As voltas que a política dá

Geraldo Alckmin conseguiu sair do canto do ringue

Nunca foi tão verdadeira como agora a frase de que política é como nuvem, muda a todo momento. De uma hora para outra, Geraldo Alckmin conseguiu sair do canto do ringue e armar uma coligação de fazer inveja aos demais concorrentes. Enquanto isso, Ciro Gomes, que parecia voar na pista, derrapou na primeira curva por culpa única e exclusiva dele próprio.

O Centrão, que vinha sendo disputado pelas principais candidaturas, a exceção de Marina Silva, desequilibrou a balança favoravelmente ao tucano, em termos de tempo televisivo, palanques regionais e capilaridade pelo país afora. Convenhamos, não é pouca coisa. Sobretudo porque Alckmin se coloca bem na televisão, exemplo disto foi sua recente ida ao programa Roda Viva da TV Cultura.

Há muita dor de cotovelo e hipocrisia nas críticas ao tucano por ter se composto com esse bloco. Ciro estava disposto a vender a alma ao diabo para os tê-lo em seu palanque. O PR de Valdemar Costa Neto foi namorado por Lula e Jair Bolsonaro. O caudilho também queria o PP.

Uma por uma, verdades absolutas vão sendo derrubadas. O consenso de que Alckmin não oferecia expectativa de poder acaba de cair por terra.

Não foi pelos belos olhos do tucano que Valdemar Costa Neto fez um giro de 180 graus em sua política de alianças e levou de roldão os outros partidos do Centrão. O patrono do PR não é dado a apostar em cavalo perdedor.

Outro axioma também vai de água abaixo. Dava-se como favas contadas o fim da polarização PT x PSDB. Pode não ser bem assim. De um lado, os tucanos se fortaleceram, enquanto Bolsonaro está mais isolado do que Robson Crusoé numa ilha deserta. De outro, Lula de alguma forma estará na urna eletrônica. Ou ele ou um preposto. Não se subestime seu potencial de transferência de votos.

Enfim, as peças se moveram no tabuleiro e o maior prejudicado foi Ciro, talvez o melhor cabo eleitoral de Geraldo para conquistar o apoio dos partidos do chamado centro democrático. O presidenciável do PDT sai chamuscado pela direita e pela esquerda. Moldou seu discurso conforme o aliado de plantão, se desfigurou e deixou de ser confiável aos dois lados. Seu destempero verbal lembra a música de Baby Consuelo “O mal é o que sai da boca do homem”.

A possibilidade é que desidrate quando ficar claro quem será o substituto de Lula. Teoricamente a resposta da esquerda ao movimento de Geraldo seria fazer algo semelhante em seu campo. Essa possibilidade esbarra na figura de Ciro, a quem Lula e o PT consideram o maior obstáculo para uma “frente de esquerda”.

Correndo por fora, Marina aposta na “aliança com a sociedade”. Sua estratégia só dará certo se a repulsa hoje expressa nos altos índices de abstenção e voto nulo apontados pelas pesquisas se deslocarem para ela. Como conseguir isto com apenas oito segundos de tempo de TV e sem palanques regionais é algo que a ciência política ainda não conseguiu explicar. Para seu azar, a velha política está mais forte do que nunca e o espaço para renovação é tênue. As regras do jogo impedem isso.

A política por aqui continua sendo coisa para profissionais. E ainda pode dar muitas voltas até a eleição.

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Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo.

 

As voltas que a política dá

De Somoza a Ortega

As ruas da Nicarágua estão encharcadas de sangue.

A esquerda latino-americana voltou a se reunir em Cuba, no Foro de São Paulo, do qual participou a presidente do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann. Dela não se espere uma palavra de solidariedade aos nicaraguenses, vítimas da ditadura sanguinária de Daniel Ortega, um ícone dos bolivarianos e terceiro-mundista.

As ruas da Nicarágua estão encharcadas de sangue. Já são mais de 360 assassinados desde o começo das recentes manifestações contra o ditador Ortega.

No entanto reina o silêncio cúmplice de parte dos intelectuais e da esquerda tupiniquim em relação ao massacre de jovens e oposicionistas promovido pelo orteguismo.

Repete-se em relação à Nicarágua um comportamento padrão da esquerda. É contunde na denúncia de repressão e assassinatos de opositores do regime, quando praticados por ditaduras de direita. E absolutamente conivente quando os mesmos crimes são cometidos por ditaduras com as quais têm afinidade ideológica. Em nome da causa, justifica tudo: a ditadura chavista, a supressão das liberdades em Cuba, a corrupção praticada pelos governos dos Kirchner na Argentina, de Lula e Dilma Rousseff no Brasil, de Rafael Correa no Equador e de Nicolás Maduro na Venezuela.

Chegam ao poder prometendo o paraíso e entregam o inferno a seus governados. Essa tragédia se reproduziu na Nicarágua.

No início dos anos 80 os sandinistas liderados por Daniel Ortega chegaram ao poder graças a uma frente amplíssima, da qual participavam famílias tradicionais, a Igreja e liberais como Violeta Chamorro – viúva do jornalista assassinado Pedro Joaquim Chamorro. Isso possibilitou o país a se livrar da ditadura dinástica, corrupta e sanguinária de Anastasio Somoza.

A história se repete como tragédia. A ditadura de Daniel Ortega também é dinástica, corrupta e sanguinária. Apesar dos métodos autoritários da Junta de Reconstrução, no início o sandinismo respeitou a liturgia democrática. A alternância do poder se concretizou em 1990, com a vitória da oposicionista Violeta Chamorro.

Ao voltar em 2007, Ortega não repetiu o “erro” de se submeter à alternância do poder. Usou a democracia para torpedeá-la por dentro. Seguindo o figurino de Hugo Chávez, alterou a Constituição para permitir reeleições contínuas. Já está no seu terceiro mandato.

O exemplo de Ortega serve de alerta para o que pode acontecer no Brasil caso o lulopetismo volte ao poder. Esse pessoal não é dado a cometer o mesmo “deslize” duas vezes.

Como Somoza, Daniel Ortega governa com o apoio dos setores mais reacionários da Nicarágua. Em nada se diferencia do antigo ditador. Instalou uma ditadura familiar – sua mulher, Rosária Murillo, é a vice presidente do país –, e criou uma força paramilitar similar aos “coletivos” venezuelanos.

Ortega é um corrupto que acumulou uma fortuna maior do que a de Somoza. Já a renda dos nicaraguenses hoje é inferior à de 1977, época da ditaria somozista. De quebra, faz um governo extremamente conservador, proibindo a tramitação de qualquer lei de direitos civis, de gênero; impede direitos aos gays ou a discussão sobre o aborto. E ainda chamam isso de esquerda.

“Ortega, Somoza, son la misma cosa”, bradam, com propriedade, os nicaraguenses que protestam. Mesmo correndo riscos reais de serem mortos por mais uma ditadura que sobrevive sob os aplausos do Foro de São Paulo, abrigo da elite de uma esquerda ultrapassada e cega.

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Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo.

 

De Somoza a Ortega

O exemplo vem de cima

O que encorajou o desembargador Rogério Favreto a passar por cima da decisão de um colegiado do Tribunal Federal do qual é membro?

Para além das visíveis afinidades ideológicas, o que encorajou o desembargador Rogério Favreto a passar por cima da decisão de um colegiado do Tribunal Federal do qual é membro e, monocraticamente, mandar soltar Lula?

A explicação lógica está nos péssimos exemplos dos membros das instâncias superiores da Justiça, particularmente do Supremo Tribunal Federal. A insegurança jurídica não nasceu com o parecer teratológico (termo em juridiquês para definir decisão absurda, contrária à lógica, ao bom senso e à moralidade) do plantonista do TRF da 4ª Região. Não é a causa, é a consequência.

No máximo pode-se dizer que foi o episódio mais grotesco, ou farsesco, de um processo de esgarçamento da Justiça. Nos últimos anos o Judiciário invadiu esferas de competência de outros poderes, ministros da mais alta corte do país usaram de “interpretações criativas” para burlar o espírito da Lei e se sobrepor a decisões colegiadas.

De cima a baixo magistrados não se julgam impedidos em causas nas quais tiveram fortes relações com uma das partes. Rogério Favreto é tão “imparcial” para soltar Lula como Dias Toffoli para conceder habeas corpus a José Dirceu. Gilmar Mendes tampouco se considerou impedido no caso do empresário Jacob Barata Filho, a quem mandou soltar três vezes.

A anarquia jurídica do último domingo tem tudo a ver com a “engenhosidade” do ministro Ricardo Lewandowski no processo do impeachment de Dilma Rousseff, com o jeitinho do TSE para não cassar a chapa Dilma-Temer e do STF para livrar a barra de Aécio Neves.

Previsibilidade e estabilidade, requisitos fundamentais para o bom funcionamento do ordenamento jurídico, foram substituídas pelo Imponderável de Almeida. O STF tornou-se uma roleta russa, com a sorte dos réus sendo decidida pela turma do Jardim do Éden ou pela turma da Câmera de Gás. Jurisprudências firmadas podem ser alteradas a qualquer momento, conforme a ciclotimia de ministros que mudam de posição ao sabor dos ventos.

Não é de estranhar, portanto, que um plantonista de um tribunal inferior se arvore no direito de contrariar decisões de instâncias superiores e instale o conflito de competência. Como garantir que decisão da Justiça não se discute, se cumpre, quando este tipo de conflito é instalado?

Ministros e desembargadores deveriam ser indicados em rígida observância dos critérios do notório saber jurídico, da impessoalidade e do equilíbrio. No anos do lulopetismo não foi bem assim. O desembargador Rogério Favreto ascendeu ao cargo graças à sua militância de 20 anos no PT e partícipe de uma lista tríplice da OAB. Pesaram mais suas relações políticas e corporativas.

Como outras instituições, a Justiça também se estrutura com base na hierarquia e na disciplina. Quando elas são quebradas instala-se a anarquia. Restaurá-las é fundamental para a democracia brasileira. Mas para acontecer, o bom exemplo tem de vir de cima.

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

O exemplo vem de cima

 

Sinal amarelo aceso

Hubert Alquéres


O alerta foi dado por Eduardo Jorge, do Partido Verde, no ato do Polo Democrático e Reformista, realizado em São Paulo em 28 de junho: como a matemática continua valendo nas eleições, os candidatos deste campo ficarão de fora se persistir a sua atomização em várias candidaturas. A conta é simples: “A esquerda – incluído aí Lula – tem 40%, a extrema-direita 20%. Restam 40%. Se estes se dividirem, os dois extremos irão para o segundo turno”.

Paira sobre o país o fantasma da eleição de 1989, quando a pulverização responsável por 20 candidaturas levou ao segundo turno dois outsiders: Lula e Collor. O sinal amarelo acendeu a partir de um sentimento compartilhado por Roberto Freire, Eduardo Jorge e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O quadro eleitoral está estagnado há meses, como comprovam as pesquisas. Dificilmente será alterado durante a campanha, mantidas as atuais condições de temperatura e pressão.

A dose de realismo leva à constatação de que o relógio continua a andar. A inércia provoca a paralisia do campo situado entre os dois extremos. Quebrá-la passou a ser um objetivo de curto prazo. Do contrário, o país se verá diante do desastre anunciado de escolher “entre o ruim e o menos pior”, para usar as palavras de FHC. O ruim e o pior são dois projetos populistas.

Não se trata mais de pregar a unidade no abstrato, mas de construir, de imediato, um amplo diálogo entre as lideranças democráticas e reformistas. Idealmente, antes das convenções partidárias, mas se não for possível durante o percorrer da própria campanha eleitoral, ideia defendida pelo deputado Marcus Pestana.

Nas condições de hoje não é fácil fazer uma articulação envolvendo forças e políticos com projetos diferenciados; todos eles legítimos, registre-se. Certamente a busca da unidade estará fadada ao fracasso se for apenas um expediente tático-eleitoral. A construção de um polo democrático e reformista tem um sentido estratégico bem mais amplo, pois as mudanças que o Brasil precisa não serão obra de nenhuma força isoladamente.

Ela não logrará êxito se não houver a participação ativa da sociedade, a exemplo do que aconteceu em jornadas históricas. O primeiro passo foi dado no ato do lançamento em São Paulo do Polo Democrático e Reformista, quando lideranças de seis partidos, inclusive a Rede Sustentabilidade, foram capazes de encontrar pontos em comum. Ali estavam intelectuais, parlamentares, pessoas do mundo da cultura e do trabalho, e militantes de diversas colorações partidárias, muitos dos quais formados na resistência democrática.

Esse mesmo espírito se manifestará no ato de lançamento do Polo Democrático no Rio de Janeiro no dia 14, às 10h, no auditório do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, Rua Visconde e Silva 52, Botafogo. Diversas personalidades já confirmaram a presença, entre elas Roberto Freire, Marcus Pestana, Luciano Huck , Miro Teixeira e Luiz Pena, presidente do Partido Verde.

A unidade já foi perseguida e atingida pelos brasileiros.

Nos momentos mais difíceis da nossa história, fomos capazes de unir os diferentes em torno de objetivos comuns. Assim foi na campanha das Diretas Já, na eleição de Tancredo Neves, na própria Constituinte e no Plano Real, quando o país se uniu para derrotar a inflação que penalizava sobretudo os mais pobres. Nesses episódios tivemos a felicidade de contar com políticos à altura do que a história exigia. Mario Covas, Franco Montoro, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, tiveram a grandeza de subordinar seus projetos pessoais aos interesses maiores da nação. Sem abrir mão de seus princípios, souberam construir o entendimento necessário para fazer o Brasil avançar.

O grande ponto de interrogação é se os candidatos comprometidos com a democracia e as reformas sociais terão o mesmo desprendimento ou se cada um continuará remando sozinho. Nesse caso, o sinal passará de amarelo para vermelho.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do movimento Roda Democrática:

http://rodademocratica.com.br/2018/07/07/sinal-amarelo-aceso/

Sinal amarelo aceso

 

Paira sobre o país o fantasma da eleição de 1989 que levou ao segundo turno dois outsider:

O alerta foi dado por Eduardo Jorge, do Partido Verde, no ato do Polo Democrático e Reformista, realizado em São Paulo na semana passada: como a matemática continua valendo nas eleições, os candidatos deste campo ficarão de fora se persistir a sua atomização em várias candidaturas. A conta é simples: “A esquerda – incluído aí Lula – tem 40%, a extrema-direita 20%. Restam 40%. Se estes se dividirem, os dois extremos irão para o segundo turno”.

Paira sobre o país o fantasma da eleição de 1989, quando a pulverização responsável por 20 candidaturas levou ao segundo turno dois outsider: Lula e Collor. O sinal amarelo acendeu a partir de um sentimento compartilhado por Roberto Freire, Eduardo Jorge e o ex-presiente Fernando Henrique Cardoso. O quadro eleitoral está estagnado há meses, como comprovam as pesquisas. Dificilmente será alterado durante a campanha, mantidas as atuais condições de temperatura e pressão.

A dose de realismo leva à constatação de que o relógio continua a andar. A inércia provoca a paralisia do campo situado entre os dois extremos. Quebrá-la passou a ser um objetivo de curto prazo. Do contrário, o país se verá diante do desastre anunciado de escolher “entre o ruim e o menos pior”, para usar as palavras de FHC. O ruim e o pior são dois projetos populistas.

Não se trata mais de pregar a unidade no abstrato, mas de construir, de imediato, um amplo diálogo entre as lideranças democráticas e reformistas. Idealmente, antes das convenções partidárias, mas se não for possível durante o percorrer da própria campanha eleitoral, ideia defendida pelo deputado Marcus Pestana.

Nas condições de hoje não é fácil fazer uma articulação envolvendo forças e políticos com projetos diferenciados; todos eles legítimos, registre-se. Certamente a busca da unidade estará fadada ao fracasso se for apenas um expediente tático-eleitoral. A construção de um polo democrático e reformista tem um sentido estratégico bem mais amplo, pois as mudanças que o Brasil precisa não serão obra de nenhuma força isoladamente.

A unidade já foi perseguida e atingida pelos brasileiros.

Nos momentos mais difíceis da nossa história, fomos capazes de unir os diferentes em torno de objetivos comuns. Assim foi na campanha das Diretas Já, na eleição de Tancredo Neves e na própria Constituinte. Nesses episódios tivemos a felicidade de contar com políticos à altura do que a história exigia. Mario Covas, Franco Montoro, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, tiveram a grandeza de subordinar seus projetos pessoais aos interesses maiores da nação. Sem abrir mão de seus princípios, souberam construir o entendimento necessário para fazer o Brasil avançar.

O grande ponto de interrogação é se os candidatos comprometidos com a democracia e as reformas sociais terão o mesmo desprendimento ou se cada um continuará remando sozinho. Nesse caso, o sinal passará de amarelo para vermelho.

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo 

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

Sinal amarelo aceso