Mais cooperação e diplomacia, menos beligerância

A virada só se dará se o governo Bolsonaro mudar de mentalidadePRECIOSIDADE - Diz o colunista J.R. Guzzo: “Poucos países conseguem tirar tanto da terra e interferir tão pouco na natureza ao redor dela quanto o Brasil”

O resultado da reunião do G7 – grupo dos sete países mais desenvolvidos – abriu espaço para o Brasil virar o jogo a seu favor. Em vez de represálias, o grupo ofereceu ajuda ao Brasil e aos países da região, com vistas a colaborar na preservação da maior floresta tropical do mundo. A virada, no entanto, só se dará se o governo Bolsonaro mudar de mentalidade e de atitude na questão ambiental, em especial em relação à Amazônia.

Para começar, entendendo como natural e salutar, a preocupação da opinião pública mundial e de diversos países com o destino da floresta amazônica. Isso não tem nada de ingerência externa ou ameaça à soberania nacional. A Amazônia é nossa e dos países da região, mas é também um patrimônio a ser preservado, em um mundo onde a sustentabilidade é um valor universal, assim como os direitos humanos e a democracia.

A crise chegou ao nivel que chegou não apenas pelo aumento recente do desmatamento e dos incêndios. Seu combustível também foi o conjunto de erros da política do governo, ditada por um nacionalismo que já era anacrônico nas últimas décadas do século passado e que em um mundo globalizado é um desserviço ao país por impedir sua integração competitiva e sustentável na economia mundial.

No caso da Amazônia, esse nacionalismo primitivo tem como eixo o desenvolvimento da região por meio de um “capitalismo selvagem”. Assim, a extração ilegal da madeira, o garimpo e a queimada para formar pastos seriam ponto de partida para o progresso. Da mesma forma como o foram a pirataria, a escravidão, o extermínio de índios, o colonialismo, para a chamada acumulação primitiva do capital nos séculos XVI e XVII.

Pensar a “acumulação amazônica” do século XXI com base na destruição do principal ativo econômico da região – sua biodiversidade – é mais do que uma insensatez. É um crime de lesa-pátria e contra a humanidade. Nos dias de hoje a expansão da fronteira econômica do país não pode se dar aos moldes dos tempos dos bandeirantes.

Nesse nacionalismo primitivo, a divulgação de dados científicos sobre o avanço do desmatamentos e de incêndios são considerados como segredo de Estado. Querê-los clandestinos é risível porque os satélites possibilitam à comunidade internacional o acesso imediato aos dados sobre a Amazônia, como evidenciou a crise atual.

Não é só anacrônico, é também paranoico. O fantasma do “inimigo externo” ronda a cabeça do presidente. Faz da Amazônia um divisor de água entre “bons e maus brasileiros”. Maus brasileiros seriam todos que alertam sobre o avanço da destruição da floresta. É como se fossem agentes de potências estrangeiras. Mutatis mutantis, é o mesmo discurso da esquerda nacionalista, com sinal trocado.

Bom, Dom Helder Câmara também foi acusado de mau brasileiro por divulgar no exterior torturas e assassinatos, no período ditatorial. E Joaquim Nabuco também foi qualificado como tal pelos “emperrados” – ala mais reacionária dos conservadores durante o Império – por ter solicitado do Papa Leão XIII uma carta de condenação à escravidão.

Bolsonaro não está sozinho. Os militares pensam como ele. Na Ordem do Dia de 25 de agosto (Dia do Soldado) o comandante do exército, general Edson Pujol, reproduziu o discurso da ameaça externa à Amazônia, afirmando que “os soldados de Caxias estão prontos para repelir qualquer ameaça”.

Com todo respeito às Forças Armadas, nossa soberania não depende das armas. A última vez que elas foram a saída se deu na Guerra do Paraguai. Desde os tempos de Juca Paranhos a diplomacia pragmática e responsável foi o grande fator a garantir nossa integridade territorial e até mesmo sua expansão. Graças ao Barão de Rio Branco, o Acre é hoje um estado brasileiro e o Amapá ampliou extraordinariamente seu território com terras reivindicadas pela França.

