Fratura exposta

Com dois palanques e uma base dividida, Alckmin sofre em São Paulo

Hubert Alquéres *


São Paulo é a principal fortaleza da candidatura de Geraldo Alckmin. Suas chances eleitorais estão na razão direta de obter uma votação consagradora no Estado em que foi governador por quatorze anos. Precisa compensar a votação rarefeita que provavelmente receberá em outras regiões do país, como o Nordeste. Ter a sua principal base de apoio pacificada é condição sine qua non para a conquista daquilo que, imagina-se, é o objetivo estratégico do PSDB: a vitória do seu presidenciável nas eleições.

Parece óbvio, mas no tucanato nada é óbvio, dada sua propulsão a complicar as coisas. Indicava o bom senso que a construção de um único palanque na disputa para o governo do Estado seria o movimento mais adequado para o fortalecimento da candidatura Alckmin em São Paulo. Isto permitiria manter unidos todos os partidos da base de sustentação que deu a vitória ao tucano em 2014. Em particular a aliança com o vice-governador do Estado, Márcio França, do PSB.

Acostumado a jogar parado, Alckmin deixou as coisas acontecerem, na crença de que por decantação natural se chegaria à solução que mais lhe convinha. É verdade que, bem ao seu estilo, emitiu sinais contraditórios. Ora na direção de um palanque único -que no caso tem RG, CPF e se chama Márcio França-, ora na sua rendição à tese de um presidenciável com dois palanques estaduais.

Ao final, o governador submeteu-se ao fato consumado criado pelos próprios tucanos: terá dois palanques em São Paulo. Motivos mais comezinhos os levaram a lançar João Doria candidato ao governador do Estado, mesmo que para isto tenha de largar a prefeitura paulistana um ano e dois meses após sua posse. Falou mais alta a pressão de uma “militância” incrustada na máquina do Estado. A ela associaram-se os interesses dos que indicam e nomeiam uma multidão de cargos.

Feito o estrago, Geraldo Alckmin tratou de minimizar o prejuízo. Passou a considerar como normal a existência de duas candidaturas de um mesmo campo, como se isso fosse a prova viva de sua densidade eleitoral em São Paulo. Ledo engano. Na verdade, não teve forças para enquadrar seus companheiros de partido. Essa fraqueza decorre, em parte, da sua posição incômoda nas pesquisas, onde ainda não decolou. Com 8%, ele não oferece, por enquanto, expectativa de poder.

A receita para reverter o quadro adverso é sobejamente conhecida: tempo televisivo e palanques regionais robustos. Ou seja, alianças amplíssimas. Não pode se dar ao luxo de ver aliados escorrerem pelos dedos. E muito menos de ter a sua principal base de apoio dividida.

Troca de gentilezas

A tese da convivência harmônica entre dois palanques estaduais não durou um dia. A trombada entre João Dória e Márcio França aconteceu já na largada da pré-campanha, assim que foram divulgados os resultados das prévias do PSDB.

Como dois corpos não ocupam o mesmo espaço, Dória partiu para o ataque, com vistas a ter o monopólio do apoio de Alckmin. O alcaide tentou expurgar o vice-governador da base de apoio do presidenciável tucano, acusando-o de ser da extrema-esquerda.

Detalhe: o “esquerdista radical” Márcio França é aliado de longa data do PSDB, apoiou Dória na eleição municipal e foi eleito vice-governador na chapa de Alckmin.

O troco veio a galope. Márcio França chamou o prefeito de “traidor” do eleitor e de político sem palavra.

A troca de tantas gentilizas é café pequeno diante do que estar por vir.

Márcio França e Doria são dois trens em alta velocidade prestes a trombar de frente. No dia seguinte à sua posse como governador, França já anunciou que fará uma “limpeza” na máquina do Estado para demitir quem for para a campanha de João Doria. A retaliação deve vir da bancada estadual de parlamentares tucanos que anunciam passar para a oposição ao novo governador paulista.

Para evitar danos maiores, Alckmin vai ter de operar como algodão entre cristais.

Doria tem um estilo beligerante, cresceu na política escolhendo um inimigo para chamar de seu. Em 2016 foi o PT, agora é Márcio França. A polarização está para ele como a água está para o peixe. Faz parte de sua personalidade. Sem ela, não sobrevive.

Trata-se de uma belicosidade calculada. Escolheu o vice-governador como alvo por dois motivos. Apesar de ter apenas 2% nas pesquisas, França terá a máquina do Estado em suas mãos. Tem potencial de crescimento, sobretudo porque em São Paulo o PT está às traças.

O segundo motivo é que João Dória não é o mesmo fenômeno eleitoral de 2016. A avaliação dos paulistanos sobre sua gestão não é nenhuma Brastemp. Sua popularidade na capital vai piorar por largar a prefeitura um ano e três meses depois de assumir o cargo.

A saída é compensar a desidratação na capital com o interior, onde Geraldo Alckmin tem sido o grande eleitor. Por isso necessita carregar o presidenciável a tiracolo para ter a exclusividade de seu apoio.

Essa história de dois palanques nunca deu certo. Em vez de ser sinônimo da pujança de Geraldo, revela a sua falta de força para subordinar o movimento dos tucanos paulistas ao seu objetivo. A tendência é sempre o trem descarrilhar. Foi assim em 2008, na campanha à prefeito, quando o próprio Alckmin esqueceu o PT e partiu para cima de Gilberto Kassab.

Ninguém gosta de ser o primo pobre. Relegado a coadjuvante, Márcio França pode abrir seu palanque para outros presidenciáveis. Ciro Gomes está só na espreita.

Como diziam nossos avós, além de queda, coice. Bolsonaro avança no outrora reduto inexpugnável dos tucanos, a ponto de ultrapassar o tucano nas intenções de voto. Em São Paulo. De quebra, a base de apoio de Alckmin está com fratura exposta. Assim fica difícil.


*  Professor, membro da Academia Paulista da Educação, colaborador do blog Noblat/site Veja.

O Waterloo da Lava Jato

As ruas estão dispostas a mostrar que não estão mortas

As ruas têm sido decisivas nas páginas de nossa história recente. Sem elas, não haveria o impeachment de Dilma Rousseff, Eduardo Cunha e Sérgio Cabral não estariam na cadeia, Lula e José Dirceu não teriam sido condenados. E Marcelo Odebrecht e Wesley Batista estariam por aí livres, leves e soltos, operando como sempre.

A Lava Jato só chegou onde chegou porque a ação firme da Polícia Federal, do Ministério Público, e de juízes da primeira e segunda instâncias tiveram o respaldo de manifestações multitudinárias.

A combinação desses dois fatores – ação republicana de algumas instituições permanentes de Estado e pressão da sociedade – emparedou, por um momento, boa parte das elites política e econômica, secularmente acostumadas à impunidade.

Parecia que, finalmente, marchávamos para um novo Brasil, no qual o capitalismo se desenvolveria pela livre concorrência e a lei seria igual para todos. Valeria para o pobre, mas também para um ex-presidente da República.

A primavera brasileira durou pouco.

Encasteladas no aparato do Estado, as forças patrimonialistas articularam sua contraofensiva. O Congresso Nacional aprovou normas eleitorais que impedem a renovação política e o presidente da República abandonou as necessárias reformas para cuidar de uma agenda de pegada populista.

Já a instância máxima do judiciário passou a se pautar pelo casuísmo. O ápice da blitzkrieg da impunidade foi a última sessão do STF, na qual decidiu não decidir sobre o habeas corpus de Lula, mas decidiu que ele não pode ser preso enquanto a Corte não decidir. Por aí, passará uma boiada e todo o trabalho da Lava Jato poderá ir por água abaixo.

O STF pesou a mão, cometeu um erro de cálculo ao apostar na catatonia da sociedade.

As ruas estão dispostas a mostrar que não estão mortas. Os movimentos cívicos responsáveis pelas jornadas do impeachment agendaram manifestações em todo o país, para a véspera do julgamento do habeas corpus de Lula.

A batalha do dia três de abril é um pouco o dia D da luta contra a impunidade, o Waterloo da Lava Jato. Se as manifestações forem um fiasco, as forças interessadas na manutenção de seus privilégios se sentirão encorajadas a promover novos retrocessos. O passo seguinte pode ser uma “interpretação criativa” da Lei da Ficha Limpa para tornar Lula elegível.

No quatro de abril estará em jogo muito mais do que a punição de Lula pelos crimes que cometeu. Estarão também o futuro da Lava Jato e a esperança dos brasileiros.

Se a caravana da impunidade passar, o desencanto se espraiará pelo país e contaminará as eleições.

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo 

_____________________________________________________

Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

O Waterloo da Lava Jato

A serpente ganha corpo

por Hubert Alquéres

Quando Bolsonaro tinha 8% das intenções de voto, parodiei  Marx em artigo publicado no blog de Noblat dizendo que um  fantasma rondava o Brasil e deveria ser levado à sério. Naquele momento, articulistas respeitáveis e políticos tarimbados desdenhavam do candidato da extrema-direita, considerando sua ascensão mero fogo de palha. No país de previsões que nunca acontecem, dizia-se ainda que seu gás acabaria na hipótese provável de a foto de Lula não estar na urna eletrônica.

Passado um ano, aquela serpente incubada rompeu a casca do ovo,  ganhou corpo. A ponto de o publicitário Nizan Guanaes vaticinar  sua vitória no segundo turno. Não, Nizan não é “bolsonarista”. Apenas está impactado com o fato de Bolsonaro estar à frente de Alckmin em São Paulo, de ter 34% das intenções de voto no longínquo Acre e de ocupar o primeiro lugar nas pesquisas, sem a candidatura de Lula.

É um quadro definitivo? Claro que não. Mas o pior dos mundos é ignorar o calibre do perigo. Com todos esses dados, dá-se de barato que definhará quando a campanha chegar na fase profissional.  Aí, acredita-se, falarão mais alto as coligações partidárias, tempo de TV e rádio, palanques regionais. No frigir dos ovos, não haveria espaço para um outsider e a eleição seria definida à moda antiga.

Por isso Ciro Gomes enxerga um segundo turno com o governador Geraldo Alckmin. A projeção do PT é de que seja alguém que substitua Lula no embate com Alckmin, opinião compartilhada pelos tucanos. Rodrigo Maia pensa de forma semelhante, só que com ele no lugar do paulista. Quanto há de desejo nessas projeções, não é difícil de se imaginar.

Falta, evidentemente, combinar com os russos. Achar que as eleições serão definidas como sempre foram é subestimar os ventos que varreram o país desde 2013. Nizan alerta que tempo de TV é uma “coisa antiga” e acrescenta: “Bolsonaro tem tempo digital”.

O mundo político peca por não levar em consideração movimentações da sociedade. E elas acontecem em velocidade alucinante. Até janeiro de 2017, Bolsonaro tinha 8% nas pesquisas . Pulou para 15%  com  a divulgação da delação da Odebrecht.

O salto abrupto se explica pela migração de parte do eleitorado histórico do PSDB, desencantado com o envolvimento de lideranças tucanas nos escândalos. Ou seja,  aos nostálgicos da ditadura  e aos fundamentalistas religiosos somaram-se novas fatias do eleitorado porque as forças democráticas não souberam dar resposta satisfatória à crise ética e de segurança. O agronegócio também acompanha esse movimento, até porque soa como música em seus ouvidos a solução simplista de Bolsonaro no enfrentamento das violações do direito à propriedade. Sim, o MST, com suas ações, finda por ser um baita cabo eleitoral do “Messias” da extrema-direita.

Crise ética

O “bolsonarismo” – sim, já é possível falar nesse fenômeno, posto que ele deu capilaridade a uma extrema-direita até então enrustida no armário –  é filho direto da grave crise ética advinda do projeto de poder do lulopetismo e retroalimentada pela degradação dos demais partidos políticos, entre eles o PSDB, em quem as multidões das jornadas do impeachment depositavam tantas esperanças. A erosão econômica e social gerada por Lula e Dilma pôs mais lenha nessa fogueira.

A delação da JBS aprofundou esse movimento, assim como a crise de segurança joga a seu favor. Com os principais partidos atolados no lodaçal, Bolsonaro, por mais veterano – e por mais arcaicas que sejam suas propostas – passou a ser visto como o novo, o Suplicy da extrema-direita, “diferente de tudo que está aí”. A roupagem de xerifão, de candidato da metralhadora cai bem ao gosto de segmentos que clamam por ordem numa sociedade esgarçada social e politicamente.

Sua ascensão só indiretamente guarda similaridade com a onda nacional-populista que varre o planeta. Não é uma decorrência direta dos efeitos perversos da globalização, razão pela qual Bolsonaro não tem um programa articulado, como tiveram Trump e Le Pen, com suas plataformas regressistas. Decorre fundamentalmente de fenômenos internos. Talvez isto explique porque seu “nacional-populismo” é inteiramente despido de substância.

Nem por isso sua pregação messiânica não tem apelo. Em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo de 14 de março Bolsonaro fez blague e tentou mostrar confiança: “Me preparei para fazer uma campanha de R$1,5 milhão. Vou receber R$ 3 milhões, é mais do que suficiente”. Afirmou que não precisaria de tempo de TV: Se eu for fazer a mesma coisa que os outros, procurar alianças, recursos, e com as alianças vier o tempo  de televisão eu estarei me igualando aos outros candidatos”. Seu propósito foi exibir força e anunciar-se como uma novidade: “serei o único candidato que, quando começarem as eleições, já terei o ministério apresentado. Eu não vou esperar acabarem as eleições,  a vitória nas urnas, e depois ir para o Jaburu juntar com as pessoas conhecidas de sempre do Legislativo, para lotear o governo. Para fazer a mesma coisa, estou fora”.

Seria precipitação absurda achar que estamos diante de um quadro consolidado e irreversível. Ainda há muito chão pela frente e a eleição está apenas em sua  fase preliminar. Mas a reconquista do eleitorado que se deslocou para Bolsonaro estará na razão direta do que Fernando Henrique abordou no encontro com a Roda Democrática: o reencantamento da politica por meio de uma candidatura que dê uma resposta positiva às bandeiras da ética e da ordem, associando-as à democracia e às questões sociais que afligem nosso povo.

Bolsonaro não tem, ainda, o passaporte para o segundo turno. Mas sua vida está sendo facilitada por dois fatores: 1) O centro e a esquerda estão atomizados em várias candidaturas. É bom lembrar que em 1989 Lula passou para o segundo turno com 16,08% dos votos. 2) Bolsonaro tem sido poupado porque é o adversário dos sonhos de todos os candidatos numa segunda etapa eleitoral.

A ideia de que será derrotado por qualquer um que for para o segundo turno pode ser mais uma leitura cor de rosa. É melhor não pagar pra ver e cortar a cabeça da  cascavel desde já.

___________________________________________

Este artigo foi publicado originalmente no site do movimento Roda Democrática em 23 de março de 2018:

http://rodademocratica.com.br/2018/03/23/serpente-ganha-corpo/

Convém levar Bolsonaro a sério

Quando Bolsonaro tinha 8% das intenções de voto, dizia-se que aquilo era fogo de palha.

Nem mesmo o mais arguto dos analistas imaginava há um ano atrás que Jair Messias Bolsonaro chegaria em março na condição de pole position nas pesquisas, na hipótese provável de a foto de Lula não estar na urna eletrônica. O senso comum era a decantação natural do candidato da extrema direita, assim que Lula ficasse inelegível pela lei da Ficha Limpa.

Aparentemente havia lógica no raciocínio, pois Lula e Bolsonaro se alimentavam da polarização regressista esquerda-direita. Hoje as pesquisas indicam que havia mais desejo do que realidade nessa análise.

Premonições otimistas vem sendo desmentidas pelos fatos. Quando Bolsonaro tinha 8% das intenções de voto, dizia-se que aquilo era fogo de palha.

Mesmo agora continua sendo subestimado. Dá-se de barato que definhará quando a campanha chegar na fase professional – falarão mais alto as coligações partidárias, tempo de TV e rádio, palanques regionais. No frigir dos ovos, não haveria espaço para um outsider e a eleição seria definida à moda antiga.

Por isso Ciro Gomes enxerga um segundo turno com o governador Geraldo Alckmin. A projeção do PT é de que seja alguém que substitua Lula no embate com Alckmin, opinião compartilhada pelos tucanos. Rodrigo Maia pensa de forma semelhante, só que com ele no lugar do paulista.

O senso comum do mundo político peca por não levar em consideração movimentações da sociedade. Os menos de dois dígitos que se viam antes da delação da Odebrecht se transformaram em liderança.

O salto abrupto se explica pela migração de parte do eleitorado histórico do PSDB, desencantado com o envolvimento de lideranças tucanas nos escândalos.

A delação da JBS aprofundou esse movimento. Com os principais partidos atolados no lodaçal, Bolsonaro, por mais veterano que seja, passou a ser visto como o novo, o Suplicy da extrema direita, “diferente de tudo que está aí”.

O deslocamento é visível em São Paulo onde Bolsonaro aparece à frente de Alckmin, segundo o Instituto Paraná. O agronegócio do centro-oeste acompanha essa onda.

A crise de segurança joga a seu favor. Sua resposta autoritária aos anseios da sociedade de ética e ordem capturou segmentos que não se reduzem aos nostálgicos da ditadura e aos fundamentalistas evangélicos.

O peso da bandeira ética aparece com nitidez na pesquisa do Ibope divulgado nesta terça. 82% dos entrevistados consideram importante o candidato não ter envolvimento em qualquer esquema de corrupção.

Pode não ser um movimento cristalizado. Sua reversão, contudo, só acontecerá se o campo democrático der resposta satisfatória às bandeiras da ética e da ordem.

Bolsonaro não tem, ainda, o passaporte para o segundo turno. Mas sua vida está sendo facilitada por dois fatores: 1) O centro e a esquerda estão atomizados em várias candidaturas. É bom lembrar que em 1989 Lula passou para o segundo turno com 16,08% dos votos. 2) Bolsonaro tem sido poupado porque é o adversário dos sonhos de todos os candidatos numa segunda etapa eleitoral.

A ideia de que será derrotado por qualquer um que for para o segundo turno pode ser mais uma leitura cor de rosa. É melhor não pagar para ver e levá-lo a sério desde já.

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo 

As brotoejas da esquerda

Quem não se lembra da célebre fase de Leonel Brizola: “No meu governo a polícia não sobe o morro”?

Segurança é um daqueles temas capazes de provocar crises alérgicas em parte da esquerda brasileira, dada a sua dificuldade histórica em abordá-lo. No poder, ou fora dele, deixou-se enredar por uma cultura permissiva focada mais na “explicação” das “causas sociais” e na preocupação com a “violência policial” do que no combate ao crime organizado propriamente dito.

Essa cultura vem de longe. Quem não se lembra da célebre fase de Leonel Brizola: “No meu governo a polícia não sobe o morro”? Nos anos 70, a esquerda vibrou com o filme “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia” inspirado num livro de José Louzeiro. O “mocinho” era chefe de uma quadrilha de assaltantes de banco, mas endeusado como “vítima da sociedade” e do “aparato policial corrupto”. Glamourizado no cinema, na vida real Lúcio Flávio colecionava 32 fugas, 73 processos e 530 inquéritos por roubo, assaltos e estelionato.

Facínoras exerceram certo charme sobre o beautiful people carioca, como se fossem Robin Hood dos morros. O resgate cinematográfico de Escadinha da prisão de Ilha Grande deixou muita gente fascinada.

Conveniente lembrar que o “boom” da Rocinha como “point” cultural e artístico do Rio de Janeiro se deu no reinado do traficante Nem, outra “vítima da sociedade”.

Assim como era moderno e descolado na esquerda Zona Sul subir o Morro de Santa Marta, nos tempos do “Abusado”, livro de Caco Barcelos que aborda questões sociais vistas pela ótica do “Poeta” (como era conhecido outro traficante famoso, o “Juliano VP”).

Bailes funk financiados pelo tráfico são “manifestações culturais”.

E ainda hoje a moçada festiva da esquerda sobe o Morro do Vidigal para se confraternizar no famoso Bar da Laje. Passam indiferentes às casas pichadas com a inscrição CV que escancara a violenta disputa entre bandos deflagrada pela chegada do Comando Vermelho para disputar as bocas de fumo que há mais de uma década são controladas pela facção Amigos dos Amigos (ADA).

Entende-se, portanto, porque a intervenção no Rio de Janeiro deixa artistas, intelectuais e políticos de esquerda com os rostos cheios de manchas vermelhas.

A reação alérgica não se dá apenas por motivo cultural. É sobretudo ideológica. O divã ainda não levou a nossa esquerda a superar o trauma de 64. O fato de o interventor ser um militar e de o ministro interino da defesa ser um general reacendeu velhos fantasmas e preconceitos.

A esquerda jurássica já encontrou seu mote. Em vídeo, certa fina flor do mundo artístico e políticos como Marcelo Freixo, alardeiam: intervenção é farsa!

O vídeo é uma mistura de sandices com oportunismo político. Propõe o monitoramento da ação policial pelas “lideranças da comunidade” e o combate à violência por meio do “lápis e não do fuzil”. O tráfico e a bandidagem agradecem, soltam fogos e disparam suas metralhadoras

A intervenção, claro, seria uma farsa porque, justificam, o impeachment foi golpe e o presidente Michel Temer seria ilegítimo. Na soma onde dois e dois são cinco, concluem que tudo não passa de uma jogada eleitoral.

A segurança invadiu a agenda das eleições deste ano não por maquiavelismo, embora Temer não seja Madre Tereza de Calcutá e queira tirar dividendos políticos de suas iniciativas.

O crime organizado transnacionalizou-se, o pacto federativo da Constituição de 88 não responde à nova realidade. Daí a intervenção não é uma panaceia. É um imperativo face ao desmonte, no Rio de Janeiro, do poder coercitivo de Estado.

Inescapável, os candidatos terão de incrementar seus programas diante do peso da bandeira da ordem. Nem a esquerda poderá fugir disso. Se quiser ter chance eleitoral, vai ter de tratar de suas brotoejas.

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo