Sem liberdade não há educação

Por Hubert Alquéres

Estamos no limiar de uma nova era. As mudanças em curso já têm impacto direto na forma com que a sociedade se organiza. Na economia, na cultura, na maneira das pessoas se relacionarem, na política e na própria educação. Como em todas as mudanças, o novo provoca receios. A ele se opõem forças deslocadas pelo furacão da história que tentam fazer sua roda girar para trás, como se fosse possível voltarmos ao passado.

Vivemos em tempos aparentemente contraditórios. De um lado, o advento da Quarta Revolução Industrial cria oportunidades imensas para a humanidade equacionar suas mazelas. Haverá uma geração de riqueza suficiente para deixarmos para trás os problemas da fome, da migração desordenada, da degradação ambiental, das crises humanitárias.  Por outro lado, a Revolução 4.0 pode agravar a desigualdade e a iniquidade, se o excedente da riqueza gerada não for devidamente partilhado.

A inteligência Artificial possibilita livrar o homem do trabalho rotineiro e estafante, liberando-o para outras atividades e para tão sonhada busca da felicidade.  Pode, porém, ter efeitos devastadores, gerando um imenso exército expurgado do mundo de trabalho e da própria sociedade.

Aqui e lá fora vivemos o que a cientista política Lourdes Sola caracterizou como ativismo da discordância. Como resposta regressiva à globalização ressurgem o xenofobismo, o racismo, a intolerância política, religiosa e racial; o separatismo, o ódio. Uma onda regressista e conservadora nos valores e costumes varre o mundo e já chegou ao Brasil. Donald Trump, o Brexit e até mesmo as brigadas que no Brasil querem impor à educação o seu pensamento monolítico e monocrático, são manifestações do ativismo de surdos.

É nesse mundo instigante e ao mesmo conflitivo que temos o desafio de redesenhar a Educação para que ela seja contemporânea do seu tempo. E devemos fazê-lo em um país retardatário, cuja revolução educacional iniciou-se apenas no final do século vinte e ainda está inconclusa. Nosso desafio é duplo: zerar o passivo do século vinte e ingressar na agenda educacional do século vinte e um, para não perdemos, mais uma vez, o bonde da história.

Ainda não é possível descortinar plenamente o impacto da Inteligência Artificial na educação, mas certamente não será de somenos importância. Se hoje a memória está nas máquinas e a inteligência nos homens, imaginamos quão complexa será a missão dos educadores, quando a memória e a inteligência também estiverem nas máquinas.

Ainda não há resposta para tudo. Mas desde já, é visível a olho nu que a Educação também vive um momento de transição, onde o novo ainda não nasceu, mas o velho já não responde às exigências do momento. A forma como se estruturava a educação no século vinte é insuficiente para atender à agenda desse início do terceiro milênio.

Cada vez mais a escola é convocada a formar cidadãos e profissionais com espírito de liderança e de cooperação, que saibam atuar em equipe. Deles exige-se capacidade de articular as partes com o todo, também a capacidade de comunicação, de respeito à diversidade e rigoroso domínio de conteúdos específicos. Num mundo onde o professor não tem mais o monopólio das informações e do saber, a grande missão do educador é ensinar o jovem a aprender, a pesquisar e ser capaz de discernir o certo do errado.

Impossível a educação formar esse profissional, esse cidadão, em uma redoma de vidro, inteiramente descolada do mundo diverso e plural. A escola, para estar em sintonia com o mundo além de seus muros, necessariamente tem de ser pluralista e respeitar a diversidade. Como toda ciência, a educação requer um ambiente de liberdade, de tolerância, de respeito ao contraditório para poder se desenvolver.

Sim, nosso oxigênio é a liberdade. Liberdade de Cátedra, liberdade de expressão, liberdade de pesquisar, liberdade de ensinar, liberdade científica. A educação não pode estar sujeita a cruzadas moralistas e a ondas macarthistas que querem promover caças às bruxas nas escolas.

Com preocupação, assistimos à tramitação de projetos em diversas casas legislativas em todo o país com o objetivo de tutelar a educação. A pretexto de combater a “partidarização” da escola, afrontam a liberdade de cátedra, querendo definir o que o professor pode ou não pode ensinar. Querem impor aos nossos jovens o pensamento único, seu código de conduta, suas concepções de vida e de religião.

Vivemos tempos de cólera e de retrocesso em valores que julgávamos enraizados na cultura nacional. O caráter laico da educação pública – uma conquista consagrada em todas as constituições desde o advento da República – foi violado por decisão da instância máxima da justiça, o STF, ao considerar constitucional o ensino religioso nas escolas públicas.

As ondas não são eternas, um dia passam. Nós, educadores, estamos chamados a resistir, a não abrir mão daquilo que temos de mais sagrado: o dever de fornecer aos nossos jovens uma educação de forte conteúdo e que seja humanista. O século vinte e um não entrará para a história como o novo século das trevas, como desejam os obscurantistas. A educação já viveu momentos mais tenebrosos, mas eles foram superados porque a história estava ao nosso lado.

E mais do que nunca ela está em nossas mãos porque entendemos que sem liberdade não há educação e sem educação não há liberdade.

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Este artigo se baseia no discurso do professor Hubert Alquéres ao tomar posse na Academia Paulista de Educação.

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Hubert Alquéres é diretor no Colégio Bandeirantes, vice-presidente na Câmara Brasileira do Livro (CBL) e membro do Conselho Estadual de Educação onde preside a Câmara de Ensino Superior.

Todo Poder a Stalin

Stálin, Lênin e Mikhail Kalinin em 1919 (Foto: Communists party of Russia)Stálin, Lênin e Mikhail Kalinin em 1919 (Foto: Communists party of Russia)

 

por Hubert Alquéres

“Paz, Pão e Terra”, prometiam os bolcheviques que fizeram a revolução de 1917 sob o lema “todo poder aos sovietes” e contrariaram os cânones do marxismo, para quem o socialismo pressupunha uma base material desenvolvida, o que não existia na Rússia czarista. A “heresia” de Vladimir Ilyich Lenin consistiu em pular a etapa da revolução burguesa e fazer a revolução socialista em um país agrário, no qual a classe operária era extremamente minoritária.

A rigor mesmo, o poder dos sovietes nunca foi constituído. A vida desses conselhos operários foi efêmera. Cedo eles se transformaram em peça decorativa. E a chamada “democracia proletária”, dos quais os sovietes seriam sua expressão máxima, em uma falácia.

Os hagiográficos da revolução socialista justificam o “Comunismo de Guerra” e o “Terror Vermelho” dos primeiros anos da Revolução em virtude da sangrenta guerra civil que se seguiu à tomada de poder. Essa mesma visão determinista e conjunturalista também é usada para justificar os crimes de Josef Stalin. E tendem a livrar a cara de Lenin, ao considerar Stalin como uma distorção do leninismo.

Uma meia verdade, ou melhor, uma falsificação histórica.

Após a tomada do poder, ainda em 1917, Lenin cumpre a promessa de convocar a Assembleia Constituinte. Mas manda fechá-la logo em seguida porque os socialistas revolucionários de esquerda e os mencheviques liderados por Julius Martov tinham elegido a maioria. Nascia ali a ditadura do partido único, que depois se transformaria na ditadura de uma corrente – a do stalinismo – e, em seguida, na ditadura unipessoal de Stalin.

Lenin e seus seguidores cumpriram a premonição de Rosa de Luxemburgo, por meio de uma carta escrita em uma prisão alemã, em 1918:

-Sem eleições gerais, sem liberdade de imprensa e de reunião, sem um livre debate de opiniões, a vida em todas as instituições públicas fenece, torna-se uma mera rotina e só a burocracia permanece viva (…) Na essência é o governo da camarilha e sem dúvida sua ditadura não é uma ditadura do proletariado, mas a ditadura de um punhado de políticos (…) Socialismo sem liberdade política não é socialismo(…) Liberdade ativa para partidários não é liberdade”.

Em 1º de março de 1921 os marinheiros da fortaleza de Kronstadt se sublevaram, exigindo eleição livres nos sovietes, inclusão de todos os partidos socialistas nos sovietes, fim do monopólio no poder dos bolcheviques, dissolução de órgãos burocráticos, liberdade econômica para operários e camponeses, além de restauração dos direitos civis.

A agenda democrática e a Revolta de Kronstadt tem como reposta o massacre de seus marinheiros por tropas do Exército Vermelho comandadas por Mikhail Tukhachevsky. A repressão à Fortaleza, símbolo da Revolução de Bolchevique, uniu dois inimigos figadais: Stalin e Trotsky. Os bolcheviques foram os jacobinos da Revolução Russa, elevados a enésima potência. No livro O Fim do Homem Soviético, Svetlana Aleksievitch, prêmio Nobel de Literatura 2015, reproduz sentenças de três bolcheviques, que ilustram o desapreço pelo ser humano:

– Precisamos atrair para nós noventa ou cem milhões que povoam a Rússia Soviética. Com o restante não devemos falar – é preciso exterminá-los. (Zinoviev 1918)

– Enforcar (sem falta, enforcar para que o povo veja) não menos de mil kulaks (camponeses ricos) presos, que enriquecem… tirar-lhe todos os cereais, designar reféns… De tal modo que que a cem quilômetros em redor o povo veja e trema”. (Lenin, 1918)

– “Moscou está literalmente a morrer de fome” (professor Kuznetsov para Trotsky) Isso não é fome. Quando Tito ocupou Jerusalém, as mães judias comiam seus filhos. Quando eu forçar as vossas mães a comerem os seus filhos, então podem vir ter comigo e dizer “Temos fome”. (Trotsky, 1918)

A frase de Trotsky virou quase uma premonição. Quinze anos depois o canibalismo pintou com força na Ucrânia, no período grande fome decorrente da coletivização forçada da agricultura promovida por Stalin.

Svetlana narra um desses casos: “Na aldeia deles uma mãe matou o próprio filho com um machado para cozer e dar aos outros. O seu próprio filho… Receavam (os pais de família) deixar as crianças saírem de casa. Apanhavam as crianças como os gatos e cães”.

O quadro dantesco da grande fome de 1932/1933 foi produto direto de como se deu a acumulação primitiva do socialismo diante de uma sociedade agrária e de base material atrasada.

A eliminação dos kulaks e a apropriação de grãos para a exportação financiaram a industrialização acelerada. Em apenas dois planos quinquenais, a URSS tornou-se uma potência econômica.

Mas às custas de encharcar de sangue a imensa mãe Rússia. Da Ucrânia aos Urais, do Báltico ao Mar Negro, do Cáucaso a Sibéria.

O caminho da acumulação socialista escolhido por Stalin seria inviável sem o Grande Terror dos anos 30. Com Lenin, a URSS era uma ditadura para toda a sociedade e a democracia existia apenas no interior do partido bolchevique, embora o direito de facção tenha sido suprimido no 10º Congresso do PCUS em 1921. Os anos pós Lenin transformaram a ditadura do partido único na ditadura de uma única corrente do partido (a leninista-stalinista) e, em seguida, na ditadura unipessoal de Stalin.

Em vez de “todo poder aos soviets”, todo Poder a Stalin. Tudo o que a história provou ser o sinônimo da insensatez e da barbárie.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2017/10/todo-poder-stalin.html

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http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2017/10/todo-poder-stalin.html

 

“Proletários de todo o mundo, perdoem-nos!”

A Revolução Russa de 1917 (Foto: Divulgação)

A Revolução Bolchevique de novembro de 1917 pelo calendário gregoriano e de outubro pelo calendário juliano foi a mola propulsora da grande utopia do século 20: o comunismo. Para o bem e para o mal – e mais para o mal – marcou a vida e a morte, sonhos e pesadelos, como diz o historiador italiano Silvio Pons. E foi, ao mesmo tempo, “realidade e mitologia, ideologia progressista e dominação imperial, utopia libertadora e sistema concentracionário”.

A bipolaridade também caracterizou os descendentes de Vladimir Ilyich Lenin que se espraiaram pelo mundo. Os comunistas foram vítimas de regime ditatoriais e artífices de estados policiais, protagonistas de lutas sociais e libertárias e fundadores de regimes totalitários e liberticidas, na genial definição de Pons em seu livro A Revolução Global.

Sim, os comunistas estiveram na primeira trincheira das lutas pela jornada das oito horas, pelo direito de greve, pelos direitos da mulher no trabalho e ao voto, no enfrentamento do fascismo e do nazismo, entre tantas e tantas batalhas. O surgimento do primeiro país socialista incidiu sobre as sociedades capitalistas no sentido de consagrar em seu arcabouço conquistas sociais que perduram até hoje.

