Forças e fraquezas da terceira via

Por Hubert Alquéres

A terceira via atravessa uma situação paradoxal. De um lado, setores que foram pilares da candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 – como os empresários e até mesmo os militares – começam a apostar em uma alternativa na próxima disputa presidencial que evite a polarização de 2018. Conta a seu favor a existência de uma grande faixa do eleitorado refratário às candidaturas de Lula e Bolsonaro. Suas chances são diretamente proporcionais à deterioração da popularidade do presidente, hipótese plausível face o risco do país ingressar em um quadro de estagflação no curto prazo.

Nuvens de chumbo se anunciam para 2022. O desempenho do PIB vem sendo revisado para próximo de zero (ou negativo), enquanto já está contratada uma forte alta da taxa de juros, provavelmente superior a 11% ao ano. A inflação continuará a ser um grande problema, sobretudo para os mais pobres, com tendência do desemprego voltar a crescer.

Tudo isso como resultante do descompromisso do governo com a responsabilidade fiscal, sinalizado pela sua intenção de furar o teto dos gastos para viabilizar o Auxílio Brasil, ajuda de R$ 400,00 ao mês até dezembro de 2022.

Esse quadro já vem levando empresas de consultoria, como a Eurásia, a admitir a possibilidade de Bolsonaro ficar fora do segundo turno. Se alguém afirmasse isso no primeiro semestre, seria visto como lunático.

Com base na mudança do cenário político, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, recomenda que a terceira via tenha como estratégia tirar Bolsonaro do segundo turno, recuperando o eleitorado historicamente de centro que migrou para o presidente, em 2018. Há um raciocínio pragmático nesta conclusão: Lula estaria consolidado para ir para o segundo turno.

Visto por esse ângulo, o centro teria uma enorme avenida à sua frente, com os ventos soprando a seu favor.

Mas há o outro lado da moeda, que consiste no ponto fraco da terceira via: sua dispersão. Já são onze seus presidenciáveis. Isso dificulta a definição de uma candidatura. Quem tem tantas alternativas finda não tendo nenhuma. Foi assim em 2018, quando o centro, pulverizado, deu vexame. Se repetir o erro, corre o risco de desaparecer, como aconteceu recentemente no Peru.

Falta também um discurso capaz de empolgar o eleitorado. Até agora, quem tem um projeto minimamente elaborado é Ciro Gomes, mas é um programa passadista, dos tempos do nacional-desenvolvimentismo. O discurso do nem-nem é muito pouco para empolgar o Brasil.

A terceira via terá de dizer aos brasileiros qual o seu projeto para o país e qual o caminho para promover a conciliação nacional.

As duas dificuldades, dispersão e falta de um projeto, não são insuperáveis, mas dependem, no curto de prazo, de quatro fatores que ocorrerão até o final do ano: a oficialização da União Brasil, a candidatura de Rodrigo Pacheco, a de Sérgio Moro e o desfecho das prévias do PSDB.

No caso da União Brasil ainda não está claro se o novo partido será um protagonista, ofertando uma candidatura agregadora, como poderia ser a do ex-ministro Henrique Mandetta. Também pode apostar em um outsider, como o apresentador Datena. Ou abrir mão de ter um candidato. Nesse caso, apesar de ter amplo tempo de televisão e ser líder em matéria de recursos dos fundos partidário e eleitoral, a União Brasil pode ser um gigante de pés de barro, sem peso real na disputa presidencial.

O xadrez da terceira via ficou mais complexo com a entrada de duas novas peças: Rodrigo Pacheco e Sérgio Moro.

Atribuía-se a candidatura do presidente do Senado ao pragmatismo de Gilberto Kassab de lançar um candidato a presidente apenas para ter a liberdade de construir palanques regionais – em sintonia com seu objetivo estratégico de eleger a maior bancada no Congresso – para depois apoiar Lula no segundo turno.

Essa leitura pode ser equivocada. Mesmo que, por hipótese, esse tenha sido o objetivo inicial de Kassab, Rodrigo Pacheco não entraria na disputa se sua candidatura não fosse para valer e não houvesse a possibilidade real da terceira via deslocar Bolsonaro do segundo turno. Nesta semana Pacheco filia-se ao PSD, em ato em Brasília, no simbólico memorial JK. No último sábado, ao participar de uma agenda organizada por Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, Pacheco estava afiado. E deu pistas das linhas mestras de seu discurso de campanha, que incluiu se alinhar à imagem desenvolvimentista e conciliadora de Juscelino Kubitscheck, tendo como eixo o binômio união-desenvolvimento.

A partir de novembro, Sérgio Moro peregrinará pelo país para lançar seu livro. Na verdade, estará dando o pontapé inicial de sua pré-candidatura pelo Podemos, partido ao qual se filiará no próximo dia 10. Ela embute o risco de, em vez de agregar, criar uma nova polarização no país, entre lavajatistas e antilavajatistas. Atingido por decisões do STF, o ex-juiz vai usar sua candidatura para defender sua biografia. De uma certa forma, Lula fez o mesmo em 2018, por meio da candidatura de Fernando Haddad.

Com Ciro correndo em faixa própria numa candidatura inarredável, os olhos voltam-se para as prévias tucanas, dia 21 de novembro. Se vencer, João Doria sairá fortalecido, respaldado ainda pelo bom desempenho de seu governo e por contar com forte apoio do mundo dos negócios. Seria preciso muito poder de argumento para convencê-lo a desistir em nome da união. Dito de outra forma: como aposta Rodrigo Maia, Doria seria o próprio nome da unidade. A conferir.

Em outra faixa corre Eduardo Leite. O governador gaúcho cresceu na disputa interna ainda sem ameaçar a liderança de Doria. Seu discurso tem similaridade com o de Pacheco no tocante à união e remete ao “choque de capitalismo” pregado por Mario Covas. Se vitorioso, ele diz estar aberto ao entendimento em torno de um nome comum da terceira via, sem fazer de si uma cláusula pétrea.

As onze pré-candidaturas estão na fase de testar sua viabilidade. Dificilmente haverá rearranjos antes de abril ou maio do ano que vem. Se resistir à união e perder o timing, a terceira via deixará de montar no cavalo encilhado que está passando à sua porta.

Anunciaram e garantiram que os tucanos iam se dividir

Por Hubert Alquéres

Como na música de Assis Valente, o mundo não se acabou após a realização do primeiro debate dos presidenciáveis inscritos nas prévias do PSDB, promovido pelo jornais O Globo e Valor Econômico. Quem esperava caneladas entre os tucanos Arthur Virgílio, João Doria e Eduardo Leite se surpreendeu com o clima civilizado.

No debate as convergências foram bem maiores do que as raras e esparsas estocadas. Nas poucas questões em que os participantes divergiram, mostraram um salutar embate de ideias e visões de mundo.

Havia o temor de que as prévias acentuassem a eterna compulsão dos tucanos a se dividirem. Ainda mais porque, ao contrário dos Estados Unidos, não há no Brasil a tradição dos partidos de escolher seus candidatos a presidente por meio de primárias partidárias. Lá os pré-candidatos se chocam nas disputas internas, tanto dos democratas como dos republicanos, mas no final os partidos saem unidos em torno do vencedor e a democracia interna fortalecida. Um bom exemplo é o que aconteceu na eleição mais recente: Kamala Harris pegou pesado contra Joe Biden nas prévias do Partido Democrata, mas no final foi a companheira de chapa do atual presidente dos Estados Unidos.

No Brasil o risco é, em vez de soldar a unidade partidária, o conflito desaguar no terreno do imponderável. O PSDB decidiu correr esse risco, numa postura ousada e corajosa. O único precedente no país foi a disputa entre Lula e Eduardo Suplicy para definir o presidenciável do PT na eleição de 1998. Mas foi um arremedo de prévia, apenas um jogo para a plateia.

Reconheça-se, é muito mais saudável a escolha de um candidato a presidente por meio do debate e da disputa interna do que por falsas unanimidades ou pela vontade imperial dos caciques políticos.

Embora ainda seja cedo para um juízo definitivo – ainda serão realizados mais dois debates e vai correr um mês até a realização da prévia marcada para 21 de novembro -, os tucanos têm motivo para estarem otimistas quanto à possibilidade de saírem fortalecidos após a disputa interna. Não que não tenha havido críticas indiretas entre os três postulantes, mas elas foram pontuais.

Também seria demais esperar que o debate acontecesse de forma angelical. Os três candidatos são de carne e osso e estão numa disputa política. Mas, perto do que é comum nas primárias americanas, o debate dos tucanos foi civilizadíssimo.

O clima de fim de mundo não aconteceu por uma questão básica, conforme ficou claro nos pronunciamentos de Doria, Leite e Virgílio. Os três têm a mesma fé na democracia e o mesmo receituário para promover a retomada do crescimento e o enfrentamento das mazelas sociais.

Entendem que é impossível enfrentar a questão da desigualdade sem o saneamento do Estado, daí a unanimidade em torno da responsabilidade fiscal, das reformas estruturantes e das privatizações como pré-condição para a retomada da capacidade de investimentos do Estado, sobretudo na área social.

A rigor, essa é a cultura do PSDB, advinda do governo Fernando Henrique Cardoso, quando os tucanos reorganizaram o Estado, sanearam o sistema bancário, venceram a inflação com o Plano Real e lançaram os pilares da política econômica baseada no tripé: responsabilidade fiscal, meta inflacionária e câmbio flutuante. Estranhamente, abriram mão destes princípios nas disputas presidenciais seguintes, não sabendo defender o seu legado.

O que se viu no debate foi uma espécie de volta às origens. Não gratuitamente, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e Franco Montoro foram citados várias vezes.  A reafirmação dos fundamentos de uma política econômica vitoriosa e da necessidade de proteger a moeda brasileira se torna mais importante no momento em que a inflação volta a corroer o poder aquisitivo da população, sobretudo dos mais pobres, e a fome atormenta a vida dos mais vulneráveis.

Sem trocadilho, no real a disputa é mesmo entre João Doria e Eduardo Leite, embora Arthur Virgílio seja um quadro que remete o PSDB aos seus melhores dias, quando o então senador foi líder do governo FHC no Congresso Nacional.

Os governadores de São Paulo e do Rio Grande do Sul também têm história e realizam governos vitoriosos. Os dois têm legitimidade e condições de liderar o PSDB na disputa presidencial do próximo ano e de serem artífices da construção de uma terceira via.

Ainda há um longo caminho a ser percorrido, mas os tucanos têm motivos respirar aliviados. Ao contrário das previsões catastrofistas, as prévias não estão sendo um fator de divisão.

Mais tarde isso pode ser um exemplo de coesão para toda a sociedade brasileira.

Na Ditadura diversitária

Por Hubert Alquéres

Devemos ao iluminismo a construção de um discurso universal, baseado na lógica e na razão. Seus ideais inspiraram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na Revolução Francesa, em 1789, bem como a Declaração da Independência dos Estados Unidos, em 1776. O princípio de que todos os homens nascem iguais e tem direitos iguais, independentemente da cor de sua pele, de seu sexo e de sua religião, voltaria a ser reafirmado na Declaração Dos Direitos Humanos das Nações Unidas de 1948.

A democracia, até hoje o melhor sistema de governo criado pela humanidade, é filha legítima desses avanços civilizatórios. Mas a franquia do voto para todos -pobres, analfabetos, mulheres ou negros- só foi conquistada com muita luta e tendo como pilar o conceito de “cada cabeça um voto”. Ou seja, o voto do pobre vale o mesmo que o voto do rico, assim como o voto do homem vale o mesmo que o voto da mulher, o do religioso o mesmo do ateu e, assim, sucessivamente.

A busca do bem comum, por sua vez, sempre orientou a ação das forças progressistas e foi por aí que a sociedade avançou. Toda vez em que as diferenças foram acentuadas em detrimento do discurso universal de igualdade houve retrocesso. Não se nega a existência de diferenças e da diversidade, mas elas não podem agir como elemento corrosivo daquilo que conforma uma nação: um destino comum, construído ao longo de sua história.

A emergência de movimentos identitários em meio ao fenômeno da fragmentação das classes sociais faz acender o sinal amarelo sobre o risco da desconstrução da nação e da própria democracia liberal. Autor dos livros “As Sinhás pretas da Bahia” e “Relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária”, o antropólogo e historiador Antônio Risério tem sido incansável no combate ao identitarismo. Segundo ele, a diversidade vem se transformando em ideologia, no sentido de uma visão falsa e distorcida da sociedade. É dele o conceito de “ditadura diversitária”.

