O ano em que Stalin ressuscitou

Por Hubert Alquéres

A onda revisionista sobre o papel de Stalin adquiriu visibilidade no Brasil em setembro, a partir de uma entrevista de Caetano Veloso ao programa de Pedro Bial, quando o compositor disse não ser mais um “liberalóide”. O maior nome da tropicália mudou seu juízo de valor sobre o socialismo a partir da influência do youtuber e jovem marxista Jones Manuel. O professor da Universidade Federal de Pernambuco é o maior divulgador no Brasil da obra de Domenico Losurdo, filósofo italiano e principal teórico da “ressurreição” de Josep Stalin.

Para seus críticos, Losurdo é um “terraplanista de esquerda”. Nega o caráter totalitário do stalinismo, assim como os “terraplanistas de direita” negam que a terra é redonda. Seu livro “Stalin – História crítica de uma lenda negra” virou uma espécie de bíblia do neoestalinismo ao pretender dar fundamentos teóricos para a reabilitação do maior ditador da União Soviética.

Segundo Domenico Losurdo, a caracterização de Stalin como um ditador sanguinário é produto da guerra-fria. Impulsionado por esse clima, Khrushchev teria escrito o seu famoso relatório, uma autopsia dos crimes cometidos pelo ditador que governou a União Soviética a ferro, fogo e muito sangue.

O filósofo italiano admite os erros de Stalin, mas os justifica por ter transformado a União Soviética em uma grande potência. Por essa linha, Hitler seria absolvido porque recuperou a economia alemã nos anos 30 e Mussolini, porque com ele os trens não atrasavam. As chamadas conquistas sociais do stalinismo também não o absolve. Outros países tiveram conquistas sociais mais robustas sem regime totalitário.

Quando confrontado pelos fatos, Losurdo apela para o escapismo, por meio do argumento de que os liberais cometeram crimes tão ou mais graves, ao longo da história, por meio do uso da escravidão, da pilhagem e do colonialismo, elementos da chamada acumulação primitiva. Ou seja, o fato de George Washington e Thomas Jefferson terem sido donos de escravos no século 18 justificaria o fato de Stalin ter usado mão de obra escrava no século 20 na construção de ferrovias e outras obras.

Seu arrazoado é uma falácia, em particular sua crítica a Hanna Arendt por equiparar o stalinismo ao nazismo. Ainda que tenha havido diferenças entre eles, ambos banalizaram o mal e fizeram do medo instrumento de dominação.

Antes da filósofa israelense, o escritor soviético Vasily Grossman, já tinha colocado o nazismo e o stalinismo no mesmo patamar, na sua obra magistral Vida e Destino. Detalhe: o livro de Grossman escrito no início dos anos 50, só foi publicado em 1989. Mikhail Suslov, ideólogo do Partido Comunista da União Soviética, dizia que Vida e Destino só poderia ser publicado 200 ou 300 anos por causa das verdades reveladas pelo livro.

Outro marxista, Erick Hobsbawm, estimou, em seu livro A Era dos Extremos, o número de mortos no período Stalin entre 10 a 20 milhões de seres humanos. Parte significativa das vidas ceifadas foram decorrência direta da coletivização forçada da agricultura. O excedente expropriado dos camponeses servia para financiar a industrialização acelerada.

A política de dizimação dos kulacks levou milhões de camponeses ao trabalho forçado ou à morte, muitos deles proprietários apenas de um cavalo ou uma vaca, além de um naco de terra.

Estabelecia-se cotas de deskulaquisados. Em um de seus livros, Ievguêni Ievtuchencko relata casos de regiões em que não havia kulacks e os critérios para enquadramento nessa categoria teve de ser rebaixado para preencher as cotas. Havia outra cota macabra: a de inimigos do regime a serem assassinados. Elas também eram infladas quando não havia número suficiente de “inimigos do socialismo”. Stalin testava a fidelidade dos membros do birô político mandando-os assinar listas de “inimigos do povo” que deveriam ser fuzilados.

Na Ucrânia, a coletivização forçada levou a morte por fome de três milhões de pessoas, no episódio conhecido como Holodomor (A grande fome). Em conversa com Churchill, Stalin disse que “esse foi o momento mais difícil que enfrentou”.

 Losurdo glamouriza os gulags, assim como Sartre glamourizou nos anos 50 e depois se arrependeu. Deles saíram a mão de obra escrava para a construção de obras como o canal Mar Branco-Mar Báltico, erguido por mais de cem mil prisioneiros, dos quais dez mil morreram de fome, de frio, de doenças e de estafa.

Sim, a acumulação primitiva utilizou expedientes que não a dignificam. Mas o capitalismo gerou uma democracia como a americana e um estado de bem-estar social na Europa. Já a herança do stalinismo foi rejeitada pelos povos que a experimentaram. Sim, o capitalismo é o pior dos modelos, exceto que até agora não inventaram nada melhor. A própria China comunista rendeu-se a ele.

Até os anos 50, intelectuais e artistas emprestaram seu talento para deificar Stalin. Alguns deles, como o baiano Jorge Amado, tiveram a honestidade de pedir desculpas logo após o Relatório Khrushchev. Quem sabe algum dia outro baiano, Caetano Veloso, peça desculpas por ter aderido ao neostalinismo tropical.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e do Conselho Estadual de Educação. Lecionou na Escola Politécnica da USP, na Escola de Engenharia Mauá e no Colégio Bandeirantes. Escreve semanalmente no site da revista Veja, no blog do Noblat.

O inimigo comum

Por Hubert Alquéres

A história é cheia de exemplos nos quais adversários tidos como irreconciliáveis deixam suas diferenças de lado e se unem para combater o inimigo comum. O caso mais célebre foi a aliança entre Stalin e Churchill, na segunda guerra mundial. No Brasil temos o exemplo da ampla frente democrática que levou à superação da ditadura militar e permitiu o país a ingressar no mais longo período de sua história sem interrupção da democracia.

Sim, na política como na guerra é essencial saber quem é o inimigo a ser batido e qual o teatro de operações onde a principal batalha será travada. Até fevereiro, o principal palco será o Congresso, onde Bolsonaro pretende avançar em sua “guerra de posições”, ocupando mais uma instituição estratégica – no caso dominar outro poder – por meio da candidatura de Arthur Lira à presidência da Câmara de Deputados.

Se seu candidato vencer a disputa, o presidente avançará em sua pauta, abrindo a possibilidade de colocar em risco conquistas históricas, e seu projeto de índole autoritária se fortalecerá. O negacionismo e a radicalização política também poderão sair revigorados, caso o candidato de Bolsonaro alcance a vitória.

Ter um Congresso domesticado é seu sonho de consumo. Até agora, o presidente tem sido contido pela ação do Parlamento e do Poder Judiciário, que tem interposto os necessários freios e contrapesos. Dominar um desses dois poderes desequilibrará a balança, em desfavor da democracia.

O centro e a esquerda finalmente se deram conta do perigo, deixando de lado suas diferenças. Se uniram em um bloco liderado por Rodrigo Maia, cujo nome é autoexplicativo: União da Democracia e da Liberdade. É isso que os une. Os onze partidos signatários do bloco terão um candidato comum para derrotar Arthur Lira. A união não apaga suas visões diferenciadas sobre várias questões, entre elas a economia. Mas elas, no momento, são secundárias em relação ao bem comum a ser preservado: a autonomia e independência do Poder Legislativo.

A disputa na Câmara deixou de ser entre o candidato A ou B, como apropriadamente definiu a carta assinada pelos onze partidos. Passou a ser entre uma visão do Parlamento como correia de transmissão do bolsonarismo e a existência de um Legislativo forte. Textualmente: “esta é a eleição entre ser livre ou subserviente; ser fiel à democracia ou ser capacho do autoritarismo; ser parceiro da ciência ou ser conivente com o negacionismo; ser fiel aos fatos ou ser devoto de fake News”. Na presidência da Câmara, que teve papel positivo nos últimos dois anos, Rodrigo Maia correspondeu ao que o momento histórico exige, inclusive no enfrentamento da pandemia.

Não há garantias de vitória, mas a simples constituição do bloco representa um enorme avanço, particularmente da esquerda que recusou-se a uma política de frente ampla desde a eleição de Tancredo Neves. O nós contra eles, onde o centro era visto como a encarnação do mal e a esquerda o suprassumo do bem, dá lugar a uma política mais sofisticada, onde em vez de se ressaltar as diferenças, acentua-se a convergência.

É natural e previsível que, conquistado o objetivo de derrotar o candidato de Bolsonaro, os partidos de centro e de esquerda defendam seus pontos de vista sobre questões relevantes. Mas seria um desastre se dispersarem. Ganhando ou perdendo haverá a necessidade da união. A rigor, o risco para a democracia só estará definitivamente afastado em 2022, na hipótese de Jair Bolsonaro não se reeleger.

