É a vacina, estúpido!

Por Hubert Alquéres

O presidente Jair Bolsonaro vive o pior momento de seu governo. Pior até que em maio do ano passado, quando combateu as medidas de isolamento social escudando-se no discurso de proteger a economia para salvar o emprego das pessoas. Era uma falácia, dada a impossibilidade de uma retomada da economia sustentada sem debelar a pandemia. Mas funcionou por algum tempo.

Empresários aderiram ao seu discurso acreditando que era melhor manter seus negócios abertos, camadas mais desprotegidas engrossaram o coro pois não podiam se dar ao luxo de ficar em casa e não trabalhar. O auxílio emergencial alavancou a popularidade do presidente, a despeito de sua forte campanha contra as únicas medidas então disponíveis na prateleira para mitigar os efeitos da pandemia, o uso de máscaras e o isolamento social.

Para encarar os efeitos diretos do vírus, irresponsavelmente receitou cloroquina para um suposto tratamento precoce. Mas o remédio, de pronto, foi condenado por todos os estudos científicos realizados.

O tempo, senhor da razão, destruiu o castelo de cartas do negacionismo governamental. Ao fazer descaso da pandemia com expressões chulas, bravatas grotescas e convicções atrasadas, Bolsonaro não deu resposta eficaz para as duas crises entrelaçadas: a econômica e a sanitária. Não percebeu o óbvio. Ambas exigem o mesmo remédio: a vacinação em massa. Tivesse investido na vacina como fez com a cloroquina, a história seria totalmente diferente.

Não salvou a economia e muito menos vidas.

Agora azedou o humor dos brasileiros, da Faria Lima aos grotões do país. Empresários que antes faziam lobby contra o isolamento tomaram consciência da impossibilidade de a economia crescer e gerar empregos sem a vacinação em massa. Até mesmo os evangélicos descobriram a pólvora. Sem vacina, não há dízimo.

O fim do auxílio emergencial, as cenas dantescas da falta de oxigênio no Amazonas, a inoperância dos ministros e a possibilidade de mutações do vírus serem mais contagiosas e letais puxaram para baixo a aprovação do presidente. A realidade das pesquisas faz o governo correr atrás do prejuízo. Seu desafio é colocar algo no lugar do auxílio e sair à cata de imunizantes em um quadro de uma guerra comercial das vacinas. É uma briga de gente grande, na qual os países ricos e os mais previdentes levam enorme vantagem.

A deterioração econômica e social é outro complicador. O fim do auxílio emergencial levará a uma queda da renda das famílias da ordem de 17%, consequentemente à retração da economia no primeiro trimestre. Pode se estender ao segundo, o que tecnicamente configuraria um quadro de recessão. O mundo do negócio já contratou que ao final do ano a economia não retornará ao patamar de 2019.

Com a dívida pública chegando a 90% do PIB e a arrecadação da União tendo uma queda de quase 7% no ano passado, fica difícil colocar algo no lugar do benefício sem agravar mais o desequilíbrio fiscal do governo, o que pode acelerar a desvalorização do real e a elevação dos preços. O binômio perverso baixo crescimento/inflação pode voltar.

É aqui que Bolsonaro está perdendo a guerra. Estranha-se que um governo com forte presença de militares, em tese formados em planejamento e estratégia, tenha errado tanto, sem ter noção do objetivo a ser perseguido. A arte militar já ensina: quem erra na estratégia faz movimentos táticos erráticos cujo resultado é a derrota fragorosa.

O governo não trabalhou para ter um cardápio de vacinas capazes de atender a demanda do país. Apostou em uma única ficha, a AstraZeneca. A carta da Pfizer de setembro passado e divulgada agora desnuda a imprevidência – o governo desdenhou da aquisição de milhões de doses. O consórcio Covax ofereceu atender 50% da demanda brasileira, mas o governo só contratou 10%. Estigmatizou a China, boicotou até a undécima hora a Coronavac produzida pelo Butantan. Nunca viu nem ouviu falar da Sputnik. Talvez por ser russa.

Em relação à prioridade do país, assistimos a uma falência múltipla dos órgãos governamentais. O ministro da Saúde se exilou na selva amazônica. Alvo de um inquérito autorizado pelo Supremo Tribunal Federal, só não foi demitido por ter um papel conveniente: o de saco de pancada, desviando, assim, os golpes que deveriam ser direcionados ao presidente.

O sempre eloquente ministro Paulo Guedes refugiou-se no mutismo. Só nesta semana descobriu o ovo de Colombo, passando a defender a vacinação em massa. Tornou-se peça decorativa, com o empresariado descrevendo-o como “um zumbi no Ministério da Economia”. 

Em matéria de zumbis, o governo anda cheio. Ernesto Araújo é um deles, no Itamaraty. Virou ministro dos Conflitos Externos, sem o menor poder de diálogo com países produtores de insumos para os imunizantes, como a China.

Já o general Braga Neto, que assumiu a Casa Civil para ser o condutor de um gabinete de crise e a quem caberia a missão de reorientar o parque produtivo para atender à demanda da pandemia, tem sido de uma incompetência homérica. Que falta faz um Pedro Parente! Só essa ausência explica a vergonhosa falta do oxigênio em UTIs que levou a morte de brasileiros por asfixia.

Reconheça-se uma proeza de Bolsonaro, a união entre a esquerda e a direita em torno da bandeira do  impeachment. O presidente tirou as oposições do canto do ringue, dando a elas um discurso com ressonância nas ruas.

Governo em queda de popularidade, com o fantasma do impeachment a assombrá-lo, sempre fez o Centrão lamber o beiço. Vender dificuldade para comprar facilidade é com ele mesmo.  Pode blindar o presidente, mas a fatura virá rapidinho. O Centrão vai querer ser o bloco hegemônico do governo, desidratando o núcleo militar. Faz sentido. Os militares aboletados no governo foram parceiros de carne e unha da estratégia desastrosa.

Bolsonaro não está morto, longe disso. Sua margem de manobra pode ter se estreitado, mas ainda é razoável. Quem detém a caneta presidencial tem condições de sair das cordas. Más só se entender o recado das pesquisas: é a vacina, estúpido!

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação e escreve às 4as feiras no blog do Noblat.

New Deal 2.0

Por Hubert Alquéres

É como se o espírito de Franklin Roosevelt reencarnasse em Joe Biden. O novo presidente americano assume seu mandato hoje com um programa que é keynesianismo na veia. A exemplo do “New Deal”, que tirou os Estados Unidos da grande depressão dos anos 30, Biden pretende fazer frente à pandemia e à recessão econômica por meio da fórmula do economista britânico John Maynard Keynes: intervenção do Estado na economia por meio de um pacote de 1,9 trilhão de dólares, expansão dos gastos públicos, foco na diminuição drástica do desemprego e na redução da desigualdade por meio de benefícios sociais.

Nos anos 30 a fórmula fez com que a concentração da riqueza nos Estados Unidos sofresse forte redução. Antes do New Deal rooseveltiano 1% dos americanos detinham 24% da renda nacional. O índice caiu para 16% em um curto espaço de tempo. Na época, o país viveu uma situação de pleno emprego, consolidou-se como a principal economia do planeta, liderou o mundo na Segunda Guerra Mundial e financiou a reconstrução da Europa.

Ao contrário do que diziam seus críticos, Roosevelt não implantou o socialismo na América. Salvou o capitalismo. Da mesma maneira o “New Deal” de Joe Biden não fará dos Estados Unidos um país socialista. Se lograr êxito salvará a economia e os americanos da pandemia, reposicionando o país no tabuleiro mundial em que esteve ofuscado nos anos Trump.

Mais coincidências entre o ontem e o hoje: o antecessor de Roosevelt, o republicano Herbert Hoover, para fazer frente ao crash de 1929 adotou uma política isolacionista de proteção tarifária que foi responsável por uma queda de 46% das exportações americanas e pela perda de liderança dos Estados Unidos no enfrentamento da grande depressão. Qualquer semelhança com o fracasso de Trump no enfrentamento e de perda de competitividade da economia americana em relação à chinesa não é obra do acaso.

A missão de Biden é muito mais difícil do que foi a de Roosevelt.

O novo presidente quer os Estados Unidos sentado na cabeceira da mesa no concerto das nações. Mas o mundo unipolar do pós queda do muro de Berlim já não é o mesmo. A China ameaça seriamente a hegemonia americana e a União Europeia cada vez mais opera em faixa própria, ora se aliando aos chineses, ora aos americanos. Esse é o sentido do acordo Bruxelas-China, assinado às vésperas da posse de Biden.

O plano do novo presidente para enfrentar a pandemia, recuperar os empregos e a economia estará acoplado a outra meta: a mudança da matriz energética e do próprio modo de estruturação das empresas, cada vez pautadas pelo conceito ESG (environmental, social and governance – ambiental, social e governança).

O plano de Trump era recuperar o emprego por meio da velha indústria baseada em combustíveis fósseis. Biden irá perseguir o pleno emprego por meio da economia limpa.

O retorno ao Acordo de Paris, ao acordo nuclear com o Irã e o restabelecimento das relações com Cuba fazem parte dessa nova realidade e da necessidade dos Estados Unidos retomarem a liderança mundial, duramente afetada pelo isolacionismo de Trump. Nas relações externas sai a “Diplomacia Dura” de Mike Pompeo, secretário de Estado do governo que se encerrou, e retorna o soft power.

Não serão menores os impactos internos do seu  pacote de U$ 1,9 trilhão. Só para se ter uma ideia: o auxílio emergencial de 600 dólares pulará para 2 mil dólares. Só essa medida retirará onze milhões de pessoas da linha da pobreza, que cairá de 12,6% para 9% dos americanos.

A cereja do bolo é a previsão de dobrar o salário mínimo, atualmente de 7,5 dólares por hora, passando para 15 dólares por hora, e de alcançar o pleno emprego, puxando o desemprego de 6,7% para 4%, ainda neste ano. O plano distribui dinheiro para os mais pobres, injeta recursos na economia e no combate à pandemia, diminui imposto de renda para a classe média e aumenta o imposto dos mais ricos. Mais Keynes do que isso, impossível.

Faltaria apenas dotar todos os americanos de uma cobertura pública na saúde, causa que os Estados Unidos debatem desde 1910 e que apenas deu um pequeno passo com o Obamacare, desidratado por Trump.

O Neal Deal 2.0 deverá enfrentar fortes resistências, tanto no Congresso americano como no mundo empresarial. Apesar de as pesquisas apontarem uma queda de 11 pontos na aprovação de Donald Trump após o atentado ao Capitólio, o trumpismo ainda conta com uma forte base social suscetível à pregação de que Joe Biden implantará o socialismo.

Roosevelt também travou duras batalhas no Congresso e nos tribunais. Só conseguiu executar o New Deal plenamente depois de sua vitória massacrante na sua reeleição, quando venceu em quase todos os estados, com exceção de Maine e Vermont. Seu adversário, o republicano Alf Landon, teve apenas oito delegados no colégio eleitoral.

Os republicanos correrão esse risco daqui a quatro anos se não entenderem que o plano Biden é o caminho mais viável para salvar o capitalismo americano e para garantir a estabilidade da maior democracia do mundo.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e do Conselho Estadual de Educação. Foi professor no Colégio Bandeirantes, no instituto Mauá de Tecnologia e na Escola Politécnica da USP. Escreve as 4as feiras no blog do Noblat.

A diplomacia nos tempos Beato Salu

Por Hubert Alquéres

Imaginem qual será o nível da boa vontade de Joe Biden com o governo brasileiro. Bolsonaro foi uma dos poucos chefes de Estado a não condenar a tentativa de golpe nos Estados Unidos. Seu governo não pronunciou uma mísera palavra sobre o atentado ao Capitólio. Em vez disso, reafirmou sua devoção a Donald Trump – a quem disse continuar ligado – e se apropriou do discurso trumpista, com a cantilena de que a eleição americana foi fraudada. Sem o menor respeito às normas que devem reger as relações entre países, entre as quais princípio da não ingerência – amplificou: “teve pessoas que votaram até quatro vezes e até morto votou”

A miséria da diplomacia brasileira ficou estampada no twitter de Ernesto Araújo. Em vez de se manifestar oficialmente e de condenar, sem meias palavras, o auto-golpe de Trump, o ministro das Relações Exteriores foi às redes sociais para fazer um comentário sibilino que, na verdade, passa o pano nos golpistas insinuando que o atentado foi coisa de infiltrado democrata. E protestou porque os terroristas invasores do Capitólio estão sendo chamados de fascistas.

Dá bem para se ter uma ideia das dificuldades estando o diálogo entre os dois países nas mãos do ministro que diz tais sandices ou do embaixador Nestor Foster, que, em seus informes ao presidente, espalhou desinformações e, para agradar a Bolsonaro, deu argumentos à teoria fajuta de que houve roubo na eleição americana.

Bolsonaro e Ernesto completam assim o ciclo da insensatez. Já tinham criado indisposição com a China e os países da União Europeia. Agora colocam o Brasil em desgaste com o governo do novo presidente dos Estados Unidos, cuja posse acontecerá no próximo dia 20. Uma agressão à boa tradição da política externa brasileira.

O Itamaraty sempre foi um centro de excelência, reconhecido mundialmente por seu alto nível de profissionalismo, pela formulação de uma doutrina diplomática pautada na defesa dos interesses do Brasil e no exercício do soft power. É assim desde os tempos de Juca Paranhos, o Barão de Rio Branco, quando, pela via da negociação, nosso país incorporou o Acre, ampliou seu território no oeste de Santa Catarina e assegurou  a soberania sobre o Amapá.

Mesmo no período da ditadura militar, o Brasil construiu uma política externa altiva, sendo o primeiro país a reconhecer a independência das colônias portuguesas da África. O pragmatismo responsável da era Geisel.

Nomes de envergadura como Santiago Dantas, Fernando Henrique Cardoso, Osvaldo Aranha, Azeredo da Silveira, Saraiva Guerreiro, Afonso Arinos, Afrânio Melo Franco estiveram à frente da política externa brasileira. Celeiro de quadros, o Itamaraty produziu diplomatas da qualidade de um Rubem Ricúpero, Rubens Barbosa, Roberto Abednur e Celso Amorim. Assim, projetou o Brasil no cenário internacional, tendo como sua grande marca a formulação de uma política de Estado que não mudava conforme o governo de plantão.

O verbo vai no passado porque sob o comando de Ernesto Araújo, a quem seus próprios pares do Itamaraty apelidaram de Beato Salu, o personagem da novela Roque Santeiro que perambulava pela cidade anunciando o fim do mundo, a política externa virou política de governo, ditada pelos valores ideológicos do bolsonarismo. A própria ascensão de seus quadros deixou de se dar pela meritocracia. O critério passou a ser o da “identidade ideológica” ou da bajulação.

O produto da política externa de Araújo foi a redução do Brasil à uma péssima condição no cenário internacional, da qual o ministro se jacta. Ela conseguiu a proeza de levar o país a se indispor com o principal parceiro comercial, a China, e de ficar mal na fita com o presidente eleito dos Estados Unidos, nosso segundo parceiro comercial.

Nossa imagem no exterior é de um país destruidor do meio-ambiente, enquanto éramos uma referência mundial desde a Eco 92.

Nada de bom poderia sair de um ministro que se guia pela lógica do conspiratório, que via em Donald Trump a salvação da civilização judaico-cristã; que crê e alimenta uma guerra permanente contra o “globalismo maoísta”.

O Brasil ficou de fora da reunião de 80 chefes de Estado e de governo promovida pela ONU para preparar a Conferência sobre os cinco anos do Acordo Paris. Até a undécima hora Araújo fez de tudo para Bolsonaro participar do evento. Foi inútil. Infelizmente considera-se que o Brasil não tem nada a acrescentar em relação à questão climática.

O vexame maior veio no Senado, onde a indicação do embaixador Fábio Marzano para chefiar a missão brasileira na ONU foi rejeitada por goleada. É um episódio inédito que só tem precedente no governo Dilma Rousseff já na sua fase terminal, quando uma indicação sua foi rejeitada. Marzano é aquele diplomata que em uma conferência na Polônia defendeu a incorporação da religião na política externa brasileira.

A derrota humilhante do indicado pelo ministro do Exterior vem sendo chamada por diplomatas de o “7 a 1 do Beato Salu”.

Não há a menor condição de ele continuar à frente do Ministério do Exterior. Os militares querem sua cabeça, o agronegócio endossa o coro e os senadores mandaram um recado claro. Mas Bolsonaro resiste às pressões. Ernesto Araújo é inabalável porque sua cabeça é a do presidente. Mais do que isso: caiu nas graças do clã presidencial. Toda vez que Eduardo Bolsonaro diz uma enormidade e nos atrita com a China, o ministro sai a campo para respaldá-lo.

Na novela Roque Santeiro o Beato Salu entrou em coma por trinta e três capítulos, ressuscitou dizendo “mais forte são os poderes de Deus”. Já o Itamaraty está em coma há 24 meses e não sairá dele enquanto o seu Beato Salu sobreviver.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação. Escreve às 4as feiras no blog do Noblat.

O ovo da serpente

Por Hubert Alquéres

Ao longo dos seus 245 anos os Estados Unidos venceram vários momentos de estresse. O país enfrentou duas guerras mundiais, uma guerra fria, guerras regionais na Coréia, Vietnã, Iraque, Afeganistão, a crise dos mísseis, os assassinatos de Abraham Lincoln, John Kennedy, Martin Luther King e Robert Kennedy, o atentado terrorista de 11 de setembro, a tentativa de assassinato de Ronald Reagan. Viveu ainda o macarthismo, os conflitos raciais dos anos 60, uma corrida nuclear que deixava o mundo em suspense, Watergate e a renúncia de Richard Nixon.

Por mais grave que tenham sido esses episódios em momento algum sua democracia esteve em risco. Seus freios e contrapesos mostraram sua resiliência e a alternância do poder sempre aconteceu de forma civilizada e pacífica. Sua pujança fez a democracia americana ser a mais longeva do mundo e a mais admirada. Se afirmou enquanto valor, aquelas verdades evidentes proclamada pelos pais fundadores dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que viu fracassar o fascismo, o nazismo e o stalinismo.

O 6 de janeiro de 2021 entra para a história  como o dia em que essa tradição foi rompida pela tentativa de golpe, tramada, engendrada e insuflada por Donald Trump, o primeiro presidente americano a conspirar abertamente contra as instituições democráticas da nação americana. Nenhum presidente, absolutamente nenhum, cometeu crime tão grave. Não dá para subestimar a invasão do Capitólio como se fosse produto da ação de um punhado de ridículos supremacistas brancos, alguns vestidos de vikings.

O atentado à democracia pode até ter aspectos de uma opera bufa ou de uma pornochanchada, com Trump tocando harpa enquanto o capitólio incendiava. Sim, depois de insuflar sua trupe terrorista a se dirigir ao parlamento americano, ainda tentou dissimular, aconselhando que eles voltassem atrás. Já era tarde. A democracia americana foi violentada.

As mãos nada invisíveis de Donald Trump estavam lá com as impressões digitais dos seus dez dedos. A insurreição contra o Capitólio seria o corolário de um golpe que o presidente americano vinha tramando desde quando sentiu a reeleição fugir entre os dedos. O golpe naufragou porque, como disse Stephen Levitsky, não teve apoio dos militares. Mas esse era o plano.

Era visível que a serpente tinha saído da casca do ovo desde que veio à luz do dia a gravação com Donald Trump pressionando o Secretário de Estado da Georgia para fraudar a apuração arrumando, de qualquer maneira, cerca de onze mil votos em seu favor.

Se tivesse dado certo a Marcha sobre o Capitólio estaria para a democracia americana assim como o incêndio do Reichstag esteve para a morte da democracia alemã, nos anos trinta.

A grande indagação que fica é: como foi possível prosperar na maior democracia do mundo o trumpismo, com toda sua pregação totalitária e do ódio?

A resposta não é tranquilizadora. Disseminou-se na sociedade americana valores autoritários, a ponto de 40% da população compartilhar tais valores. Por outro lado, supremacistas brancos e uma extrema direita radical e furibunda saiu do armário com a ascensão do trumpismo. O Partido Republicano, hoje controlado por essa corrente anti-histórica, foi a incubadora onde a serpente chocou o ovo.

Os Republicanos, que já deram aos Estados Unidos presidentes como Abraham Lincoln ou Theodore Roosevelt, estão reféns de uma corrente incompatível com a democracia. Enquanto não for banida da vida política, será uma ameaça constante ao ordenamento democrático. Retomar o controle do partido é a grande contribuição que os conservadores com convicções democráticas podem dar à nação.

E o Brasil nessa história toda? O efeito Orloff paira sobre nossas cabeças. Trump é o Bolsonaro de 2022. O script está delineado, os passos são praticamente os mesmos, com o agravante de aqui há uma enorme nuvem cinza sobre as nossas Forças Armadas. A bolsonarização das tropas, para usar a expressão tão a gosto do jornalista Merval Pereira, é visível a olhos nus. A política já adentrou os quartéis, com dia sim e outro também Bolsonaro fazendo discurso político para a tropa.

Não que aqui o golpe seja inevitável, longe disso. Mas isso depende de frear Bolsonaro desde já. Se era importante antes, agora a batalha da eleição do presidente da Câmara passou a ser vital. Derrotar o preposto do presidente passou a ser crucial para a democracia.

A serpente deve ser esmagada antes de sair do ovo.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e do Conselho Estadual de Educação. Foi professor na Escola Politécnica da USP.

O grande recomeço

Por Hubert Alquéres

Se 2020 foi o ano da destruição de vidas e de empregos pela pandemia, 2021 pode ser o ano do grande recomeço da humanidade. A última vez que vivemos momento semelhante foi após a Segunda Guerra Mundial, quando o mundo teve de ser reconstruído e foi gerada uma nova ordem civilizatória, com o fortalecimento do multilateralismo e o avanço da democracia. Naquele momento da História economias tiveram de ser reconstruídas e em novas bases, propiciando, assim, um desenvolvimento da ciência e da produção de riquezas em escala nunca vista.

A rigor, os desafios do pós pandemia tem muito a ver com os daquela época. O coronavírus provocou uma queda do PIB mundial de 3%, desorganizou economias poderosas como a dos Estados Unidos e da União Europeia, jogou milhões e milhões de pessoas no desemprego – só nos EUA um em cada quatro trabalhadores tiveram de recorrer ao seguro desemprego. Segundo a ONU, 235 milhões de pessoas necessitarão de ajuda humanitária em 2021. Não basta apenas recomeçar. É preciso recomeçar em novas bases, por meio de um modelo baseado na cooperação para gerar um mundo justo e sustentável, social e ambientalmente.

Não por coincidência o tema da edição de 2021 do Fórum Econômico Mundial – a ser realizada no verão europeu – terá como tema ”The Great Reset” (O Grande Recomeço). Davos preconiza que o capitalismo seja reinicializado, com uma profunda transformação em todos os setores, “desde petróleo e gás, até tecnologia”. Com a pandemia ainda longe de terminar, seus impactos se dão em todas as áreas, na saúde, na educação, na dívida pública, no bem estar das pessoas.

O mundo está diante de dois caminhos. O primeiro adotado por alguns países (e lamentavelmente o Brasil faz parte desse time) de usar a Covid-19 como pretexto para “passar a boiada” e enfraquecer conquistas importantes, como as ambientais. Nesse modelo, estabelece-se a lei da selva, por meio de um darwinismo social, que levará ao aumento da desigualdade entre países e regiões e entre pobres e ricos.

Basta citar que até nos Estados Unidos a desigualdade aumentou com a pandemia. A face mais perversa do avanço da desigualdade será entre povos e países com acesso à vacina contra o coronavirus e os sem acesso.

A outra alternativa é enxergar nos desafios colocados uma oportunidade para criar uma sociedade sustentável e socialmente mais justa, por meio da oferta de serviços públicos de qualidade, particularmente nas áreas de saúde, educação e segurança.

Como na Depressão dos anos 30 e na reconstrução pós Segunda Guerra, o Estado deve ter papel ativo na retomada das atividades econômicas e na oferta de serviços públicos. A União Europeia já criou um fundo de 750 bilhões de euros para investir na recuperação da economia dos países do bloco. Joe Biden anunciou que irá pelo mesmo caminho, injetando recursos públicos na economia americana. Japão e China também vão na mesma direção.

O mundo ingressa em 2021 com esperanças renovadas. Com a posse de Biden, os Estados Unidos deixaram de lado o isolacionismo, a polarização e o negacionismo e marcham para assumir o seu papel na cabeceira da mesa, de liderar o mundo pela força de seu exemplo. Foi assim no pós guerra, com o Plano Marshall. O retorno ao Acordo Climático de Paris, a retomada do acordo nuclear com o Irã e das relações com Cuba nos colocarão diante de um mundo mais cooperativo, com o fortalecimento do multilateralismo.

No apagar das luzes de 2020, a humanidade alcançou feito extraordinário. A fabulosa mobilização da ciência em uma escala jamais imaginada levou à resposta mais eficiente à pandemia, com a descoberta de várias vacinas eficazes. O desafio agora é a vacinação em massa, já iniciada na Inglaterra e nos Estados Unidos, de forma que se estenda a todos os povos e classes. Só assim se evitará o aumento da desigualdade.

Iniciamos 2021 em condições de estabelecer um “Novo Acordo”, como preconiza o Fórum Econômico Mundial. A escolha do termo por Davos não foi por acaso. Ele remete ao “New Deal” de Franklin Delano Roosevelt, quando os Estados Unidos superou a depressão dos anos 30 e se transformou na maior liderança mundial.

Qual será o papel do Brasil no “Novo Acordo” e qual será seu assento na mesa?

As expectativas são desanimadoras. O negacionismo, o isolacionismo, o rotundo fracasso da estratégia de Bolsonaro no enfrentamento da pandemia, a antipolítica ambiental, os atritos com a China, a União Europeia e com os Estados Unidos, nos condenarão a sequer ter lugar à mesa do concerto das nações. Tudo isso, ao lado da crise econômica, fará do Brasil uma nação em declínio, que perde relevância inclusive na América Latina, região da qual já foi líder.

Não é possível ter ilusões quanto a um governo cujo ministro do Exterior vê o Grande Recomeço como uma imensa conspiração do globalismo. Vejam a pérola de Ernesto Araújo, publicada em redes sociais:

“A pandemia não pode ser pretexto para o controle social totalitário violando, inclusive, os princípios das Nações Unidas. As liberdades fundamentais não podem ser vítimas da Covid. Liberdade não é ideologia. Nada de Great Reset”.

Sem comentários.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e do Conselho Estadual de Educação. Foi professor na Escola Politécnica da USP, na escola de Engenharia Mauá e no Colégio Bandeirantes. Escreve as 4as feiras no blog do Noblat.