Nossas armas, mais do que nunca, são a cooperação internacional, a transparência e um modelo de desenvolvimento pautado na exploração racional e sustentada da biodiversidade, assim como no turismo ecológico. Interesses escusos existem aqui e lá fora. Mas isso não é o traço principal da preocupação do mundo com a Amazônia.

Esse ativo pode estar a nosso favor. É possível superar a presente crise com uma nova mentalidade, novas atitudes e com gestores competentes à frente da política diplomática e da política ambiental.

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Mais cooperação e diplomacia, menos beligerância

A Terceira Lei de Newton

Nacional-populismo avança

Até agora o nacional-populismo avançou livre, leve e solto no continente europeu, sem que houvesse uma reação na mesma direção, com a mesma intensidade e sentido contrário. Sim, a Terceira Lei de Newton vale também para a política e começa a aparecer na Europa, com o movimento de união de partidos de esquerda e de centro para evitar o avanço dos radicais da extrema direita

A mudança da estratégia destes partidos em vários países visa a construção de governos de união nacional, como aconteceu na Europa logo após a Segunda Guerra Mundial.

O maior exemplo vem da Itália, país de larga cultura unitária. Na década de 70 o “compromisso histórico” entre a democracia cristã e socialistas foi a resposta aos atentados da extrema-direita e da extrema-esquerda que estavam levando o país para o precipício.

De novo a Itália mergulha numa profunda crise, com a renúncia do primeiro ministro Giuseppe Conte, líder do governo de coalisão entre a extrema direita e o Movimento Cinco Estrelas. Sua renúncia se deu em decorrência da manobra do vice-ministro Matteo Salvini, principal liderança da extrema-direita europeia, para forçar uma nova eleição e obter poderes supremos.

Este plano pode naufragar se vingar a proposta de um governo de união nacional de autoria do ex-primeiro ministro Matteo Renzi do Partido Democrático de centro-esquerda. Ferrenhos adversários desde 2016, quando o Movimento Cinco Estrelas centrou sua campanha na crítica à “velha política” representada pelos partidos tradicionais, o PD e o M5S entraram em entendimentos que podem redundar num “governo institucional”. A eles se somou também o Força Itália, de Sílvio Berlusconi da centro-direita. A renúncia de Conte abre espaço para essa possibilidade, Não sem razão, seu discurso de renúncia foi calorosamente aplaudido por parlamentares da esquerda democrática.

Fenômeno semelhante acontece na Inglaterra, onde o Brexit duro pode levar o país ao caos a partir de outubro, se não houver acordo com a União Europeia. Esse risco levou o radical Jeremy Corbyn a escantear sua proposta de convocação de eleições gerais para adotar uma postura unitária. Corbyn entrou em entendimentos com outros partidos para viabilizar um governo de união nacional.

Na Alemanha a extrema direita pela primeira vez pode chegar ao poder em nível estadual, por meio das eleições que serão realizadas na Saxônia e em Brandemburgo. Os partidos eurocentristas já estão se articulando para evitar a que o fenômeno também ocorra no governo central alemão.

Na Espanha corre-se o risco de convocação de novas eleições da qual a extrema direita poderia ser a principal beneficiária. Diante disto, o Podemos, partido radical de esquerda, passou a admitir participar de um governo de coalizão com o centro-esquerda do primeiro ministro Pedro Sánchez.

O Brasil tem tudo a ver com isso. Somos um país de cultura unitária, com experiências exitosas, como a frente contra o nazifascismo, a campanha do Petróleo é Nosso e a Frente Democrática do período ditatorial. Essa tradição foi golpeada pelo Partido dos Trabalhadores que priorizou seus interesses imediatos em detrimento dos interesses do conjunto da nação. Como Stalin, o PT elegeu a socialdemocracia como seu principal inimigo, pavimentando a ascensão de Jair Bolsonaro.

Como na Europa, a assunção da extrema direita por meio da eleição de Jair Bolsonaro pode nos levar a uma crise de graves proporções. A anemia da economia não dá sinais de cessar. Isso em meio à conjuntura adversa da economia internacional, que o ministro Paulo Guedes subestima, como se ela fosse a marolinha de Lula.

