Sangue nos olhos

Lula e seu partido podem estar blefando. Mais cedo do que pensam terão de retificar a estratégia, operação delicada quando efetivada em meio da batalha

O ex-presidente Lula durante reunião com membros do Partido dos Trabalhadores (PT), que decidiu sua candidatura à Presidência da República nas eleições de 2018  (Leonardo Benassatto/Reuters)

 

A sarna revolucionária pequeno-burguesa, a que se referia o líder comunista Luís Carlos Prestes, está de volta. Após a condenação do ex-presidente Lula, o PT ensaia uma estratégia de ruptura institucional. Quer o nome do caudilho na urna eletrônica: na lei ou na marra. A opção pela via extra institucional visa ainda emparedar o Judiciário para Lula não ser preso.

O instrumento dessa ruptura seria uma frente de esquerda em torno de Lula. Para consolidá-la, uma nova versão da Carta aos Brasileiros de 2002 propugnará a quebra de contratos constitucionais – como a “regulamentação” dos meios de comunicação e referendos – e retorno às velhas concepções cepalinas do nacional-estatismo.

Lula e o PT repetem dois erros históricos da esquerda: a crença messiânica de que as massas virão em seu socorro e a superestimação de suas forças. As mobilizações do último dia 24 não autorizam leituras triunfalistas.

A esquerda sempre se deu mal quando optou pela ruptura institucional. A Aliança Nacional Libertadora se isolou quando pregou “todo poder à ANL”, uma cópia dogmática do “todo poder aos sovietes”. As massas não acompanharam Prestes na quartelada de 1935.

Em 1964 voltou a pesar a mão com “Reforma agrária na lei ou na marra”, “grupos dos onze”, emparedamento do Congresso Nacional, insubordinação no quarteis. Às vésperas do movimento militar combatia a “conciliação do governo Jango”! A “resistência popular” ao golpe foi uma quimera.

Setores da esquerda não extraíram as lições da derrota de 1964, enveredaram pela aventura armada. Foram derrotados política e militarmente. Prestes chamou esse voluntarismo de “sarna do revolucionarismo pequeno-burguês”.

A esquerda só se deu bem quando se integrou a movimentos amplos da sociedade, em marcos da legalidade, como na campanha do Petróleo é Nosso, Reformas de Base, Diretas Já, Tancredo Neves. O próprio PT só chegou ao poder quando abandonou o radicalismo.

Hoje é impossível enfrentar os problemas nacionais por meio de uma “frente de esquerda” e de um programa rupturista. O discurso do sangue nos olhos afugentará o eleitorado refratário ao radicalismo, que é a maioria. A chamada “rebelião cidadã” cairá no vazio.

Os partidos de esquerda não estão dispostos a avalizar a aventura do “Lula até o fim”. Com razão, desconfiam que o caudilho quer brincar de Tiradentes com o pescoço alheio. Vão cuidar da eleição dos seus.

Lula e seu partido podem estar blefando. Mais cedo do que pensam terão de retificar a estratégia, operação sempre delicada quando efetivada em meio da batalha. Haverá sempre petistas a dizer “recuar, jamais!”

Mas a alternativa ao recuo é o gueto.

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Este artigo foi publicado originalmente no site da Revista Veja, no Blog do Noblat:

Sangue nos olhos

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar

O clima do país é de normalidade. Se algo o julgamento de Lula evidencia é a resiliência das instituições brasileiras, apesar de todas as suas mazelas

O fim do mundo é anunciado desde a era pré-diluviana. Em 1938 Carmem Miranda imortalizou o samba de Assis Valente “O mundo não se acabou”, uma sátira a quem acreditou nessa conversa mole, beijou na boca de quem não devia, pegou na mão de quem não conhecia.

A nova versão do fim do mundo é o julgamento de Lula, visto pelas torcidas organizadas como o dia do juízo final. Para os petistas, a condenação do morubixaba é o próprio apocalipse. Só lhes restaria travar sua Armagedom, com o caudilho encarnando Cristo na batalha final contra os infiéis.

O fundamentalismo não é monopólio do PT. Com sinal trocado o mesmo sentimento se manifesta no outro campo, onde uma hipotética absolvição de Lula é vista como o próprio fim do mundo. Por isso os dois lados estão pondo suas torcidas nas ruas.

Uma anomalia, sem dúvidas. Numa democracia, a Justiça se pronuncia a partir do que está nos autos e não em decorrência da “pressão das massas”. Num impeachment, por ser um julgamento político, é perfeitamente legítima a pressão da sociedade, a favor ou contra. Já num julgamento jurídico, a pressão perde inteiramente o sentido.

Acontece que o mundo não vai acabar, seja qual for o desfecho do julgamento. O Brasil real passa ao largo desse clima. Não há, sequer, aquela curiosidade sobre quem matou Odette Rottman. O país não vai parar em frente à televisão à espera do veredicto do Tribunal Federal da Quarta Região.

Milhões de brasileiros não irão às ruas para comemorar ou protestar sobre o resultado. Suas motivações hoje são outras: a vacina contra a febre amarela, o emprego, a sobrevivência de sua família, o carnaval que bate à porta. As manifestações tendem, portanto, a ficar restritas à militância petista e seus círculos próximos.

O clima do país é de normalidade. Se algo o julgamento de Lula evidencia é a resiliência das instituições brasileiras, apesar de todas as suas mazelas. Eis algo a ser comemorado: o arcabouço institucional consignado na Carta Constitucional de 1988 tem seus freios e contrapesos e tem funcionado satisfatoriamente. Necessita a ser aperfeiçoado? Claro, mas com cuidado para não se jogar fora a criança junto com a água suja da banheira.

Este arcabouço não terá seus alicerces abalados seja qual for o parecer da segunda estância da justiça Federal. Caso confirme-se a condenação de Lula, teoricamente há o risco de o PT querer por o país em chamas, mas se for por aí será o maior prejudicado.

O mundo não vai acabar nem mesmo para Lula e o PT. O caudilho não estará morto politicamente mesmo se sua foto não estiver na urna eletrônica. Tem poder de fogo para transferir uma quantidade suficiente de votos para colocar o seu preposto no segundo turno. Como diziam os filósofos, a vida continua. O PT não adotará uma estratégia kamikaze que inviabilize a reeleição de seus parlamentares e de seus governadores.

O mesmo vale para o outro campo. Reconhecendo que o caudilho é um osso duro de roer mas está longe de ser imbatível. Isso valia para o Lula de 2010, quando tinha força para eleger até uma Dilma Rousseff. Hoje tem um telhado de vidro oceânico.

O julgamento de Lula não é o Dia D de um Brasil de uma economia diversificada, de uma sociedade plural e de instituições sólidas, que nos diferenciam de uma Venezuela da vida.

Como o sol não vai nascer antes da madrugada, os brasileiros podem pular no ensaio do seu bloco carnavalesco. Só não pode transar sem camisinha porque o mundo não vai se acabar.

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar

 

Os (des)caminhos do centro

O objetivo estratégico do centro deveria ser quebrar essa polaridade ou criar um novo contraponto por meio de uma alternativa agregadora

Dando como favas contadas que Lula não estará na urna eletrônica, o campo democrático, situado entre os dois extremos que lideram as pesquisas, inicia a disputa presidencial atomizado em várias pré-candidaturas. O coro que não vê problema em muitas candidaturas foi engrossado por Rodrigo Maia, mais um a entrar na dança presidencial, e Geraldo Alckmin; até então árduo defensor de uma candidatura aglutinadora.

Em sendo assim, não haveria problema em Marina Silva, Alckmin, Joaquim Barbosa, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia e mesmo Luciano Huck – se por ventura entrar no jogo – em disputar o mesmo espaço. No final, acreditam, um deles chegará ao segundo turno, quando todos se uniriam.

Argumenta-se ainda que até julho seria a etapa de se testar candidaturas, quando haveria a decantação natural, com novo realinhamento do centro. Alimenta a tese o fato de todos os pré-candidatos deste espectro terem baixa densidade em matéria de intenção de votos.

Ora, esse quadro não será alterado substancialmente até o meio do ano, salvo tempestade, chuva e trovoada, como a entrada de um outsider de centro que empolgue o eleitorado avesso a Lula e Bolsonaro. Como todos estariam no mesmo patamar, todos se sentiriam no direito de ir em frente.

Em vez do afunilamento, a hipótese mais provável seria a cristalização das candidaturas – ou da maioria delas – com o campo democrático vivendo uma situação semelhante à da disputa presidencial em 1989 e à do Rio de Janeiro em 2016. E como haveria indefinição até julho, a construção de palanques regionais também iria para a rubrica de médio prazo.

