A crise invade os quartéis

A última vez que um presidente da República deflagrou uma crise ao demitir sumariamente um general em posto de comando foi no episódio Sílvio Frota, quando Ernesto Geisel degolou seu ministro da Guerra. Agora, depois de 44 anos, Jair Bolsonaro volta a demitir sumariamente um ministro da Defesa, o general de Exército Fernando Azevedo e Silva.

Provocou uma reação em cadeia. Ato contínuo veio o pedido de demissão conjunto dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, em um claro desagravo ao agora ex-ministro Azevedo. Mais do que isso: evidenciou que a cúpula militar não está disposta a participar de qualquer aventura golpista. Isso só seria possível se Jair Bolsonaro conseguisse fazer uma “depuração” na tropa, colocando em postos de comando generais dóceis à ideia de um alto golpe. Algo improvável tendo em vista que a cadeia de comando das três forças tem se mostrado altamente preocupada em evitar identificação direta entre governo, uma instituição transitória, e as Forças Armadas, uma instituição permanente de Estado.

É da natureza dos militares evitar demissões coletivas para não serem interpretados como indisciplinados ou quebradores da hierarquia. Quando se demitem de uma função, o fazem sem alarde. O rompimento dessa tradição por parte da cadeia de comando das Forças Armadas é uma demonstração eloquente de que a crise se espraiou pela tropa. Explodiu agora, mas seu rastro vem de longe.

A alça de mira do presidente estava apontada há um ano para a cabeça do comandante do Exército, Edson Pujol. O general é um militar de comportamento exemplar quanto à observância do papel constitucional das Forças Armadas. Sempre se manteve firme contra planos do presidente de politização das tropas e de instrumentalizá-las para seu projeto de poder.

Bolsonaro agora apostou alto, trazendo a instabilidade política para o núcleo militar, uma área vital do tripé que dá sustentação ao seu governo, que se completa com a ala ideológica e a equipe econômica.

A caserna vinha passando ao largo da crise tripla (econômica, sanitária e política), não obstante a pregação diuturna de Bolsonaro nos quartéis. Havia uma linha riscada no chão pelos três comandantes, da qual Fernando Azevedo era avalista, delimitando a fronteira das Forças Armadas como instituições de Estado. A linha foi borrada agora.

A nota do ex-ministro da Defesa é autoexplicativa. Caiu porque o presidente quer transformá-las em propriedade do bolsonarismo, tal qual o chavismo apoderou-se do exército comi sua guarda pretoriana.

Entender por que Bolsonaro avançou tanto nos leva a indagar se não há mais pólvora no ar do que pode imaginar a nossa vã filosofia. Em palestra recente, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta alertou quanto ao grave erro de se subestimar o presidente, tratando-o como limitado ou tosco. Bolsonaro tem método e estratégia, age de forma calculada perseguindo seus objetivos. A caixa de pandora a ser decifrada é saber por que Fernando Azevedo foi guilhotinado.

Não é crível que Bolsonaro tenha comprado uma briga tão gigantesca apenas por causa da entrevista do general Paulo Sérgio, chefe do Departamento-Geral de Pessoal do Exército, ao Correio Brasiliense, na qual defendeu o isolamento social. Queria demiti-lo, é fato. Mas isso não explica o principal.

A jornalista Thaís Oyama nos deu uma pista: o presidente queria que o general Edson Pujol se manifestasse contra a decisão do Supremo Tribunal Federal que anulou as condenações do ex-presidente Lula, tornando-o elegível.

Se o comandante do Exército concordasse, estaria mandando um recado cifrado de que os militares não aceitariam a volta do ex-presidente ao poder, caso fosse vitorioso na eleição de 2022. Como o ministro da Defesa se opôs a demitir Pujol, a primeira cabeça a rolar foi a sua. A conferir quem passou a informação para a jornalista, que tem fontes privilegiadas. Certamente foi alguém muito próximo do ex-ministro da Defesa ou ao próprio Pujol.

No paiol de Bolsonaro há muita ogiva. Não se sabe se, e quando, elas explodirão.

O míssil antidemocrático pode ser a decretação do estado de defesa ou de sítio, sob o pretexto de “restaurar a autoridade presidencial’ posta em xeque, no seu entendimento, por governadores e decisões da Suprema Corte. No horizonte de médio prazo o artefato bélico seria virar a mesa em 2022, na hipótese de sua derrota.

Para tais planos é condição básica ter as Forças Armadas inteiramente alinhadas aos seus objetivos políticos. Daí a necessidade de mudar a cadeia de comando. Exige contrapartida porque deu muito aos militares – privilégios na aposentadoria, orçamento militar, postos estrelados nas estatais e no núcleo central do poder. E quem dá, quer receber, como já ensinava Santo Agostinho.

Mas a postura de Edson Pujol tem respaldo na cadeia de comando do Exército. Será muito difícil para o presidente encontrar um general de quatro estrelas sem violar o almanaque do Exército, no qual o comandante da arma é o general mais antigo. O favorito de Bolsonaro para o cargo, general Marcos Freire Gomes, teria de “caronear” quatro generais mais antigos do que ele para assumir o comando.

Difícil, mas não impossível. A mosca azul também dá suas picadas em militares. Basta relembrar o exemplo da sucessão de Sílvio Frota. Seu substituto, general Fernando Belfort Bethlem, era da linha dura e alinhado a Frota. Convidado por Geisel para ministro da Guerra, virou “aberturista” desde criancinha.

Há ainda um enorme ponto de interrogação sobre o comportamento do novo ministro da Defesa Walter Souza Braga Netto, um cumpridor de ordens. Pau para toda obra, o general teria de passar por cima de um dos mais sagrados valores dos militares, a camaradagem, para enquadrá-los no projeto unipessoal do presidente. A altercação entre o ex-comandante da Marinha e o novo ministro da Defesa na reunião na qual foi selado o pedido coletivo de demissão, diz bem o quanto a situação é explosiva.

Em favor do novo ministro da Defesa registre-se o tom da ordem do dia sobre o 31 de março, com evidências de que, apesar da troca de guarda no Ministério, as Forças  Armadas não pretendem sair da rota que vem seguindo desde a redemocratização de 1985.

É célebre a frase de que quando a política adentra nos quartéis instala-se o germe da divisão, da anarquia e da indisciplina. Esse é o mal maior que Jair Bolsonaro está fazendo às Forças Armadas e ao país.

Golpismo a céu aberto

Por Hubert Alquéres

O presidente Jair Bolsonaro tem explicitado, de maneira clara e cristalina, a intenção de implodir a democracia brasileira. Esse é o sentido da frase “só Deus me tira da presidência” e da ameaça de “tomar medidas drásticas” porque “estão esticando a corda demais”. A cantilena autoritária o leva a tratar as Forças Armadas como “meu exército”, como se elas deixassem de ser instituições de Estado para se transformar em sua guarda pretoriana, leais não à Constituição, mas a ele.

O presidente segue o método de vociferar em uma direção e não desistir de seu intento até conseguir seu objetivo. Pode, no meio do percurso, fazer movimentos ziguezagueantes, com idas e vindas, mas sempre retorna ao rumo para alcançar sua meta. Deixa no ar que não titubearia em adotar medidas extraconstitucionais. Se Donald Trump enveredou por esse caminho na democracia mais consolidada do planeta por que Bolsonaro não iria seguir a mesma trilha?

A escalada da pregação antidemocrática é consequência do aprofundamento do seu isolamento em decorrência de ter perdido a narrativa da pandemia. O coronavírus, como era previsível, reduziu a pó sua estratégia de negar a dura realidade que o Brasil enfrenta. O chão começa a faltar a seus pés.

Não sem razão fez pronunciamento à nação no horário nobre desta 3ª feira. O tom pretensamente contido e ponderado não disfarçou a distorção dos fatos e a omissão de informações.

O mundo da produção e os agentes econômicos começam a lhe dar as costas. Reflexo disso são os movimentos que surgiram nos últimos dias.

Um manifesto com 1.500 assinaturas de empresários, banqueiros e economistas, alguns dos quais ex-presidentes do Banco Central, é a maior evidência de que parte substantiva do PIB brasileiro repudia sua política negacionista e exige a adoção de outra, pautada na ciência e focada na vacinação em massa.

Outras duas iniciativas mostram que importantes formadores de opinião estão procurando alternativas às preconizadas pelo presidente. Empresários liderados por Luiza Trajano, proprietária do Magazine Luiza (Magalu) vão ao Congresso para viabilizar a adoção da renda-básica e a aprovação das reformas estruturantes. Nessa 2ª feira outro grupo composto pela fina-flor do PIB se reuniu com os presidentes do Senado e da Câmara Federal. Estes empresários e banqueiros se dispõem a assumir protagonismo na aquisição de vacinas, de novos leitos de UTIs e na oferta de insumos médicos.

Em condições normais de temperatura e pressão seria natural que batessem à porta do Executivo e não do Parlamento, como vem acontecendo. Não apenas empresários, mas governadores e prefeitos também veem no Poder Legislativo a possibilidade de responder ao vácuo de poder gerado pelo presidente. Os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e sobretudo do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), têm sido o ponto de equilíbrio e de ponderação em um momento em que a união nacional é condição básica para o Brasil vencer a guerra contra a pandemia.

Em um regime presidencialista esse papel cabe ao Poder Executivo, mas a vocação de Bolsonaro de disseminar dissensos e sua obstinação pela anti-ciência vem gerando uma dualidade de poder. Lira e Pacheco dão sinais de descrença da capacidade do chefe da nação liderar o país no momento mais trágico de nossa história.  

Mas eles não têm a caneta e muitos menos o poder de nomear e demitir. E continuam nas mãos do governo, o que gera uma contradição entre o poder real e o poder formal, no tocante à pandemia.

Dualidade de poder é por si mesmo um fator de instabilidade e rupturas. Ela não pode existir por períodos mais longos. O risco é Bolsonaro tentar resolvê-la ao modo de “medidas drásticas”, como Estado de Sítio, que ele tanto tem falado nos últimos dias.

O presidente está acuado ainda por outros dois fatores. De um lado, a fase de lua de mel com o Centrão chegou ao fim e, por outro, o centro e a esquerda começam a estabelecer pontes entre si com vistas a uma atuação articulada. Não é possível ainda especular se o namoro se limitará apenas ao enfrentamento ao negacionismo ou se terá desdobramentos em um horizonte de médio prazo. Mas desde já é mais um fator que indica o isolamento de Bolsonaro.

Sim, as instituições brasileiras têm demonstrado resiliência e bloqueado o golpismo pregado pelo presidente. Certamente, se ele tentar decretar Estado de Sítio, o Congresso o rejeitará, assim como rejeitou em outubro de 1963, quando o então presidente João Goulart baixou a medida. Goulart aceitou a decisão soberana do Parlamento. Bolsonaro faria o mesmo, na hipótese de ter um pedido rejeitado?

Também não é crível que o alto comando das Forças Armadas embarque numa aventura. Ao contrário, já se percebe o profundo incômodo na cadeia de comando com a distorção do papel das instituições militares. Mas, constantemente, Bolsonaro tem feito proselitismo político nos quartéis. Seu discurso encontra guarida na baixa oficialidade. Está aí o germe de um conflito entre a cadeia de comando e sua base. No passado esse conflito levou a quebra da disciplina e a anarquia. Podemos ter o tenentismo revivido.

