A contemporaneidade de FHC

Fernando Henrique Cardoso é um dos poucos políticos brasileiros capaz de enxergar além do nevoeiro que turva nossos olhos

Odiado pelos extremos regressistas – e nem sempre compreendido por seus companheiros de partido – o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é um dos poucos políticos brasileiros capaz de enxergar além do nevoeiro que turva nossos olhos. Intelectual e político atento, é figura obrigatória a ser ouvida por quem quiser entender as intensas transformações que varrem o mundo.

Com esse propósito, na semana passada o movimento suprapartidário Roda Democrática promoveu um encontro com o ex-presidente. Fernando Henrique esbanjou vitalidade com analises precisas. Vejamos algumas.

A revolução tecnológica, com o advento da robótica e da inteligência artificial alterou as relações sociais no trabalho e o próprio modo de acumulação do capital. De um lado, “vem criando uma enorme massa de não empregáveis” e de outro, a acumulação do capital se desloca para as áreas que envolvem criatividade e para as das novas tecnologias, “de onde advém os novos milionários”.

Como dar dignidade às pessoas num quadro onde a “produtividade aumenta de forma cavalar e a tecnologia é concentradora de capital”? Mais: “como manter os não empregáveis e o que fazer com a hora desnecessária do trabalho?”

Segundo ele, esse processo levará ao aumento da desigualdade. No caso do Brasil diz, à desigualdade tradicional acrescenta-se a “desigualdade futura”, produto da Revolução 4.0. Tudo isso em um país que não cuidou da área da educação como deveria e também não acompanhou as mudanças na economia global. Resultado: perdeu protagonismo até mesmo na América do Sul.

Ao mesmo tempo, a sociedade fragmentou-se. “Em vez da velha divisão de classes de um mundo onde os partidos representavam determinados interesses, temos hoje uma sociedade dividida em questões identitárias”.

A partir daí faz uma pergunta inquietante: “como fazer política entre identidades diferentes” e que muitas vezes se fecham ao redor de si mesmas formando verdadeiros guetos?

Isto será possível por meio do diálogo e de ideias comuns que, transversalmente, permeiem toda a sociedade. Quais seriam elas? Do ponto de vista dos valores, além da “liberdade e igualdade, a dignidade, o respeito aos direitos humanos”.

Para além dos valores, FHC entende que é preciso reencantar a política, com ideias e pessoas concretas. Este seria o grande desafio de um “polo popular democrático e progressista” alternativo aos extremos.

Este polo, avalia, estará fadado ao fracasso se seu programa estiver voltado apenas para atender ao mercado. “É preciso olhar para o mercado, mas também para o estado e a sociedade. Se não olhar para a base, vai perder a eleição. Não é Lula que é forte no Nordeste. É a pobreza que é forte.” Este olhar se traduziria no tripé emprego-segurança-princípios éticos.

Aos 86 anos, Fernando Henrique chama atenção não apenas pela contemporaneidade de seu pensamento, mas também pelo seu realismo político: “temos de fulanizar as ideias e trabalhar com o que temos”. O recado está dado.

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

A contemporaneidade de FHC

Caixa de marimbondos

A Lei da Anistia é página virada. Infelizmente, não é o que pensa a procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

 

A Lei da Anistia de 1979 foi uma obra de engenharia política e amplo consenso que contribuiu para a pacificação nacional. Os militares recuaram organizadamente para os quartéis, dedicando-se exclusivamente às suas funções constitucionais e profissionais, e o Brasil pode concluir sua transição democrática.

Não é pouco para um país historicamente palco de intervenções e interrupções democráticas. A construção desse pacto não foi nada fácil. Resistências tiveram de ser rompidas, de um lado e de outro. Mas a vida provou o quanto ele foi benéfico para o país.

A Lei da Anistia é página virada, não há o menor sentido reabrir esse debate. Infelizmente, não é o que pensa a procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Quase quarenta anos após a promulgação da lei, a PGR quer que o Supremo Tribunal Federal desarquive, julgue agentes militares e rediscuta a Lei da Anistia com vistas a sua não aplicação aos crimes de tortura.

A inciativa de Dodge alimenta desconfianças do mundo castrense quanto ao desejo de segmentos da esquerda brasileira de um acerto de contas com os militares.

Compreensivelmente, o alto comando das Forças Armadas e os quartéis ficaram irritadíssimos. Não é para menos. Em meio a tanta crise, tudo que o Brasil não precisa é abrir uma nova frente.

Cada vez mais os militares estão sendo chamados a desempenhar missões de segurança. Agora mesmo estão na linha de frente no Rio de Janeiro sob intervenção federal, em razão do desmonte do estado fluminense. E o preconceito contra os militares está vivíssimo na alma de uma esquerda que continua com olhos no retrovisor. Em vez de apoiarem a ação pacificadora das FFAA no Rio, lideranças petistas consideram a intervenção um aprofundamento do “golpe” voltado para “reprimir os movimentos sociais e suprimir a democracia”.

O que se ganha com isso? A troco de que acicatá-las numa hora dessas?

O STF já decidiu, em 2010, a abrangência da Lei da Anistia para crimes de tortura. Por sete votos a dois!

A ministra Carmem Lúcia, hoje presidente da Corte, citou em seu voto o conselheiro da OAB Sepúlveda Pertence: “Nem a repulsa que nos merece a tortura impede reconhecer que toda a amplitude que for emprestada ao esquecimento penal desse período negro de nossa história poderá contribuir para o desarmamento geral, desejável como passo adiante no caminho da democracia”.

Entende-se e respeita-se a dor dos familiares dos mortos e desaparecidos de um período nefasto da nossa história que, felizmente, ficou para trás. Mas nem isso nos aconselha a estimular sentimentos revanchistas.

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

Caixa de marimbondos

 

Não põe corda no meu bloco

Luciano Huck promete levar ao ar mais um “capítulo final” de sua novela. Todos querem saber se o apresentador será ou não candidato.

 

Com o fim das festas momescas a política entra em clima eletrizante. Luciano Huck promete levar ao ar mais um “capítulo final” de sua novela. Todos querem saber se o apresentador será ou não candidato. Se entrar no jogo, balançará o coreto eleitoral de quem se acostumou ao dueto nacional.

Por dueto entenda-se velhas polarizações do tipo esquerda-direita, PT versus PSDB, nós contra eles, que se tornaram anacrônicas numa sociedade identitária marcada pela crise de representação. No nosso caso, há ainda o impacto da Lava Jato em um mundo político carcomido.

Sem Lula na urna eletrônica, uma candidatura de Huck complica a vida de muita gente. A do governador paulista Geraldo Alckmin, que já anda cheio de problemas no seu partido, claro. Mas não apenas a dele. Sobra pouco espaço para outras pretensas candidaturas do centro.

Os dois extremos também serão afetados. Parte do eleitorado de centro que se deslocou para Jair Bolsonaro pode fazer movimento de volta, se houver uma alternativa viável ao lulopetismo.

Segundo pesquisas qualitativas nas mãos do apresentador, sua candidatura tem potencial de crescimento em áreas cativas do PT, inclusive no Nordeste, onde o PSDB jamais penetrou.

É um baita problema para os petistas. Sobretudo porque o discurso da conspiração das elites contra Lula não cola em Huck. O que ele tem a ver com isso? Nada. Não tem aderência no eleitorado das camadas populares acusá-lo de candidato da Globo. Isso pega apenas numa pequena elite intelectualizada.

Huck tem cara de tucano, nariz de tucano, mas não é tucano, navega em outros mares, daí a dificuldade dos adversários em colar qualquer selo em sua testa.

A incógnita é saber se realmente oferece expectativa de poder. Política tem dessas coisas. Alckmin e Huck têm, cada um, 8% nas pesquisas. Mas para um o percentual é sinônimo de anemia e para outro de potencial eleitoral.

e esta tendência se confirmar, fidelidades começarão a ser rompidas, resultando em um palanque televisivo para além do pequeno PPS.

Dá-se como favas contadas que a eleição presidencial será definida por tempo televisivo e palanques estaduais. Será?

Roberto Freire e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, políticos que raciocinam estrategicamente, vislumbram a hipótese de êxito de um candidato fora do escopo da política tradicional, tal a repulsa ao modelo político atual.

Nesta lógica, um outsider teria dupla vantagem: potencial para ser o polo aglutinador de um centro atomizado e de se tornar o estuário do sentimento de renovação da sociedade.

Está dado o espaço para um bloco renovador e reformista que sacuda e arrebente o cordão de isolamento e areje a política nacional como prega o samba Plataforma de João Bosco. A conferir se Luciano Huck aceita ser seu porta-estandarte.

 

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

Não põe corda no meu bloco

 

O xadrez de Alckmin

Alckmin com 8% nas pesquisas, não oferece, por enquanto, expectativa de poder.

 

A vida do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, não está nada fácil. Com 8% nas pesquisas, não oferece, por enquanto, expectativa de poder. Carrega ainda o ônus do desgaste do PSDB, também afetado pela crise ética. E tem o fantasma de Luciano Huck a atormentá-lo, para não falar em Rodrigo Maia.

A receita para reverter o quadro adverso é sobejamente conhecida: tempo televisivo e palanques regionais robustos. Ou seja, alianças amplíssimas.

Não pode se dar ao luxo de ver aliados escorrerem pelos dedos. E muito menos de ter a sua principal base de apoio dividida. Essa base elegeu 80% dos prefeitos paulistas. Mantê-la unida é essencial para Alckmin sair de São Paulo com uma votação massiva capaz de compensar uma possível escassez de voto em outras regiões.

Parece óbvio, mas não é. Os tucanos paulistas querem adicionar mais um problema ao rosário de Geraldo. Pretendem lançar candidato próprio ao governo do Estado, apesar da candidatura natural do vice-governador Márcio França, do PSB.

A tese de dois palanques é uma temeridade. A ruptura do contrato assinado em 2010 e reafirmado em 2014 – quando até os peixes do lago do Ibirapuera sabiam que Alckmin disputaria a presidência e seu vice assumiria o governo na condição de candidato a reeleição – dividirá o mesmo campo e poderá afetar o desempenho eleitoral do tucano no seu bunker.

A quebra de pactos não para por aí. O prefeito João Doria está rompendo o contratado com os paulistanos que votaram nele para um mandato de quatro anos. Não era o acordado querer largar a Prefeitura com apenas um ano e quatro meses, para ser candidato.

O prefeito paulistano rompe também o que fora combinado com Márcio França, que o apoiou em 2016, e com o próprio padrinho e seu grupo político. Mais uma vez a criatura volta-se contra o criador. Teria sido mais sábio Alckmin ter apoiado Andrea Matarazzo em 2016, candidato preparado e natural dos tucanos. Mas preferiu vetá-lo.

Se há alguma chance de o PSB estar no palanque nacional de Alckmin, ela passa pela candidatura Márcio França, detentor de 38% dos delegados na convenção nacional de seu partido. Evidente que sem a reciprocidade do PSDB o vice-governador não se jogará na campanha alckmista com o mesmo ardor. O PSB levará isso à mesa, na hora da difícil negociação nacional.

E como o presidenciável tucano arbitrará a montagem de outros palanques regionais, se não conseguir equacionar nem mesmo sua própria sucessão?

A cabeça de Alckmin é uma caixa de pandora. Ninguém sabe o que ele pensa. É possível que as quatro pré-candidaturas que disputarão a prévia tenham o seu dedo, para mostrar que João Doria não é o candidato natural. Logo…

A confusão tucana está instalada. Com companheiros de partido jogando contra o patrimônio, Alckmin não precisa de inimigos.

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Este artigo foi publicado originalmente no site da Revista Veja, no Blog do Noblat:

O xadrez de Alckmin