Falta ao centro uma estratégia claramente definida, com o objetivo definido a ser perseguido, ao qual todos os seus movimentos deveriam estar em sintonia. O presidente Michel Temer pressentiu o perigocom sua sinalização a Geraldo Alckmin. Maspelo visto não a diantou muito.

Evidência clara da falta de rumo: parte do centro reproduz o erro de 1989, quando Lula não quis Ulysses Guimarães em seu palanque. Hoje desdenha-se do apoio do PMDB e Temer, como se a correlação de forças entre o centro e os dois polos regressistas fossem favoráveis a ponto de se dispensar alianças.

Subjacente à estratégia de várias candidaturas está a certeza de que a Justiça facilitará a vida de todos, com a condenação de Lula.

A lei da inércia, acreditam, funcionaria mais uma vez, com Lula e o PT nas cordas e o esvaziamento espontâneo de Bolsonaro. Automaticamente estaria assegurada a presença do centro democrático no segundo turno. Essa lógica conspira contra a aritmé tica. A depender de como for a divisão do eleitorado refratário aos extremos, o centro pode ficar a ver navios na segunda rodada.

Sem contar o risco bastante provável de as candidaturas perderem o foco e ficarem guerreando entre si. A troca de cotoveladas entre Rodrigo Maia e Henrique Meirelles é apenas um aperitivo do que pode vir.

Convém, pois, levar muito a sério o alerta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em seu último artigo: “o pior pode sempre acontecer…Não há fé cega na raz& atilde;o ou nos bons propósitos que barre o irracional, se não se criarem alternativas que impeçam o pior prevalecer, pela guerra ou pelo voto”.

O perigo não está afastado, longe disso. Do ponto de vistas de seus objetivos, a estratégia de Lula está afinadíssima. Dom Sebastião não brinca de candidatura, não faz política amadoristicamente.

Adota estratagema semelhante ao da sua eleição de 2002, costurando alianças, comendo o PMDB pelas bordas. O caudilho não tem esse drama existencial do centro. Aceita alianças até com o diabo se elafavorecer aos seus planos.

Só não enxerga o objetivo estratégico de Lula quem não quer: estar na urna eletrônica com sua foto ou com algum preposto. Para tal vai travar a batalha jurídica até onde puder.

Não por ter ilusões sobre o pronunciamento das instâncias judiciárias, mas para manter nomes como Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Jader Barbalho, Paulo Câmara em seu palanque. Pode até não ter cacife para eleger seu preposto, mas tem para colocá-lo no segundo turno, sobretudo se os adversários facilitarem sua vida.

É temerária também a aposta na desidratação natural de Bolsonaro. Há um ano dizia-se que ele era fogo de palha . Sua resiliência se explica porque há um segmento do eleitorado não desprezível que se identifica com seu discurso das trevas.

E como um extremo se alimenta do outro, a possibilidade real de Lula ir ou levar seu poste ao segundo turno dará gás a Bolsonaro. O medo de o lulismo voltar ao poder por meio de um preposto fidelizará o eleitorado bolsonarista se não houver outra saída.

Elementar, o objetivo estratégico do centro deveria ser quebrar essa polaridade ou criar um novo contraponto por meio de uma alternativa agregadora, comprometida em levar adiante as reformas econômicas e capaz de combinar a democracia liberal com o reformismo social.

A indagação do artigo de FHC “Ainda há tempo?” paira no ar. O centro democrático pensa que o relógio da disputa presidencial ficará parado à espera de candidatos de sua turma.

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

Os (des)caminhos do centro

Já não se fazem liberais como antigamente

O liberalismo moderno pressupõe a combinação dos princípios liberais na política e na economia com o reformismo social

 

Figuras liberais marcaram a nossa história. Em um passado não muito distante, tivemos nomes como Roberto Campos, a maior expressão do liberalismo econômico no Brasil, ou Miguel Reale, o grande pensador do liberalismo social. Na política, liberais como Teotônio Vilela, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães foram condutores da transição democrática que culminou na República Nova.

A lista de personalidades liberais com papel relevante na vida nacional é imensa. A ela poderíamos agregar os signatários do manifesto dos mineiros de 1945, como Milton Campos, além de outros como Daniel Krieger e Pedro Aleixo, que se opuseram ao AI-5 e se desgarraram do regime militar por suas convicções liberais.

