Candidato a Nero

Donald Trump (Foto: Redes Sociais)

por Hubert Alquéres

O novo presidente americano, Donald Trump, iniciou seu governo como seriíssimo candidato a Nero do Terceiro Milênio.

Trump reduziu a cinzas a Parceria Transpacífica, anunciou que em breve fará arder em chamas o bloco Nafta – EUA, México e Canadá –, jogou na fogueira o Obamacare – a reforma da saúde que beneficia 20 milhões de americanos-, além de trocar a agenda ambiental de Obama por outra bem mais quente: estímulos ao uso de combustível fóssil.

De quebra, eliminou a versão em espanhol do site da Casa Branca e determinou o fechamento da conta do Twitter e Facebook em espanhol. Com relação ao portal, também imolou a página sobre os direitos homossexuais.

As primeiras medidas de um presidente piromaníaco fazem antever uma América e um mundo bem pior do que imaginava o mais pessimista dos pessimistas.

Nunca um presidente da maior economia e democracia do planeta causou tantos temores em tão pouco tempo.

Donald Trump está em guerra contra tudo e contra todos.

Contra os latino-americanos e outros imigrantes, contra a União Europeia, a Otan, o México, o Canadá, o Peru, o Chile, a China e os outros países asiáticos, contra conquistas históricas das mulheres, como o direito ao aborto. Contra a imprensa, contra a verdade; agora contraditada por “fatos alternativos”.

Para fazer a “América voltar a ser grande”, Trump pretende incendiar os valores e a ordem mundial do pós-segunda guerra e da globalização, pautados na livre circulação das mercadorias e das pessoas, na diversidade, no fortalecimento dos fóruns multilaterais, do fim das barreiras e dos muros.

Conseguirá seus intentos?

Difícil de crer. A América das jornadas dos direitos civis de Martin Luther King, das manifestações contra a guerra do Vietnam, da contracultura dos anos 60 e da segunda onda feminista, mostrou sua cara na marcha das mulheres, um dia depois da posse do 45º presidente americano.

Essa maioria estrondosa deu o seu recado. Não aceitará recuos nos direitos individuais ou em questões ambientais.

Numa América dividida ao meio, Trump resolveu travar uma guerra particular com a imprensa no segundo dia do seu mandato, desafiando um dos valores mais caros dos americanos: a liberdade de imprensa. Não conte, portanto, com refrigério por parte dos meios de comunicação.

Também não se espere do restante do planeta boa vontade com o novo presidente dos EUA. Sua opção pelo isolacionismo levará a novas conformações geoeconômicas.  Não só na política inexiste espaço vazio. Na economia e no comércio também.

A saída dos Estados Unidos da Parceria Transpacífica levará os demais países a buscar um rearranjo, tendo a China como eixo gravitacional.

Sem perceber, Trump pode estar cavando a cova do “Império Americano” ao criar as condições para que os chineses sejam, cada vez mais, o principal polo de atração na economia mundial.

Vivemos, de fato, num mundo dos paradoxos. Um presidente capitalista prega o protecionismo, a Rússia se tornou um país de piratas reais e virtuais e um presidente comunista, Xi Jinping, é aplaudido em Davos pela elite empresarial por pregar o “respeito às normas internacionais” e elogiar a globalização como “resultado natural da evolução científica”.

O mesmo vale para a União Europeia, a quem Trump quer ver pelas costas. Idem para o México e Canadá

O novo presidente americano mete tanto medo que, paradoxalmente, tende a crescer na Europa o sentimento de união, em contraposição à vaga nacional-populista, fenômeno observado por Daniel Cohn Bendit em lúcida entrevista publicada no Globo.

Poderá ainda fazer renascer o antiamericanismo, particularmente em países de larga imigração ou de histórico de conflitos com os EUA, como é o caso do México.

Em um mundo de conflitos e contenciosos aquecidos, dispensam-se candidatos a Nero.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2017/01/candidato-nero.html

 

Obama e Trump, passado e futuro

O presidente Barak Obama recebe Donaldo Trump, presidente leito, na Casa Branca (Foto: Pablo Martinez Monsivais / AP)O presidente Barak Obama recebe Donaldo Trump, presidente leito, na Casa Branca (Foto: Pablo Martinez Monsivais / AP)

por Hubert Alquéres

A troca de guarda  nos EUA põe o mundo diante duas utopias nesse início do século vinte um. Ambas se apresentam como respostas às mazelas da Terceira Revolução Industrial e aos desafios da era pós globalização.

A seu modo, o presidente que se recolhe ao fundo do palco, Barack Obama, e o que vem para o primeiro plano, Donald Trump, expressam essas duas visões. Uma é o passado e a outra é o futuro.

O problema é saber quem é quem para identificar quem está em sintonia com as tendências da Quarta Revolução Industrial, fenômeno tão irreversível como o foram as revoluções anteriores.

Se os ex-presidentes americanos Ronald Reagan e Bill Clinton foram os beneficiários diretos dos anos dourados da globalização – a ponto de ao final de seus governos gozarem de popularidade altíssima, 60% e 65% – Obama teve de governar em uma globalização em crise. Mesmo assim, terminou seu governo com 56% de aprovação. Diga-se, de passagem, Donald Trump chega à Casa Branca com o índice mais baixo de aprovação dos últimos sete presidentes, na época de sua posse.

O deslocamento do emprego, as ondas migratórias desordenadas, a concentração das riquezas e a concorrência geraram um quadro adverso.

Para se ter ideia do tamanho do problema, nos Estados Unidos a renda dos mais pobres está estagnada desde os anos 80, enquanto os ganhos dos mais ricos aumentaram no mesmo período. Nos anos 50, cerca de 30% dos americanos trabalhavam na indústria. Hoje são apenas 8%, segundo Náercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper.

A desigualdade se manifesta na qualidade do emprego. Os mais ricos e mais escolarizados encontram vagas nos segmentos modernos da economia e nas grandes cidades, enquanto para os outros extratos sociais há vagas de baixa qualificação, com remuneração bem menor que o emprego industrial.

Isto explica porque, apesar de Obama ter tirado  o país da crise e de existir uma situação hoje de pleno emprego (desemprego abaixo de 5%), os americanos preferiram Trump.

Esses problemas podem se agravar com o advento da chamada Revolução 4.0, marcada pela fusão de tecnologias digitais, físicas e biológicas. Ela provocará mudança radical no mundo industrial e  no mundo do trabalho.
Esse processo tem potencial de eliminar 47% dos postos de trabalho. Isso não é miragem, é o mundo daqui a pouco.  A Conferência Davos/2017 já se debruça sobre a substituição dos trabalhadores por robôs em fábricas inteiramente automatizadas.

O novo presidente dos Estados Unidos pretende enfrentar essa realidade por meio de uma utopia regressiva, de retorno à Segunda Revolução Industrial, pela reedição do espírito  de Yalta, com a divisão de “esferas de influência” dos EUA e da Rússia, e com a exclusão da Europa Ocidental.

A questão é saber se é possível frear o desenvolvimento das forças produtivas, se é possível fazer os “Estados Unidos voltar a ser grande” pela via de construção de muros e de tarifas protecionistas, como quer Donald Trump.
Protecionismos e guerras econômicas sempre geram ineficácia e atraso tecnológico. Se efetivados, levarão à perda de um dos maiores ganho da globalização, o barateamento dos produtos e  sua democratização.

E não resolvem. Estima-se que 80% dos empregos perdidos se deu em consequência da automação e apenas 20% como decorrente por transferência de fábricas no mundo.

O cinturão da ferrugem dos EUA não voltará a ser o mesmo da linha de produção. Não é possível voltar aos tempos do carburador.

No mundo em que cada vez mais o robô substituirá o homem, a utopia factível é a expressa no discurso de despedida de Obama, uma peça histórica do mesmo patamar do discurso “Nós, o povo”, de Ronald Reagan.
O presidente que sai de cena reconhece o crescimento da desigualdade e propõe um novo pacto social “pois, se não gerarmos oportunidades para todas as pessoas, os desafetos e divisões que paralisaram nosso progresso vão apenas se intensificar nos próximos anos.”

Eis o dilema a ser resolvido: como garantir a sobrevivência de uma maioria marginalizada do mercado do trabalho? A bandeira da repartição da riqueza de uma forma mais equitativa tende a ser o grande valor do século vinte e um a ser perseguido, assim como a democracia o foi no século passado.

Está claríssimo, portanto, quem é o passado e quem é o futuro.

 

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2017/01/obama-e-trump-passado-e-futuro.html

Passageiros da utopia

Mário Soares fala para a multidão na estação de trem de Lisboa, em 29/04/1974, após o seu retorno do exílio. Ele se tornaria o primeiro presidente civil depois da redemocratização (Foto: AP)Mário Soares fala para a multidão na estação de trem de Lisboa, em 29/04/1974, após o seu retorno do exílio. Ele se tornaria o primeiro presidente civil depois da redemocratização (Foto: AP)

por Hubert Alquéres

Em um de seus últimos artigos, o poeta Ferreira Gullar pregou a necessidade de se recuperar a utopia de uma sociedade mais fraterna e menos desigual, sonho de gerações e gerações do século XX.

Esse trem da utopia acaba de perder um de seus últimos passageiros, Mário Soares.

Morreu o “pai do Portugal democrático”, mas não o seu ideário. Este continua atual. Afinal, sabemos que, sem utopia a humanidade perde o sentido.

O sonho dele foi o mesmo de Olof Palme, Willy Brandt, François Mitterrand, Felipe González, passageiros do comboio da socialdemocracia em países da Europa pós Segunda Guerra Mundial.

A grande consigna de Mario Soares foi “socialismo em liberdade”. Com ela, não só se diferenciou do modelo do “socialismo real” da URSS e seus satélites, mas também da visão liberal do Estado mínimo e do endeusamento do mercado.

A socialdemocracia moderna, da qual foi um dos expoentes, constituiu-se como terceira via, pautada na combinação de um Estado social com a economia de mercado.

Os países nórdicos são até hoje a experiência mais bem-sucedida. É difícil defini-los como capitalistas ou socialistas. Talvez um mix dos dois.

A ideia de uma Europa una, à qual Portugal aderiu, trouxe enormes benefícios para os países que a ela se agregaram.

A prosperidade portuguesa é produto dessa integração, da qual Mário Soares foi fiador. O Portugal salazarista era um país agrário, exportador do trabalho braçal, de índices de analfabetismo alarmantes – 25% ainda na década de 70. Hoje é um país moderno.

Mas poderia ser a Albânia do mundo ocidental, caso o pai da democracia portuguesa tivesse perdido o embate para Álvaro Cunhal, líder comunista de linha ortodoxa e pró Moscou de Brejnev.

A pátria de Fernando Pessoa viveu dias dramáticos em 1975 quando um golpe de orientação comunista por um triz não se concretizou. Soares conclamou as massas a ir às ruas em defesa da democracia e estreitou mais ainda os laços com Olof Palme, um dos maiores líderes da socialdemocracia escandinava.

Nas últimas décadas do século 20, este ideário tinha vencido o embate ideológico que vinha desde a ruptura entre a Internacional Socialista e a Terceira Internacional.

A ideia do socialismo democrático, ou do “socialismo em liberdade” ganhou força tanto com a perestroika de Mikhail Gorbachev, como com o compromisso histórico de Enrico Berlinguer. Na essência, o eurocomunismo do PCI e do PCE se aproximava, e muito, das ideias de Mário Soares, Olof Palmer, Willy Brandt, François Mitterrand e Felipe González.

Na virada do século, a democracia se afirmava como o grande valor da humanidade, mas o Estado do bem-estar entrava em refluxo, como uma das consequências da globalização, que, se trouxe enormes ganhos, não concretizou o sonho do poeta de uma sociedade menos desigual. Ao contrário, levou à desindustrialização em países centrais, a uma maior concentração da riqueza, aprofundando desigualdades.

A recente onda nacional populista, com seus traços de xenofobia e racismo, é uma resposta transversa aos efeitos perversos da globalização.

E por ser transversa é uma não resposta.

O nacional-populismo não é a última estação do trem da história.  O desafio dos tempos atuais é construir uma alternativa a ele.  E, seguramente não é a negação da globalização, mas sua elevação a um novo patamar.

O sonho dos passageiros da utopia permanece atual.

A ascensão do nacional-populismo aponta para a necessidade de uma socialdemocracia comprometida até a medula com a distribuição da riqueza, nos marcos de uma economia de mercado e de ordenamento democrático.

Em um mundo no qual somente uma parte da população encontrará lugar no mercado tradicional de trabalho, será imperativo criar um novo sistema de bem-estar social baseado em distribuição mais justa da riqueza.

O trem dos passageiros da utopia segue em direção a Estação Finlândia, primeiro país a experimentar um programa de renda mínima universal.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

Como será 2017? Responda quem puder

Futuro (Foto: Arquivo Google)

 

por Hubert Alquéres

Na virada do ano milhões de brasileiros jogaram flores a Iemanjá, consultaram os búzios ou cartas de tarô, pediram para a cigana ler as suas mãos. Tudo para saber o que o destino reserva para 2017, se as suas vidas passarão pelo mesmo sufoco de 2016 ou se há sinais de que vai melhorar.

