A paz ou a paz

A guerrilha das Farc não é apenas uma das mais antigas do mundo, muito embora tenha começado antes de o homem ir à lua e de Che Guevara ter subido a Cordilheira dos Andes
Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, e Rodrigo Londoño, chefe das Farc, se cumprimentam nesta segunda-feira (26) após assinar o acordo de Paz em Cartagena (Foto: Fernando Vergara / AP)
Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, e Rodrigo Londoño, chefe das Farc, se cumprimentam após assinar o acordo de Paz em Cartagena (Foto: Fernando Vergara / AP)

por Hubert Alquéres

Por 52 anos a Colômbia escreveu sua história à bala e encharcada de sangue. Após 260 mil mortos, 45 mil desaparecidos e quase sete milhões de “desplazados” – colombianos deslocados de suas regiões por causa da guerra -, a paz finalmente pousou no país de Gabriel Garcia Márquez.

A bala de metralhadora transformou-se em caneta, com a qual o presidente da Colômbia, Juan Manoel Santos, e o líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Timochenko (Rodrigo Lodoño), assinaram em Cartagena o tratado de quase 300 páginas, pondo fim ao conflito armado de mais de cinco décadas.

O tratado não é ainda a última palavra. Ela quem dará serão os colombianos, em plebiscito marcado para o próximo domingo. A Colômbia é um mar de feridas não cicatrizadas, de luto e de dor. Mas só há duas alternativas para superá-las: a paz ou a paz. Fora disso, serão mais sangue derramado, mais viúvas e órfãos a chorar seus mortos, mais riquezas destruídas.

A guerrilha das Farc não é apenas uma das mais antigas do mundo, muito embora tenha começado antes de o homem ir à lua e de Che Guevara ter subido a Cordilheira dos Andes. Seu romantismo se limita ao fato de ter sido formada pelos sobreviventes do massacre da República de Marquetália, liderados por “El tirofijo” – Manuel Marulanda.

Cedo, as Farc mostram sua face cruel, matando e raptando civis, usando o sequestro como chantagem política e fator de extorsão. Cometeram crimes de guerra e contra a humanidade. Ao manter relações promíscuas com o narcotráfico e ao praticar o terrorismo, tornou-se um problema mundial. Entrou no rol das organizações consideradas como terroristas pela União Europeia, Estados Unidos e Canadá.

Para a América do Sul foi um fator de desestabilização. Quase leva à ruptura das relações entre a Colômbia, Equador e Venezuela em 2008, quando um acampamento das Farc em território equatoriano foi bombardeado pelas tropas regulares da Colômbia.

Na primeira década do século XXI, a grande preocupação geopolítica dos militares brasileiros era quanto à possibilidade de a guerrilha colombiana usar território brasileiro como rota de fuga ou base de apoio.

Na Colômbia empoçada de sangue as Farc sequestraram a mantiveram a senadora Ingrid Betancourt como refém por seis anos e assassinaram onze deputados do Valle de Cuaca, sequestrados em 2002. A violência tinha outra face: forças regulares do Estado sequestravam camponeses, os “falsos positivos”, e os assassinavam para “engrossar” a lista de “guerrilheiros” mortos em combate.

Nessa selva, os paramilitares de extrema direita, como a Autodefesa Unidas da Colômbia, também se aliava ao narcotráfico e promovia chacina de camponeses, tão bem retratadas na segunda temporada da série “Narcos”.

Para se ter uma ideia da carnificina: em Montes de Maria, região situada no centro dos departamentos de Bolivar e Sucre onde a guerrilha e paramilitares travaram combate contínuo desde os anos 80, foram mortas 80 mil pessoas, a maioria delas civis, simples camponeses.

É essa Colômbia que o acordo assinado em Cartagena, apoiado por Barack Obama, o Papa Francisco e intermediado por Raul Castro, quer deixar para trás. Não é fácil superar traumas e desconfianças. E é mais difícil ainda quando se leva em consideração as palavras de quem viveu seis anos no cativeiro, como Ingrid Betancourt: “Há pessoas que construíram sua riqueza com a guerra, que obtiveram força política com a guerra”.

A paz contraria interesses. Mas é compreensível que parte dos colombianos não concordem com os termos do acordo, particularmente com os que instituem um Tribunal Especial de Paz para julgar os crimes de guerra e contra a humanidade, cometidos ou por guerrilheiros ou os militares; assegura um mínimo de presença das Farc no parlamento; e institui uma remuneração, por dois anos, para os ex-guerrilheiros.

É o preço que se paga para não repetir erros do passado. Há oito anos, foi assinado um acordo por meio do qual os paramilitares entregaram as armas.  Como não encontraram meio de vida, ocuparam parte do espaço deixado pelos cartéis dos anos 90 e integram hoje os chamados Bacrim – bandos de criminosos.

São sábias as palavras de Fabíola Perdomo, uma das viúvas do massacre do Valle da Cauca: “prefiro ver as Farc no Congresso do que vê-las atirando no campo e causando tanta dor”.

Fabíola prega a esperança e faz campanha pelo sim, no plebiscito. Talvez seu gesto se explique pelas palavras do escritor Hector Abad Faciolince, cujo pai foi assassinado por paramilitares:

“A paz se faz para esquecer a dor do passado, diminuir a do presente e prevenir a futura”.

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Mudar o Ensino Médio é urgente, urgentíssimo

 

O governo divulgou nesta quinta-feira o texto da Medida Provisória que prevê uma ampla reforma do ensino médio (Foto: Carolina Antunes / PR)O governo divulgou nesta quinta-feira o texto da Medida Provisória que prevê uma ampla reforma do ensino médio (Foto: Carolina Antunes / PR)

por Hubert Alquéres

A educação é essencial para a dignidade do ser humano e para a cidadania. Estes são fundamentos da nossa República. E a concretização desse direito propicia o desenvolvimento de potencialidades, confere autonomia, qualifica para o trabalho, dissemina valores. Permite, em suma, uma pessoa mais completa, consciente e realizada.

O ensino básico brasileiro está longe de superar seus desafios, como mostram as taxas de evasão escolar, os índices de reprovação e os níveis de aproveitamento medidos por mecanismos nacionais e internacionais de avaliação.

As maiores dificuldades estão no ensino médio, que permanece com um currículo excessivamente acadêmico e inteiramente desconectado da realidade do mercado de trabalho. Por isso, é pouquíssimo atraente para os jovens. Prova disso são a elevadíssimas taxas de evasão, de 9,5% na primeira série, 7,1% na segunda e 5,2% na última. Pior: o Brasil possui 1,7 milhão de adolescentes entre 15 e 17 anos, idade em que deveriam estar cursando o ensino médio, fora da escola.

O último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, divulgado no início do mês, deu a dimensão do desastre do ensino médio nacional, estagnado desde 2011. Segundo o Sistema da Avaliação do Ensino Básico, um dos braços de cálculo do IDEB, o desempenho dos alunos foi o pior desde 2005. A tragédia se traduz em outros dados divulgados no Jornal Hoje (TV Globo): por ano, um milhão e 200 mil alunos abandonam as salas de aula e apenas um em cada dez alunos do grau médio estão satisfeitos com o ensino que recebem.

O país está inteiramente em descompasso com o mundo.

A educação vive hoje um momento de transição, em escala planetária. Nossas salas de aulas, a separação rígida entre as matérias e o modo de ensinar deveriam estar acompanhando os novos tempos. É inexorável que as escolas estejam muito diferentes em poucos anos. O próprio papel do professor, atualmente um transmissor do conhecimento, não será o mesmo com tantas fontes de aprendizado, tão diversificadas e à disposição de todos.

É essencial que se marche para um ensino cada vez mais multidisciplinar e transversal, onde as aulas expositivas se combinem com o estudo por projetos, a exemplo do que já acontece em outros países e em algumas escolas de ponta de nossa rede de ensino.

A educação no Brasil chegou onde está não por falta de indicadores ou levantamentos. Há hoje uma série de estudos esmiuçando como caminha a área, onde se localizam os principais desafios e a forma de ultrapassá-los.

Há 18 anos discute-se a necessidade de parâmetros curriculares ou de uma base curricular comum. Esse debate vem desde os tempos do ministro Paulo Renato de Souza. Em 2015, um grupo de educadores apresentou cinco propostas para a educação, entre as quais a reforma do ensino médio, com base em uma grade curricular mais enxuta e flexível, na adoção do ensino integral e na formação dos professores.