Por uma questão de justiça histórica, não se pode esquecer do general Peri Beviláqua, com suas contribuições à causa da anistia. Bem como de personalidades como Raimundo Faoro, presidente da OAB, e do jurista Godofredo Telles, autor da Carta aos Brasileiros em defesa do Estado de Direito, de 1977.

Se viajarmos no tempo, chegaremos ao grande Sobral Pinto. Coerente com suas convicções liberais e cristãs, foi advogado de Luis Carlos Prestes na ditadura varguista.

A alusão ao passado serve para ilustrar que entre outras crises, o Brasil passa por uma crise de abstinência de liberais em todos os campos. Quem hoje é o grande economista do credo liberal?

Na política, o deserto é ainda maior. Não há, no Congresso Nacional e no Executivo, lideranças capazes de dar um rumo ao país, de coesionar a nação, como no passado fizeram Ulysses e Tancredo.

Uma leitura apressada pode levar à conclusão de que vivemos o ocaso do liberalismo.  Essa seria a razão para não se fazer no Brasil liberais como antigamente. A escassez, contudo, decorre do aviltamento da política a partir da crise do modelo advindo da Nova República.

O chamado “presidencialismo de coalisão”, alicerçado em uma constelação de partidos, exacerbou traços da cultura ibérica que herdamos, como o patrimonialismo, o clientelismo e o fisiologismo. Os anos do lulopetismo aviltaram mais ainda a política, transformando-a em um campo de ervas daninhas, de onde só nascem políticos paroquiais, preocupados exclusivamente com sua propria sobrevivência.

Seria mais correto falar em uma crise de lideranças, em vez de uma crise de abstinência de liberais. No terreno árido do nosso modelo é impossível vicejar coisa boa, tal a baixa qualidade da democracia brasileira. Como surgir estadista de qualquer matiz em um Congresso rejeitado por 60% dos brasileiros?

Como dizia Churchill, a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros experimentados ao longo da história. A democracia liberal atravessou o século como o grande sistema vitorioso. Todos os regimes alternativos a ela redundaram em ditadura e fracassaram econômica, política e socialmente.

Talvez a exceção seja a China, onde ditadura e desenvolvimento econômico têm sido compatíveis por um período razoavelmente largo.  Perto de nós temos a experiência da “democracia direta” do modelo chavista, que redundou em ditadura corrupta, desabastecimento, desestruturação econômica e crise humanitária.

Também no campo econômico fracassaram os modelos alternativos ao ideário liberal. É só olhar para o nosso continente. No início do século, o nacional-populismo de esquerda espraiou-se pela América Latina.

O modelo pautado no intervencionismo estatal, na expansão fiscal e no “capitalismo de laços” gerou grave crise na Argentina dos Kirchner, no Brasil de Lula-Dilma e na Venezuela de Chàvez e Maduro.

No mundo das cadeias produtivas e da Quarta Revolução Industrial o papel do Estado não é mais o do século passado, quando muitas vezes foi motor da economia, a exemplo do que aconteceu no Brasil dos anos Vargas e Geisel.

O Estado do século 21 tende a ser regulador de mercado e provedor de serviços públicos de qualidade, com a iniciativa privada sendo a propulsora do desenvolvimento. No plano econômico, a grande missão do Estado é propiciar e otimizar as condições para que a liberdade de iniciativa possa se desenvolver plenamente.

O liberalismo moderno pressupõe a combinação dos princípios liberais na política e na economia com o reformismo social.

Um olhar atento para o atual quadro político brasileiro revela a existência de um amplo espaço para este pensamento. Os dois extremos do espectro político são a própria negação dos valores da democracia liberal e da liberdade econômica. Um namora com o modelo chavista e o outro é um saudosista da ditadura militar.

Quem souber ocupar o espaço vazio fará história. Por aí pode surgir uma nova geração de liberais à altura do legado de seus antepassados.

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Já não se fazem liberais como antigamente

 

Admirável mundo novo

Mais uma vez o Brasil é retardatário. Ainda estamos com os dois pés no século 20, tentando responder a uma agenda de reformas necessárias que há tempos deveria ter sido equacionada. A velha polarização esquerda/direita, um anacronismo reduzido à insignificância em países como a França e a Alemanha, ainda dá o tom na política brasileira.

