Nada é para sempre

Getúlio Vargas, Domingo Perón e Gustavo Rojas Pinilla, o populismo na américa latina (Foto: Arquivo Google)

foto: montagem com Getúlio Vargas, Domingo Perón e Gustavo Rojas Pinilla
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por Hubert Alquéres
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Nenhuma onda é definitiva. Mais dia, menos dia, todas elas passam, como acaba de descobrir a presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Na América do Sul foi sempre assim. Tivemos a época dos grandes caudilhos – Getúlio e Peron, entre outros -, das ditaduras militares, da redemocratização e, por último, a onda do bolivarianismo nas suas variadas vertentes – chavismo, kirchnerismo e sua face mais moderada, o lulopetismo.

Uma onda que começou a bater nas pedras, entrar em refluxo, como já indicou a disputa presidencial brasileira do ano passado e confirma agora o resultado eleitoral da Argentina.

Cada caso é um caso, ou melhor, cada crise tem a sua própria história. Mas o esgotamento da atual fase do populismo na Argentina, Brasil e Venezuela tem um mesmo pano de fundo: o fim da bolha das commodities. Foram as exportações de bens primários que financiaram os modelos econômicos e políticos destes três países.

Como eles não aproveitaram o bom momento para trilhar o crescimento sustentado ruíram as próprias bases objetivas de uma via que se anunciava como salvacionista, mas que, ao final, aprofundou o atraso da América Latina.

O populismo – fórmula equivocada de responder à secular desigualdade social que a globalização não equacionou -, obviamente deixou de entregar a prosperidade prometida, muito menos criou condições para a emancipação social e a universalização dos direitos básicos do cidadão.

Ao contrário, ampliou a dependência das massas em relação ao Estado, criou currais e bolsões facilmente manipuláveis, muitas vezes por projetos autoritários, como aconteceu com maior agudez na Venezuela. Quando veio a crise econômica, a pobreza voltou com toda a força.

É sobre as costas dos pobres que hoje recai o fardo pesado da recessão, do desemprego, da inflação, da violência. Aqui, na Argentina ou na Venezuela.

A onda populista parece então estar perdendo seu charme. Mas seu fetiche dura a um bom tempo, embalado por um verniz ideológico de uma esquerda que sempre cultivou um anti-imperialismo pueril e viu-se órfã, de uma hora para a outra, de muitos de seus ideais, depois da queda do muro de Berlim, do fim da União Soviética e da virada da China. Parte desta esquerda, registre-se, mandou os princípios às favas e chafurdou-se na lama, ora em nome da causa, ora para usufruir benefícios pessoais.

Deixando o jurássico de lado é possível mirar no futuro. Felizmente a Argentina, com a eleição de Maurício Macri, dá sinais de que uma nova brisa pode soprar sobre “nuestra América”.  Ela pode romper a camisa de força do Mercosul e permitir a superação do terceiro-mundismo que nos levou a ficar de costas para o mundo.

Vivemos o tempo das cadeias produtivas globais. Quem nelas não se integrar ficará para trás, perderá o bonde da história. O Chile, a Colômbia e o Peru entenderam muito bem a direção dos ventos e buscam sua integração em megablocos como o Transpacífico. Tão somente por aí se pode conquistar o verdadeiro crescimento, condição indispensável para a justiça social.

Neste novo tempo que se anuncia, o populismo não será apenas um anacronismo. Será uma aberração. Os argentinos parecem ter entendido isto, com seu recado das urnas. Quem sabe os venezuelanos não serão os próximos?

As ondas são assim. Vem e passam. Para o alívio da maioria dos brasileiros e dos demais sul-americanos, delas, nem o bolivarianismo escapa.

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Este artigo foi publicado originariamente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2015/11/nada-e-para-sempre.html

 

Não basta um animador de torcida

Economia brasileira (Foto: Arquivo Google)

por Hubert Alquéres

Saltam aos olhos o descrédito, o desânimo e a desconfiança dos investidores. Perigosamente o país se aproxima do caos profundo, como alertou o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Diante da deterioração do quadro econômico, Joaquim Levy vai caindo pelas tabelas, agoniza em estado catatônico.

Para fazer frente a momento tão grave, a presidente exige de seu ministro da Fazenda que saia por aí tocando o bumbo, como se fosse um animador de torcida. Isso não basta. É muito pouco para tirar o Brasil do atoleiro no qual o governo Dilma Rousseff nos submergiu.

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Fervura no caldeirão

Fervura no caldeirão (Foto: Arquivo Google)

 

por Hubert Alquéres

A cínica explicação do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, sobre suas contas na Suíça é mais fervura no caldeirão, fermenta a crise ética e eleva sua temperatura ao infinito. Se não houver uma resposta positiva e democrática do mundo da política, ele transbordará em cima das instituições republicanas, queimando tudo e todos.

Arma-se um cenário extremamente preocupante, de convulsão social, de descrença absoluta no Parlamento e no poder Executivo, de namoro por segmentos da sociedade, por enquanto minoritários, com saídas antidemocráticas. É aí que mora o perigo.

A bomba está sendo ativada. Só não a enxerga quem não quer. A greve dos caminhoneiros é mais lenha na fogueira. Brincam com fogo os que insuflam esse movimento paredista, na crença de que por aí vão colocar abaixo o governo Dilma Rousseff.

Diante do colapso moral, setores da classe média veem nas Forças Armadas a instituição salvadora, como assim enxergaram em 1964. Artigo do general exército, ex-chefe do Estado Maior do Ministério da Defesa, Rômulo Bini Pereira, publicado em jornal de circulação nacional, dá bem uma ideia dessas pressões e do quanto a preocupação com “a decadência moral e ética” já perpassa o meio castrense – da ativa ou da reserva.

Não há, claro, condições internas e externas para intervenção militar. Nem as Forças Armadas parecem querer isso. Mas essa história é como a das bruxas: não cremos nelas, mas vai que elas existam. Em sendo assim, urge fazer de tudo para esfriar a temperatura da bruxaria.

A questão chave é o resgate da ética como bandeira republicana indissolúvel da democracia. Todas as vezes que ela saiu das mãos democráticas, o país perdeu.

Impensável supor que será resgatada pelo lulopetismo. Quando se erigiu em poder, o Partido dos Trabalhadores rifou essa bandeira, pautou-se por um estranho código de ética, no qual a causa justifica tudo, e fez do cinismo um instrumento de se fazer política.

Eduardo Cunha foi beber nessa fonte para vender sua mixórdia no Jornal Nacional.

No dia 16 de julho de 2005 a nação assistiu, estupefata, a entrevista de Delúbio Soares ao JN da Globo, na qual o então tesoureiro do PT veio com aquela versão fantasiosa dos “recursos não contabilizados” para eludir o até então maior escândalo da história recente do país; o mensalão.

Como o Cunha de hoje, Delúbio estava orientado pela banca de advogados para mentir, inventar uma história tão inverossímil como a contada por Eduardo Cunha ao vivo e a cores. Incrível, dez anos depois estamos assistindo o mesmo filme, com o agravante de que não sabemos qual será o seu final. Se será ou não mais uma tragédia para o país.

Se não há nada a se esperar do governo e do PT em matéria de resgate dos valores republicanos (ao contrário, a tendência é a continuidade do pacto de “proteção mútua” entre a presidência da República e o presidente da Câmara Federal), das oposições exige-se uma postura diferente.

No seu nascedouro, a socialdemocracia selou compromissos com a probidade, com o zelo pela coisa pública, com a ética. Aliás, o saudoso Mário Covas se reelegeu governador em 1998 com uma campanha claramente norteada por esses valores. Tem, portanto, capital moral para construir e liderar uma saída positiva capaz de resgatar o apreço dos brasileiros pela democracia e suas instituições.

Basta entender que os fins não justificam os meios, que nada, absolutamente nada, justifica aliança, tácita ou não, com Eduardo Cunha. E que os problemas da democracia se resolvem com mais democracia.

Só desta forma se pode evitar a explosão do caldeirão.

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Este artigo foi publicado originariamente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2015/11/fervura-no-caldeirao.html

O artigo também foi publicado nas seguintes páginas:

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Cada macaco no seu galho

por Hubert Alquéres

São mais do que oportunas as palavras do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas. Segundo ele competem às instituições civis – Supremo Tribunal Federal, Procuradoria Geral da República, Polícia Federal, Tribunal de Contas, Poder Legislativo e Executivo – a missão de enfrentar e superar a crise ética, econômica e política que o Brasil atravessa. Às Forças Armadas cabe o estrito cumprimento do que determina a Constituição, defender nossas fronteiras e soberania, contribuir para a paz interna.

Cada macaco no seu galho. As três armas só devem se pronunciar institucionalmente e através de seus comandantes. Fora disso, aplique-se o Regulamento Disciplinar do Exército (RDE).

As declarações do comandante vieram em boa hora, contribuem, para o afastamento de fantasmas que voltaram a rondar a nação, a partir das intempestivas, para dizer o mínimo, intervenções do então comandante do Exército-Sul, general Antônio Hamilton Martins Mourão, corretamente afastado desse comando.

Como qualquer corporação castrense do planeta, as Forças Armadas brasileiras organizam-se à base de dois princípios fundamentais: hierarquia e disciplina. Quando eles são quebrados, perde o país.  Instala-se a anarquia no interior de suas instituições castrenses.

Ter o pulso firme nesse momento tão delicado é essencial para a crise não contaminar os quartéis. A rígida observância da cadeia de comando, inclusive com a reafirmação da autoridade do ministro da Defesa e do chefe-supremo das Forças Armadas, a presidente da República, é essencial para a manutenção do Estado de Direto democrático no Brasil.

Nessas horas em que vivandeiras rondam os quartéis, clamando por intervenção militar, é essencial relembrar quão danosos foram incursões dos quartéis na vida política nacional, ao longo do século XX ou 20.

Já tivemos de tudo, nesse país. Manifesto dos coronéis, sargentada, sublevação de marinheiros, o Clube Militar funcionando como se fosse um partido político com suas diversas facções e subfacções, levantes armados e uma longa noite de 21 anos de ditadura.

Aqui então, nem se fala. Junta militar, presidente emparedado, tigrada aprontando e bordando nos porões da repressão, golpe dentro do golpe, insubordinação por todos os lados. Por um triz não embarcamos numa tragédia maior, felizmente abortada pelo então presidente Ernesto Geisel quando enquadrou e demitiu o Ministro do Exército, Sylvio Frota. Ali poderia ter havido uma Noite de São Bartolomeu.

A sabedoria da transição democrática brasileira consistiu exatamente no estabelecimento de um acordo tácito, capaz de possibilitar o recuo organizado dos militares para os quartéis. Sem esse pacto, não faríamos a travessia, as Forças Armadas não se reencontrariam com a nação.

Justiça se faça: nestes trinta anos as três armas se dedicaram às suas funções constitucionais e profissionais sem grandes deslizes, apesar das tentativas de parte da esquerda de fazer um acerto de contas com os militares.

Esse comportamento deve ser valorizado e espera-se que a quebra da hierarquia e da disciplina por parte do general Martins Mourão tenha sido um ponto fora da curva. A rápida ação do comandante do Exército, avalizada por seus superiores hierárquicos, repôs o trem no trilho.  Isso é bem-vindo.

Afinal, já ficou para trás os tempos em que o país ficava em suspense quando havia troca de comando em algum dos quatro exércitos.  Naqueles anos, era dever de ofício de jornalistas e especialistas estudar a fundo o almanaque do exército para saber qual tendência prevaleceria no interior do regime, se a linha dura ou os “aberturistas”.

O fato de não sabermos de cor e salteado o nome dos comandantes militares já é por si só um indício do amadurecimento das nossas instituições.

Os tempos, felizmente, são outros. Não há hoje condições internacionais e nacionais para uma intervenção militar. Mas nunca é demais repetir uma frase de Castello Branco: “criar uma ditadura é fácil, difícil é acabar com ela”.

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Este artigo foi publicado originariamente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

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