The Economist e o Brasil

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por Hubert Alquéres

Carmem Miranda de olhos tristes, com um cacho de frutas apodrecidas na cabeça e  a frase “por que o Brasil precisa mudar”.

É assim que a revista The Economist, a mais prestigiada publicação semanal de economia do planeta, declarou apoio à candidatura de Aécio Neves nestas eleições para presidente no país.

“Sob Dilma a economia estagnou e o progresso social desacelerou. Fora a Rússia, sob sanção, o Brasil tem de longe a pior performance do clube do Bric (que inclui também Índia e China) de grandes economias emergentes”, diz o texto, que cita também as manifestações de junho de 2013, quando “mais de um milhão de brasileiros tomaram as ruas para protestar contra serviços públicos ruins e corrupção política”.

“Aécio lutou de forma tenaz na campanha e já deu provas de que pode fazer funcionar suas políticas econômicas. A maior ameaça aos programas sociais no país é a forma como o PT hoje conduz a economia. Com sorte, o apoio de Marina Silva, que já foi do PT e nasceu na pobreza, deve ajudá-lo. O Brasil precisa de crescimento e de um governo melhor. Aécio é quem tem mais condições de fazê-lo”, encerra o texto.

Leia mais: http://www.economist.com/news/leaders/21625780-voters-should-ditch-dilma-rousseff-and-elect-cio-neves-why-brazil-needs-change

Capas da The Economist sobre o Brasil:

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Dona Hemeroteca

Por Hubert Alquéres

Um belo dia dos anos 80 um aluno do Colégio Bandeirantes foi até a biblioteca   e com todo respeito dirigiu-se a uma senhora de pouco mais de um metro e meio. “Bom dia”, disse o aluno, “Posso falar com Dona Hemeroteca?” Entende-se a confusão do aluno. Irene Akamine, coordenadora da biblioteca do Band, tinha traços japoneses e poucos, muitos poucos, sabiam então o significado do termo hemeroteca. Até mesmo alguns professores exclamavam: “quer dizer que aquelas caixas onde a gente organiza jornais e revistas é uma hemeroteca?”

O Band foi uma das primeiras instituições de ensino a ter uma hemeroteca, quando quase ninguém sabia que o termo significava a organização temática, sistematizada e constantemente atualizada de recortes de jornais e revistas. O projeto inovador concebido e implantado por Irene dotou o Colégio de um importante suporte para as atividades pedagógicas, fonte de consultas constantes de alunos, professores e funcionários.

A novidade criou fama, atravessou os muros do Colégio, como contou a própria Irene, em uma de suas últimas entrevistas: “por causa da hemeroteca, a Folha de S.Paulo ficou muito interessada. Achou um trabalho maravilhoso e me convidou para dar uma palestra no auditório da Folha e relatar nossa experiência para professores e bibliotecários”. O Departamento de Investigações sobre o Narcotráfico de São Paulo bebeu na mesma fonte. Foi aprender com Irene Akamine como organizar uma hemeroteca.

Impossível falar da biblioteca do Band, do seu acervo, sem se referir a essa descendente de japoneses, nascida em Juquiá, no Vale da Ribeira, em 1944. Irene Akamine veio de uma família pobre. Seus pais, lavradores, criaram quatorze filhos, com muita dureza e sacrifício. A própria Irene, quando criança ia descalça para a escola, por absoluta necessidade. Mas a força de vontade falou mais alto. Jamais deixou de estudar e após trabalhar sete anos na Villares, ingressou no Bandeirantes em abril 1970, para trabalhar na Secretaria.

Trabalhava e estudava. Quando ainda cursava história na USP, Irene foi convidada pelo engenheiro Aguiar, por Jorge Barifaldi e por José Fregonezi para reorganizar a biblioteca do Colégio. Ela tinha sido desativada quando parte das instalações do Band foi demolida em função da construção da Avenida 23 de Maio.

Foi a escolha certa. Disciplinada e metódica era, há muito tempo, “rato de biblioteca”. Quando estudava na Escola Técnica Álvares Penteado, na Liberdade, encontrava sempre um tempinho para frequentar a biblioteca da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Na USP também vivia na biblioteca. Quando se formou em história, a conselho do engenheiro Aguiar, ingressou na Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo para se formar em biblioteconomia.

Irene sentia-se uma pessoa realizada por ter disseminado entre alunos e funcionários o gosto pela leitura. Era a guardiã de um tesouro preciosíssimo, o acervo da biblioteca do Band, onde existem livros que são uma raridade, de valor inestimável. Seus olhos cintilavam de alegria quando ia até uma prateleira com obras só do Século XIX e mostrava livros de Engenharia Naval que nem na USP existem.

Irene Akamine travou uma luta incansável com a doença que finalmente a levou na madrugada deste quatorze de outubro. Tinha sessão de quimioterapia na sexta e na segunda-feira já estava lá na Biblioteca, na sua segunda casa, no meio do que ela chamava de “minha gente, minha segunda família”.

Carinhosamente era chamada de “Tia Brava” por alguns alunos. Mas todos amavam essa tia. Numa de suas internações no Samaritano o banco de sangue do hospital comunicou que seria necessário ela arrumar doadores para recompor o estoque. Irene ficou preocupada, sua família era toda idosa. Poucos dias depois, uma enfermeira lhe informou ”Olha, não precisa mais. Vieram uns alunos e ex-alunos do Band e doaram sangue para você”. Ainda temos na memória, as palavras de gratidão de Irene, em uma de suas últimas conversas:

“Olha, aquele dia eu até chorei de emoção. Eu falei: gente, eu não acredito. Aí eu falei assim: a senhora pode me dar os nomes? Não, é anônimo. Eles pediram só para avisar; eles queriam que a senhora soubesse.”

Essa foi a Dona Hemeroteca, a tia de todos nós. A guardiã da história do Bandeirantes, documentada nas prateleiras de sua biblioteca.

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Hubert Alquéres foi professor de Matemática e Física do Bandeirantes, coordenou o departamento de Atividades Culturais e hoje é um dos diretores da escola.