Por uma nova oposição

A chantagem da “frente antifascista” não funcionou

Mais do que nunca o Brasil vai precisar de uma oposição capaz de cumprir a missão delegada pelas urnas de fiscalizar o governo e cobrar a execução do seu programa e promessas eleitorais. Essa responsabilidade aumenta diante das incógnitas sobre como se comportará o presidente eleito, que emite sinais em direções diferentes.

De um lado, Jair Bolsonaro assume compromissos de seguir rigidamente a Constituição, de respeitar e defender as liberdades, o que é altamente positivo. De outro, incita e mantém o anátema, ameaçando desafetos e de fazer represálias a órgãos de imprensa, o que é extremamente preocupante.

Não se discute, portanto, a importância da existência de uma oposição forte e atuante. Isto é da democracia. O que está em debate é que tipo de oposição o Brasil precisa para superar a radicalização e polarização dos últimos quatros anos e, assim, poder equacionar seus problemas em um ambiente democrático.

As urnas fizeram da oposição um território sem dono. No novo quadro, é impreciso falar na oposição como um corpo único. O mais correto é apontar oposições, pois existem projetos distintos em campo.

O discurso de Fernando Haddad ao final da apuração dos votos foi decepcionante, mais um vexame numa campanha lamentável, e deixou claro o caminho a ser seguido pelo PT: hegemonizar a oposição com a narrativa de que o país marcha para o fascismo e que para barrá-lo impõe-se uma “frente antifascista”, sob o seu tacão, claro. Essa falácia subestima a resiliência de nossas instituições, entre as quais as Forças Armadas, e agride os quase 60 milhões de eleitores que elegeram o novo presidente.

A chantagem da “frente antifascista” não funcionou no segundo turno e tem bem menos apelo agora. Não gratuitamente Ciro Gomes rechaçou de pronto a proposta, com o seu grito de independência: “PT, nunca mais!”

O Partido dos Trabalhadores propõe uma oposição antiga, analógica, cujas concepções foram derrotadas pelas urnas exatamente por seu arcaísmo. Mantém inalterado seu discurso mistificador do golpe contra Dilma Rousseff, da prisão “injusta” de Lula, do “nós contra eles”, que o Brasil tanto cansou e rechaçou nas urnas. Enfim, quer a oposição prisioneira de um presidiário.

O projeto petista continua com a cabeça nos anos 50, no “nacional-desenvolvimentismo” e nos tempos da guerra-fria, quando os Estados Unidos eram vistos como o grande polvo imperialista a explorar os povos oprimidos.

Exatamente por isto, seus teóricos não tem uma explicação para uma constatação extremamente incômoda. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, a direita nacional-populista venceu com os votos das áreas mais atrasadas e dos grotões. No Brasil aconteceu exatamente o contrário: a direita venceu nos polos dinâmicos do capitalismo brasileiro (urbano e agrário) e foi a esquerda que saiu vitoriosa no eixo inverso. O que há de progresista nisso?

O Brasil precisa de outro tipo de oposição.

Uma oposição moderna, digital, antenada com os resultados das urnas, capaz de dar respostas às demandas do país. As urnas abriram espaço para uma oposição construtiva, que morda e assopre, apoie e critique, para usar a definição do cientista político Marco Aurélio Nogueira.

As urnas também abriram espaço para uma oposição que se contraponha ao hegemonismo do PT, pautada na defesa dos valores democráticos liberais na política, na economia e nos costumes, na intransigente defesa do Estado laico, no enfrentamento das desigualdades, e de um modelo econômico e ambientalmente sustentável.

Nesse barco cabe o pessoal da socialdemocracia, ambientalistas, liberais, democratas de diversas colorações, socialistas, movimentos cívicos e identitários, coletivos, pessoas sem partido ou definições ideológicas, mas identificadas com a democracia.

Na essência, trata-se de se constituir um novo centro político, cujo grande desafio hoje é superar sua dispersão em várias siglas partidárias, quem sabe por meio de uma nova formação política.

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Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo.

Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

Por uma nova oposição

Também publicado nos seguintes endereços:

http://50anosdetextos.com.br/2018/por-uma-nova-oposicao/

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O cavalo de Esopo

Acreditaram que os filtros democráticos e os sistemas de pesos e contrapesos das instituições imporiam freios à ação de demagogos.

Em seu indispensável “Como morrem as democracias”, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt recorrem à fabula do cavalo e o caçador do escritor grego Esopo. Com ela explicam o que aconteceu com quem aplainou o terreno para a assunção de tiranos como Adolf Hitler, Benito Mussolini, Hugo Chávez e outros.

Em guerra contra o javali, o cavalo pede auxílio ao caçador que se dispõe a ajudá-lo desde que aceite a rédea e a sela em suas costas. Vencida a disputa, o cavalo pede que o homem o libere daquelas amarras. A resposta: “agora eu o tenho sob minhas rédeas e espora e vou mantê-lo assim”.

Segundo os autores, foi isso o que aconteceu em sociedades que, para se livrar de problemas reais, facilitaram a assunção dos que viriam a ser seus algozes. Acreditaram que os filtros democráticos e os sistemas de pesos e contrapesos das instituições imporiam freios à ação de demagogos autoritários. Acreditaram também que ameaças não precisariam ser levadas a sério por se tratar de pura retórica.

O Brasil parece acometido pela síndrome do Cavalo de Esopo. Para se livrar da violência que mata 60 mil pessoas ao ano, da corrupção, do desemprego e da crise institucional gerados pelos governos Lula e Dilma Rousseff, parte majoritária da sociedade está disposta a se submeter à Jair Bolsonaro. Faz ouvido de mercador às sucessivas ameaças do candidato e de seus seguidores, achando possível domesticá-lo.

No último domingo, manifestantes diziam que, se no futuro o “mito” frustrar expectativas, vão tirá-lo do poder, como fizeram com Dilma. Convenhamos, impeachment não acontece como quem troca de camisa.

As esporas podem causar muita dor se o discurso de Bolsonaro do último domingo for levado a sério. A manifestação do candidato, além de grosseira, é uma peça absolutamente incompatível com o ordenamento democrático. Seu “prendo e exilo” explicita claramente a ideia de extirpar seus adversários, de vê-los como inimigos da pátria, algo bem próprio do “Brasil, ame-o ou deixe-o” dos anos de chumbo. No passado Lula queria extirpar o DEM, agora Bolsonaro quer extirpar o PT. Com igual ênfase, Fernando Haddad diz que o ex-capitão “é tudo que precisa ser varrido da face da terra”.

Como se não bastasse, antes mesmo de se erigir ao poder, o Bolsonarismo cria um potencial conflito entre os poderes, com as agressões de seu filho à Suprema Corte do país. Com manifestações que “beiram o fascismo e ultrapassam as barreiras do aceitável”, como enfatizou o ex-presidente Fernando Henrique, Bolsonaro e os seus demonstram não só desrespeito, mas pouco caso com as instituições.

O Bolsonarismo é hoje uma corrente importante da sociedade. É fundamental que venha para dentro da institucionalidade, assim como o PT veio no início dos anos 80, podendo se beneficiar da alternância do poder, se essa for a decisão dos eleitores. Mas tudo isto em absoluta consonância com os valores democráticos, a independência entre os poderes e o direito ao dissenso.

Está em jogo algo muito maior do que o voto neste ou naquele candidato. Isto será decidido pelo pronunciamento soberano das urnas. Mas, independentemente do resultado, é essencial que os filtros e os guardiões da democracia operem com todo vigor para que os brasileiros não fiquem sob as rédeas de tiranos de qualquer natureza.

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Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo.

Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

O cavalo de Esopo

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Navegar é preciso

Bem ou mal, temos uma cultura anti-inflacionária e um ordenamento democrático resiliente.

Nas três últimas décadas os brasileiros conquistaram dois bens inestimáveis: a estabilização da economia, em 1994, com o fim da inflação que penalizava os mais pobres, e o retorno da democracia, consagrada na Constituição de 1988.

Não é pouca coisa.

Sobretudo quando comparamos nossa situação à da Argentina, com 40% ao ano de inflação, que teve de recorrer ao FMI porque o populismo dos governos Kirchner não fizeram a lição de casa.

Ou com a da Venezuela, um país em desintegração, com inflação de um milhão por cento ao ano, cujo povo emigra em massa para os países vizinhos para fugir da fome e da ditadura sanguinária do chavismo.

Bem ou mal, temos uma cultura anti-inflacionária e um ordenamento democrático resiliente. Nem por isto estamos imunes a retrocessos que podem levar para o ralo conquistas obtidas com muita luta e sacrifício.

Não se trata de ver fantasmas onde inexistem, mas de entender o tamanho do risco a partir do resultado eleitoral do primeiro turno. Não se questiona a legitimidade do pronunciamento das urnas e sua soberania. Mas isto não elude o perigo dos projetos populistas-autoritários de Fernando Haddad ou Jair Bolsonaro.

No plano econômico, a conversão liberal de Bolsonaro não convence, face ao seu passado de estatista e seu desconhecimento absoluto de fundamentos básicos da economia. Sem contar que a previsível instabilidade política em um hipotético governo seu poderá contaminar a economia.

Quanto a Fernando Haddad é visível o desastre que seu programa econômico causará. Já foi testado no governo Dilma Rousseff e deu no que deu. Fortemente intervencionista, tem propulsão a romper contratos com investidores, conforme explicitou no último debate televisivo.

Em comum, os dois candidatos embutem o risco inflacionário e da postergação das reformas. Tanto um como outro colocam em risco nosso bem mais precioso: a democracia, largamente aprovada pelos brasileiros, segundo pesquisa do Datafolha.

A “Constituinte dos notáveis” anunciada pelo vice de Bolsonaro e a “Constituinte exclusiva” de Haddad expressam a intenção de golpear a democracia por dentro. A extrema-direita é avessa a valores democráticos, e a esquerda petista vê a democracia como um estorvo para seu projeto de poder.

Os retrocessos podem acontecer ou não. Dependem da resistência da sociedade. Concluída a disputa presidencial, o país ingressará em uma nova fase, na qual a resistência democrática e a articulação de uma ampla frente se apresentam como a estratégia mais adequada para a defesa de tudo que o Brasil avançou nos últimos trinta e quatro anos.

Diante da radicalização e de um país dividido ao meio, o lado perdedor tenderá a atuar com sangue nos olhos para desestabilizar quem ganhou no voto. Nessas condições a existência de um polo democrático e reformista é condição para evitar o quanto pior melhor, bem como para evitar que o país afunde nas águas turvas do populismo autoritário de direita ou de esquerda.

Em 1973, quando o Brasil estava mergulhado em um mar cinzento e não se via luz no horizonte, Ulysses Guimarães recorreu a Fernando Pessoa para fazer renascer a esperança. “Navegar é preciso”, pregou o Senhor Democracia, então anti-candidato em uma eleição de cartas marcadas no Colégio Eleitoral indireto. Tinha razão.

Hoje, mais do que nunca, navegar é preciso.

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

Navegar é preciso

Foi reproduzido nos seguintes sites:

http://50anosdetextos.com.br/2018/navegar-e-preciso/

https://jornalnoticias.org/esporte/navegar-e-preciso/

https://jornalnoticias.org/esporte/navegar-e-preciso/

Maioria barulhenta reformou a política

Abertas as urnas, a maioria nada silenciosa implodiu o sistema

 

Partidos e políticos tradicionais tinham concebido o modelo perfeito para se perpetuarem no poder, com o engessamento da eleição por meio de regras que inviabilizavam qualquer renovação política. Campanha mais curta, recursos do financiamento público concentrados nas mãos dos caciques partidários e tempo televisivo assegurariam a reeleição dos atuais parlamentares, bem como a continuidade do presidencialismo de coalizão.

Só não combinaram com os eleitores.

Abertas as urnas, a maioria nada silenciosa implodiu o sistema, promovendo uma renovação que só encontra similar na longínqua eleição plebiscitária de 1974, quando o eleitorado deu um sonoro não à ditadura militar. O resultado de 2018 não é só contra o petismo, mas contra a classe política e a quase tudo que se identifique com a velha política, seja de esquerda ou de direita. O PSDB, o MDB e o PT em graus diferentes foram profundamente atingidos pelo tsunami eleitoral.

Não necessariamente isto redundará em um Parlamento melhor, até porque, na onda antissistema, foram ceifados políticos com larga folha de bons serviços prestados ao país. E muita coisa nova pode se revelar velho. Mas a bomba de Hiroshima jogada no velho e carcomido mundo da política não deixa de ser positiva, sobretudo se os partidos tradicionais tiverem a humildade de reconhecer seus erros e promoverem seu aggiornamento.

Parte ponderável dos parlamentares que agora chega ao Congresso não deve sua eleição a mecanismos tradicionais e sim por ter sabido surfar na onda. Um Parlamento mais pulverizado e com grandes partidos fragilizados diminui o espaço de barganha da caciquagem que sempre deu as cartas no Congresso Nacional.

Imaginava-se um Jair Bolsonaro, se eleito, dependente, sem base parlamentar e, portanto, frágil diante do Congresso.

As urnas desmentiram cabalmente tal estimativa.  De partido nanico, seu PSL pulou para a segunda bancada na Câmara Federal. Se Lula foi o grande eleitor nos anos dourados do lulopetismo, o grande eleitor de 2018 foi Bolsonaro, como comprovam as disputas para governador do Rio, de Minas Gerais, Paraná e outros Estados. Quem se elegeu na sua onda terá mais fidelidade à ele do que à legenda.  Em síntese, o presidencialismo de coalizão no mínimo será redesenhado, se é que continuará.

Gostemos ou não, Bolsonaro está em sintonia com uma maioria barulhenta que vem gritando desde 2013 contra a péssima qualidade dos serviços públicos e contra a corrupção. As jornadas do impeachment amplificaram sua insatisfação com o mundo da política inteiramente alheio aos seus anseios por honestidade e segurança.

Solenemente a classe política e seus partidos fizeram ouvido de mercador ao barulho das ruas e das redes sociais. Imaginaram que passariam impunes nas eleições, como se a Lava-Jato e a violência que aterroriza a população não repercutissem nas urnas.

O PSDB foi duramente punido porque frustrou as expectativas de um eleitorado que votou massivamente nos tucanos em 2016. Já o PT, com a sua petulância de sempre, se recusou a reconhecer qualquer delito entre os diversos que cometeu e fez da defesa de Lula sua principal bandeira. Imaginar ser possível reverter sua derrota no segundo turno apenas com a demonização de Bolsonaro é o caminho mais rápido para uma nova derrota.

No passado Lula era o efeito teflon. Hoje Bolsonaro é esse fenômeno. Nada cola nele porque representa o antissistema, o diferente de tudo o que está aí.

 

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Hubert Alquéres é diretor do Colégio Bandeirantes, presidente do Conselho Estadual de Educação SP, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro e membro da Academia Paulista de Educação.

 

Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja em 10 de outubro de 2018 ( https://veja.abril.com.br/blog/noblat/maioria-barulhenta-reformou-a-politica/ ), no Blog 50 anos de Textos ( http://50anosdetextos.com.br/2018/maioria-barulhenta-reformou-a-politica/ ) e no Jornal das Notícias ( https://jornalnoticias.org/esporte/maioria-barulhenta-reformou-a-politica/ ).

As cinzas do PSDB

Hubert Alquéres

Quando Martinho da Vila cantou o samba “Renascer das cinzas”, a Vila Isabel virou um mar de lágrimas. Naquele ano a escola tinha dado o maior vexame no carnaval. Atravessou o samba, desafinou a bateria, na passarela desfilou sem harmonia. Só não caiu para o segundo grupo por causa da generosidade do júri. A Vila chorava de vergonha diante de uma derrota tão humilhante e o samba de Martinho servia de catarse para expurgar a dor contida no peito. Funcionou, no ano seguinte a Vila Isabel voltou a ser a escola maravilhosa, com um desfile de arrasar.

O PSDB sai das urnas na mesmíssima situação daquele carnaval desastroso da Vila Isabel. Seu mestre-sala foi muito mal na avenida, amargando um humilhante quarto lugar. Depois de 24 anos polarizando com o Partido dos Trabalhadores, não estará no desfile do segundo turno. Mais grave: o grande juri – os eleitores – lhe impuseram a maior derrota de sua história e suas alas se desentenderam, com alguns dos seus membros aderindo ao samba da “Unidos por Bolsonaro” ao apagar das luzes do primeiro turno. E pensar que dois anos antes os tucanos foram os grandes vencedores do carnaval, obtendo vitórias estupendas nas eleições municipais de 2016!

A derrota não é a mãe da vitória, mas é possível perder ganhando, acumulando forças para as batalhas futuras. Não foi o que aconteceu com o PSDB, que perdeu perdendo. Sai do teatro de operações sem um mínimo de consenso sobre como se posicionar na disputa do segundo turno e sem entender porque o eleitorado rejeitou seu samba-enredo. No seu caso, a derrota é um elemento altamente desagregador e põe em risco a possibilidade de seguir o samba de Martinho, renascendo das cinzas.

Pode até continuar existindo como agremiação partidária, com alguns governadores e um número razoável de parlamentares. Mas não terá brilho, ou protagonismo nacional, se não for capaz de ir à fundo nas causas da maior derrota de sua história e de formular um novo projeto para a nação. Nestas condições, pode se tornar satélite de projetos que estão aí na praça, com parte de suas fileiras aderindo ao populismo autoritário de esquerda e outra parte ao seu reverso, o populismo autoritário de direita.

A vitória tem muitos donos e a derrota é órfã, alguém já disse. O mais comum em momentos como este é se nomear um culpado como bode expiatório. Responsabilidades individuais devem ser buscadas. A começar pelas do próprio candidato, que não podem ser desprezadas. Sem dúvidas, a estratégia de não ocupar o campo do antipetismo revelou-se um desastre. Mas se entrar em um processo autofágico que eluda as causas reais da maior crise de sua história, não irá a lugar algum. Não há um único culpado, nem mesmo Aécio Neves. O esgarçamento dos tucanos sem dúvida deu um salto de patamar nos anos do aecismo, mas sua crise não nasceu em 2014, vem de longe.

Seguramente ela tem tudo a ver com a sua perda de identidade a partir de não saber defender seu legado. O fim da inflação em 1994 foi o maior ganho dos brasileiros, mas os tucanos foram incapazes de defender essa conquista e de apontar na atual disputa presidencial o quanto os candidatos Jair Bolsonaro e Fernando Haddad são uma ameaça a esse benefício cuja conquista custou tanto aos brasileiros.

No campo ético, o PSDB aviltou-se, nivelou-se por baixo. Se Aécio Neves tem muita culpa no cartório, o conjunto de suas lideranças também o tem em função de seu silêncio tumular e pela blindagem dos seus. No fatídico 17 de maio de 2017, quando veio à público a delação da JBS, os tucanos foram incapazes de cortar na própria carne e de deixar o governo Michel Temer de forma altiva.

O eleitorado é tudo, menos desmemoriado. Era óbvio que isso teria o seu preço na disputa presidencial. O PSDB não se antecipou e viu-se na constrangedora situação de ver pipocar em plena refrega episódios vexaminosos envolvendo o ex-governador do Paraná, Beto Richa, e o vice-presidente nacional do partido, Marconi Perillo. A tempestade perfeita que se abateu sobre a campanha de Geraldo Alckmin era missa anunciada.

A migração de parte do seu eleitorado para a candidatura de Jair Bolsonaro tem uma explicação lógica. Ao longo dos anos os tucanos não qualificaram o sentimento antipetista dos brasileiros. Ao contrário, renderam-se ao antipetismo furibundo, tanto por meio da adoção no Congresso Nacional de uma pauta-bomba que era a negação do que o PSDB fez quando governo, como também por adotar posições mais próprias de uma extrema-direita refratária a valores democráticos. Não estranha, portanto, que entre o genérico e o original o eleitorado antipetista tenha preferido a extrema-direita autêntica.

De uma força situada no campo da esquerda democrática e de centro-esquerda, o PSDB foi em marcha batida para a direita. Reflexo disto é a campanha do seu candidato a governador de São Paulo, cujo discurso na questão da segurança é igualzinho ao de Paulo Maluf dos anos 90. E pensar que Mário Covas e Franco Montoro tanto combateram esse discurso!

A esquerdofobia passou a ser uma característica de setores expressivos do tucanato. Seu líder na Câmara, por exemplo, apresentou projeto de lei que institucionaliza o trabalho escravo e como relator da CPI da Funai pediu o indiciamento de dois mortos, num total de 120 pessoas suspeitas, entre servidores da Funai, procuradores federais, advogados da União, professores universitários, antropólogos, lideranças religiosas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e representantes de organizações socioambientais.

O líder tucano é um político coerente: já anunciou que no segundo turno vai defender na bancada o apoio a Jair Bolsonaro. Essa guinada explica, em grande medida, atitudes de trânsfugas que aderiram -ou insinuaram adesão- ao bolsonarismo às vésperas do primeiro turno.

Se quiser sobreviver como protagonista da vida política nacional, será inescapável ao PSDB enfrentar sua dubiedade ideológica. Ou se afirma como partido de uma esquerda democrática comprometida com a democracia e o reformismo social, ou radicaliza sua opção pela direita. O pior dos mundos é tudo continuar como dantes no quartel de Abrantes e este é o xis do problema.

Em países de partidos consolidados, derrotas como a do PSDB levam à renúncia coletiva das direções e à convocação de congressos extraordinários para a definição de novos rumos.

A grande dúvida, portanto, é se é possível o PSDB renascer das próprias cinzas e voltar a sambar na avenida, como sempre foi seu papel.

Teoricamente é, mas vai ter que reescrever seu samba enredo e encontrar um  mestre-sala  capaz de  conduzir  de sua escola a bom termo.  Não será fácil, diante do massacre que sofreu nas urnas.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do movimento Roda Democrática em  08 de outubro de 2018:

http://rodademocratica.com.br/2018/10/08/as-cinzas-do-psdb/

 

O Assalto ao Palácio do Planalto

Estaria o petista fazendo uma ameaça tipo a de Prestes?

por Hubert Alquéres

A tomada do poder é um conceito do marxismo clássico associado a um ato por meio do qual uma força política destrói o velho Estado burguês e constrói um novo. Exemplos disso foram o assalto ao Palácio de Inverno da Revolução Russa, a tomada do poder por Mao Tsé-Tung na China e por Fidel Castro em Cuba. A ideia do “Assalto ao Palácio de Inverno”, sempre habitou a cabeça de nossa esquerda. Em 1935, pregava “Todo Poder a ANL (Aliança Nacional Libertadora)” e, nas vésperas de 1964, Luiz Carlos Prestes alardeava que não estava no governo, mas estava no poder. Uma bazófia, claro, mas os soviéticos acreditaram.

Formado na velha escola do stalinismo, José Dirceu ressuscitou a tese em entrevista ao jornal espanhol El País. Disse o comissário: “dentro do Brasil é uma questão de tempo para a gente tomar o poder, que é diferente de ganhar eleição”. E realmente é. Quem ganha eleição mas não se apossa do Estado, submete-se ao jogo democrático, respeita o pluralismo e a sagrada alternância do poder. Já quem toma o poder muda a ordem constitucional e procura se perpetuar.

Estaria o petista fazendo uma ameaça tipo a de Prestes? Difícil de crer. O PT sempre teve um projeto de poder, utilizando-se de expedientes como o Mensalão e o Petrolão para impô-lo ao país. Se não avançou mais o sinal e respeitou a alternância do poder foi porque a correlação de forças não permitia.

Mas quem disse que cometerá o mesmo erro novamente se voltar ao Palácio do Planalto legitimado pelo voto?

O próprio Zé Dirceu já disse em outras ocasiões que o PT não voltaria a cometê-los. Há um precedente preocupante. Os sandinistas submeteram-se à alternância do poder quando perderam a eleição para Violeta Chamorro. Aprenderam a lição. Quando voltaram respaldados pelas urnas, Daniel Ortega se perpetuou no poder, rivalizando com Nicolás Maduro em matéria de ditadura sanguinária em nosso continente.

O comissário não é uma voz isolada no PT. Resoluções do PT estão cheias de passagens sobre o controle social da mídia. Em outra delas, sua executiva lamentou por não ter promovido nas forças armadas oficiais com “compromissos democráticos e nacionalistas”. Acometido de sincericídio, o senador Lindemberg Farias alardeou o bordão “Haddad no governo, Lula no poder”. E seu presidenciável fala na convocação de uma Constituinte exclusiva.

Como a era das revoluções ficou para trás, o “Assalto ao Palácio do Planalto” não poderá se dar pela via leninista da insurreição das massas. Essa via está esgotada, mas há outra.

Em seu livro “Como as democracias morrem”, os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, mostram que ditadores de esquerda e da direita usam a democracia para implodi-la por dentro. A tomada do poder não acontece mais por meio de insurreição das massas ou de golpes militares, mas sim pela via eleitoral. Por meio de mecanismos democráticos foram instaladas a ditadura de Erdogan na Turquia, Chàves/Maduro na Venezuela, Duterte na Filipinas, Ortega na Nicarágua.

Neste modelo, a democracia deixa de ser um valor universal para ser um expediente tático. O objetivo estratégico do PT é a tomada do poder, como confessa José Dirceu. A eleição é apenas a maneira para chegar lá.

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Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo

Este artigo foi publicado no site da Revista Veja, no Blog do Noblat:

O Assalto ao Palácio do Planalto