Em recente artigo, Risério denunciou que o princípio de “cada cabeça um voto” está ameaçado pela adoção – na representação política – de cotas raciais ou de gênero. A conformação do Parlamento, por exemplo, não se daria pelo voto igualitário e sim de forma censitária. Se as mulheres, por exemplo, são tanto por cento da sociedade, teriam a mesma proporção nas casas legislativas. A regra demográfica valeria também para as raças e “povos originários” – a nova modalidade de se chamar os indígenas.

O Brasil não chegou à situação do Chile que, na recente eleição de sua Constituinte, para defender uma maior participação das mulheres, definiu que elas teriam 50% das cadeiras do Parlamento. Realizadas as eleições, deu-se o inusitado. As mulheres tiveram mais de 50% dos votos, e onze parlamentares eleitas para elaborar e aprovar a nova Constituição do país perderam suas cadeiras para assegurar a paridade entre homens e mulheres.

Ainda não chegamos a tanto, mas estamos nos esforçando. A cota para mulheres foi instituída nas candidaturas, por meio da obrigação dos partidos de reservar 30% para o registro de candidatas. Com o aval do presidente TSE, ministro Roberto Barroso, a presidente do Podemos, deputada Renata Abreu, quer que a reserva para as mulheres não seja apenas na lista das candidaturas, mas nas cadeiras do Parlamento.

Barroso já propôs que sejam reservadas 20% das cadeiras da Câmara para as mulheres, como forma de “quebrar o ciclo de discriminação”. Recentemente o Senado aprovou Emenda Constitucional ao Código Eleitoral, instituindo que, para efeito de distribuição dos recursos dos fundos partidário e eleitoral, os votos em mulheres e negros contarão em dobro.

O grande risco é de o Brasil cair no que o antropólogo e historiador chamou de uma variante do fascismo italiano e que Getúlio Vargas tentou copiar no Estado Novo: a composição do Parlamento a partir das corporações. Só que agora em vez de serem corporações classistas, seriam representações identitárias: mulheres, negros, “povos originários”, e assim por diante.

Não está em questão as cotas sociais como porta de entrada nas universidades, importante medida para a ascensão social da camadas historicamente marginalizadas. Também não se nega bandeiras específicas da luta pelos direitos da mulher, contra o racismo e pelos direitos indígenas. Mas elas não podem ser elementos de divisão da sociedade e devem ser parte da luta pelo bem comum.

Se para Marx a luta de classes era o motor da história, para os diversitários é a luta identitária, a luta da mulher contra o homem, do preto contra o branco, do índio contra o explorador branco. Por trás dessa categoria mental está uma visão distorcida, segundo a qual o homem branco é visto como explorador e escravagista e a história da sociedade ocidental, inclusive a do Brasil, a história da opressão, da escravidão e da exploração.

A esquerda identitária ainda não percebeu que pode provar do próprio veneno, com corporações conservadoras reivindicando cotas nas instituições do Estado. Os evangélicos já deram o primeiro passo, cobrando do presidente Jair Bolsonaro a nomeação para a vaga aberta no STF de alguém “terrivelmente evangélico”. Amanhã podem muito bem reivindicar uma participação na Câmara proporcional à sua presença na sociedade. Ora, se uns podem ter cota no Parlamento, por que outros não podem?

A concepção da luta de classes como motor da história levou à ditadura do proletariado. A da luta identitária com o mesmo papel pode nos levar à ditadura diversitária.

Melhor ficar com a democracia representativa e seu alicerce de cada cabeça um voto.

Fascismo vermelho

Por Hubert Alquéres

O uso da violência como forma de dirimir divergências é um velho cacoete de parte da esquerda brasileira. No passado não muito distante disputas sindicais terminavam em pancadaria e agressões físicas. Imaginava-se que essa prática estivesse superada, mas não é bem assim. No domingo, essa esquerda patrocinou mais um episódio lamentável, quando militantes com camisas da CUT e do PT tentaram espancar no ato da Avenida Paulista o ex-governador, ex-ministro e pré-candidato a presidente, Ciro Gomes.

