Kit de sobrevivência

É a velha política novamente

Por Hubert Alquéres

Bolsonaro entrou no modo “sobreviver é preciso”. Com o ministro do Supremo Celso de Mello autorizando abertura de inquérito contra ele, mais de 31 pedidos de impeachment na gaveta de Rodrigo Maia e podendo ser atingido ainda por outros dois inquéritos, o presidente partiu para reforçar a sua linha de defesa.

Assim como Michel Temer se livrou no Congresso de dois processos por meio de uma ampla base parlamentar, Bolsonaro faz um movimento na mesma direção. Abre as portas para o Centrão adentrar solenemente em seu governo. Em um primeiro momento no segundo escalão, lembrando que alguns dos órgãos loteados valem mais do que muitos ministérios. O FNDE que o diga.

É a velha política novamente. Sem o apoio dessa turma, dificilmente um pedido de impeachment prospera ou uma CPI é instalada.

Bolsonaro cuidou também de proteger outro flanco com as nomeações dos novos diretor-geral da Polícia Federal e ministro da Justiça. Para o primeiro escalou o delegado Alexandre Ramagem, que assume o cargo sob a suspeita de ser sensível a eventuais ingerências do presidente na corporação.

Para o Ministério da Justiça escolheu o atual Advogado-Geral da União, André Mendonça. Muitos veem nessa escolha uma concessão aos militares, que temiam um recrudescimento da crise se o indicado fosse alguém da copa e cozinha do presidente. Mendonça tem bom trânsito no Supremo e currículo para o cargo.

O terceiro movimento foi cuidar de seu front interno para evitar uma nova guerra intramuros, dessa vez entre intervencionistas e liberais. Bolsonaro arbitrou a disputa em favor da agenda de Paulo Guedes. Corretamente o Ministro da Fazenda defende as atuais medidas de impacto como sendo emergenciais, com data para terminar. Elas envolveram recursos da ordem de mais de meio trilhão de reais nas áreas fiscal, trabalhista e creditícia, como o auxílio de R$ 600 a trabalhadores informais, além das ações relacionadas ao INSS, o FGTS, o salário desemprego, o crédito da Caixa e Banco do Brasil ou a redução das despesas públicas de estados e municípios

Alguns fatores jogam a favor da estratégia do presidente. Rodrigo Maia percebeu o movimento no Congresso. Quanto mais se aproxima o término de seu mandato na presidência da Câmara, menor é o seu poder de aglutinação. O Centrão começa a orbitar em outra direção. Daí a postura refratária de Maia a pedidos de impeachment ou de CPI.

Há ainda a resiliência de sua base social, como indica a mais recente pesquisa do Datafolha que mostra índices nada disprezíveis de apoio e confiança no presidente e em seu governo. O sentimento pró-impeachment também não é predominante na sociedade. Há consciência do quanto essa opção é traumática e difícil de se concretizar em meio a uma pandemia.

A outra alternativa, a renúncia, é risível. Só serve como agitação e propaganda da oposição. Chance zero de acontecer.

Mas há fatores que podem enfraquecer a estratégia presidencial. Os três inquéritos em curso são uma caixa de pandora. Não se sabe ainda o que eles vão revelar e se têm força para desgastá-lo. Serão os fatos que determinarão o humor da sociedade e, em última análise, do próprio Congresso.

O embarque do Centrão também tem desvantagens, sobretudo por sua voracidade em termos de cargos. Topa blindar o presidente, mas na situação em que ele seja refém do seu apoio. Ao atraí-lo para seu ninho, Bolsonaro trai o discurso da antipolítica que tanto encantou seu eleitorado cativo. O risco é perder parte desse apoio.

Na economia, a disputa está longe de se encerrar. A afirmação de Guedes, de que o crescimento econômico do Brasil no próximo ano vai surpreender o mundo, tem a mesma credibilidade de outro dito seu. No começo de março o ministro dizia que o Brasil ia crescer durante a pandemia. Hoje já se estima uma queda do PIB de mais de 5%. Como sua premonição dificilmente se realizará, a pressão dos “intervencionistas” voltará com força.

Já na PF, as resistências da corporação serão imensas, se o novo diretor geral adotar uma linha não republicana.

Por certo, são questões de longo prazo. Mas, como dizia John Maynard Keynes, a longo prazo estaremos todos mortos. Para Bolsonaro interessa o aqui e agora.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e do Conselho Estadual de Educação. Escreve às 4as feiras no site da revista Veja:

https://veja.abril.com.br/blog/noblat/kit-de-sobrevivencia-por-hubert-alqueres/

O calibre do perigo

A reação das instituições aos constantes ataques à democracia brasileira mudou de patamar. Dois fatos são indicadores desta situação.

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, aceitou o pedido do Procurador Geral da República, Augusto Aras, um aliado do presidente, de instalação de inquérito para investigar os atos pró-ditadura realizados em frente a quartéis. Um deles com a presença de Jair Bolsonaro, ao lado dos portões de entrada do Quartel General do Exército em Brasília onde se situa o Gabinete do Comandante do Exército.

As Forças Armadas, por sua vez, se distanciaram do discurso contra a democracia. Após consulta aos comandantes das três armas, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, divulgou nota oficial, reafirmando sua obediência à Constituição, como tem se pautado desde a redemocratização do país.

Não se pode subestimar esses dois fatos. Eles rompem com o ciclo de se contrapor à escalada autoritária apenas por meio de declarações.

O Procurador Geral da República teve de se movimentar. Mesmo que sejam procedentes as suspeitas, de que teria blindado previamente Bolsonaro ao excluí-lo do escopo do inquérito e apenas investigar a autoria dos atos, seu pedido visou atender à pressão da sociedade civil para que a democracia acione seus mecanismos de defesa.

À primeira vista, o presidente não teria com o que se preocupar por não ser objeto da investigação. Mas não é bem assim. O que Ulysses Guimarães dizia das CPIs vale para outros tipos de investigações: é possível saber como começam, mas não como terminam. Ao investigar a autoria e quem financiou os atos, o inquérito pode chegar a parlamentares ligados ao governo e ao chamado gabinete do ódio.

E se as investigações chegarem ao seu núcleo familiar?

Há um precedente de um presidente que não era alvo de investigação mas foi letalmente atingido por uma delas. Getúlio Vargas não era objeto do IPM instalado para investigar o atentado a Carlos Lacerda, mas quando as investigações chegaram ao seu irmão Benjamin Vargas, seu governo chegou ao fim de forma dramática.

O atual inquérito tem potencial para agravar a instabilidade de um governo que não conta com base parlamentar sólida e vive em guerra declarada com Congresso Nacional e o Supremo.

Nos tempos da ditadura, costumava-se interpretar os pronunciamentos dos militares por suas entrelinhas. Desde a redemocratização as Forças Armadas se mantiveram em silêncio sobre questões não afetas às suas atividades profissionais. Se voltaram a marcar posição é porque vivemos tempos anormais, agravados pela grave pandemia que se abate sobre a saúde pública.

Como no passado, é preciso entender o contexto da nota oficial desautorizando as manifestações.

Na noite de domingo o núcleo militar do governo, do qual participa o próprio ministro da Defesa, ainda não havia visto nada de anormal na participação do presidente em um ato no qual se pregava o AI-5, o fechamento do Congresso e do STF. Apenas acharam que Bolsonaro se empolgou. O chamado núcleo militar não tinha captado a enorme insatisfação da cadeia de comando das três armas com os atos, bem como de militares de alta patente que não fazem parte do governo.

A pregação em frente aos quartéis foi mais um passo na politização da tropa, porta pela qual a quebra da disciplina e da hierarquia sempre adentrou.

Os militares sentiram o calibre do perigo de serem arrastados para uma aventura por causa do canto fúnebre que o marechal Castelo Branco chamou de vivandeiras e que desde 1930 rondam os quartéis. Nas entrelinhas mandaram seu recado: “As Forças Armadas são instituições de Estado, não de governo”.

Esse é o lado positivo. As Forças Armadas parecem não estar dispostas a abrir mão do ativo conquistado a duras penas: o respeito e a admiração dos brasileiros por se aterem às suas funções definidas pela Constituição. Se o presidente extrapolar e apelar para estado de sítio, receberá o mesmo não que os militares deram a Dilma quando a então presidente pretendeu abortar seu impeachment com a decretação de estado de defesa.

O lado ruim é que temos um presidente que assume o papel de vivandeira e vai para frente de quartel para fazer questionável discurso político, um ato que pode ser qualificado como crime de responsabilidade.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação. Escreve às 4as feiras no Blog do Noblat. Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat: https://veja.abril.com.br/blog/noblat/o-calibre-do-perigo-por-hubert-alqueres/ 

A digitalização do ensino

Por Hubert Alquéres

“Em que mundo viveremos depois que a tempestade passar?” É assim que o historiador israelense Yuval Noah Harari questiona os efeitos da covid-19 sobre a sociedade e as decisões que governos, empresas e pessoas estão tomando nestes dias.

Antes mesmo da pandemia provocada pelo coronavírus, o mundo já passava por intensas transformações em decorrência da Revolução 4.0. As mudanças vinham provocando impacto direto na forma da sociedade produzir e se organizar, em um claro indicativo de que estamos no limiar de uma nova era.

A covid-19 vai acelerar o redesenho de nossas vidas. Na economia, na cultura, na maneira das pessoas se relacionarem, na política e na própria educação.
O processo de digitalização, que já tinha invadido nosso cotidiano, vai dar um enorme salto enquanto estamos confinados. Isso amplia as oportunidades para avanços que beneficiam a humanidade.

É uma mudança que vai bem além da forma de produzir e de distribuir bens e serviços. Na verdade, estamos passando por uma transformação cultural profunda.

Mudam aceleradamente as bases de produção, as cadeias de negócios, o sistema de saúde, as escolas. Para viabilizar essas mudanças, todos estão se apropriando de novas tecnologias digitais.

Esse movimento provocado pela pandemia em direção a um mundo mais digital talvez contribua para equacionar alguns problemas da sociedade moderna. Tendências que estavam em curso podem sofrer brusca interrupção ou mudança de rota. Outras, se afirmarão.

Ainda é cedo para saber como será o mundo pós-pandemia, mas certamente haverá alterações na geopolítica e na divisão social do trabalho, em escala planetária.

A pandemia pode, por exemplo, fazer retroceder o que a cientista política Lourdes Sola caracterizou como ativismo da discordância, resposta à globalização que fez ressurgir o xenofobismo, o racismo, a intolerância política, religiosa e racial, o separatismo, o ódio.

Esses sentimentos estão sendo absolutamente impotentes para derrotar o inimigo invisível – o coronavírus -, e sentimentos como solidariedade, união, igualdade e justiça social, que estavam hibernados, voltam a aflorar na humanidade. Grandes tragédias têm o dom de unir nações e povos para superá-las, como aconteceu na Segunda Guerra Mundial. Vivemos momento semelhante.

Não gratuitamente, os líderes populistas estão perdidos com seus rompantes anticientíficos, antitecnológicos e de confronto com a verdade. O mundo das fake news, o terraplanismo, o debate raso das redes sociais, a antipolítica, estão em tendência declinante. Em contrapartida, a imprensa se consolida como o principal meio de informação, respeitado pela esmagadora maioria das pessoas. E a democracia, com o seu arcabouço institucional, mais uma vez dá provas de resiliência. Tende a vir mais forte quando a tempestade passar.

É nesse mundo instigante – onde a ciência é valorizada, a informação precisa passa a ser uma questão de vida ou morte e os hábitos digitais ganham mais força – que temos o desafio de redesenhar a Educação para que ela seja contemporânea. E devemos fazê-lo em um país retardatário, cuja revolução educacional iniciou-se apenas no final do século 20 e ainda está inconclusa.

Foi neste quadro que os países implementaram planos de emergência para desacelerar e limitar o potencial de contágio do vírus e promoveram a interrupção das aulas presenciais. Mais de 1 bilhão e meio de estudantes em todo o planeta deixaram de ir às escolas para ficar em casa. O período de fechamento das instituições de ensino implica em perda maciça no desenvolvimento do capital humano, com consequências econômicas e sociais significativas a longo prazo.