Não por acaso, os estados com os maiores saltos no IDEB foram Pernambuco e Rio de Janeiro, onde o ensino integral mais avançou.

O caminho das pedras é conhecido. O que falta é uma política pública adequada para reverter esses indicadores com mais eficiência e rapidez.

Por isso é extremamente bem vinda a iniciativa do governo Michel Temer de apresentar uma grande reformulação no ensino médio.

A proposta tem por diretriz a diversificação da oferta, possibilitando aos jovens diferentes percursos acadêmicos e profissionalizantes. A carga horária passa de 800 para 1.400 horas anuais, o que corresponde a 7 horas diárias em 200 dias letivos. O currículo, que hoje abarca 13 disciplinas obrigatórias, também sofrerá modificações.

Durante todo o primeiro ano e metade do segundo, o estudante seguirá aprendendo o básico de cada matéria, dentro dos pilares que já norteiam o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem): Linguagens, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Matemática. No ano e meio seguinte ele poderá priorizar assuntos que sejam de seu interesse para um futuro ensino técnico ou superior. Os objetivos são flexibilizar os currículos escolares, com a combinação de matérias obrigatórias e outras mais ligadas a interesses específicos dos alunos, ampliar a jornada escolar e reforçar o ensino profissionalizante.

O fato das mudanças serem levadas à frente por meio de uma Medida Provisória, para apressar sua entrada em vigor, não inibe o debate como alguns querem fazer crer. Ao contrário, revela o sentido de urgência e a prioridade que se deve dar à Educação.

A reforma do ensino médio é pra ontem, é urgente, urgentíssima. Sem ela, o país continuará retardatário, condenando-se ao atraso. E não ingressará na agenda do século vinte e um.

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Deu chabu

Lula (Foto: Dida Sampaio / Estadão)Lula (Foto: Dida Sampaio / Estadão)

por Hubert Alquéres

Esperavam-se as ruas pintadas de vermelho e incendiadas, no último final de semana, depois do rufar dos tambores do ex-presidente Lula. Mais: em um partido estruturado à base da unichefia e do centralismo lulista, a expectativa era a de que todos os candidatos petistas vestissem a farda, pendurassem a estrelinha no peito e fizessem da defesa de Lula o carro-chefe de suas campanhas, particularmente em seus programas televisivos.

Nada disso aconteceu. O país não entrou em clima de conflagração, conforme as previsões mais catastrofistas. Não tanto pela força e estabilidade do governo (cujo presidente pode viajar e discursar na Assembleia da ONU, sem correr riscos de ser destronado), mas pela falta de poder de reação do lulopetismo. O ato de domingo na Avenida Paulista foi mais uma demonstração de fraqueza do que de força.

Lula, é verdade, frequentará alguns palanques nessa reta final de campanha, particularmente em cidades onde o PT tem alguma chance de ir ao segundo turno, para dar continuidade à narrativa do “golpe continuado, do qual será a próxima vítima”.  A questão é saber se sua presença mais ajudará ou atrapalhará as candidaturas petistas.

Os indicativos são de que Lula, ao contrário de eleições passadas, é um andor difícil de carregar, a não ser nos grotões do país. Por dever de ofício e até para cumprir tabela, os candidatos do PT devem pôr no ar uma nota de 30 segundos de defesa de Lula, preparada pela Direção Nacional. Mas pouco ou quase nada além disso. Pensam, antes de tudo, em sua própria sobrevivência.

E sobreviver não está sendo nada fácil. Com raras exceções, o PT se tornou o partido dos 8% de intenção de voto. Mesmo no ABC, onde nasceu, vai mal das pernas. Deve ficar fora do segundo turno até em São Bernardo. A toada é a mesma em quase todo o chamado “cinturão vermelho” da Região Metropolitana de São Paulo, nas cidades médias do Estado e em quase todas as capitais.

O PT lidera as eleições apenas em Rio Branco e Porto Velho, e passa vexame em Belo Horizonte, ficando atrás do PROS. Em São Paulo o atual prefeito em busca da reeleição, Fernando Haddad, corre sérios riscos de ficar fora do segundo turno. Com um desempenho inimaginável há um ano, pode até não alcançar a casa de dois dígitos dos votos.

A dez dias do pleito, não se vislumbra um milagre capaz de salvar o PT da hecatombe eleitoral.

O problema não é apenas o exército enfraquecido, sem poder de reação. É também o fato de seu comandante em chefe ter sido absolutamente surpreendido e obrigado a rever sua estratégia com suas divisões já em movimento. Quando não bem executada, a manobra costuma criar mais confusão e dispersão.

Consumado o impeachment, o estratagema do caudilho parecia adequado ao novo momento, capaz de levar sua tropa à ofensiva por meio do “Fora Temer”. Nos seus planos, essa bandeira serviria para tirar as candidaturas petistas da UTI e aplainar o terreno para seu retorno em 2018. Nesse escopo, concebeu-se o 22 de setembro como um dia de paralisação nacional, uma “greve geral”, como os mais afoitos passaram a chamar, para emparedar o governo às vésperas da eleição.

Lula calculava que, antes do pleito, as massas já estariam sublevadas contra as reformas que retirariam “direitos”.

O presidente Michel Temer, porém, não se deixou cercar. Internacionalmente está refazendo as pontes e negocia com parte das centrais sindicais as reformas previdenciárias e trabalhistas, para reduzir as resistências. Fica difícil mobilizar contra a “retirada dos direitos” se não está patente para as massas qual direito, concretamente, está sendo retirado.

A ação fulminante do Ministério Público Federal embaralhou tudo. Em vez de fazer um movimento ofensivo, Lula teve de passar para a defensiva. Foi forçado a construir toda a narrativa para evitar a paralisia de suas tropas.  Conseguiu, no curto prazo, manter a coesão interna. Não ganhou, porém, a batalhas das ruas. E nem os corações e mentes dos brasileiros.

Dois fatores determinam o chabu da estratégia.

A bandeira da defesa de Lula não tem o mesmo apelo do “Fora Temer”. Não unifica nem mesmo os segmentos que pregam “Diretas Já”. Seu poder mobilizador limita-se às fileiras internas. O SOS Lula, por sua vez, bate de frente com o sentimento majoritário da sociedade.

Independentemente de eventuais excessos, a Força Tarefa da Operação Lava-Jato é admirada e respeitada pela maioria dos brasileiros. Uma coisa é eleger os parlamentares do Congresso Nacional ou Temer como “golpistas”. Outra é carimbar esse selo na testa do Ministério Público e do Judiciário.

Isso não cola. Lula que o diga. Já é réu e sem privilégio de foro. Terá de se ver com o juiz Sérgio Moro.

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Os marginais da República

Eduardo Cunha e Lula (Foto: Arquivo Google)

por Hubert Alquéres

A cassação do deputado Eduardo Cunha e a posse da ministra Carmem Lúcia como presidente do Supremo Tribunal Federal nos remetem a dois marcos da nossa literatura: “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro e “O homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda.

No primeiro, o escritor baiano narra de forma crítica e meio escrachada a trajetória do Brasil e da formação de sua identidade, numa versão bem distinta dos livros e documentos oficiais. Já o texto de Sérgio Buarque, publicado no livro “Raízes do Brasil”, analisa como as elites se apropriaram da cordialidade e da informalidade, traços da alma dos brasileiros, para fazer do Estado uma extensão dos seus interesses – pessoais ou políticos.

Esses dois protagonistas – povo e elite – apareceram de maneira diferente, nessa segunda-feira. Sua excelência o cidadão foi o grande sujeito do discurso da ministra Carmem Lúcia e tem sido, de uma forma ou de outra, o elemento impulsionador para que, aos trancos e barrancos, os poderes da República se movam e o país venha sendo passado a limpo.

Sem a pressão da sociedade, Eduardo Cunha não seria cassado, não teria havido o impeachment de Dilma Rousseff, um ex-presidente não estaria correndo riscos de ser processado e condenado e a Lava-jato não teria chegado onde chegou, com a prisão e condenação de uma parte da fina flor do empresariado.

As instituições de Estado, como a Procuradoria Geral da República, Polícia Federal, instâncias da Justiça, inclusive o STF na maioria de suas decisões, também jogaram papel importantíssimo, claro. Não sabemos, contudo, até onde iriam se não houvesse o respaldo das ruas.

Não faz o menor sentido cair no endeusamento desse ente, o povo, ou transformar em virtudes traços negativos de nossa identidade, de nossa formação.  O “jeitinho” perpassa toda a pirâmide social. Sua elite, mas também sua base, embora seja injusto dar a esses dois polos o mesmo peso na balança.

Para o andar de baixo, é a forma da sobrevivência, para o andar de cima, a de manter seus privilégios.

Somos uma sociedade de incipiente consciência política, até bem pouco tempo paralisada pelo desencanto e pela sensação da impunidade. Tudo pode voltar a ser como dantes, no quartel de Abrantes, se não forem superados gargalos, alguns dos quais seculares, de nossas instituições.

A Justiça, como destacou a ministra Carmem Lúcia, continua distante do cidadão comum. Opera com letargia e ainda gera a percepção de que o “homem cordial” de hoje é tão inatingível quanto nos tempos da Casa Grande, do Sinhôzinho.

O que dizer então do fosso abismal entre o mundo da política formal e o sentimento da sociedade? O sistema político está absolutamente falido, inteiramente de costas para o povo que a palavra da presidente da Suprema Corte quis expressar.

Um bom exemplo são as eleições municipais: o que mudou na campanha televisiva?

Os candidatos continuam sendo vendidos como um produto, dando tapinhas nas costas dos eleitores e pegando criancinhas no colo. É a própria figura descrita por Sérgio Buarque de Holanda, em 1936.

O sujeito cordial dos tempos atuais está em todas. Está na TV com promessas mil e juras de que não é político, fez discurso inflamado na Câmara pela cassação de Cunha e esteve na posse da nova presidente da Suprema Corte como convidado. Ou Lula, Sarney, e Renan não se enquadram no protótipo do homem cordial?

No caso de Lula, nem se fale. Simpático, paternalista, é chegado ao compadrio moderno; aquele onde o Estado não é apenas extensão do círculo familiar ou de ambições pessoais. É também extensão de um projeto de poder, de partido.

Talvez por isto tenha cofiado tanto a barba, com ar de preocupado, ao ouvir as palavras do ministro Celso de Mello. O decano do STF, em um discurso certamente acertado com seus pares, foi absolutamente cristalino. Não haverá cordialidades com os “marginais da República, cuja atuação criminosa tem o efeito deletério de subverter a dignidade da função política e da própria atividade governamental”.

Quem sentou no banco de convidados, amanhã pode estar no banco dos réus.

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O calcanhar de Temer

por Hubert Alquéres

Calcanhar de Aquiles (Foto: Arquivo Google)Calcanhar de Aquiles (Foto: Arquivo Google)

07/09/2016 – 01h20

Como Aquiles, o presidente Michel Temer também tem seu calcanhar. E não é o grito de “fora Temer” que começou a ecoar nas ruas em manifestações que não devem ser subestimadas. Elas crescerão, mais ou menos, na relação direta da capacidade de o governo se embaralhar nas próprias pernas.

A recíproca também é verdadeira, quanto mais acertar, menores serão os protestos, embora seja previsível que esse caldo venha a ser engrossado pelas naturais resistências de quem terá seus interesses corporativistas e privilégios afetados pelas reformas estruturais. Até aí, tudo bem. Não se faz parto sem dor.

O verdadeiro calcanhar de Temer é a contradição interna de seu partido, onde são nítidas as resistências ou descompromissos de parte de suas lideranças com a agenda das reformas. Até por seu caráter federativo, o PMDB não opera como principal agente da coesão das forças governistas.

Algumas de suas alas são dadas a fazer bondades com o chapéu alheio, à custa da parte de baixo da pirâmide social, que é a grande prejudicada pelas concessões a corporações de grande poder de vociferação, como o setor do judiciário.

O apego ao populismo por parte desses segmentos peemedebistas é o grande obstáculo para a aprovação da emenda constitucional que cria o teto dos gastos públicos, sem a qual é impossível gerar emprego.

Lideranças do PMDB brincam de Tiradentes com o pescoço alheio. Jogam para os partidos da antiga oposição o papel antipático de defensores do ajuste fiscal e de reformas aparentemente impopulares, mas condição sine qua non para a retomada do crescimento de forma sustentada.

Temer não deixa de ter razão ao alegar que uma de suas principais tarefas é fazer uma DR, ou seja, “discutir a relação” com uma base aliada composta por mais de vinte partidos. Sua missão, porém, poderia ser facilitada por sua legenda. Isso só mostra o quanto a reforma política deveria entrar na ordem do dia e ser encampada, para valer, pelo PMDB.

Não se pode exigir dos aliados que tomem bola nas costas, como aconteceu na lambança articulada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, na votação do impeachment, e engulam sapos caladinhos.

Isso mina qualquer relação de confiança entre parceiros, corrói a própria imagem do governo e faz o jogo de quem aposta no caos para retornar com seu projeto rechaçado nas ruas por milhões e milhões de brasileiros.

Tudo irá bem se a economia for bem. Isto não acontecerá, todavia, pela inércia. É fato que há sinais positivos, como uma leve melhoria na confiança dos consumidores. Os investidores internos e externos podem voltar antes do que se imagina se o governo fizer sua parte, se reduzir seus gastos e levar à prática um ousado programa de privatização, com regras claras e garantias de retorno.

O instinto aguerrido dos empresários não será despertado de supetão. Há recursos de fora do Estado dispostos a correr riscos próprios de uma economia de mercado. Os empresários, contudo, estão escaldados quanto a aventuras e a violações de fundamentos da boa economia. Nessa canoa, não entram.

Também há recursos lá fora.  Eles não virão por conta do nosso decantado bom mocismo ou por simpatias ao novo governo; por mais simpático que tenha sido Temer, na sua visita a China.

A economia depende de economia, mas também da política. Ter uma excelente equipe econômica é essencial, mas não basta. É preciso também harmonia na base política do governo, para dar sustentação às mudanças.

Para pôr fim à algaravia, o PMDB tem de afinar os instrumentos. Só assim Michel Temer conseguirá reger a orquestra de forma tal que se ouça a sinfonia.

Proteja o calcanhar, presidente.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2016/09/o-calcanhar-de-temer.html

 

As duas batalhas de Temer

pensando-o-brasil

Por Hubert Alquéres (*)

O Brasil vive tempos decisivos. A História acontece diante de nossos olhos e estamos forjando, nestes dias, o país das próximas décadas. Vivemos um tempo de transição e essa é a missão colocada à frente do novo governo: criar as condições para o país transitar de um Estado patrimonialista, e de uma economia desorganizada, para um estado pautado por valores republicanos e de uma economia estável; pré-condição para a conquista do crescimento sustentado e da justiça social. Como em toda transição, o velho e o novo convivem e conflitam entre si e o próprio governo espelha essa contradição, na sua composição. É uma batalha cujo desfecho não está dado, até porque elementos de imponderabilidade tem sido uma constante na presente conjuntura, mas Temer pode cumprir a missão que a história lhe delegou: colocar o país nos trilhos, dar os primeiros encaminhamentos para a reestruturação da economia e para a adoção de um novo modelo político.

A queda da presidente Dilma Rousseff abre a possibilidade para se reverter as inéditas crises econômica e de expectativas que o país atravessa, além de ser possível estancar a sangria dos cofres públicos, vitimados pela corrupção sistêmica dos últimos anos. Mas a verdade é que o mundo da política continua tão arcaico como antes.

O novo governo, portanto, terá de travar uma guerra em duas frentes: na economia e na política. Vamos à primeira.

Fundamentos econômicos sólidos, previsibilidade e credibilidade são pré-requisitos para a atração dos investimentos necessários à retomada do crescimento.

A sintonia fina a ser feita no ajuste fiscal deverá ter exatamente este objetivo e será por aí que a taxa básica de juros pode ser puxada para níveis mais civilizados e entrar em curva declinante.

Trata-se, portanto, de criar um ambiente favorável à retomada do crescimento, condição essencial para se enfrentar o enorme drama do desemprego, que hoje atinge 11 milhões de brasileiros.

Ele vai acontecer se o foco for um amplo programa de concessões, livre das amarras criadas pelo dirigismo tão presente nos anos Dilma. Em qualquer lugar do planeta, os investidores empregam seu capital onde estejam asseguradas duas condições: regras claras e possibilidade de retorno do investimento.