Política não comporta ingenuidade, razão pela qual não se deve alimentar ilusões de que o centro e a esquerda marcharão com uma candidatura única em 2022.  Possivelmente cada campo terá mais do que um candidato. Até porque é natural e legítimo em uma eleição de dois turnos a existência de várias candidaturas.

Mas o que a disputa pela Presidência da Câmara pode inaugurar é uma relação não beligerante entre o centro e a esquerda, capaz de aplainar o terreno para uma composição no segundo turno da disputa presidencial.  Quando ela acontecer continuará sendo decisivo ter clareza sobre o inimigo a ser derrotado. Essa é a herança que a construção da União da Democracia e da Liberdade pode deixar para o país.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação. Escreve as 4as feiras no site da revista Veja, no blog do Noblat.

A guerra de Bolsonaro contra a Coronavac

Por Hubert Alquéres

Poucos países do mundo têm condições de absorver a tecnologia da indústria farmacêutica e ter produção própria da vacina contra a Covid-19. A esmagadora maioria dependerá da importação para imunizar sua população. O Brasil faz parte do seleto grupo que conta com centros de excelência como a Fundação Fiocruz e o Instituto Butantã. O segundo está envolvido no desenvolvimento de uma vacina – a Coronavac – prestes a estar disponível para a aplicação.

Em qualquer lugar do planeta isso seria motivo de comemoração, com o governo soltando fogos e respaldando a conquista capaz de salvar vidas e garantir a retomada da economia de forma segura.

Menos no Brasil.

Por ciúmes, negacionismo, interesses políticos e fundamentalismo ideológico o presidente Jair Bolsonaro trava uma guerra sem quartel contra a vacina do laboratório Sinovac. As vítimas são os 200 milhões de brasileiros, condenados a ficar bem atrás dos povos com acesso à vacinação. Os noticiários escancaram diariamente aos nossos olhos essa situação.

Mesmo governantes que no início da pandemia trilharam o caminho da negação se renderam à evidência e começaram a vacinação em seus países. Nesse rol se incluem Boris Johnson na Inglaterra, Manuel Obrador no México e até mesmo Donald Trump nos Estados Unidos.

Enquanto aqui o governo diz não ser possível definir quando vai começar a vacinação e muito menos com qual vacina. Premido pela intimação do Supremo Tribunal Federal, o Ministério da Saúde entregou um “Plano Nacional de Vacinação” cirurgicamente definido pelo ex-ministro Luiz Henrique Mandetta como um corte e cola do plano de imunização da gripe. Os cientistas citados no documento desautorizaram o Ministério por usar indevidamente seus nomes. Na reunião virtual da qual participaram entraram mudos e saíram calados porque seus microfones estavam desligados.

Bolsonaro não vacina e não quer deixar ninguém vacinar. Emparedado pela lógica implacável da ciência, soltou seus pitbulls para cima de São Paulo. O ministério da Saúde divulgou um vídeo de seu secretário-executivo, coronel Élcio Franco, mais um militar estranho no ninho, vociferando contra o governador João Doria. Já o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, se prestou ao papel de aríete de Bolsonaro, pregando o confisco da vacina produzida pelo Instituto Butantã e acusando Doria de criar um conflito federativo.

A estratégia do governo é eximir-se do fracasso pela via do ataque ao governador paulista. Por ingenuidade ou má fé, muita gente está comprando a versão de que tudo não passa de uma guerra política entre o presidente da República e o governador de São Paulo por causa da disputa presidencial de 2022.

Ela vai além É uma guerra de Bolsonaro contra os acertos de Doria, uma guerra do presidente contra a Coronavac. Desde o início ele se opôs à vacina da Sinovac pelas mesmas razões que se opõe à participação da Huawei no leilão do 5G. Ambas tem o mesmo vício de origem: são chinesas. A Anvisa, cujo comportamento deveria ser exclusivamente técnico, desvia-se de suas funções ao abordar em nota oficial “a potencial influência de questões relacionadas à geopolítica que podem permear as discussões nacionais e decisões estrangeiras relacionadas à vacina da Covid-19”.

Em nome do suposto interesse nacional e para agradar a sua claque reacionária, o presidente também quer vetar a vacina por critérios ideológicos. Só que o grande interesse nacional nesses tempos de pandemia é a defesa da vida dos brasileiros, a quem deveriam estar subordinados todos os outros interesses.

Jair Bolsonaro e João Doria seguiram estratégias diferentes no enfrentamento da pandemia. O presidente sempre foi árduo defensor da “imunização por rebanho”, pautada na ideia de deixar o vírus circular até haver uma percentagem grande de brasileiros com anticorpos. A partir daí adotou uma postura negacionista, sempre estimulando aglomerações, promoveu dança das cadeiras no Ministério da Saúde até ter alguém sempre às ordens como titular da pasta.

Cometeu ainda o erro de apostar em uma só vacina, a de Oxford, desdenhando até mesmo da produzida pela Pfizer. Isto explica por que, enquanto o Canadá tem contratado 10,3 vacinas por habitante, o Brasil tem contratado apenas 1,2 vacina por habitante. Estamos atrás do Peru e de Bangladesh.

Para azar do presidente, o grupo de Oxford ainda estuda se aplicará a vacina concomitantemente com a Sputnik, dos russos, o que atrasará ainda mais o calendário de imunização no Brasil.

O governador de São Paulo foi noutra direção. Enquanto Bolsonaro torpedeava o isolamento social e o uso de máscara, Doria seguiu o bom senso. Estrategicamente assinou há meses um convênio com a Sinovac e dotou o Instituto Butantã de uma fábrica para a produção da Coronavac, com capacidade de produzir diariamente um milhão de doses e de operar 24 horas por dia.

Agora colhe os louros de sua estratégia, enquanto Bolsonaro sente-se encurralado. A cada dia aumenta a fila de prefeitos no Butantã para assinar convênios. Já são 913 prefeituras e 13 estados. Doria será condenado por isso?

Virgens de bordel dão ênfase ao fato de o governador paulista poder se beneficiar politicamente, de olho em 2022. Como perguntou Carlos Andreazza em seu necessário artigo Pazuellização: “E daí?”

Ou Bolsonaro não está se beneficiando do auxílio emergencial? Isso é do jogo, é legítimo.

Deveríamos nos preocupar mais com o fato de o Brasil estar se transformando em uma imensa Bolsolândia, onde a Covid é uma gripezinha, a pandemia está no finalzinho, quem usa máscara é maricas, a morte de 180 mil pessoas é coisa da vida e vacina chinesa vai inocular nos brasileiros o vírus do comunismo. Ah, sim, e as pessoas para serem vacinadas terão de assinar um termo de responsabilidade.Tenham dó.

Que venha a Coronavac!

P.S.: Como a vida fala mais alto, finalmente o governo rendeu-se à realidade, incorporando, na manhã desta quarta-feira, a Coronavac ao Plano Nacional de Vacinação. Segundo o ministro Pazuello, isto está pacificado e o que passou, passou, e é hora de olhar para a frente. Menos mal. O fim desta etapa insana levará à salvação de milhares de vidas brasileiras.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Letras e escreve às 4as feiras no site da revista Veja, no blog do Noblat.

A volta dos tucanos

Por Hubert Alquéres

O PSDB está de alma lavada com a vitória de Bruno Covas em São Paulo, depois de ter sido derrotado nas urnas em 2018 quando teve apenas 4,7% dos votos no pleito presidencial. Agora volta a se reposicionar no tabuleiro, iniciando um movimento de deixar para trás os dias em que se confundiu com o antipetismo raivoso e mergulhou nas águas da antipolítica. Nascido como um partido de centro-esquerda, guinou perigosamente para a direita a partir de 2014 a ponto de, quatro anos depois, deixar se confundir com o bolsonarismo.

Na verdade, a desfiguração do PSDB vem de mais longe. Inicia-se na campanha de 2002, quando não soube defender o legado do governo Fernando Henrique Cardoso e ficou sem o projeto que vinha implementando para a nação entre 1995 e 2002. Pela força da inércia foi atraindo o voto anti-PT, mas de forma acrítica. Boa parte não aderiu aos seus valores. Ao contrário, os valores é que foram sendo rebaixados.

Na falta de um projeto nacional, desde o fim da era FHC o PSDB perdeu capacidade de dialogar com o conjunto do país, particularmente com o Brasil profundo. Com isso perdeu eleições regionais e teve reduzida sua participação em legislativos e executivos.

Manteve São Paulo, onde é governo há quase trinta anos. Talvez haja aqui uma questão a ser explicada mais pela antropologia do que pela a política. Apesar de reunir brasileiros de todos os cantos, a classe política paulista tem dificuldade de entender o restante do Brasil. E isso vem desde a revolução de 1930, como parte do conflito federativo. O PSDB carrega esse DNA em suas veias.

Não é, portanto, um problema específico do governador João Doria, embora ele também necessite se nacionalizar, para usar a expressão do ex-presidente Fernando Henrique. É um traço presente das candidaturas presidenciais dos tucanos, mesmo tendo chegado ao 2º turno com votação expressiva. O reencontro da social-democracia brasileira com seus primórdios passa por entender o Brasil de hoje e sua diversidade.

A vitória de Bruno Covas foi um alento nesse quadro. E pode contribuir para dar expectativa de poder ao PSDB. Partido político algum se consolida como força relevante se não despertar esta expectativa. Mas ela só não basta. É preciso empolgar a nação por meio de um projeto político e ter a capacidade de unir o país, assim como ocorreu com o Plano Real e Fernando Henrique nos anos 1990. Sem isso, seja quem for o candidato, terá o mesmo vício de postulações passadas que, embora legítimas, expressaram mais um projeto pessoal do que uma visão de mundo.

Soaram como música no ouvido de militantes históricos as palavras de Bruno Covas de que “será um subversivo dentro do partido. Vou encher a paciência para que o PSDB possa se encontrar”. Isso explica a observação de um tucano de raiz, sempre em posto de comando em campanhas eleitorais: “fazia tempo que não via uma militância tão aguerrida”.

Fazer o caminho de volta aos valores de sua fundação é uma aspiração de uma militância histórica que enxerga no neto de Mário Covas a possibilidade do reencontro do PSDB consigo mesmo. Mas há um longo caminho a percorrer, embora Bruno, ao lado do governador gaúcho Eduardo Leite, represente uma nova geração de tucanos por volta dos 40 anos de idade e com potencial de oxigenar a social-democracia brasileira.

O Brasil mudou muito, desde a fundação do PSDB. As disputas de classes se fragmentaram, as lutas identitárias tomaram força, as questões ambientais estão na ordem do dia e vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes da História. Apesar de terem trazido ganhos inegáveis para a humanidade, os avanços também escancararam grandes desigualdades que precisam ser vencidas. A pandemia tornou-as mais dramáticas.

Qualquer projeto político cuja centralidade não seja o enfrentamento das desigualdades terá grande chance de naufragar logo na largada de 2022. Sobretudo porque está se armando no Brasil uma grave crise econômica, com aumento do desemprego e a deterioração do poder aquisitivo dos brasileiros. A esquerda tradicionalmente tem um discurso articulado e populista para o enfrentamento dessas questões. Resta conferir se o PSDB e outras forças do centro estarão apetrechados para travar este embate.

A questão da desigualdade sempre esteve no centro da política de qualquer social-democracia digna do nome. Os tucanos não deveriam temer se assumir como uma força de centro-esquerda. Até porque os ventos que em 2018 sopraram para a direita começam a tremular em outra direção. O próprio governador de São Paulo já confessou ter evoluído para uma posição de centro-esquerda.

O sucesso de Bruno Covas explica-se em parte por não ter deixado a questão da desigualdade como monopólio da candidatura de seu oponente, Guilherme Boulos. E o bom desempenho do candidato do PSOL também se explica pela ênfase dada ao tema. A responsabilidade fiscal não é um fim em si mesmo. É pré-condição para o Estado retomar a sua capacidade de investimento, principalmente na área social.

Se souber responder a estes desafios, o PSDB poderá pleitear a liderança de um bloco político pautado na defesa da democracia, no enfrentamento da desigualdade, na união dos brasileiros. Nomes para tal os tucanos têm. Independentemente do quem, o fundamental é que em 2022 o presidenciável desse bloco tenha a virtude da moderação. O Brasil cansou da polarização. Quer um presidente que agregue, em vez de dividir.

Sem personalismos. Essa talvez seja a grande lição da vitória de Bruno Covas.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação. Escreve as 4as feiras no site da revista Veja, no blog do Noblat.

A carta-rolha do PT

Por Hubert Alquéres

Maior perdedor ao lado de Jair Bolsonaro, o Partido dos Trabalhadores sai do segundo turno das eleições municipais em meio a um transtorno semelhante ao do antigo PCB, quando veio à luz o famoso Relatório Khrushchov sobre os crimes de Stalin. À época, comunistas não se entendiam e cada cabeça era uma sentença. A crise de identidade foi de tal ordem que, em reunião da direção do Partidão, Carlos Marighella caiu em choro compulsivo, sem conseguir articular coisa com coisa.

Com desempenho eleitoral pior do que o de 2016, o PT não elegeu sequer um prefeito nas capitais do país. De quebra, antigos aliados, como o PDT e o PSB, saíram de suas asas e no campo da esquerda projetou-se Guilherme Boulos, a primeira liderança com vôo próprio capaz de ofuscar Lula. Após a derrota, a cúpula partidária parece uma Torre de Babel, sem entender o pronunciamento das urnas.

Não há consenso sequer sobre se houve derrota. No alto de seu daltonismo, a presidente do partido, Gleisi Hoffman, viu um Partido dos Trabalhadores vitorioso. Assim, não há autocrítica a fazer e, como sempre, a direção acertou. A narrativa de Gleisi tem o objetivo de interditar o debate para preservar a burocracia partidária. Sobretudo Lula, que vai perdendo a condição de semideus até mesmo entre petistas. Já o senador Jacques Wagner viu um zero a zero. O PT não ganhou nem perdeu. Durma-se com um barulho desses.

Há quem culpe a Covid pela derrota, por impedir Lula de sair pelo país afora fazendo campanha e a militância de ir às ruas. Esquecem um detalhe: nem de longe Lula é o mesmo cabo eleitoral de antigamente. Se até dois anos atrás candidatos disputavam a tapas o seu apoio, em 2020 tornou-se tóxico, e mesmo candidatos de esquerda o esconderam de seus palanques eletrônicos. Alguém viu presença expressiva de Lula no programa de TV de Boulos? Viu Chico Buarque, Wagner Moura, Sônia Braga, Teresa Cristina, mas o caudilho não. Até live com Caetano Veloso, Boulos fez.

Onde Lula teve presença mais ostensiva, como no Recife, a derrota de Marília Arraes fala por si só.

Na linha de buscar justificativas para a derrota, a direção petista delira. Em artigo divulgado no site do partido afirmou: “O Brasil viveu nesse segundo turno a eleição mais suja de sua história, retrocedendo o país aos tempos da República Velha”.

Há, porém, vida inteligente dentro do PT. Correntes minoritárias reivindicam a antecipação do congresso partidário para renovar a liderança. É uma minoria, mas dirigentes como Alberto Catalice não tapam o sol com a peneira: “não se pode converter derrota em vitória. Derrota é derrota.” Segundo ele, o PT está preso ao passado e Lula tem relação direta com o resultado eleitoral de 2020. Catalice foi mais longe: cometeu a heresia de recomendar que Lula se aposente e abra espaço para novas lideranças.

O Partido dos Trabalhadores está no divã, não há dúvidas. Levará tempos até compreender – se é que o fará – as causas de sua derrota acachapante. Desde sua fundação, o Brasil mudou profundamente pouco tendo a ver com aquele país do mundo fabril dos anos 80, época de sua fundação. Quando envelheceu, o PT tentou manter sua hegemonia à base do nós versus eles, desconectando-se da sociedade, sem fazer acerto de contas dos seus desvios éticos.

Até agora não entendeu o país que saiu das urnas, nas quais os grandes vitoriosos foram os partidos de centro, com um discurso de moderação e de união. Ciro Gomes e o PSB perceberam isso, descolando-se da esquerda mais intransigente e buscando construir pontes com todo o espectro do centro. Dificilmente embarcarão em uma “frente de esquerda” em 2022, como defendem alguns setores.

Não há nenhum desdouro em ir para o divã. Desde que se tenha humildade suficiente para reconhecer que estará isolado se insistir em ficar preso ao caixão de Lula, sem nada oferecer de novo ao país. Ser humilde implica em deixar de ouvir apenas a própria voz e de se considerar dono da verdade. Como as urnas demonstraram, o eleitor se cansou da política binária

Fará o Partido dos Trabalhadores o seu aggiornamento a ponto de se reencontrar com os brasileiros? Difícil crer. Sua direção tentará de tudo para se manter no controle da máquina partidária. Diante do risco de perder o controle da situação, o mais provável é que Lula repita Luís Carlos Prestes, que mandou encerrar o debate sobre o stalinismo em nome da “unidade do partido”.

À época, a ordem de Prestes ficou conhecida como a “carta-rolha”.  Foi contestada em artigo do jornalista João Batista Lima – “não se pode interditar o debate que está em nossas cabeças”. A conferir se Lula terá força para silenciar o que está na cabeça de muitos petistas.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação. Escreve às 4as feiras no site da revista Veja, no blog do Noblat.