Pouco momentos antes o presidenciável do PDT foi vaiado pela claque do Partido da Causa Operária – PCO –, um grupelho cuja intolerância é inversamente proporcional à sua significância. Em julho, o mesmo PCO agrediu militantes do PSDB em outra manifestação no mesmo local. Reincidente, o grupúsculo continua impávido na mesa onde participam os membros da coordenação dos atos do “Fora Bolsonaro”, com direito à palavra. No domingo, seu representante no palanque da Paulista aproveitou os poucos minutos de visibilidade para xingar Ciro de “canalha”.

Não se trata de casos isolados. E nem Ciro é a única vítima da intolerância dos que se julgam guardiões da linha justa e correta.

A deputada Tabata Amaral, uma das melhores parlamentares da atual safra, tem sido alvo de uma campanha agressiva. Nas redes sociais de militantes de esquerda proliferam ameaças físicas à sua pessoa, além de xingamentos que em nada se diferenciam do vocabulário truculento e desqualificado dos bolsonaristas.

O ator, pré-candidato a deputado federal e petista de carteirinha, José de Abreu, divulgou um twitter com a seguinte mensagem: “se eu encontro (Tabata) na rua, soco até ser preso”. Diante da forte reação à sua ameaça, ensaiou um pedido de desculpas à deputada em um artigo mal-ajambrado publicado pela Folha de S.Paulo. Outro petista de primeira linha, Frei Leonardo Boff, tentou justificar as agressões, ao argumentar: “não nos esqueçamos de que Tabata estudou nos Estados Unidos, apoiada por um biliardário brasileiro”.

É a inversão de valores. Em vez de condenar os agressores, joga-se a culpa nas vítimas, por conta de suas posições políticas. O ódio a Ciro tem como base suas críticas a Lula e ao fato de não ter apoiado formalmente Fernando Haddad no segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Por causa disso vem sendo acusado de ter se vendido à “direita neoliberal”. De direita, Ciro não tem nada. Suas alianças estão mais à esquerda do que as de Lula e seu programa econômico é mais nacional-desenvolvimentista do que o do presidenciável do PT.

Já Tabata cometeu um pecado imperdoável, segundo os cânones da esquerda: votou a favor da reforma da Previdência. Foi o bastante para ser condenada à fogueira da inquisição.

Há uma profunda incoerência entre a estreiteza de quem agride quem não reza pela sua cartilha os convida para manifestações de união, como pretendia ser a do último domingo. Falar de Frente Ampla e ao mesmo tempo estigmatizar parceiros é dar uma enorme contribuição para o fracasso da bandeira “Fora Bolsonaro”. O sectarismo certamente foi um dos fatores, tanto para o esvaziamento da manifestação do dia 12 de setembro, convocadas pela centro-direita, quanto para a do último domingo.

Registre-se, vozes de esquerda condenaram a agressão a Ciro, entre elas Gleisi Hoffmann. Mas o PT que ela preside não assinou a nota de solidariedade ao pedetista, assinada por vários partidos. Assim como a CUT, apesar de convidada, não assinou a nota de solidariedade das centrais sindicais. Lula simplesmente se recusou a falar sobre o assunto. Como diz o provérbio popular, quem cala, consente.

A intolerância, a dificuldade de conviver com a divergência e a agressão física sempre estiveram presentes na história desta esquerda. Stalin simplesmente eliminou fisicamente quem ousou discordar dele.  Até hoje Cuba não tolera críticas ao seu regime e quem ousa discordar é chamado de “gusano” e contrarrevolucionário. Na Nicarágua, Daniel Ortega prendeu seis candidatos a presidente que disputariam com ele a eleição de novembro, enquanto o chavismo implantou um regime de perseguição e de eliminação de adversários.

A rigor, a esquerda que age assim não se distingue do fascismo. A categoria mental é a mesma: a relativização dos valores e a negação da democracia como um valor universal – os fins justificam os meios e a violência é a parteira da história.

Como disse Ciro, não existe só o fascismo de verde e amarelo. Há também o fascismo de vermelho. Mais uma vez, ele mostra a sua cara.