A Europa e os Estados Unidos concentram suas energias na corrida da inovação e em busca de respostas para os desafios de um mundo em intensa transformação. Estão focados na Quarta Revolução Industrial e no mundo novo que virá a partir da disseminação da inteligência artificial e da robótica.

Já as nossas estão voltadas para fazer a reforma de uma previdência estruturada quando estávamos na era da segunda revolução industrial, com produção intensiva de mão de obra. Também pensamos reformar o sistema tributário com os olhos focados no retrovisor, sem levar em conta as alterações no modo de produzir e de como a sociedade vai se estruturar com as mudanças advindas da neorevolução tecnológica.

Certamente, não estamos respondendo como será o sistema tributário da sociedade do “não-trabalho” e qual será o sistema de proteção social para o imenso exército dos sem-trabalho. O desafio, portanto, será bem maior do que o de  ter um sistema previdenciário exequível.

Não se pode reagir diante da robótica e da inteligência artificial da mesma maneira da classe operária inglesa descrita por Engels. Nos meados do Século XIX operários destruíam máquinas para impedir a substituição da manufatura por máquinas industriais.

Em todas as eras as revoluções tecnológicas trouxeram enormes benefícios para a humanidade. Não será diferente com a Quarta Revolução. Sem dúvida, impactará, e para melhor, em nossas vidas.

Surpreendentemente foi Luciano Huck quem fez uma boa provocação no artigo “Tá Ligado?” publicado recentemente no jornal Folha de S. Paulo. Ali ele dá uma pálida ideia do admirável mundo novo que se anuncia: “sim, os carros serão autônomos muito em breve. Sim, o córtex humano estará conectado à nuvem. Sim, vamos poder fazer download de nossa memória. Sim, vamos usar minérios vindos do espaço. Sim, você poderá escanear seu corpo em casa, gerando um diagnóstico imediato. Sim, a inteligência artificial é uma realidade e irá engolir o mundo.”

De fato, haverá enormes ganhos para a humanidade. Pela primeira vez está dada ao homem a possibilidade de se livrar do trabalho enfadonho e repetitivo, podendo direcionar sua energia e tempo para a sua realização pessoal.

Nos meados do século XIX, quando a jornada de trabalho era de 12 horas, o escritor e jornalista francês Paul Lafargue escreveu sua obra polêmica “O Direito à Preguiça”. Pois bem, não estão distantes os dias em que o homem poderá usufruir desse direito sem ter a sua sobrevivência ameaçada.

A globalização iniciada nas últimas décadas do século passado retirou centenas milhões de pessoas da linha da pobreza e democratizou o consumo tornando os produtos acessíveis para camadas antes excluídas do mercado de massas. Esse processo se intensificará em escala exponencial com a Quarta Revolução Industrial. A massa de riqueza gerada será suficiente para resolver as crises humanitárias e para financiar um mundo ambientalmente sustentado.

Mas como as revoluções industriais antecedentes, a Revolução 4.0 também terá seus impactos negativos.  A robótica e a inteligênc ia artificial substituirão 47% da mão de obra tradicional. O novo desafio é o que fazer com esse exército de deslocados, tanto para dar sentido a suas vidas, como para garantir a sua sobrevivência.

Propostas antes tidas como lunáticas são debatidas no santuário da inovação tecnológica, o Vale do Silício.  Mentes arejadas como a de Bill Gates apontam a tributação dos robôs como um dos caminhos para o financiamento da alocação do contingente dos “sem-trabalho” em outras atividades sociais. A ideia da renda mínima universal, experimentada na Finlândia, é admitida por políticos antenados como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O grande desafio para as próximas décadas é definir como serão repartidos os benefícios gerados pela robotização e pela inteligência artificial. Com elas, estarão criadas as condições objetivas não apenas para o homem se livrar do trabalho pesado e repetitivo. Também estarão dadas as condições para a conquista da igualdade, bandeira que a humanidade persegue desde a Revolução Francesa.

Nesse quadro a questão da distribuição da riqueza é o grande objetivo a ser perseguido na primeira metade do século 21, assim como a democracia foi o grande valor que se afirmou ao final do século 20.

Não se trata de um simples retorno ao Estado de Bem-Estar Social, pois isto seria inexequível. Mas de reinventá-lo nas condições da sociedade do conhecimento. Por aí o admirável mundo novo poderá ser o reino da prosperidade, da liberdade e da felicidade.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornao O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2018/01/admiravel-mundo-novo.html