É um forte teste de estresse para os sistemas educacionais. Mas também uma oportunidade para acelerar e romper com resistências e buscar alternativas de Educação com amparo do processo de digitalização do ensino. A China, primeiro epicentro da pandemia, já está bem avançada em fornecer acesso ao aprendizado on-line para boa parte de seus estudantes.

Hoje é plenamente possível dar uma resposta satisfatória de ensino não presencial. De um lado, há uma oferta de plataformas e aplicativos na prateleira e, de outro, a democratização da internet e o barateamento dos produtos.

Mesmo nas camadas mais carentes, a maioria dos jovens ou de suas famílias possui possibilidades de acesso cada vez maiores, especialmente por meio dos smartphones. Ainda assim, as limitações e a iniquidade da educação digital têm sido diariamente debatidas por especialistas em educação. Os gestores tem enorme responsabilidade e devem optar por tecnologias mais acessíveis. As Secretarias de Educação vêm trabalhando nessa linha e muitas escolas privadas estão apoiando seus estudantes menos favorecidos.

A escola do século 21 é bastante diferente daquela do século passado, na qual o ambiente físico era rígido, as disciplinas não se comunicavam entre si, as aulas eram expositivas, o professor tinha o monopólio do conhecimento e da memória, os alunos tinham um papel de coadjuvante em cadeiras enfileiradas.

Hoje o conhecimento e parte da inteligência estão nas máquinas ou na nuvem. O professor não tem mais o papel de simples transmissor do saber. É mais um facilitador da aprendizagem dos alunos, que são os protagonistas desse processo, e um curador de fontes confiáveis de conhecimento. Sua grande missão é desenvolver nas crianças e nos jovens uma habilidade que eles irão necessitar por toda as suas vidas: aprender a aprender. O desafio dos tempos atuais é formar nossos jovens para profissões que ainda não existem, mas que existirão quando completar seu ciclo educacional.

Todas essas novas responsabilidades podem ser desenvolvidas tanto de forma presencial como por meio da educação a distância. As escolas bem-sucedidas serão aquelas que, híbridas, incorporarem em seu ambiente a cultura digital.

Cada vez mais a escola é convocada a formar, mesmo que remotamente, cidadãos e profissionais com espírito de liderança e de cooperação, que saibam atuar em equipe. Deles exige-se capacidade de articular as partes com o todo, e de comunicação, além de rigoroso domínio de conteúdos específicos.

Impossível a educação formar esse profissional, esse cidadão, em uma redoma de vidro, inteiramente descolada de um mundo cada vez mais plural.

A escola, para estar em sintonia com o mundo além de seus muros, necessariamente tem que respeitar a diversidade. Como toda ciência, a educação requer um ambiente de liberdade, de tolerância, de respeito ao contraditório e de criatividade para poder se desenvolver.

As ondas não são eternas, um dia passam. Nós, educadores, estamos sendo chamados a resistir, a nos reinventar, sem abrir mão daquilo que temos de mais sagrado: o dever de estimular o aprendizado e propiciar uma educação híbrida, com recursos digitais, muitas vezes de forma remota, que tenha forte conteúdo e que seja humanista.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e preside o Conselho Estadual de Educação de São Paulo. Foi professor na Escola Politécnica da USP, da Escola de Engenharia Mauá e no Colégio Bandeirantes. Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Estado de S.Paulo:

https://politica.estadao.com.br/…/a-digitalizacao-do-ensino/

O mundo pós pandemia 

Nova York com as ruas vazias em meio à pandemia de coronavírus

Já há um grande debate sobre o redesenho da ordem mundial, quando a crise do coronavírus passar. Há projeções para todos os gostos. As mais catastrofistas vão do fim do capitalismo ao surgimento de um “comunismo redesenhado”, como avalia o filósofo esloveno Slavoj Žižek. Sem chegar a tanto, outros enxergam o fim da globalização e da União Europeia. Também se especula sobre o fortalecimento do autoritarismo; como se Victor Orban – primeiro ministro da Hungria – fosse a regra e não a exceção das tendências que vão se impor com o fim da pandemia.

É bom desconfiar dos profetas do caos.

A crise terminal do capitalismo vem sendo preconizada desde a deflagração da Primeira Guerra Mundial. Ressuscitada em todas as crises mundiais, sua morte jamais se confirmou, para desespero dos marxistas, estes sim cada vez mais minoritários. Não será diferente agora. O mundo também não vai retroagir para a era da segunda revolução industrial quando inexistiam as cadeias produtivas globais.

Isso não quer dizer que tudo será como dantes no quartel de Abrantes. A pandemia vai acelerar tendências que já estavam em curso. Antes mesmo da crise, o Fórum Econômico Mundial descortinava um “capitalismo de parte interessadas”, que não se guiaria apenas pela lógica implacável do lucro. Assim, as empresas teriam também responsabilidades sociais e ambientais. A desigualdade e a sustentabilidade já estavam na agenda planetária, com a crise assumiram caráter de urgência.

A pandemia tornou mais visível a desigualdade. Explicitou a necessidade de ser enfrentada por meio de um novo contrato social entre Estado, sociedade e mercado. A globalização desregulada levou à crise do Estado de Bem Estar Social, enfraquecendo serviços vitais para a população. Na Inglaterra, nos últimos anos dos conservadores no poder, o sistema público de saúde – NHS – perdeu 17 mil leitos e 43 mil enfermeiros. Não foi muito diferente em outros países desenvolvidos.

Os ingleses redescobriram o quanto é importante ter um sistema de saúde fortalecido. O próprio Boris Johnson descobriu isso quando estava numa UTI. Saiu de lá fazendo declaração de amor ao NHS e a dois enfermeiros, imigrantes da Nova Zelândia e de Portugal.

Os países desenvolvidos estão valorizando os imigrantes. São eles que tocam parte de vários serviços essenciais.

O reforço do liberalismo associado ao Estado de Bem Estar Social é uma tendência. No novo contrato social a ser estabelecido, determinados bens e serviços – saúde e segurança, por exemplo – terão uma forte presença do Estado, não sendo ditados apenas pelas leis do mercado. O desafio é encontrar novas fontes de financiamento para assegurar aos cidadãos uma renda mínima e serviços públicos.

A ideia do Estado-Nação também ressurge com força. Não que os países vão se fechar em copas, econômica e politicamente, mas a configuração da União Europeia terá de se reinventar, assim como a divisão de trabalho internacional. A dependência de um só produtor de equipamentos médicos gerou uma questão de soberania. Os países buscarão formas de se proteger, sobretudo se não houver uma resposta global ao desafio atual.

A reindustrialização com cada país produzindo tudo seria um anacronismo que jogaria por terra os ganhos de produtividade decorrentes da automação e do advento das cadeias globais. A solução estará na regulamentação do mercado de itens sensíveis para evitar guerras de aquisição e na qual falará mais alto o poder do dinheiro dos países mais fortes.

Certamente a geopolítica mundial também passará por mudanças, com a China aumentando o seu protagonismo por meio do soft power. Os Estados Unidos não deixarão de ser a principal potência mundial econômica e militar, ao menos no curto prazo. Mas cada vez mais a Europa olhará mais para a China. Foi ela que veio em socorro de outros países, quando a pandemia ceifou milhares de vida no velho continente.

As grandes crises sempre tiveram o poder de fazer o mundo se reinventar. Na maioria das vezes para melhor. Foi assim na Segunda Guerra Mundial. Não será diferente agora.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e do Conselho Estadual de Educação. Escreve às 4as feiras no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

O mundo pós pandemia (por Hubert Alquéres)

 

 

Nau sem comando 

 

por Hubert Alquéres

Coesão, perseverança e equilíbrio são fatores fundamentais para o Brasil enfrentar a pandemia do coronavírus. Ao presidente competiria usar a autoridade que a Constituição lhe confere para liderar os brasileiros nessa dura travessia. A missão de comandar é indelegável, quanto mais em tempos de guerra. O Covid-19 pode provocar a morte de 110 mil brasileiros nos próximos meses e a recessão bate à nossa porta. O Brasil, portanto, não precisa que se instale uma crise de autoridade em um quadro tão dantesco.