Os anseios por equidade e igualdade despertados pela Revolução Russa teve a sua melhor resposta no Estado de Bem-Estar Social, no qual a justiça social se concretizou em uma economia de mercado sem a supressão da democracia e das liberdades.

Mas ao se erigirem em poder geraram ditaduras atrozes. Do seu passivo fazem parte regimes tirânicos como o de Nicolae Ceausescu na Romênia, Erich Honecker na Alemanha Oriental, Pol Pot no Camboja, o terror da era Josef Stalin ou da Revolução Cultural Chinesa.

A instalação do socialismo em um país atrasado teve seu preço: a consolidação da ditadura do partido único por meio do terror e do extermínio de todas as correntes políticas – inclusive as com raízes operárias e camponesas, como os mencheviques de esquerda liderado por Julius Martov e os esseristas de esquerda (socialistas revolucionários com base sólida no campesinato).

Os fundamentos teóricos para o poder totalitário que viria a se instalar foi dado por Lenin às vésperas da Revolução, por meio do seu livro O Estado e a Revolução. Stalin não foi um desvio de rota. Foi a versão do leninismo levada às últimas consequências.

Como julgar uma revolução que prometia construir o paraíso terrestre por meio de uma sociedade sem classes, sem Estado, e da qual brotaria o homem novo – o “homo sovieticus” – e 74 anos depois ruiu por causa do seu obsoletismo tecnológico, por sua incapacidade de produzir bens de consumo moderno e por ter se transformado na sociedade da escassez?

A revolução de 1917 produziu feitos homéricos. Em poucas décadas a Rússia secularmente atrasada e autocrática dos tempos de czarismo transformou-se na segunda potência mundial, rivalizando com os Estados Unidos nas corridas espacial e armamentista.

Não se pode ignorar as páginas épicas que escreveu, como a derrota das tropas de Adolf Hitler às portas de Moscou, Stalingrado, Leningrado, assim como a vitória do Exército Vermelho na batalha final de Berlim. Os soviéticos foram capazes de mandar o primeiro ser vivo a orbitar o planeta – a cadela Laika   – e a levar o primeiro homem ao espaço sideral, o major Yuri Gagarin.

Mas nem por isso merecem a absolvição da história.

Já nos estertores da Pátria Mãe do socialismo, Mikhail Gorbachev indagava como era possível uma nação dominar inteiramente a tecnologia espacial e ser incapaz de fabricar um sapato ou uma calça de qualidade.

Há uma explicação lógica: para fazer frente à corrida nuclear e espacial, que ao final perdeu para os EUA – a URSS teve de deslocar volumosos recursos de outras áreas.  A consequência disso foi a escassez de produtos de primeira necessidade.

Para a população dos países que experimentaram o “socialismo real”, o comunismo está indissoluvelmente associado à fome, ao terror, à falta de liberdade, ao Muro de Berlim, às KGB e Stassi, às ditaduras de Stalin, Honecker e Ceaucesco.

Na sua fase terminal já não se discutia mais na URSS se sua história tinha sido um desastre; os debates eram sobre as razões dos desastres. E responsabilizava-se Lenin por ter dado o tom do poder soviético com o Terror Vermelho e os primeiros campos de concentração.

O melhor balanço dos 74 anos da experiência socialista soviética veio em forma de ironia em uma faixa de uma das manifestações multitudinárias de Moscou: “Proletários de todo mundo, perdoem-nos!”. Para quem viveu sob o tacão da tirania do partido único não há como oferecer a outra face e perdoar.

E para a história não há como não ser implacável em seu julgamento sobre os cem anos da Revolução Russa.

 

Cruzada moralista

Moralismo, moralidade (Foto: Pixabay)(Foto: Pixabay)

 

por Hubert Alquéres

Nestes tempos de anátema e de obscurantismo, constantemente a cultura e a educação têm sido alvo de uma cruzada retrógada. Os episódios se sucedem aos borbotões, dando conta de que estamos diante de algo muito mais extenso e profundo do que as exóticas “Senhoras de Santana” dos anos 80 ou dos estandartes medievais da antiga TFP – Tradição, Família e Propriedade. Vamos aos fatos:

1 – O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, impediu o Museu de Arte do Rio de abrigar a exposição QueerMuseu, a mesma que o Santander suspendeu por pressões de brigadas virtuais. Evangélico, o alcaide carioca atribuiu-se à função de censor e de crítico de arte, com poderes de determinar o que seus munícipes podem ou não ver.

2 – O ministro da Cultura Sérgio Sá Leitão reuniu-se com parlamentares das frentes Evangélica, Católica Apostólica Romana e em Defesa da Família irritados com a exposição QueerMuseu e a performance Le Bête, realizada no Museu de Artes de São Paulo. O ministro fez coro às críticas da bancada religiosa a Le Bête, e se comprometeu em introduzir um artigo na Lei Renault para atender aos reclamos dos religiosos.

O prefeito João Doria também não deixou por menos. Surfou nas críticas ao MAM por meio de um vídeo comentado por 157 mil pessoas em suas redes sociais. Perfil de seus comentadores: 62% homens, 40% evangélicos e 82% de direita. Na sua esmagadora maioria são brancos da classe média entre 35 e 45 anos.

3 – A coluna Poder em Jogo, do jornal O Globo, informa que o ministro da Educação Mendonça Filho vem sendo pressionado pela bancada evangélica para impedir o Conselho Nacional de Educação de inserir menções sobre identidade de gênero e orientação sexual na versão final de Base Nacional Curricular Comum. Se ceder aos religiosos, o ministro contrariará recomendação de educadores, especialistas e instituições da Educação consultados pelo Ministério.

4 – O Colégio São Luiz, um dos mais tradicionais de São Paulo, foi alvo do ataque – os quais o seu reitor, padre Carlos Alberto Contieri, chamou de “cibermilícias católicas” – devido uma palestra do médico, cientista e escritor Dráuzio Varella para pais de alunos. Fundamentalistas como os membros da Fraternidade Laical São Próspero acusaram o São Luiz, uma instituição com 150 anos de existência e dirigida por jesuítas, de promover a ideologia de gênero, pois a palestra abordaria temas transversais de gênero e de sexualidade.

5 – Tramitam no Congresso Nacional e em diversas casas legislativas projetos de lei inspirados no programa Escola sem Partido, que tem por objetivo monitorar os professores nas salas de aula e promover verdadeira caça às bruxas. Propositadamente, confundem a abordagem pedagógica sobre identidade de gênero e orientação sexual com proselitismo do que chamam de “ideologia de gênero”. As milícias do Escola sem Partido hostilizam educadores e instituições que não rezam por sua cartilha.

6- Sem o mesmo teor fundamentalista, mas nem por isso menos lamentável, o STF fez o Brasil retroagir ao período do império, quando não havia a separação entre religião e Estado. A Suprema Corte considerou constitucional o ensino confessional nas escolas públicas, uma violação ao caráter laico da educação pública.

Não estamos diante de fatos sem relação entre si, mas sim de um movimento engendrado por forças conservadoras e moralistas para fazer o pais retroagir em matérias de valores tão caros aos brasileiros, como o respeito à diversidade, ao pluralismo, à livre circulação das ideias e à liberdade de expressão.

A supressão de tais valores é pré-condição para a imposição do pensamento totalitário que, à exemplo da Santa Inquisição, usa a religião para coibir a ciência e as artes e impedir o desenvolvimento do ser humano. Não há criatividade artística sem liberdade de expressão, assim como é impossível uma educação de qualidade em ambiente de macarthismo nas escolas.

Vivemos no limiar de uma nova era, onde a robótica e a inteligência artificial terão tremendos impactos sobre o mundo do trabalho e a sociedade. Nesse novo quadro, cada vez mais a educação é solicitada a dar uma formação holística aos seus alunos, ensinando-os a discernir o certo do errado, a relacionar a parte com o todo e a desenvolver o pensamento crítico.

É impossível o sistema educacional formar profissionais e cidadãos para este novo mundo em uma redoma de vidro ou em ambiente monocromático, como querem impor os neofundamentalistas -, laicos ou religiosos.

O inquietante da cruzada moralista é que tem contado com aquiescência de autoridades e instituições que se deixaram emparedar. Ou por populismo demagógico ou porque elas mesmas buscam impor suas concepções religiosas e morais ao conjunto da sociedade. Por aí, a educação e a cultura estarão sob o tacão da ditadura do pensamento único.

 

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

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Em busca do centro perdido

Centro, labirinto (Foto: Pixabay)

por Hubert Alquéres

A um ano da eleição presidencial, as pesquisas já causam frisson. Petistas soltam fogos com a resiliência de Lula. No extremo oposto os seguidores de Jair Messias Bolsonaro dão cambalhotas de felicidade, como se a polarização esquerda-direita já fosse coisa decidida.

Deixando de lado o dado não desprezível se Lula será candidato ou não, pesquisas, nesta etapa, são pouco mais do que recall. Nelas, importam as pistas que fornecem sobre como anda a cabeça dos brasileiros e como ela evoluirá até 2018.

Para além do ranking entre os quatorze nomes pesquisados em oito simulações diferentes, o Datafolha faz uma revelação aparentemente contraditória com a performance dos dois pré-candidatos mais bem situados: 87% dos eleitores estão em busca de candidatos com passado limpo, que não é bem o caso de Lula.

E 79% valorizam em muito a experiência administrativa do candidato, requisito do qual Bolsonaro está a quilômetros e quilômetros de distância.

De fato, as águas parecem correr para os moinhos do centro democrático.

A recuperação, ainda que lenta, da economia e do emprego, cujo ritmo tende a ser mais forte no próximo ano, jogam a favor do centro, enquanto a deterioração dos indicadores econômico-sociais, fortaleceriam saídas regressistas e salvacionistas, à direita e a esquerda.

Mas este centro democrático corre na direção contrária à das águas, razão pela qual ainda não se firmou como alternativa à polarização arcaica esquerda-direita, traduzida nas candidaturas Lula-Bolsonaro. Primeiro por atomizar-se em várias candidaturas. Mas não apenas por isso.

Diferentemente da França de Emmanuel Macron ou da Argentina de Mauricio Macri, não surgiu no Brasil uma formação política de centro, capaz de unificar seu espectro. O que assistimos foi sua dispersão e enfraquecimento pois seus principais partidos e lideranças foram atingidos pela crise ética, nivelando-se, aos olhos dos eleitores, na vala comum da corrupção. A mesma que dizimou o PT no pleito de 2016.

Em outras palavras: o campo democrático foi atingido pelos raios das denúncias contra nomes como os de Aécio Neves e Michel Temer, embora seus efeitos arrasadores venham sendo subestimados por uma visão economicista que acredita na assunção do centro por meio exclusivo da recuperação da economia. Sérgio Fausto, executivo da Fundação Fernando Henrique Cardoso alertou, com propriedade, quanto aos riscos dessa ilusão.

É viável atrelar o futuro do centro democrático ao sucesso econômico do governo Temer, passando ao largo das questões éticas que o afetam? Que chances de sucesso terá uma candidatura com essa mancha?

Sem desvencilhar-se desse fardo, o centro tateia quanto a estratégia a ser adotada, com cada candidato atirando para um lado. O faro do governador Geraldo Alckmin o induz a adotar o discurso da conciliação, da experiência. E o prefeito de São Paulo, João Doria, opta pelo belicismo por considerar que Lula será o grande candidato a ser batido, mesmo se estiver impedido de disputar a presidência.

Quanto a Marina Silva, faz falta gestos de sua parte capazes de evidenciar sua identificação com o centro e com a conciliação nacional. Ou seja, esclarecer se sua disposição é aglutinar o vasto campo democrático ou disputar o espólio da esquerda pós-Lula.

Dada à soma zero das candidaturas do centro, onde uma anula a outra, a superação da inércia deste campo teria de vir de fora para dentro – da sociedade para os partidos, forçando sua aglutinação.

Primeiro, em torno de um programa capaz de reconciliar os brasileiros na reconstrução do Estado e no desbloqueio da democracia. E, como consequência natural, de uma candidatura agregadora.

Sem esses dois requisitos a tendência será a dispersão, algo semelhante ao acontecido no pleito de 1989, que elegeu Fernando Collor com seus trágicos desdobramentos.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

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