A política externa de Bolsonaro é movida pela lógica do confronto com parceiros estratégicos, o que contraria os interesses nacionais e terá impacto nas exportações brasileiras. Mais ainda: avança em instituições do Estado, como Polícia Federal, Coaf, Receita Federal e Procuradoria da República. Trata o aparato estatal como se ele fosse a extensão dos interesses do seu clã, vide o esforço para nomear Eduardo Bolsonaro embaixador dos Estados Unidos ou para barrar investigações sobre o senador Flávio Bolsonaro.

Mais cedo ou mais tarde a Terceira Lei de Newton se fará impor no Brasil. A inércia do campo democrático tende a ser rompida por meio de uma frente em defesa das instituições e da estabilidade do país. Para isso é preciso de lideranças com a sofisticação política de Matteo Renzi e de sua consigna “agora é preciso salvar a Itália, depois nos dividimos”.

A hora é de dar um rumo para o Brasil, depois cada um segue seu caminho.

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A Terceira Lei de Newton

A anistia faz 40 anos

Presidente acirra os ânimos

Faria bem ao país se Jair Bolsonaro deixasse de mirar no retrovisor e zelasse pela pacificação conquistada graças à engenharia política que nos permitiu virar a página dos anos de chumbo e ingressar no maior período democrático de nossa história.

O acerto com o passado já foi feito por meio da Lei da Anistia, o pacto estabelecido há 40 anos, mas é o próprio presidente que toma a iniciativa de reabrir feridas que julgávamos cicatrizadas.

Elogiar um torturador, alçado por Bolsonaro à condição de herói da Pátria, ou ofender a memória de desaparecidos, como Fernando Santa Cruz, em nada contribui para a superação do clima de radicalização que se espraiou pelo país, a partir de 2014.

A história já fez seu julgamento sobre a longa noite de 21 anos do regime militar. Revisitar os porões daquele triste período é um desserviço ao país e às Forças Armadas, pois coloca-as de novo no centro do embate político. Se essa disputa se der em relação ao seu papel durante o período ditatorial, não há como sua imagem não ser afetada, daí não ser de seu interesse mexer nesse vespeiro.

Quando põe o dedo nesta ferida, o presidente acirra os ânimos e volta-se para uma agenda que só interessa aos bolsões radicais.

O singular da transição do regime ditatorial para a democracia em nosso país é que ela se deu de forma pactuada, da qual a anistia foi peça chave. De um lado, possibilitou a reintegração na vida política nacional dos opositores do regime, inclusive dos que o combateram de armas nas mãos, e, de outro, deu a garantia aos militares que eles não seriam punidos. Nem mesmo quem praticou a tortura.

Pagamos um preço alto, sobretudo os familiares dos mortos e desaparecidos. Mas o resultado foi positivo para o país. Os militares recuaram organizadamente para os quarteis e o Brasil ingressou no maior período de sua história republicana sem intervenção militar ou quartelada. As Forças Armadas, por sua vez, reconquistaram o respeito dos brasileiros, ao se dedicarem exclusivamente às suas obrigações constitucionais e profissionais.

Não foi fácil vencer resistências e desconfianças mútuas. Pela direita havia oposição da linha dura do regime militar, sobretudo dos que operavam nos porões da repressão. E pela esquerda, principalmente de remanescentes da esquerda armada, que sempre sonharam com um acerto de contas com os militares; apesar de, naquele período, terem sido derrotados política e militarmente.

À sua maneira, cada um dos dois polos, tentou fazer a sua releitura da história, quando viram-se legitimados pelo voto. Durante os governos petistas houve incursões para rever a Lei da Anistia, com vistas a levar militares ao pelourinho. Foi preciso o Supremo Tribunal Federal se pronunciar contra sua revisão. Até hoje setores da esquerda não entenderam que a ditadura não foi derrubada, como pregavam, mas superada por um pacto político do qual a anistia recíproca foi pilar fundamental.

Agora assistimos ao revisionismo histórico daquele período, com o sinal trocado. Ao voltar a ser poder pela via eleitoral, setores da ultradireita capitaneados pelo presidente usurpam a história e trazem de volta fantasmas do passado.

Essa página tem de ser virada de uma vez por todas. Bolsonaro precisa voltar seus olhos para o futuro.

Só assim serão perenes os benefícios de uma Lei que há 40 anos contribuiu para o Brasil sair das trevas e respirar o ar puro da democracia.

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A anistia faz 40 anos

Faça amor, não faça a guerra

A geração Woodstock

Woodstock completa 50 anos nos próximos dias representando muito mais que sexo, drogas e rock’n’roll.

O lendário festival de música foi, sobretudo, um grito de ideais grandiosos que abriram caminho para enormes avanços em diversos campos dos direitos humanos.

Realizado em uma fazenda nas imediações da cidade de Bethel do Estado de New York nos EUA, Woodstock significou o protesto pacífico e visionário da geração baby boomer contra os horrores da guerra do Vietnã e contra um mundo imerso na guerra fria, que poderia desaguar no holocausto nuclear.

Foi também o inconformismo de toda uma geração com o “american way of life” que no pós Segunda Guerra tinha se tornado em modelo para o mundo ocidental e cristão. Woodstok representou ainda um grito libertário contra a repressão sexual e o código puritano da sociedade americana. Por tudo isso, foi o marco da contracultura que varreu os Estados Unidos na era de Aquários.

Impossível dissociá-lo dos movimentos pacifistas, da luta pelos direitos civis, dos movimentos feministas e da luta contra a discriminação racial; expressa no protesto dos atletas negros John Carlos e Tommie Smith na olimpíada do México, em 1968. Ou de símbolos como John Lennon, Ângela Davis, Bob Dylan, Joan Baez e de Muhammad Ali, com seu jogo de pernas no ringue.

A geração Woodstock se recusava a ser usada numa guerra que não era sua. Rejeitava a violência como forma de se alcançar a felicidade, até porque viu dois dos seus ídolos – Robert Kenedy e Martin Luther King – serem assassinados por intolerância política. Se negava ao ódio e trazia uma mensagem de generosidade e sabedoria ao pregar “faça amor, não faça a guerra”.

Aqueles jovens com seus cabelos longos e roupas coloridas não foram compreendidos pela direita horrorizada com sua pregação do amor livre, mas também por uma esquerda que se recusava a entender a mensagem que estava por trás da guitarra de Jimmy Hendrix ao tocar o hino norte-americano com acordes que pareciam de bombas caindo sobre crianças vietnamitas.

A direita os via como promíscuos e fazia uma associação mecânica entre o rock, sexo e drogas, como se estes três elementos fossem coisas satânicas. E a esquerda os estigmatizava, taxando-os de alienados por não comungarem de sua pregação de uma utopia do sacrifício, que postergava o direito à felicidade até a conquista do paraíso por meio de uma revolução violenta. Se a direita era moralista e retrógrada, a esquerda era castradora da realização pessoal.

A revolução que propugnavam era outra. Era a revolução das flores, dos costumes, de quebrar tabus ao fazer da transgressão juvenil uma poderosa arma contra o estado das coisas. Sua prática transgressora e seu discurso difuso tinham pontos em comum com a crítica do filósofo alemão Herbert Marcuse (naturalizado norte-americano) ao cerceamento às liberdades individuais.

Marcuse foi um visionário. Previu, antes de todos, que a sociedade industrial chegaria a um ponto em que burgueses e proletários, classes responsáveis pelo movimento da história desde o advento do capitalismo, se tornariam defensoras do status quo. O Brexit e o governo Trump estão aí a provar que Marcuse estava certo.

Meio século depois de Woodstock, é possível visualizar seu legado. O idealismo, tão presente em uma juventude que se espelhou no princípio da não violência pregado por Gandhi, atualmente é visível nos militantes do GreenPeace ou em ativistas que se dedicam a salvar imigrantes no Mar Mediterrâneo.

Se hoje muitos se orientam por valores universais (como direitos humanos, causas identitárias, liberdade de expressão, preservação do ambiente) e reivindicam as garantias das leis do moderno Estado democrático (ainda que seja para transgredi-lo), isto deve-se muito àqueles jovens cuja alegria e mensagem de paz se espalharam pelo mundo.

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja em 07 de agosto de 2019:  https://veja.abril.com.br/blog/noblat/faca-amor-nao-faca-a-guerra/ Ele também está no Blog 50 Anos de Textos: http://50anosdetextos.com.br/2019/faca-amor-nao-faca-a-guerra/#more-21837 .