Nunca as divindades foram tão consultadas como agora, tal o mar de incertezas sobre o ano que se inicia.

As previsões vão do apocalipse da “dilmização de Temer” ao otimismo cauteloso, segundo o qual, apesar dos raios, trovões, tempestades e terremotos, ao final do ano Michel Temer ainda residirá no Palácio da Alvorada em um ambiente mais favorável na economia e na política.

A singularidade de 2017 é ser um ano-sanduiche. De um lado, dá continuidade a 2016, com toda a sua pauta negativa, de outro, está imprensado pela agenda de 2018, com as forças políticas agindo para ocupar posições para a sucessão presidencial.

Ou, em outras palavras, é o ano da transição da transição, se essa for entendida como a construção das bases necessárias para o Brasil passar de um país desestruturado pela era lulopetista para o advento de um novo modelo de bases mais sólidas, institucional e economicamente. A consolidação de tal modelo será uma missão dos pós 2018.

Esse caráter do ano em curso aparece com nitidez na área econômica, onde fatores positivos e negativos se combinam. Ao final do ano, o crescimento será raquítico, o desemprego continuará sendo um tormento na vida dos brasileiros e a dívida bruta chegará a 76,2% do PIB.

Mas é preciso levar em conta a movimentação das placas tectônicas da economia. A política macroeconômica pode começar a dar resultados. A inflação de 2016 ficará no teto da meta. Sua tendência aponta para uma aproximação para o centro da meta, em 2017. Ou seja, estarão dadas as condições para uma queda consistente da taxa básica de juros.

As medidas microeconômicas adotadas em dezembro podem surtir efeito no médio prazo, principalmente se Temer conseguir destravar as privatizações e se a recuperação em marcha dos preços das commodities tiver continuidade.

Vista em estado neutro, a tendência é de uma melhoria do ambiente e de um horizonte no qual o Brasil rompa o círculo de ferro do baixo crescimento com inflação e juros altos.

Como a economia não é um estado neutro e sofre a incidência do mundo da política, o presidente vai precisar de muita reza brava, banho de cheiro e proteção dos orixás para se livrar das duas espadas de Dâmocles que pairam sobre a sua cabeça; o julgamento das contas de Dilma e Michel Temer pelo TSE e o maracanã de delações da Odebrecht, que podem provocar um abalo sísmico no mundo da política formal e no seu governo.

José Dirceu dá de barato que 2017 será o ano do juízo final de Michel Temer, razão pela qual expediu uma carta conclamando a militância para ir às ruas e “justiça para todos, a renúncia de Temer et caterva, eleições gerais, Constituinte”.

Em campo oposto, Ronaldo Caiado vai quase na mesma direção, propondo a antecipação das eleições de 2018, e Miro Teixeira engrossa o caldo com sua emenda das diretas, como se fosse o Dante Oliveira redivivo.

A história, porém, não se repete, a não ser como farsa. Nada indica que as massas que foram às ruas pelo impeachment junte seu grito à voz cavernosa do lulopetismo ou de quem está atrás de quinze minutos de glória.

O fim do mundo de Temer pode não acontecer. Aliás, o mais provável é que não aconteça. Sua margem de manobra não se esgotou.

No dia dois de fevereiro, quando os baianos vão ao Rio Vermelho festejar Iemanjá, dará início à sua reforma ministerial, que pode servir tanto para acomodar insatisfações latentes em sua base de sustentação como para lhe dar condições de fazer política também para as ruas; como, apropriadamente, reivindica o governador de Pernambuco, Paulo Câmara.

Por falar na terra do frevo e do maracatu, os profetas do apocalipse deveriam ler a entrevista do sociólogo Marcus Melo sobre o equívoco da tese da “dilmização de Temer”.

O Congresso é hoje a grande casamata do presidente. Até por uma questão de sobrevivência, Executivo e Legislativo devem atuar em dobradinha em torno de uma agenda positiva, o que, indiretamente, favorecerá o ambiente econômico, com a aprovação das reformas da Previdência e outras medidas.

A cigana pode ter enganado quem aposta em 2017 como o ano do inferno astral dos brasileiros. Os astros podem nos ajudar.

Portanto, desde já, um bom ano novo a todos.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat: