O mar não está para peixe

Lula (Foto: Divulgação)

por Hubert Alquéres

A expressão do título, dita pelo senador José Serra, sintetiza com perfeição a ojeriza dos brasileiros em relação aos partidos e políticos tradicionais. Aquilo que deputados e senadores vêm constatando em seus contatos com suas bases foi confirmado pela pesquisa do Ibope, onde a rejeição às principais lideranças, a começar pelo ex-presidente Lula, mas não exclusivamente a ele, bateu na estratosfera.

Nessa terra arrasada, político algum escapa. Todos estão no limbo. Não se vê saída para hoje nem amanhã, quanto mais para 2018.

É como se o país tivesse um encontro marcado com um tsunami. Guardadas as devidas proporções, se arma um vendaval tal qual o que varreu recentemente a Grécia e a Espanha. Mas com uma diferença importantíssima: nesses dois países o repúdio à forma ossificada de se fazer política encontrou seu desaguadouro, o “Cyriza” grego e o “Podemos“ espanhol.

Já aqui o caos não tem cais. Tudo pode acontecer.

Pode surgir um novo salvador da pátria, numa repetição farsesca de outros episódios de nossa história, como a eleição de Fernando Collor.

No limite, esse salvacionismo pode assumir uma forma orgânica, um partido “novo”, formado à margem da institucionalidade que se proclame apolítico, com o objetivo de ser a expressão de segmentos despolitizados, de valores moralistas e antirrepublicanos.

A crise ética, política e econômica de hoje é terreno fértil para projetos dessa natureza. Podemos, sem nenhum trocadilho, ter em nosso país uma espécie de Cyriza de direita, algo impensável, até agora, por nossos acadêmicos e políticos.

Parodiando o senador Romero Jucá: o mundo formal da política está em um enorme Titanic que afunda cada vez mais, sem seus passageiros perceberem. A pesquisa Ibope é apenas mais uma evidência de um esgarçamento visível a olho nu.

Melhor, a ponta de um iceberg com o qual vai se chocar o grande transatlântico se os partidos tradicionais, governistas ou de oposição, continuarem de costas para os brasileiros, passando ao largo do cotidiano do nosso povo.

A crise de representação afeta a todos e vem de longe.

Tradicionalmente, os partidos no Brasil são pouco mais do que legendas eleitorais, muitas vezes submetidas a projetos pessoais ou caudilhescos. O PT anunciava-se diferente no seu nascedouro, na sua adolescência, mas se transmutou nisso que está aí desde sua chegada ao poder.

Exatamente por ter roubado os sonhos dos brasileiros, o Partido dos Trabalhadores é o mais hostilizado. É quem mais provoca repulsa por ser o símbolo de uma putrefação cujo odor exala do Palácio do Planalto, assim como do Congresso Nacional.

A oposição também é afetada. Não apenas pelo efeito da radiação.  Na percepção da população todos os partidos e políticos são iguais, farinhas do mesmo saco, daí a desconfiança geral.

Mas os partidos oposicionistas findam por reforçar essa imagem, tanto por ter uma prática meramente parlamentar, como por estabelecer alianças que não se diferenciam do modus operandi governamental.  Afinal, como justificar a relação incestuosa com Eduardo Cunha?

Nas jornadas de 2013 ficou evidenciado o quão profundo era o fosso entre o mundo formal da política e as aspirações dos brasileiros. A disputa presidencial foi uma oportunidade perdida para repactuar a relação entre a institucionalidade e os cidadãos. Neste um ano de crise, de descalabros na economia, de escândalos e escárnios patrocinados pelo lulopetismo, o fosso se alargou, virou um imenso oceano.

É nele que todos podem se afogar em 2018, se não entenderem o recado das diversas pesquisas de opinião. Há tempos elas informam que o mar não está para peixe.

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Este artigo foi publicado originariamente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:
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Olha que cai a jaca

Jaca (Foto: Arquivo Google)Jaca (Foto: Arquivo Google)

por Hubert Alquéres

Dia sim e outro também, o ex-presidente Lula, o presidente do PT Rui Falcão, parlamentares e economistas petistas correm para debaixo da jaqueira e balançam a árvore até não poder mais para ver se a fruta cai. A jaca, no caso o Ministro da Fazenda Joaquim Levy, corre sérios riscos de se espatifar no chão, embora a presidente Dilma Rousseff tenha assegurado com todos os erres e esses que ele está firme no pé.

Até quando, só Deus sabe, mas por enquanto vai se segurando, pois para Dilma, ruim com Levy, pior sem ele. Não que a presidente morra de amores pelo ajuste fiscal ou pela ortodoxia de Levy. Sua cabeça continua sendo a da “nova matriz econômica”, do expansionismo fiscal. Nisso, ela não se difere de Lula e da cúpula do PT.

Mas é obrigada a se render e manter Levy no cargo, ao menos por enquanto. Neste momento a troca de comando da área econômica seria um desastre. Arrastaria, mais ainda, o governo para o precipício, aprofundaria a instabilidade econômica e política, sinalizaria para o mercado que a austeridade fiscal é de mentirinha.

Foi o instinto de sobrevivência, e não a convicção, que levou Dilma a prestigiar seu ministro da Fazenda.

Há aqui um conflito de interesses. A preocupação de Dilma é com ela própria, é conseguir terminar o seu mandato. E Lula tem os olhos fixos em 2018. Em um quadro de desemprego, inflação alta, e cortes para todos os lados, inclusive nos programas sociais, sua pretensão de voltar ao Planalto irá por água abaixo. Para mantê-la, urge derrubar Levy, substituí-lo por alguém que se disponha a dar um cavalo de pau na economia.

Tanto quanto a presidente ele tem consciência de que não há na prateleira governista outra política econômica minimamente responsável. Mas quem disse que ele está preocupado com isso.

Se necessário for, reeditará Orestes Quércia, o ex-governador que enterrou o Banespa e as estatais paulistas, e dirá: “quebro o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, mas me elejo”.

Neste cabo de guerra entre a criatura e o criador, a presidente sempre cedeu às pressões do seu tutor. O “imexível” Mercadante dançou. Quem garante que o mesmo não acontecerá com Joaquim Levy?
Entre o mar e o rochedo, está o país, que nem a atual presidente nem o ex parecem se preocupar.

É o Brasil que sai perdendo ao ter um Ministro da Fazenda com autoridade dilacerada, questionado e bombardeado por todos os lados, principalmente pelo partido da presidente.

A essas alturas, Levy é pouco mais do que um pato manco, de credibilidade baixíssima por não ter entregado o que prometeu. É atacado pelos petistas mais por suas qualidades do que por seus defeitos, que, diga-se de passagem, são vários.

Por volta do primeiro semestre, quando ainda pintava como o novo Delfim da economia, Levy vendeu terreno na lua ao anunciar o retorno do crescimento econômico já no terceiro trimestre de 2015. Seu pacote teve efeito quase nulo, impotente que foi para fazer frente a uma queda do PIB de 3% já apontada na pesquisa Focus, a uma inflação de 9,75%, no acumulado dos últimos doze meses, e a um déficit nominal que se aproxima da casa de dois dígitos.

E começou a balangar na jaqueira no momento em que cedeu, aquiesceu e passou a tecer loas ao patético orçamento deficitário, a maior trapalhada de uma equipe econômica, após o confisco das cadernetas de poupança da era Collor. A erosão de sua imagem, inclusive no meio empresarial, se acentuou com os ziguezagues do cria não cria a CPMF.

Não é culpa dele, como Lula e companhia querem fazer crer. Mas sob sua égide, o Brasil foi rebaixado pelas agências de risco, está na iminência de perder o investiment grade. E o superávit primário de 2015, inicialmente previsto para ser de 1% do PIB, foi rebaixado para 0,15% e nem isso vai ser cumprido.

Assim fica difícil manter-se no pé. Do jeito que vai, não será preciso nem balançar a árvore. A jaca pode cair de madura. Ou podre.

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Este artigo foi publicado originariamente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

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A peleja entre o moderno e o arcaico

Novo e velho (Foto: Arquivo Google)

por Hubert Alquéres

Não é de hoje o conflito entre o arcaico e o moderno, no Brasil. Essa peleja vem de longe, atravessou séculos, marcou todos os campos da sociedade brasileira.  O país só avançou quando o novo conseguiu vencer o antigo, deslocando seus interesses incrustrados nos aparelhos do Estado. Por aí a oligarquia cafeeira foi deslocada e a República Velha soterrada.  Por esse caminho o Brasil deu passos largos na direção de um país industrial e moderno, nos governos Getúlio Vargas e Juscelino Kubistchek.

A história tem suas ironias. O golpe de 1964, um movimento de reação às reformas de base com o qual também se identificaram forças retrógadas do ponto de vista econômico e social, findou por promover uma “modernização conservadora”, dotando o Estado de um mínimo de racionalidade e capacidade de planejamento. Mas sem mudar a sua essência, de ser, ao mesmo tempo, o depositário de interesses patrimonialistas e corporativistas.

A Constituição Cidadã, foi, sem dúvidas, outro grande marco no rumo da contemporaneidade. Consagrou direitos sociais, fixou um ordenamento democrático e criou as condições para o pleno exercício de instituições permanentes republicanas como o Ministério Público, a Polícia Federal, entre outras. Aquilo que foi plantado lá atrás, em 1988, hoje dá provas de sua eficácia e é embrião de um Estado Moderno que tende a se afirmar, em contraposição ao Estado patrimonialista.

A peleja entre o arcaico e o moderno não parou por aí.

Nos meados dos anos 90 deslocou-se para a economia. Naquele momento, era preciso deixar para trás o vetusto da espiral inflacionária, modernizar e sanear o sistema financeiro, controlar o gasto público, implodir os cartórios, criar regras estáveis com vistas ao fortalecimento de uma economia aberta e de mercado.

Esse foi um dos grandes méritos do governo Fernando Henrique Cardoso, muito embora, para promover o aggiornamento da economia, tenha sido obrigado a fazer aliança com o atraso, como ele mesmo afirmou sucessivas vezes. Mas o fez blindando determinadas áreas estratégicas, protegendo-as da prática predatórias, da voracidade dos aliados. Fez mais: deu enorme passo no rumo da modernidade, com a criação das agências reguladoras.

A grande tarefa de seus sucessores seria dar prosseguimento a essa modernização. Isso não aconteceu.

Nos governos Lula-Dilma houve o revigoramento do arcaísmo.

Mecanismos permanentes de Estado, como as agências, perderam relevância, enquanto o governo de plantão se hipertrofiou. Centros de excelências como o Itamaraty viraram peças ornamentais, para não falar da instrumentalização de outros, como o que aconteceu no BNDES ou em empresas públicas como a Petrobrás.  E a responsabilidade fiscal foi mandada às favas.

A crise que vivemos é a crise de um acasalamento entre um projeto de poder com o velho patrimonialismo político e com o capitalismo parasitário acostumado a mamar nas tetas do Estado, altamente refratário ao risco e à livre concorrência.

Registre-se: tão acostumados com a impunidade, os predadores do erário público agiram como se tivessem na era analógica, deixando impressões digitais por todos os lados. E as instituições de investigação estavam numa etapa bem superior, no topo da era digital, capacitada e qualificada para cumprirem, com galhardia, seu papel em um Estado de Direito. Vive-se, portanto, mais uma quadra importante no embate entre o arcaico e o moderno.

O primeiro, ainda hegemônico, tem hoje dois grandes bunkers: o Executivo e o Legislativo. Esses não se renovaram, estão na contramão dos sentimentos da sociedade, que não aceita mais o modelo do toma-lá-dá-cá e a institucionalização do balcão de negócios.

A rejeição é muito mais profunda. Há uma crise de representatividade cuja intensidade os partidos políticos ainda não dimensionaram.

Pensar que o governo representa o arcaico e a oposição o moderno, é doce ilusão. Ou então puro maniqueísmo.  Afinal, nada mais arcaico do que o discurso da incoerência, do que alianças casuísticas contraditórias aos valores éticos.

O velho ainda não morreu e o novo ainda não surgiu. Mas, felizmente, a forma ossificada de se fazer política, ou de se fazer negócios por parte de segmentos empresariais, esbarra na ação de instituições republicanas que apontam para um horizonte mais alentador.

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Este artigo foi publicado originariamente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

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Portal do Inferno

Portal do Inferno (Foto: Arquivo Google)

por Hubert Alquéres

Quem circula pelo mundo da educação sabe da tremenda ressaca que se disseminou entre educadores brasileiros com a recentíssima troca de comando no Ministério da área. Foi a terceira em dez meses.

Com a demissão vexaminosa, correu pelo ralo a última réstia de esperança de surgir algo minimamente substantivo sob a batuta de Renato Janine Ribeiro.

Esqueçam. No governo da presidente Dilma Rousseff nada acontecerá no setor educacional, a não ser andar para trás. Ou para os lados, como caranguejo.

O agora ex-ministro foi recebido, quando de sua nomeação, com extrema boa vontade por educadores de diversos matizes, muito embora sua experiência como gestor público fosse escassa.

O acadêmico não disse a que veio, é verdade.

Impotente para fazer frente ao gigantesco corte do orçamento da Educação (o setor foi um dos mais afetados pelo ajuste fiscal de Joaquim Levy) o então titular da pasta assistiu, passivamente, o apagão das universidades federais, a drástica redução das vagas do Pronatec, o fim do Ciência sem Fronteiras, o aumento dos juros do Fies ou o brutal corte de verbas para a compra de livros paradidáticos e de ficção para os alunos do ensino básico das escolas públicas brasileiras.

Sem força política e carente de poder de aglutinação, Renato Janine travou sua batalha de Itararé com o também ex-ministro Mangabeira Unger, da finada Secretária para Assuntos Estratégicos – a Sealopra. Estabeleceu-se, assim, uma política educacional bicéfala, com Janine sendo responsável pelo Plano Nacional da Educação – uma miragem semelhante à Ferrovia Transoceânica e ao Trem-Bala – e Mangabeira por um “plano de concepção” com base em outra peça de ficção, o factoide Pátria Educadora.

Quem estabeleceu essa dualidade? A própria Dilma.

Na sua gestão, o acadêmico pagou outro mico. Anunciados os resultados catastróficos da Avaliação Nacional de Alfabetização de 2014, o Ministério da Educação simplesmente suspendeu o ANA de 2015, numa imitação daquela piada do marido traído e do sofá da sala.

Mas Renato Janine Ribeiro não caiu por qualquer um desses fatos.

O professor de ética e filosofia foi defenestrado precocemente porque a presidente precisava dar um prêmio de consolação a Aloizio Mercadante. E protegê-lo com o foro privilegiado.

O episódio é por si mesmo revelador da improvisação e da pouquíssima importância da educação no governo Dilma.

A descontinuidade e a alta rotatividade no MEC são a marca registrada desses tempos do lulopetismo. Dilma começou com Fernando Haddad que saiu para ser candidato a prefeito de SP. Foi substituído por Aloisio Mercadante que deixou o cargo em menos de dois anos. Veio então, por quase um ano, José Henrique Paim, um tecnocrata com carreira pública construída nas entranhas de governos petistas, que ficou no Ministério da Educação distribuindo vagas -sem transparência, controle ou critério- em cursos técnicos de escolas muitas vezes desconhecidas, e esquentando a cadeira enquanto Mercadante fazia a campanha eleitoral de Dilma Rousseff.

Quem o substituiu em 1º de janeiro de 2015? Cid Gomes, aquele meteorito cuja passagem pelo MEC foi mais célere do que um raio.

Entende-se, portanto, o desalento dos educadores com a dança das cadeiras promovidas pelo governo do PT.

Em uma conjuntura de recursos escassos, de dicotomia entre a demanda da sociedade por uma educação de qualidade e a incompetência governamental para atendê-la, mais do que nunca se exige do Ministro da Educação capacidade de formulação além de habilidade para empolgar corações e mentes; pré-requisitos para comandar um grande pacto nacional, cuja agenda está dada desde o final do século passado e que começa com investimento em políticas públicas para a formação e capacitação permanente de professores.

Aloizio Mercadante é esse homem? Tem esse perfil?

De jeito nenhum.  É o que se chama de liderança negativa, aquela que, tal qual Átila, onde pisa não nasce grama.

Como gestor, seu grande traço é a enorme capacidade de desagregar, para não falar de sua inapetência para ouvir, na sua soberba e arrogância. Ou não foram essas características que o levaram a se meter em tantas trapalhadas alopradas e a levar Lula a exigir a cabeça dele?

Nesse governo a educação chegou ao Portal do Inferno.

Nele, não tem mais jeito.

É como dizia Dante: Deixai toda esperança, ó vos que entrais.

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Este artigo foi publicado originariamente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

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