Um dos graves erros do governo Dilma foi querer definir por decreto taxas de retorno nas concessões, além de impor, em muitos casos, um sócio compulsório aos investidores: o Estado. A equipe de Temer acena com o fim dessa camisa de força. Isto é positivo. As privatizações podem deslanchar e atrair fortes investimentos.

pensando-o-brasil-03Outra trilha para crescer é o incremento das exportações, com a adoção de uma política agressiva no comércio exterior visando conquistar novos mercados. Por questões puramente ideológicas, o Brasil nos últimos 13 anos priorizou as relações Sul-Sul, deu as costas aos mercados dos EUA e da União Europeia.

A economia não é tudo e nem mesmo aqui se está perto de vencer a guerra.  Aliás, a crise não será superada da noite para o dia.   Não há espaço para ilusões quanto às resistências a serem enfrentadas na hora de se avançar nas reformas estruturantes – entre as quais a previdenciária e a trabalhista – e na desindexação da economia e do Orçamento da União.

Mas vamos à batalha política. Michel Temer fez um contrato de risco na composição de seu governo. Sabia que estava sujeito a trovoadas e tempestades ao ceder espaços a políticos e parlamentares envolvidos nas investigações da Lava-Jato.

O resgate da credibilidade da instituição governo, duramente corroída pelos escândalos patrocinados pelo lulopetismo ao longo dos últimos 13 anos, está na razão direta da capacidade de Temer entender o recado dado pelas ruas, nas jornadas recentes. Não há retorno, não há recuo, na Lava-Jato. Isso não passa na sociedade.

Se há alguma lição a tirar dos casos recentes é que ninguém, por mais poderoso que seja, tem a possibilidade de interromper as investigações. Não há pacto possível para pôr fim à Lava-Jato.

Pode-se arguir, com boa dose de razão, que nem tudo está como dantes no quartel de Abrantes. Por uma questão de justiça, reconheça-se que ninguém foi blindado, ninguém ficou resmungando contra “vazamentos seletivos” e muito menos a imprensa foi acusada de conspiração.

É uma diferença e tanto com relação aos tempos de Lula e Dilma. Isto só não basta. Se não houver novos procedimentos de governança, novos critérios na escolha dos quadros governamentais, novas crises estão contratadas desde já. É toda uma cultura a ser deixada para trás.

Não se exige do novo presidente a ruptura do contrato com os partidos e políticos tradicionais. Goste-se ou não, a aprovação das medidas que podem tirar o país do atoleiro passa pelo Congresso Nacional, onde essas forças são majoritárias.

Não pode, porém, dar as costas ao que a sociedade reclama: combate à corrupção e continuidade da Lava-Jato.

Sejamos claros: o balcão só prosperou nestes treze anos porque havia alguém do outro lado disposto a comprar as facilidades que os deputados se dispunham a vender. Os governos lulopetistas suprimiram a política e adotaram uma relação meramente mercantilista com os parlamentares, afrontando, assim, a autonomia do próprio Congresso Nacional.

É preciso enfrentar um leão a cada dia. A agonia de hoje é fazer a travessia do lulopetismo para um governo pautado em valores republicanos, capaz de resgatar a esperança dos brasileiros e a credibilidade das instituições; entre elas a própria Presidência da República.

Aos partidos da coligação não resta o menor espaço para ambiguidades. Não cabe a postura de semigoverno ou semioposição. Será absolutamente imperdoável se o PSDB, por exemplo, se furtar às suas responsabilidades para se “preservar” com vistas a 2018, como pregam algumas de suas lideranças. A História costuma ser cruel com quem põe seus interesses particulares acima dos interesses gerais da nação.

São muitos desafios a serem vencidos em pouco espaço de tempo. Não se espera que a administração Temer consiga resolvê-los de uma só vez. Mas, se avançar nos primeiros passos para a reorganização do país, seu governo já terá dado certo.  Nas travessias, o mar costuma ficar bravio, não será diferente na transição comandada por Michel Temer. Novas tempestades e trovoadas devem acontecer. Se quem estiver no comando do leme tiver as mãos firmes e não perder o norte, o Brasil chegará ao porto seguro, em 2018.

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Este artigo foi publicado originalmente na revista do Instituto Pensando o Brasil:

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