O presidente tem atuado no limite da legalidade. A dúvida é se ele ultrapassará esse limite, estimulando seus brigadistas a realizar atos de provocação que justifiquem a decretação do Estado de Sítio com o argumento da “convulsão social”. Não seria a primeira vez na história. Para invadir a Polônia, Hitler simulou um ataque polonês a um posto de comando alemão na fronteira dos dois países.

Não há espaço para a ingenuidade. Não dá para ignorar que Bolsonaro conspira, a céu aberto, contra o Estado de Direito Democrático.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação. Escreve às 4as feiras no blog do Noblat. Leia em: https://veja.abril.com.br/blog/noblat/golpismo-a-ceu-aberto-por-hubert-alqueres/

O Lampedusa da Saúde

Por Hubert Alquéres

Jair Bolsonaro sentiu necessidade de fazer algo diante da queda de sua popularidade, em decorrência de sua política negacionista, da ameaça que pode representar a CPI da Saúde no Congresso Nacional e da elegibilidade de Lula. A história lhe deu a última oportunidade de ruptura com a desastrada condução no enfrentamento da pandemia: demitir o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e nomear alguém competente para a área. O modelo formatado pela médica Ludhmila Hajja – autonomia na montagem de uma equipe técnica, instalação de um gabinete de crise, foco no isolamento social e na vacinação em massa – seria essa possibilidade.

Em vez da ruptura, o presidente preferiu o caminho da acomodação, na escolha do seu quarto ministro da Saúde em plena pandemia. Sua frase “Queiroga (Marcelo Queiroga, novo titular da pasta) tem tudo para fazer um bom trabalho, dando prosseguimento em tudo o que Pazuello fez até hoje” é de dar frio na espinha dos brasileiros. Ela deixa claro que não haverá mudança de rumo.

O balizamento está dado: seu governo não apoiará o isolamento social e tampouco recuará de sua política de hostilidade aos governadores, que têm arcado com o desgaste da adoção de medidas impopulares, mas necessárias.

O fato do novo ministro ser da área e haver boa vontade em relação à sua gestão não são suficientes para a reversão de um quadro dantesco que, mantida a mesma toada, poderá chegar a 600 mil mortos ao final da pandemia, conforme previu Ludhmila. Só para se ter noção do tamanho da tragédia: em dez anos de guerra na Síria morreram 300 mil pessoas. Nós poderemos ter o dobro em um horizonte curto.

A ideia de que daqui para frente vai melhorar porque haverá uma maior oferta de vacinas é doce ilusão. A corrida mundial por imunizante tende a se acelerar, principalmente agora que quase todos os países da Europa – incluídos França, Alemanha, Espanha e Itália – suspenderam o uso da AstraZenica por efeitos adversos a serem comprovados. Imagine como ficaremos se tivermos que suspender aqui também.

A única maneira de nosso país ter posição forte nessa guerra de gigantes em busca de vacinas é se houver uma união nacional envolvendo os três entes federativos, os três poderes da República, as forças políticas e a sociedade em torno de um mesmo propósito. Caberia ao presidente liderar esse processo, com seu ministro da área tendo protagonismo na aliança pela saúde.

Por aí poderíamos demonstrar que é do interesse mundial a vacinação em massa no Brasil porque, lamentavelmente, o país se transformou em um incubador a céu aberto de novas cepas do coronavirus.

Implica também em fazer a lição de casa: isolamento social, adoção de lockdown regional em casos extremos, um plano nacional e de emergência para evitar a mortes de pacientes de Covid por falta de leitos de UTI, de oxigênio e de outros insumos. Esse era o modelo Ludhmila Hajja.

O presidente não tem essa grandeza de visão. Queiroga está para a Saúde como Milton Ribeiro esteve para a Educação, quando da destituição de Abraham Weintraub. No primeiro momento há uma sensação de alívio, em seguida, uma enorme frustração. E ela apareceu já nas primeira declarações do novo ministro, dúbias tanto em relação à cloroquina quanto ao isolamento social, dizendo-se contrário ao lockdown, que só deveria ser adotado em escala regional.

Até aí “morreu Neves”. Ninguém propôs um lockdown nacional. O problema é outro. O subtexto de sua afirmação é o aval para a postura de Bolsonaro de sabotagem às medidas adotadas pelos governadores de limitar as atividades aos serviços essenciais em estados nos quais a rede de saúde – pública e privada – está colapsada.

Bolsonaro adotou a solução Lampedusa – para ficar como está é preciso que tudo mude – porque o contrário seria o reconhecimento de sua derrota. Seria negar a sua própria alma e contrariar seus brigadistas, cujo radicalismo aumentou exponencialmente desde que Lula voltou a ser elegível. Essa base fez campanha sórdida contra Ludhmila e ocupou as ruas no último domingo em protesto contra o isolamento social e em defesa da intervenção militar.

O que se pode esperar de um presidente que, quando indagado sobre as ameaças de morte à ex-futura ministra da Saúde responde “faz parte”?

O Brasil se livrou de Pazuello, mas não do pazuelismo. A submissão do ministério da Saúde a uma política negacionista continua viva. Agora, na sua versão soft.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação e do Conselho Estadual de Educação. Escreve às 4as feiras no blog do Noblat.

Mario Covas: a política por vocação

Exemplo para as novas gerações e para os que amam a liberdade e a democracia

Por Hubert Alquéres

Max Weber, grande nome da sociologia política, dividia os políticos em duas categorias: os que vivem da política e os que vivem para a política, exercendo-a como um sacerdócio. Mario Covas, cujo falecimento completou 20 anos, foi um desses sacerdotes e, mais que nunca, é um grande exemplo de homem público para os tempos atuais do Brasil. Em sua trajetória – deputado federal, prefeito de São Paulo, senador e governador do Estado, encontram-se as três virtudes exigidas de quem faz política por vocação: paixão, sentimento de responsabilidade e senso de proporção. Ainda usando a teoria weberiana: Covas foi um raro caso em que a ética da convicção e a ética da responsabilidade andaram de mãos dadas.

A ética da convicção está presente em todas as passagens do seu discurso, como líder do MDB, quando do episódio Márcio Moreira Alves. Na época, foi protagonista de uma bela página do Parlamento que, em pleno regime militar, afirmava a sua independência.

Naquele 12 de dezembro de 1968, o Espanhol, como seus amigos o chamavam, foi inarredável na defesa das prerrogativas do Poder Legislativo. Suas palavras finais guardam uma extrema atualidade: “não permitir que um delito impossível possa transformar-se no funeral da democracia, no aniquilamento de um Poder, no canto lúgrebe das liberdades perdidas”.

No dia seguinte o regime baixou o AI-5, fechou o Congresso, suprimiu as liberdades e cassou mandatos de parlamentares, inclusive o de Covas.

O país mergulhava na noite mais escura de sua História. Mas ele estava com a consciência tranquila: “caímos, mas caímos de pé”. A quem o aconselhava a ir para o exílio, respondia: “não matei ninguém, não roubei, por que eu vou deixar o meu país?”. Esse era o Mario Covas da ética da convicção.

A mesma ética o levou a repelir a tentativa do então presidente Collor de cooptar o PSDB. Ali estava o seu senso de proporção. De fato, os tucanos – cujo partido tinha sido fundado um ano antes prometendo ficar longe das benesses do poder e perto do pulsar das ruas -, cometeria um desatino se aderisse a um presidente que mentira para se eleger. Sua sabedoria salvou o PSDB do vexame de ser parceiro de um presidente apeado por um processo de impeachment.

Tinha senso de responsabilidade e zelo com a coisa pública. Como governador, fez um ousado ajuste fiscal em um estado quebrado depois do populismo dos dois governos anteriores. Um destes antecessores, o ex-governador Orestes Quércia, se jactava: “quebrei o Banespa mas elegi meu sucessor”. A falência era de tal ordem que ambulâncias e carros da polícia não podiam rodar porque, diante da enorme dívida com a Petrobras, a empresa se recusava a fornecer combustível. O salário dos funcionários, que incluía pessoal das áreas da saúde, segurança e educação, estavam atrasados.

Para recuperar o poder de investimento do Estado, Covas promoveu o choque de capitalismo que pregara em sua campanha presidencial de 1989. Privatizou estatais como a Cesp e a Comgás, concedeu rodovias à iniciativa privada com modelagem onerosa, prevendo investimentos a exemplo da construção da pista descendente da rodovia dos Imigrantes, entre São Paulo e Santos.

Recebeu por parte do corporativismo e do Partido dos Trabalhadores uma oposição ferrenha, algumas vezes por vias nada democráticas. Não cedeu ao populismo, o que quase lhe custou a reeleição em 1998.

Ao final do seu primeiro mandato São Paulo voltou a ter capacidade de investimento em áreas sociais, em especial da educação e na saúde, avançando em várias outras frentes, como moradia popular e transportes urbanos, com trens de superfície e expansão do metrô. O Estado passou a ter a melhor malha rodoviária do país e se tornou exemplo do cartesianismo clássico que ele próprio pregava: não há desenvolvimento social sem controle das contas – não se pode gastar mais do que se arrecada.

Como dizia o jornalista Clovis Rossi, Covas “tinha a alma de um político e a cabeça de um engenheiro”. Até mesmo seus adversários mais ferrenhos reconheciam duas virtudes suas. A austeridade e a coragem política.

Atento à liturgia do cargo, recusou-se a entrar e sair da Secretaria da Educação pelas portas do fundo, cuja frente estava ocupada por um grupo minoritário de professores grevistas. Literalmente os manifestantes levaram em consideração o discurso do então deputado José Dirceu de que iam “bater nos tucanos nas urnas e nas ruas”.

Covas foi apedrejado, mas manteve a dignidade do cargo. Tinha razão ao declarar: “no dia em que eu não puder entrar e sair de uma Secretaria do Estado deixo de ser governador”.

Era gigante e vinha de uma estirpe de políticos em escassez nos dias atuais. Não foi o único de sua era. Feliz o Brasil daqueles tempos em que se podia contar com Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Tancredo Neves, Marco Maciel, José Richa, José Serra, Alberto Goldman, Arnaldo Madeira e tantos outros.

A morte o impediu a realizar a ambição maior: presidir do Brasil. Seria o candidato natural dos tucanos na sucessão de FHC. O sonho foi abortado no dia 6 de março de 2001 por um câncer com o qual vinha lutando desde 1998.

Duas décadas depois sua memória deve ser lembrada. É um exemplo para as novas gerações e para os que amam a liberdade e a democracia.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e do Conselho Estadual de Educação. Foi professor em duas escolas importantes na vida de Mario Covas: o Colégio Bandeirantes e a Escola Politécnica da USP.

Leia em:

https://veja.abril.com.br/blog/noblat/mario-covas-a-politica-por-vocacao-por-hubert-alqueres/

A guerra perdida

Por Hubert Alquéres

Na noite da última 5ª feira o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, aproveitou o início do feriado do Purim – festa judaica para celebrar a salvação dos judeus persas, descrita no livro de Ester – e contracenou com um humorista na televisão, combatendo fake news sobre vacinas. No mesmo dia Jair Bolsonaro fez uma live no sentido inverso, para combater o uso de máscaras como medida preventiva ao coronavirus. Os dois episódios ilustram porque Israel é um caso de sucesso na vacinação em massa e o Brasil é uma tragédia de proporções crescentes.

A existência de uma liderança positiva, capaz de unir o país em torno de um destino comum tem sido a diferença nas nações que começam a vencer a guerra contra a Covid-19. Nos Estados Unidos do governo de Joe Biden houve uma mudança da água para o vinho em relação à era Trump. Lá estão vacinando mais de dois milhões de pessoas por dia, o presidente incentivou o uso de máscara e colhe os resultados, com a queda expressiva das mortes por covid.

O mesmo acontece na Inglaterra de Boris Johnson. As mortes caíram 27% em uma semana, 28% dos ingleses já foram vacinados e em abril começam a vacinar as pessoas entre 40 a 49 anos.

Na Itália, esquerda e direita deixaram de lado suas diferenças.  Formaram um governo de união nacional voltado para o combate à covid e para a reconstrução do país. Até a Liga, partido nacional-populista e eurocético, aderiu ao governo do novo primeiro ministro, Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu, carinhosamente chamado de Super Mário pelos italianos.

No Brasil, o presidente é uma liderança negativa e desagregadora que guerreia contra tudo e todos, menos contra o coronavirus. Guerreia contra as máscaras, contra o distanciamento social, contra a vacina. Guerreia com governadores e secretários de Saúde, contra a verdade e contra a saúde dos brasileiros. 

Não é de estranhar, portanto, que enquanto em grande parte do mundo as mortes e os casos de infecção recuam, no Brasil disparam. Ontem o país teve novo recorde de mortos, 1.726, e bateu o recorde de média móvel de óbitos pelo quarto dia consecutivo. Nesta 4° feira completaremos 42 dias seguidos perdendo mais de 1.000 brasileiros a cada dia. Antes do final de março podemos chegar a dois mil por dia.

Tivéssemos uma liderança capaz de promover a coesão nacional, o Brasil estaria agora tomando as medidas necessárias para evitar que as pessoas morram como moscas no que deve ser o pior março de nossas vidas.

Secretários de Saúde clamam pelo toque de recolher em todo o território nacional e lockdown onde a ocupação de leitos de UTIs chegue a 85%. O mesmo defendem ex- ministros da Saúde de diferentes governos, como José Serra, Alexandre Padilha, José Gomes Temporão e Luiz Henrique Mandetta. Todos são unânimes quanto à necessidade de medidas drásticas durante duas ou três semanas para evitar o colapso total neste mês.

Mas elas não virão pelas mãos de Jair Bolsonaro porque isto seria admitir sua contundente derrota. Líderes populistas não são dados a tomar medidas duras quando elas podem afetar a sua popularidade.

O Brasil virou o epicentro da pandemia, preocupa o mundo inteiro e tem tudo para ultrapassar os Estados Unidos em número de mortos, se a condução do combate ao vírus continuar na mesma toada do negacionismo.

Na última audiência no Senado o ministro da Saúde apelou para as leis da guerra para evitar que o Parlamento cumpra seu papel investigativo com a instalação da CPI da pandemia. Segundo Eduardo Pazuello isto seria abrir uma nova frente de combate, algo equivalente ao erro de Hitler na Segunda Guerra Mundial, que travou, simultaneamente, a batalha nas frentes oriental e ocidental.

Convenientemente, Pazuello esqueceu-se de outros ensinamentos de guerra, entre eles o de concentrar o golpe na direção principal. No caso da pandemia, no coronavírus e na vacinação em massa. Nesse terreno, sua gestão já fracassou. O Brasil tem vacinado em média pouco mais de cem mil pessoas por dia.

Nas guerras, comandantes que cometem graves erros são destituídos, quando não enfrentam corte marcial. Que general continuaria no comando tendo sérias responsabilidades pela morte de 250 mil soldados?

No Brasil de Bolsonaro, Pazuello continua impávido no cargo. Pode morrer um milhão de brasileiros e ele continuará ministro. Basta obedecer cega e servilmente ao presidente.

Com eles, a guerra está perdida. A única maneira de evitar a derrota total é o Parlamento “parar esse cara”, como prega o senador Tasso Jereissati.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação. Escreve às 4as feiras no blog do Noblat.