A mãe de todas as batalhas

Queda de braço (Foto: Arquivo Google)

por Hubert Alquéres

Costuma-se chamar de mãe de todas as batalhas aquela determinante para o desfecho da guerra. Na batalha de Waterloo, os deuses da vitória sorriram para o Duque de Wellington, enquanto Napoleão amargou o fel da derrota. O mesmo aconteceu com os alemães em Verdun, na Primeira Guerra Mundial, e nas ruas de Stalingrado se deu a inflexão da Segunda, com a ruína de Hitler.

Em certo sentido, a reforma da Previdência está para o presidente Michel Temer assim como Waterloo esteve para Wellington, Verdun para os franceses e Stalingrado para os aliados.

Se vencer a batalha, consolidará os sinais positivos da recuperação da economia e estabelecerá a ponte para um Brasil reorganizado, em condições de alcançar o crescimento sustentado.

Nessa hipótese, entraria para a história como o presidente que completou as reformas estruturantes e modernizadoras. A aprovação lhe dará ainda fôlego para enfrentar os bombardeios que estão por vir com a revelação das delações da Odebrecht e a nova lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

O inverso também é verdadeiro. Se for derrotado, a incipiente recuperação econômica estará comprometida, com as expectativas dos investidores voltando à estaca zero. Sua base de sustentação iria para o espaço, com cada um cuidando de si, e seu governo entraria em estado terminal. Seus flancos estariam absolutamente desguarnecidos para enfrentar a artilharia pesada da Lava-Jato.

Quando assumiu o governo, Temer estabeleceu sua estratégia para travar as batalhas das reformas tendo em mente que o Teatro de Operações seria o Congresso Nacional. Isso explica, em grande parte, sua opção por estabelecer um contrato de risco com partidos e políticos tradicionais, mesmo sabendo que, com a Lava-Jato, estaria sujeito a tempestades e trovoadas.

Não fez o governo de notáveis, ficou de costas para o sentimento da sociedade e perdeu outra batalha, a das ruas, com sua popularidade em plano inclinado. Mas montou uma base de sustentação mastodôntica no Parlamento e escolheu um estado-maior profundamente conhecedor do Teatro de Operações e de como as tropas se movimentam dentro dele.

A estratégia parecia correta, sobretudo porque a outra frente – a economia – fora blindada com a escalação de uma equipe preparada e um comandante altamente competente.  Mesmo o fato de o PIB de 2016, divulgado nesta terça-feira, ter decrescido 3,6% tende a ser interpretado como um olhar pelo retrovisor, porque a equipe econômica começou a entregar a mercadoria encomendada.

Mas tudo começou a se complicar com o strike da Lava-jato. Um a um de seus generais da política foram caindo ou seriamente feridos. O próprio presidente também foi atingido, embora não fatalmente.

Com seu estado-maior em liquefação, Temer teve de se comportar como comandantes em chefe que, diante do perigo, vão para a linha de frente da batalha.

E ele foi. É do ramo, conhece bem o terreno e 80% do Congresso faz parte de sua base de sustentação. Se não conta mais com um estado-maior do mesmo quilate de antes, tem ao seu lado uma força-tarefa que não é composta por amadores.

As dificuldades se agudizam quando se leva em conta o fator tempo. Se não aprovar a reforma da Previdência no primeiro semestre, as condições serão ainda mais adversas no segundo, véspera do ano eleitoral, quando a sobrevivência fala mais alto e os parlamentares só têm olhos para a reeleição.

A dissintonia entre o tempo da crise política e o tempo da economia também joga contra. A crise se desenrola de forma célere, enquanto a economia real, aquela capaz de mudar o humor dos brasileiros, só dará sinais de reanimação nos meses finais do ano.

Em um Congresso refratário a medidas impopulares, não dá muito para confiar no ardor patriótico dos parlamentares. É previsível que o presidente terá de fazer novas concessões à sua base, para vencer a guerra.
Só não pode ceder no núcleo central da reforma – idade mínima de 65 anos e regras de transição para quem esta perto de se aposentar, segundo sua própria avaliação.

Se conseguir aprovar apenas uma reforma pífia, Temer sairá de sua batalha mãe não como Wellington saiu de Waterloo, mas como Pirro.

Com a guerra em curso, ele redefiniu sua estratégia: dobrou as apostas na economia como caminho para superar a crise política. Se conseguir convencer a tropa de que essa é a rota da salvação, pode até ser favorecido pelos deuses da guerra.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2017/03/mae-de-todas-batalhas.html

O que 1964 nos ensinou

por Hubert Alquéres

ditadura-militar[1]

                   “Contra qualquer golpe? Que golpe? Seremos os defensores desse Parlamento? Sua dissolução não virá agravar as contradições, apressar o desmascaramento do caráter conciliador do atual governo?”

A frase acima, de Carlos Marighella, mostra que ele não estava sozinho na sua visão equivocada sobre Continuar lendo

Em tempo de Murici, cada um cuida de si

por HUBERT ALQUERES

As chances de Dilma colher importantes derrotas no Congresso Nacional aumentam a cada dia. Teimosamente, o governo ainda não fez mudanças na interface com o mundo da política, particularmente com o Congresso e com o PMDB, que é quem manda de fato no Parlamento. Talvez porque Dilma não queira dar o braço a torcer. Ou talvez por não ter alternativas viáveis: há uma indigência de quadros de primeira grandeza, nas hostes petistas e lulistas.
Um dos possíveis substitutos de Ideli Salvatti é Continuar lendo

Congresso: Dilma não entendeu os novos tempos

por HUBERT ALQUÉRES

A presidente Dilma está cometendo um grave erro nas suas relações com o Congresso, ao agir à moda antiga: enquadrar os parlamentares de sua base com a liberação, em doses, das emendas parlamentares. Isto funcionava até antes das manifestações de junho, quando o Poder Legislativo, se submetia ao papel de ser um anexo do Executivo.
Com a presidente em alta em matéria de popularidade, o toma-lá-dá-cá findava por aplacar a rebeldia da base governista, embora muitos parlamentares torcessem o nariz para a baixa qualidade da articulação política do governo e para a ojeriza da presidente em relação ao mundo da política.
Mas os tempos são outros. A popularidade de Dilma foi ladeira abaixo. Os parlamentares, por sua vez perceberam que Continuar lendo

Discórdia Petista

Derrocada: primeiro foram os partidos aliados, agora é o próprio PT que se fragmenta e enfraquece a presidente.

Derrocada: primeiro foram os partidos aliados, agora é o próprio PT que se fragmenta e enfraquece a presidente.

por HUBERT ALQUÉRES

É uma lei da guerra: para ser vitorioso qualquer exército precisa de uma retaguarda unida e coesa. Esta lei também vale para o mundo da política.
O Partido dos Trabalhadores representa a retaguarda do governo Dilma e deveria estar unido e coeso em torno dela, para o que der e vier. Principalmente neste momento: as pesquisas mostram uma forte queda nos índices de aprovação da presidente. Ela atravessa uma brutal crise de liderança e Continuar lendo

Movimento dos Barcos

por HUBERT ALQUÉRES

E agora que o plebiscito virou passado?

E agora que o plebiscito virou passado?

A proposta do “plebiscito já” virou história e entrou para o folclore da política nacional como mais uma barbeiragem dos estrategistas do governo. Mas a sublevação do PMDB – acompanhada pelo PP, PTB, PSD E PSB quanto à insensatez do “plebiscito já” – é um indicativo de que pode estar acontecendo algo mais grave para Dilma: o risco do seu isolamento em função de sua queda livre nas pesquisas. No próprio PT, segundo artigo no jornal Folha de S.Paulo, “berzoinis, falcões e vaccarezzas não param de fazer intriga contra Dilma e as pressões para que Lula volte a se candidatar nas próximas eleições só crescem”.
Na política, a expectativa de poder atrai mais do que o próprio poder. Continuar lendo

Uma tragédia que não temos o direito de esquecer

por HUBERT ALQUÉRES

Kassab, Serra e Marrey (ao telefone): solidários numa tragédia que abalou centenas de milhares de pessoas.

Há exatos seis anos, às 18h50 do dia 17 de julho de 2007, o Airbus-A320 da TAM, voo 3054, saiu da pista do aeroporto de Congonhas e explodiu ao colidir com um prédio do outro lado da avenida. 199 pessoas perderam suas vidas e o Brasil se chocou com a maior tragédia aérea de Continuar lendo

Janela de Oportunidades

Candidatos de oposição estão ganhando musculatura para a disputa presidencial do próximo ano. Isso é bom para o Brasil.

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por HUBERT ALQUÉRES

Diante da nova pesquisa do CNT, José Serra, Eduardo Campos, Marina Silva e Aécio Neves se posicionam com chances crescentes na disputa presidencial de 2014. A pesquisa é muito ruim para Dilma. Vai aumentar a pressão para o “volta Lula”. E ela abre espaço para o surgimento de novas candidaturas, recoloca Serra no cenário e acelera o Continuar lendo