer o jogo dos golpistas”, com o consequente enfraquecimento do Supremo Tribunal Federal. Em uma democracia madura e estável, nenhuma instância de poder está imune a críticas. Se o STF tem o direito de errar por último, a imprensa tem o direito de apontar os seus erros e a sociedade de discordar, de algumas de suas sentenças.

A extrema-direita carecia de um símbolo, um caso emblemático de fácil entendimento, para dar embasamento à sua narrativa da perseguição política por parte da Justiça. O julgamento da cabelereira Débora Rodrigues dos Santos, autora da pichação da estátua da Justiça em frente ao prédio do STF com a frase “perdeu, Mané”, pode ser a    peça que faltava.

Débora, como outros réus já condenados, foi enquadrada nos crimes de Associação Armada, Tentativa de Golpe de Estado, Abolição Violenta do Estado de Direito, Deterioração do Patrimônio Público. Não há a individualização de sua participação em cada um desses crimes. Seu enquadramento, por exemplo, no crime de Associação Armada expõe o STF ao desgaste, pois não há a menor evidência de que tenha pegado em armas. A não ser que se considere o batom, com o qual pichou a estátua da Justiça, uma arma. Já há dois votos para condená-la a 14 anos, mas seu julgamento foi suspenso em decorrência do pedido de vistas do ministro Luiz Fux.

Como outros réus condenados a penas altas, Débora dos Santos pode ser prejudicada pela duplicação de pena, fenômeno no jargão jurídico chamado de bis in idem – “mais do mesmo”. Esse problema foi levantado em outro julgamento em voto parcialmente discordante do ministro Roberto Barroso. Durante este julgamento, Barroso expressou preocupação com a aplicação simultânea das acusações de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Argumentou que, embora sejam delitos distintos, há uma sobreposição significativa entre eles, o que poderia levar a uma penalização dupla pelo mesmo comportamento.

Débora, claro, não estava em um passeio dominical no 8 de janeiro. Sabia o que estava fazendo quando atentou contra o patrimônio público com sua pichação “Perdeu, Mané”. Merece, portanto, ser condenada por meio de julgamento justo e receber pena condizente com os critérios da razoabilidade e da proporcionalidade uma vez que seu crime não tem a mesma gravidade dos cometidos pelos que tramaram a coisa toda.

O julgamento da infâmia – para resgatar uma expressão cunhada pela ex-ministra do STF Rosa Weber- é histórico, talvez o mais importante dos últimos anos. Pela primeira vez, militares da mais alta patente estão sendo levados ao banco dos réus e podem pagar com uma pena do tamanho da gravidade de seus atos, pelos crimes cometidos.

Para uma justa dosimetria, faz-se necessário que o STF não pese a mão no julgamento da chamada massa de manobra do golpismo. Afinal, não se combate o autoritarismo com arbitrariedade — e não se defende o Estado de Direito desrespeitando seus próprios fundamentos.

Frei Gilson e a esquerda

Por Hubert Alquéres

O influenciador católico Frei Gilson tornou-se um fenômeno de massas e uma pedra no sapato da esquerda. Com mais de sete milhões de seguidores no YouTube, suas pregações conservadoras – contra o aborto, relações homoafetivas e o comunismo – atraem milhões de espectadores nas madrugadas. Como resposta, setores da esquerda o estigmatizaram como bolsonarista, reforçando uma armadilha na qual caem repetidamente: a da guerra cultural, que tem lhe custado espaço na opinião pública.

A esquerda tem dificuldade histórica em dialogar com o público religioso, subestimando o peso da fé na sociedade brasileira. Esse distanciamento se agrava ao tratar figuras como Frei Gilson apenas como inimigos ideológicos, sem compreender o porque de sua influência crescente. Sim, Bolsonaro compartilha desses mesmos valores, mas reduzir qualquer líder religioso conservador ao bolsonarismo é um erro. Se fosse assim, a maioria dos brasileiros seria bolsonarista, o que não corresponde à realidade.

Além de criar barreiras para o diálogo, essa postura fortalece a narrativa de perseguição aos cristãos, municiando o bolsonarismo com o discurso de cristofobia. No caso específico, a esquerda ajudou a transformar Frei Gilson em símbolo da polarização, dando a Bolsonaro o papel de seu defensor.

Diante disso, seria mais inteligente adotar uma abordagem pragmática e estratégica, como sugeriu André Janones: “Não basta ser rejeitado pelos evangélicos, vamos fazer uma cruzada contra os católicos também?” A deputada Tabata Amaral foi outra figura pública que preferiu adotar um tom conciliador. Discordando da visão do Frei sobre o papel da mulher, destacou, no entanto, o impacto social de seu trabalho, atitude que lhe rendeu compartilhamentos nas redes sociais até entre conservadores. Esse tipo de abordagem permite disputar espaços sem abrir mão de princípios.

O desafio não é apenas eleitoral, mas de narrativa, de presença e conexão social. Ao contrário do que ocorre hoje, nos tempos da Teologia da Libertação, a esquerda soube criar pontes com o universo religioso, sem abdicar de seus valores progressistas em temas como desigualdade e direitos. O Brasil mudou, e a direita se fortaleceu.

Mas a dificuldade da esquerda não se resume a um afastamento voluntário do campo religioso. Houve também uma transformação profunda no próprio universo da fé no Brasil, com o crescimento das correntes neopentecostais e do catolicismo carismático, muitas vezes abertamente hostis a pautas progressistas.

Isso não significa relativizar discursos conservadores como o de Frei Gilson, mas resgatar a capacidade de dialogar com setores que, historicamente, já foram parte de seu campo de influência e disputar o sentido da fé, mostrando que ela pode caminhar ao lado de valores como justiça social, igualdade de gênero e respeito às diversidades. Há uma diferença essencial entre compreender a força da religiosidade na sociedade brasileira e legitimar discursos que minam direitos civis. É possível respeitar a fé sem dar passe livre para a propagação de ideias que excluem parte da população.

Além disso, é preciso pensar como essa disputa pode ser feita na prática. No cenário atual, a religião não é apenas uma questão de fé, mas também uma ferramenta política poderosa, instrumentalizada para mobilizar eleitores e consolidar um projeto conservador de sociedade. Sem compreender essa dinâmica e sem apresentar uma alternativa convincente, a esquerda seguirá à margem desse debate, reforçando o vácuo que a direita soube ocupar.

A fé continua sendo um pilar da vida de milhões de brasileiros. Compreender suas dinâmicas não é concessão e nem significa compactuar com discursos excludentes. É condição para qualquer projeto político que aspire à transformação social e queira disputar esse espaço, evitando que ele seja monopolizado pela extrema-direita.