Sem ambiguidades

José Serra, Geraldo Alckmin, Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves (Foto: Divulgação)
José Serra, Geraldo Alckmin, Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves (Foto: Divulgação)

por Hubert Alquéres

Mais uma vez o PSDB vive o drama shakespeariano. O dilema é participar ou não do governo Michel Temer. Diante do histórico dos tucanos, a nova dúvida existencial seria cômica não fosse a extrema gravidade do momento. Nele, não há o menor espaço para ambiguidades. Não cabe a postura de semigoverno ou semioposição.

Será absolutamente imperdoável se o PSDB se furtar às suas responsabilidades para se “preservar” com vistas a 2018, como pregam algumas de suas lideranças. A História costuma ser cruel com quem põe seus interesses particulares acima dos interesses gerais da nação.

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Do ABC aos grotões

Parlamentares votam a admissão do processo de impeachment na Câmara dos Deputados (Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo)Parlamentares votam a admissão do processo de impeachment na Câmara dos Deputdos (Ailton de Freitas / Agência O Globo)

por Hubert Alquéres

O mapa da votação na Câmara Federal aponta uma dessas ironias da História. No seu nascedouro, no ABC paulista, o lulopetismo pintou como produto da modernidade do desenvolvimento capitalista – a exemplo de outros partidos operários que se erigiram em poder em países capitalistas e, de fato, criaram um ordenamento social mais justo.

Treze anos depois de ser governo, e no momento mais dramático da crise terminal de seu projeto de poder, o lulopetismo tem suas casamatas nas unidades da federação menos desenvolvida, onde a dependência do Estado marca a ferro e fogo a população e seus representantes, os parlamentares.

A ironia é exatamente essa: o partido que se propunha ser a força transformadora da sociedade é hoje um partido não mudancista e atrasado, perpetuador da forma ossificada de se fazer política.  Está de costas para o agronegócio, para a economia real e seus trabalhadores e para a classe média moderna – urbana e rural. Isto explica porque os melhoresdesempenhos eleitorais da presidente Dilma Rousseff foramno Nordeste e em Estados governados pelo PT.

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Beijou a lona

Beijou a lona (Foto: Arte: Genildo) Arte: Genildo

por Hubert Alquéres

A presidente Dilma Rousseff pode não admitir. Pode fazer leitura cor-de-rosa da votação na Comissão Especial da Câmara, mas não conseguirá empanar a nua e crua realidade. O governo beijou a lona no primeiro round do impeachment. Não tanto pelo resultado da votação, em si mesmo confortável para a oposição, mas, principalmente, pela erosão precoce do “novo centrão” articulado por Lula, a preço de ouro. Ou melhor, a preço da mais desbragada barganha de cargos públicos do pós-democratização do país.

O governo pode se recuperar no próximo round, o da votação no plenário da Câmara? Teoricamente pode. Nunca é prudente subestimar o peso da caneta presidencial, sobretudo em um Parlamento viciado ao toma-lá-dá-cá.

Mas não é a hipótese principal. As águas não estão correndo para este moinho, ao contrário. Talvez Dilma e Lula estejam descobrindo, tardiamente, que não basta apenas instalar o mercado persa. Há de se ter credibilidade na palavra empenhada. E o histórico do governo Dilma é de uma relação autocrática, de desconfiança dos políticos, de não cumprir acordo, de nunca, absolutamente nunca, tê-los como parceiros.

Quando o governo era forte, os partidos da base engoliam a relação subalterna, mesmo sendo esnobados solenemente em diversos momentos. Com Dilma enfraquecida e surgindo outro polo, a coisa muda de figura.

Mais uma vez, confirma-se a lei da política segundo a qual a expectativa de poder atrai mais do que o próprio poder. PP, PR, PSD e peemedebistas governistas preparam as malas para pular do navio e se jogar nos braços do vice Michel Temer. Eis aí uma das grandes razões da implosão do neo-centrão, também chamado de nova “repactuação” pelo ministro Jacques Wagner.

Conspira contra a presidente seu próprio discurso. Sem governar de fato há meses, Dilma semeia desesperança e prega o medo em seus palanques.  Não acena nem com lamparina no fim do túnel, não aponta saídas para a crise que ela, seu antecessor e o PT meteram o país. Sua única preocupação é a sobrevivência do seu mandato, daí o discurso monocórdico do “não vai ter golpe”.

É muito pouco para se construir qualquer base de apoio, quanto mais sólida.

O que teria a oferecer o governo Dilma caso sobreviva ao impeachment, além da repartição do butim ministerial?

Esse discurso não encanta, sobretudo quando é cotejado com o do seu vice-presidente, cujas palavras de pacificação, união, prioridade para enfrentar os problemas econômicos soam como música nos ouvidos de parlamentares, do mundo empresarial e de boa parte da sociedade.

Independentemente do juízo de valor do vazamento do áudio de Temer, o concreto é que ele estabeleceu um contraponto ao discurso presidencial.

Dilma constrói muros, aprofunda a divisão dos brasileiros, insinua com uma “oposição selvagem”, caso o impeachment prospere.

Da presidente só se ouve anátema e mais anátema. Temer se apresenta como construtor de pontes, prega o diálogo, acena com um “governo de salvação nacional que reúna todos os partidos”.

O eixo gravitacional da política está, portanto, em mutação. A presidente é uma estrela cadente que vai perdendo seus últimos raios de luz, se é que já emitiu alguma luz. Partidos e parlamentares da base governista deixam de orbitar o Palácio do Planalto e passam a girar em torno do Palácio Jaburu, até por instinto de sobrevivência.

O deslocamento dos astros não deixa margens para dúvidas. Um governo que há 16 meses tinha uma base parlamentar mastodôntica, hoje está em palpos de aranha para assegurar o apoio necessário para inviabilizar o processo de impeachment.

E é bem possível que não consiga. O contingente de parlamentares favoráveis ao impedimento da presidente vem crescendo continuamente. Nem mesmo toda a articulação de Lula, tem sido capaz de reverter essa tendência.

Nada, porém, está dado ou decidido. Ninguém morre de véspera. Mas Dilma começará o round decisivo já nas cordas. Se não tiver muito jogo de pernas, e esse não é o seu forte, será nocauteada no dia 17. E sem qualquer chance de o Senado alterar o resultado.

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Este artigo foi publicado originariamente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2016/04/beijou-lona.html

Vivandeiras e provocadores

Vivandeiras (Foto: Arquivo Google)

por Hubert Alquéres

Em momento tão conturbado da vida política nacional é importante registrar um fato: a crise, ao menos por enquanto, passa ao largo dos quartéis. É irrelevante aqui discutir se isto acontece porque os militares já não têm a mesma força política de 1964, ou porque a comunidade internacional e os brasileiros não aceitam mais soluções fora do escopo do Estado de Direito Democrático.

Importa mesmo é a valorização do fato objetivo: ao contrário do que aconteceu até meados da penúltima década do século passado, quando as intervenções militares ocorreram aos borbotões, as Forças Armadas se dedicam hoje às suas funções profissionais e constitucionais.

Com toda a crise ética, econômica e política, não tivemos, até o momento, episódio de monta de quebra da hierarquia e da disciplina – pedra angular de qualquer instituição castrense do mundo. Isso é positivo. É um indicativo de que a corporação militar vem respeitando o pacto estabelecido em 1985, na transição democrática. Preservar essas conquistas, evitar que a crise contamine os quarteis, são desafios colocados à nossa frente pelo momento político atual.

Nas crises, os extremos afloram. É o que assistimos agora. De um lado, segmentos da sociedade cada vez mais desencantados com a política formal, assumem o discurso do ódio, do neomarcatismo e sonham com a volta dos militares ao poder.

O lulopetismo, ao promover o assalto aos cofres públicos e fazer tábula rasa dos valores éticos, conseguiu a proeza de fazer ressurgir uma base social, ainda que pequena, de extrema direita. Aplainou o terreno para o retorno das vivandeiras; figuras que antigamente viviam a rondar os quarteis.

De outro lado, a autointitulada “base popular” do governo rasga a fantasia. Radicaliza seu discurso, ameaçando tocar fogo no país, caso o impeachment da presidente Dilma Rousseff prospere. Adota também o discurso do ódio. Aposta suas fichas num clima de confronto, na crença de que a presidente, se não for impedida, instituirá, finalmente, um “governo popular”.

Mais grave: a própria presidente aposta na conflagração política e social como tábua de salvação. Para safar-se, transformou o Palácio do Planalto em palanque político.

Como se não bastasse o aparelhamento, essa confusão entre público e privado, entre partido e Estado, a presidente dá provas de desrespeito à liturgia do cargo ao consentir que, em um ato oficial, haja a incitação à violência e a ruptura com direitos assegurados pela Constituição, como o da propriedade, e do livre exercício do mandato dos parlamentares. Sob seus olhos, radicalóides de plantão agridem e afrontam a soberania do Poder Legislativo.

A presidente não desrespeita apenas a liturgia, mas também o próprio conceito de hierarquia. Como maior autoridade do país, jamais poderia ter permitido que o representante da Contag, a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura, pronunciasse, em sua presença e no interior do Palácio do Planalto: “Vamos ocupar as propriedades deles, as casas deles no campo. Vamos ocupar os gabinetes, mas também as fazendas deles”.

É uma bravata, sabemos. Até porque as Forças Armadas estão aí para cumprir sua função de garantir a ordem, conforme determina a Constituição. Mas provocações dessa natureza são absolutamente dispensáveis e só revelam o descompromisso democrático dos extremistas de plantão.

Não há o menor sentido em se testar a capacidade dos militares de engolir sapos. Ou de tentar atraí-los para a crise, que já é suficientemente grave.

Que as vivandeiras e os provocadores deixem as Forças Armadas em paz. A democracia agradece.

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Este artigo foi publicado originariamente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat: