Órfãos de pai e mãe

Nau dos insensatos, antiga alegoria que descreve o mundo e seus habitantes como uma nau cujos passageiros nem sabem nem se importam para onde estão indo (Foto: Xilogravura alemã de 1549)

por Hubert Alquéres

É extensa, aliás, longuíssima, a fila de intelectuais, artistas, sindicalistas e lideranças e de movimentos sociais órfãos de pai e mãe, no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.  Como se já não fosse grande o bastante, a nau dos deserdados acaba de receber um reforço de peso: a Fundação Perseu Abramo, tentáculo do PT no mundo acadêmico. Em documento subscrito por mais seis entidades, a Fundação desancou a política “neoliberal” de Joaquim Levy. Mais um pouco chamaria Dilma de renegada.

De fato, a intelectualidade petista, ou o que dela restou, está em pé de guerra. O ex-porta-voz de Lula, André Singer, abriu suas baterias contra a atual política econômica, expondo as veias dilaceradas do PT. Segundo ele, em entrevista ao jornal O Globo, o partido de Lula vem sendo “obrigado a apoiar um programa de governo contra os trabalhadores”.

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Queimou as caravelas

Brasil afundando (Foto: Arquivo Google)

por Hubert Alquéres

Quando da conquista do México, o espanhol Hernán Cortés mandou queimar as caravelas para não deixar nenhuma rota de fuga. Só restava a seus soldados seguir em frente, se quisessem sobreviver. A presidente Dilma Rousseff foi mais além, na sua reforma ministerial: mandou queimar as caravelas em pleno mar. E com ela dentro!

Só assim pode ser entendida sua resposta de que não poderia mais voltar atrás, quando aconselhada por Michel Temer a jogar a reforma ministerial para as calendas gregas para não criar quiproquó em sua base e instabilidade ainda maior no Congresso.

A arapuca na qual se meteu foi armada por ela própria, uma jejuna em política, que parte para frente como um touro bravo, sem cuidar da defesa dos seus flancos. A rainha ignora o bê-á-bá dessa arte: político digno desse nome não faz movimentos dos quais não possa recuar, ao menos taticamente. Nessa seara as coisas acontecem assim. O tudo ou nada dá sempre em nada.

Até os contínuos do Palácio do Planalto sabem que medidas de redução de cargos e de ministérios só são factíveis se tomadas por governos extremamente fortes. Em um governo enfraquecido, como o atual, em vez de ser um instrumento de coesão de sua base de sustentação é mais um fator de desagregação, de luta fratricida entre forças aliadas.

A reforma ministerial já seria uma operação de alto risco se executada logo após a acirradíssima disputa presidencial, imaginem dez meses depois, em um quadro de enfraquecimento e de barata voa nas hostes governistas. Um desatino, claro. Mas a presidente viu na reforma ministerial a cenoura que poderia fazer a sociedade, o mercado e o Parlamento engolirem goela a baixo seu pacote de maldades.

De quebra, vislumbrou na jogada a possibilidade de ter um mínimo de votos para evitar um processo de impeachment. Passou ao largo de suas intenções uma verdadeira reforma do Estado, capaz de despatrimonializá-lo.

Ao contrário, seu simulacro de reforma radicaliza o loteamento político, transforma o butim ministerial em mercado persa e aprofunda o escambo na relação com os partidos aliados.

O tiro saiu pela culatra.  Em vez de ser a solução a “reforma” virou um problemão. Gerou insatisfações no MST e na ala esquerda do lulopetismo e deixou de cabelos ouriçados aliados hoje aboletados em ministérios.

E, quem diria, a presidente ouviu um sonoro não da cúpula peemedebista, convidada a participar do reparte do bolo já em farelos, um fato cuja gravidade é autoexplicativa.

Nitidamente a espinha dorsal do PMDB, leia-se Temer, seus escudeiros, Renan, Eduardo Cunha, Romero Jucá e outros caciques, aproveitam-se da rateada presidencial para içar velas e abandonar o cais governista. Se alguém tiver alguma dúvida sobre qual rumo seguirão os profissionais da política, poderá dirimi-la por meio da declaração de Moreira Franco, homem de extrema confiança de Michel Temer: “O governo chamou Kassab (Gilberto) e Cid (Gomes) para desidratar o PMDB. Nós sabemos disso”.

Só que os peemedebistas não são dados à imolação.  Sua cúpula não vai assistir passivamente Dilma enfiar uma cunha (desculpem o trocadilho) no PMDB,  por meio da  neopeemedebista Kátia Abreu ou da nomeação, à sua revelia, de algum deputado ou senador para um novo ministério dilmista.

A presidente não apenas queimou as caravelas com tripulação e tudo. Jogou também gasolina em suas vestes e está prestes a acender o fósforo.

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Este artigo foi publicado originalmente no site de O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2015/09/queimou-caravelas.html

Gregos e troianos

por Hubert Alquéres

Ajuste fiscal (Foto: Arquivo Google)

O novo pacote fiscal da presidente Dilma Rousseff tem tudo para se transformar em rara unanimidade nacional, todo mundo contra, à exceção da Federação Brasileira de Bancos. Em um só lance, a presidente conseguiu desagradar a gregos e troianos.

À sociedade, aos empresários, ao Congresso Nacional, por causa da proposta de ressurreição da CPMF, imposto de triste memória e simplesmente execrado pelos brasileiros. Mas também ao funcionalismo público e ao braço esquerdo do lulopetismo, os chamados movimentos sociais, como o Movimento dos Sem Teto. Eles agora cantam: “você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”.
Virou aquele negócio da casa de pouco pão. Todo mundo reclama e todo mundo tem razão.

Têm razão os empresários ao gritar contra a volta de um imposto de efeito em cascata, com impacto negativo na competitividade do parque produtivo nacional e nas nossas exportações E é mais justificado ainda é o furor da sociedade. É nas costas dela que foi depositado o fardo mais pesado.

Não deixam também de ter razão as lideranças dos servidores públicos, do MST e de outros movimentos, inconformadas que estão com as sucessivas quebras de compromissos. Na campanha eleitoral, Dilma jurou que não tocaria nos direitos dos trabalhadores, nem que a vaca tossisse, e não mexeria, em hipótese alguma, nos programas sociais. De todas as suas promessas, não sobrou pedra sobre pedra.
Mas isto já é outro assunto. Voltemos ao pacote fiscal.

Se era mais do que previsível a gritaria geral, por que Dilma optou por uma proposta que une todos contra ela?

Só há uma explicação. Depois da trapalhada do orçamento deficitário ela precisava sinalizar ao mercado que estava fazendo algo. Tentou, então, a lógica cartesiana: “é melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada”.  Só que na vida não é bem assim. Até Descartes concorda que, se for para fazer bobagem, é melhor deixar tudo como está.

Mas como nas hostes governistas campeiam a indigência e a mediocridade, o orçamento deficitário chegou a ser saudado como exemplo de transparência e de exercício democrático.

A ilusão não resistiu nem mesmo duas semanas. Foi enterrada sem choro nem vela. Bastou a S&P baixar a nota do Brasil para o governo fazer meia-volta. Rapidinho.

Agora, acometida por uma onda de maquiavelismo, mas longe de ter a competência da pregação de Maquiavel, a presidente joga suas fichas no patriotismo do Congresso Nacional e deixa deputados e senadores em uma saia justa. A conferir se eles irão por suas cabeças na guilhotina, por livre e espontânea vontade.

As chances de o Parlamento aprovar o adiamento do reajuste dos servidores federais, com o funcionalismo público em greve e galerias lotadas de grevistas é praticamente nenhuma. De mexer nas emendas parlamentares e de aprovar emenda na Constituição para restabelecer a CPMF, nem se fale.

O Legislativo só aprovaria medidas tão impopulares se houvesse respaldo na sociedade. Se o governo tivesse uma força enorme e uma coesão profunda em sua base, o que está longe – e põe distância nisso – de ser realidade.

A presidente tem plena consciência da fraqueza do seu governo, da erosão de sua base. Tanto é assim que mandou para a rubrica do “futuro a Deus pertence” qualquer proposta de reforma estruturante. Mexer na previdência no seu segundo mandato? Esqueçam.

Por essas e outras não dá para levar a sério o novo ajuste fiscal.  É mais uma peça de ficção que, desta vez, tem o condão de provocar insatisfação a gregos e troianos de uma forma ampla, geral e irrestrita.

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Artigo publicado originariamente no Blog do Noblat no site do jornal O Globo:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2015/09/gregos-e-troianos.html

“Unidos e coesos”

Michel Temer e Dilma Rousseff, desfile de 7 de sembro de 2015 (Foto: Ichiro Guerra / PR)

por Hubert Alquéres

Na época do regime militar, tornaram-se famosas as notas oficiais das Forças Armadas alardeando que estavam “unidas e coesas” em torno dos ideais revolucionários. O pau cantava nos quartéis onde militares da linha dura e distensionistas se digladiavam para definir se endureciam mais ainda o regime ou se faziam um mínimo de abertura.

Para o consumo externo, oficiais de alta patente vendiam a imagem da união de propósitos.  Diziam que as notícias de forte luta interna nos meios castrenses não passavam de fofocas e de intrigas insufladas pela subversão e por uma imprensa maledicente, interessadas em promover a cizânia no seio das gloriosas Forças Armadas.

Em um país de imprensa amordaçada, era essencial saber interpretar as entrelinhas dos comunicados militares, não deixar se iludir. Nas fotos do 7 de Setembro os três ministros militares apareciam no mesmo palanque para dar uma demonstração de sua unidade e patriotismo.

Neste 7 de Setembro a presidente da República e seu vice estiveram no mesmo palanque em Brasília para demonstrar o quanto estão “unidos e coesos”. Michel Temer foi mais longe: divulgou uma nota oficial para vociferar contra as “intrigas” e dar uma resposta dura a quem lhe chamou de golpista, acusando-o de conspirar contra Dilma Rousseff.

De novo, é preciso não se iludir pela foto meramente protocolar. E saber interpretar o texto de Temer. Sua afirmação de que trabalhará com Dilma até que 2018 os separe poderia ser entendida como tautológica. Mas não é. Ela é a própria confissão do fosso que há entre a presidente e o seu vice, a cada dia mais profundo.

Não se trata de atribuir incursões conspiratórias a ninguém. Mas é inegável que vivemos uma situação esdrúxula, para dizer o mínimo.

De um lado, temos uma presidente extremamente enfraquecida, quase clandestina, separada do povo por muralhas, até de metais como se viu no feriado; com uma base balcanizada e uma equipe ministerial semelhante à Torre de Babel. Cada ministro fala a própria língua e ninguém se entende.

De outro, nunca vimos um vice-presidente tão proativo, operando à revelia e com autonomia de sua superior hierárquica. Quanto mais Dilma se enfraquece, mais Michel Temer opera no limite da liturgia do seu cargo, apresentando-se como porta-voz do empresariado, como o avalista da estabilidade e da institucionalidade.

Ao mesmo tempo, Temer é semi-governista e semi-oposicionista, ainda que de uma oposição leal à sua majestade.

O vice-presidente ofusca a primeira mandatária.  Constrói uma imagem antagônica à de Dilma. Está sempre na mídia de forma positiva, como o ponderado, como o construtor de pontes, com vistas a se viabilizar como polo aglutinador de um novo bloco de poder, para o pós-Dilma.

Já a presidente é aquela reclusa contraditória. Não pode, sequer, falar em rede nacional de TV, sob pena de ser alvo de imenso panelaço. E quando aparece na mídia é de forma negativa, tendo de praticar contorcionismos para explicar os ziguezagues de seu governo e o “pega pra capar” de sua equipe econômica.

Para desgraça de Dilma, seu vice é muito mais articulado do que boa parte dos políticos que a cercam. Em certo sentido, expressa a média do PMDB, essa espécie frente de caciques regionais. Tem ainda a simpatia das chamadas forças produtivas, particularmente da indústria paulista. Sabe fazer política, essa arte que não foi feita para amadores.

Pode ser o fator de desequilíbrio do jogo. É isto que a presidente mais teme, sem nenhum trocadilho com o nome do vice.  Daí aceitar bailar com Michel Temer.

Nessa dança, ela engole sapo e ele estica a corda o máximo possível. Um finge que apoia o governo e a outra finge que acredita. O minueto caboclo tem tudo para acabar em divórcio, apesar das juras do casal de que estão unidos e coesos.

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Imagem: Michel Temer e Dilma Rousseff, desfile de 7 de sembro de 2015 (Foto: Ichiro Guerra / PR)
Este artigo foi publicado originalmente no Blog do Noblat do site do jornal  O Globo:
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