Infelizmente já está posta, como evidencia o demite-não-demite do ministro da Saúde. O comportamento errático de Jair Bolsonaro, sua falta de foco na defesa da vida e da sobrevivência das pessoas passam para a sociedade a imagem de um presidente emparedado pelos outros dois poderes e por ministros moderados que ora atuam como bombeiros, ora para reduzir danos.

O mais comezinho direito de um presidente é o de nomear e demitir. O de Bolsonaro foi posto em xeque em função de suas tentativas atabalhoadas de livrar-se do ministro que lhe faz sombra. Não que Luiz Henrique Mandetta seja insubstituível ou que sua condução no combate ao coronavírus seja isenta de críticas.

Mas só se demite um general em campo de batalha quando sua estratégia pode levar à derrota ou à desagregação de suas forças. Não é que vem acontecendo com o desempenho de Mandetta, cuja estratégia encontra-se respaldada pela Organização Mundial da Saúde. O ministro acerta quando se pauta pela ciência. É recomendável que não desperdice energias em uma “guerra de estrelas”.

O efeito mais perverso da crise de autoridade é a existência de um governo desarticulado.  Ou melhor, de um governo desgovernado. É como se as ações dos diversos ministérios não tivessem relação entre si e inexistisse uma coordenação para dar coerência e eficácia a ação governamental. Não se pede ao presidente que seja o braço operativo dessa coordenação, mas a missão de dar um norte deveria ser dele e de mais ninguém.

Há um conjunto de necessidades que exigem uma ação articulada e transversal. Os desafios são muitos e as carências imensas.

Como fazer para suprir a falta de EPIs ou reorientar a produção nacional para uma “economia de guerra”, capaz de responder por exemplo à demanda por respiradores mecânicos, são questões sem respostas. Também não se sente um esforço conjunto do governo federal para criar novos leitos e UTIs, bem como para avanços de pesquisas em busca de remédios e vacina para o coronavírus.

O general Braga Neto foi indicado para coordenar e dar sentido orgânico à ação de todas as pastas. Teoricamente é capacitado para a missão, por sua experiência como planejador, mas é visível que falta ao governo um Pedro Parente. Mais ainda falta um presidente como Fernando Henrique Cardoso, capaz de tornar menores as crises que adentram o Palácio do Planalto.

A quebra da autoridade presidencial traz consigo o germe da anarquia. O exemplo mais deletério vem do ministro da Educação, Abraham Weintraub, sem a menor noção do papel institucional de um ministro de Estado. Irresponsavelmente, contrariou os interesses nacionais com sua mensagem racista em relação aos chineses.

A China é o maior produtor mundial dos insumos médicos tão necessários para nosso sistema de saúde não colapsar. É nosso principal comercial, seu mercado é estratégico para a soja brasileira, que sofre concorrência agressiva dos Estados Unidos. Pois bem, enquanto a ministra da Agricultura, Tereza Cristina Dias, e o vice presidente da República, Hamilton Mourão, atuam para preservar os interesses brasileiros, Weintraub, por motivos ideológicos, opera para implodir as relações com a China. De que lado está Bolsonaro neste embate? Seu silêncio sepulcral é sintomático e preocupante.

Em jogo não está apenas a autoridade da figura Bolsonaro. Está a autoridade da instituição Presidência da República. Restaurá-la é fundamental, se quisermos vencer a guerra contra o coronavírus.

Não será reconstruída, contudo, à base do “prendo e arrebento” do general Figueiredo. Ou por uma canetada que jogue fora o esforço da sociedade e o bom trabalho realizado pela pasta da Saúde. Exigirá espírito de liderança, resiliência, autorregulação, inteligência emocional, requisitos ausentes no presidente.

A despeito de o leme estar em mãos trêmulas, vamos ter de nos reinventar para atravessar a tempestade do coronavírus. E triplicar esforços para evitar que a nau afunde.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e do Conselho Estadual de Educação. Escreve às 4as feiras no site da revista Veja:

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Covid-19 reinventa o Estado forte

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A recessão mundial de grandes proporções que bate à porta da humanidade coloca o papel do Estado como essencial para responder a esse grande desafio. A rigor ele é chamado a socorrer a economia em momentos de grave crise, como na Grande Depressão de 1929, nas Guerras Mundiais do século passado ou em outras crises sistêmicas.

O diferencial de hoje é que não basta apenas injetar dinheiro nas empresas – como aconteceu na crise de 2008. É preciso também garantir renda para os trabalhadores que ficarão sem sustento e investir pesado em saúde. O foco não são as empresas, são as pessoas.

Governantes de países de economia liberal se movimentam para que os trabalhadores não sejam demitidos. Estão reduzindo impostos sobre a folha de pagamentos das empresas com o compromisso de não haver desemprego.

Na Inglaterra, pátria-mãe do liberalismo, o governo conservador de Boris Johnson adotou um pacote de 418 bilhões de libras a ser aplicado em várias áreas. Entre suas medidas está o pagamento de 75% do salário de quem ganha até 2.500 libras. Com isso, garante uma renda de R$ 14.900, para os desempregados. Donald Trump também vai na mesma direção. Adotou um programa de U$ 2,5 trilhões e anuncia que pagará mil dólares mensais para quem ficar em casa.

A despeito das medidas adotadas, que apenas mitigam a recessão, o grande debate que se trava ao redor do planeta é determinar qual seria o momento em que a quarentena deve ser relaxada para que a economia volte a funcionar. Um dos temores é que não está afastado o risco de convulsões sociais, com saques e violência. O pano de fundo poderá ser o desemprego dantesco e a falta de renda e de condições de saúde. Nos Estados Unidos o desemprego pode chegar a 20% e as estimativas são de queda no PIB americano de 20 a 25%(anualizada) no 2º trimestre, um desastre mesmo que haja uma recuperação acelerada do 3º trimestre. Os números não serão diferentes no Brasil.

Entretanto, a prioridade de todos os governos responsáveis é salvar vidas, razão pela qual o prazo da quarentena de diversos países tem sido ampliado. O próprio Donald Trump inicialmente refratário a essa medida, estendeu sua validade até 30 de abril. O que há é uma tomada de consciência de que o retorno das atividades econômicas deve se dar de forma programada e depois do pico da pandemia. O lockdown deve ser evitado e só deve ser adotado diante da iminência real do colapso do sistema de saúde.

No Brasil a necessidade de uma intervenção do Estado é mais gritante. Temos 44 milhões de trabalhadores informais, quase treze milhões de desempregados. Estima-se que só no comércio teremos mais cinco milhões de desempregados.

Esse enorme contingente humano mora em favelas sem condições sanitárias e não terá o que comer mantida a situação atual.

Diante de fatos dramáticos, a crise atropela posições ideológicas e se impõe. A Covid-19 derrubou o discurso econômico de Jair Bolsonaro e seu ministro Paulo Guedes e os obrigou a editar medidas com impacto da ordem de mais de meio trilhão de reais nas áreas fiscal, trabalhista e creditícia. Entre elas o auxílio emergencial de R$ 600 a trabalhadores informais e de R$ 1.200 para mães responsáveis pelo sustento da família além das ações que envolvem o INSS, o FGTS, o salário desemprego, o crédito da Caixa e Banco do Brasil ou a redução das despesas públicas de estados e municípios.

Bolsonaro rompeu com o discurso econômico com o qual se elegeu, assim como Boris Johnson e Donald Trump. E tudo isso pode não bastar para minimizar os efeitos nocivos do isolamento nos níveis de emprego e PIB. À frente, outras medidas deste teor virão.

Mais ainda. A gravidade da crise de saúde pública, de emprego e PIB demanda por liderança política que coordene uma ação enérgica e única das três esferas de Governo para implementar e fazer chegar os recursos tempestivamente aos mais necessitados; alguém que dedique esforços sem medida para evitar uma calamidade médico-hospitalar e articule a eficácia administrativa dos entes federativos na definição dos momentos críticos de afrouxamento das medidas restritivas em vigor.

Nada será como antes depois desta pandemia.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e do Conselho Estadual de Educação. Escreve às 4as feiras no site da revista Veja: