A glamorização da barbárie

 

Mascarado,black blocs (Foto: Pixabay)

por Hubert Alquéres

Por quase quatro horas Brasília esteve em chamas.

A batalha campal da última quarta-feira foi protagonizada por manifestantes, muitos deles mascarados, durante o protesto organizado por centrais sindicais e movimentos de esquerda contra as reformas que tramitam no Congresso Nacional, pela saída do presidente Michel Temer e por eleições diretas. Oito Ministérios foram depredados, dois incendiados e 49 pessoas feridas.

Diante da violência o presidente da República decidiu convocar o Exército em defesa da ordem pública.

Desde as grandes, heroicas e predominantemente pacíficas passeatas de 2013, o país assiste a esse tipo de barbárie. E com defensores enérgicos.

Como entender a enorme dificuldade de parte da nossa intelectualidade e da maioria dos partidos de esquerda em condenar atos de vandalismo cometidos por mascarados, black blocs e similares?

Membros da comunidade acadêmica fazem esforços teóricos gigantescos para justificar o quebra-quebra promovido por uma minoria violenta e antidemocrática. Alguns chegam a considerar a depredação de bancos na Avenida Paulista e de outras instituições privadas ou públicas como uma ação anticapitalista.

Dentro desta ótica, o vandalismo seria uma resposta à “violência do Estado” cometida contra jovens da periferia. Haveria, assim, um conteúdo revolucionário e contestador em um movimento que, na verdade, padece de conteúdo substantivo.

Não há ineditismo nesta interpretação. A violência e o banditismo já foram romantizados e traduzidos como um produto direto da pobreza.  O que é absurdo.

A esmagadora maioria dos pobres não é composta de bandidos, assim como a maioria da juventude da periferia quer distância da selvageria dos mascarados.

No final dos anos 70, a “sociologia da miséria” conferiu glamour ao Comando Vermelho, como se ele promovesse a justiça social nas favelas cariocas. Criou-se o mito que o CV aprendeu com os grupos da esquerda armada, de quem teria absorvido tanto a tática dos grupos militaristas, como alguma “consciência política”.

À época, foi sucesso de bilheteria o filme “Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia” – um assaltante de banco, que aderiu ao banditismo em resposta “às injustiças sociais” e à corrupção da polícia.

A ideologia do ressentimento, inerente aos segmentos que adotam a barbárie como forma de luta, tampouco leva à transformação da sociedade. Nada constrói. Ao contrário, destrói.

A bandeira do anticapitalismo, por si só, não quer dizer grande coisa. Na história, ela foi argamassa de regimes racistas e genocidas. O nazismo que o diga.

Como caracterizar a agressão de vândalos a lojistas (às vezes pequenos comerciantes), a profissionais de mídia, como os ataques às TVs Globo e Record? E o que há de revolucionário no ato de quebrar lixeira, placas de ruas e outros bens públicos?

Estas violências se assemelham aos métodos dos camisas negras na Itália fascista de Benito Mussolini. E são totalmente incompatíveis com o Estado de Direito Democrático.

A auto definição dos black blocs como anarquistas é uma injustiça para Bakunin, uma das grandes referências de uma ideologia cujo eixo é a pregação da autonomia e do fim do Estado.

Nossos vândalos não têm esta sofisticação intelectual. Não têm objetivos estratégicos claros. Eles promovem apenas a baderna. Uma espécie de banditismo que deveria ser condenado claramente por toda a intelectualidade, movimentos sociais e forças políticas.

Do início do século vinte até os dias de hoje, tivemos diversos embates: a revolução russa, o surgimento do fascismo e do nazismo, o stalinismo, duas guerras mundiais, Hiroshima, a guerra fria, a queda do muro de Berlim e o fim da guerra fria. O único valor que sobreviveu a tantos confrontos, e se fortaleceu, foi a democracia.

É ela que vem sendo atacada pelos mascarados de agora, daí seu caráter deletério.

A juventude de 1968 encarou a ditadura sem cobrir o rosto. Aliás, nos anos de chumbo os torturadores usavam capuz para que ninguém soubesse quem eram eles. O mesmo sempre fizeram os carrascos. Desde a idade média.

Como glamorizar movimentos que escondem a face? Na cultura brasileira, isso é prática de traficante, assaltante de banco, membro de milícia paramilitar.

Democrata que se preza vai às ruas de peito aberto e rosto à mostra.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2017/05/glamorizacao-da-barbarie.html

 

Indiretas Já

Congresso Nacional (Foto: Bento Viana)

Congresso Nacional (Foto: Bento Viana)

por Hubert Alquéres

Na semana passada, neste mesmo espaço, elogiei o governo Temer pelos feitos de sua política econômica e de seu programa reformista. Tudo que afirmei era verdade. Em um ano o país deixou de se equilibrar no chamado tripé da maldade (inflação alta, juros estratosféricos e recessão) e o avião da economia começou a embicar para cima.

Os indicadores justificavam o otimismo quanto à possibilidade de Michel Temer cumprir a missão de entregar ao seu sucessor um país reorganizado. Estava pavimentado o caminho para entrar na história como o presidente das reformas.

Hoje a realidade é outra. Nestes sete dias quem era a solução virou o problema. Abatido pelo missíl de grande poder de destruição lançado pela delação da JBS, o governo perdeu as condições para conduzir a transição a bom termo.

Flagrado em tenebrosas transações com Joesley Batista, Temer viu sua base parlamentar desmontar e se apartou ainda mais de uma sociedade, ávida por novos padrões na forma de se fazer política. Concretamente, o presidente está sitiado no Palácio da Alvorada, amarga a solidão de um poder que se esvai.

Quem imaginaria, há uma semana, que um jantar com o presidente seria cancelado por falta de quórum? Michel Temer começa a viver uma situação similar à de Collor às vésperas do seu impeachment, quando todos lhe viravam as costas.

O presidente resiste a renunciar, mesmo a preço de levar o país à paralisia, de jogar por terra os ganhos do seu próprio governo, de postergar as reformas previdenciária e trabalhista, de afugentar os investidores.

Por aí, teremos um presidente catatônico por mais um ano e sete meses, que só não renunciou para não ser réu confesso. É o que se deduz de sua entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, onde aparece um presidente à beira de perder o controle emocional, que viaja em universo paralelo ao se dizer um ingênuo e desinformado sobre as três operações nas quais Joesley Batista já era investigado. Quanto ao deputado afastado por receber uma mala de dinheiro vivo, Rodrigo Loures, o presidente simplesmente o considerou um “homem de boa índole”.

Não há salvação para Temer. No entanto, é necessário salvar a transição, dando prosseguimento ao que houve de melhor em seu governo, com a manutenção da equipe econômica que tem colocado o Brasil nos eixos. Passou a ser uma questão de estado preservar esses ganhos e dar continuidade à agenda das reformas.

Dito de outa forma: a governabilidade não é mais garantida por Temer. Ao contrário, hoje ele é o principal fator da instabilidade. A engenharia política a ser construída é como, nos marcos da constitucionalidade, retirar esse obstáculo e, ao mesmo tempo, dar continuidade ao que caminhava bem no governo.

Quanto mais demorar a equação desse desafio, maior será a paralisia e a deterioração do ambiente econômico. E maior ainda a crise política que, se prolongada por muito tempo, esgarçará o arcabouço institucional.

Ao desistir do pedido ao STF de suspensão do inquérito, Temer fez um movimento para retardar a morte anunciada de seu governo. Eram favas contadas que seu pleito seria derrotado na Suprema Corte.

Mas a desistência foi um atestado do seu enfraquecimento e só amplificou as especulações sobre quem comandará o país até o fim de 2018. Em Brasília já não se discute se Temer continua, mas sim quem o substituirá.

Ziguezagueante, o presidente aposta suas fichas em uma blitzkrieg no Congresso para fazer avançar a agenda das reformas nos próximos 15 dias. Mas tem pouco chão para essa manobra. A essas alturas, se movimenta apenas no sentido de evitar que, na hipótese de sair do cargo, não vá diretamente para a prisão.

Para salvar a transição, Temer deveria dar lugar a um governo de “emergência nacional”, do qual não deveriam participar investigados e denunciados na Lava-Jato ou em outras operações. O resgate da autoridade e da respeitabilidade do poder central se daria com a constituição de uma equipe ministerial de notáveis, como era a intenção inicial de Temer, mas abandonada já no nascedouro de seu governo.

A solução desejada só é possível com a rígida observância da Constituição. Afastado por renúncia, impeachment ou por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, respeitar-se- ia a escala sucessória com o presidente da Câmara assumindo interinamente e convocando, no prazo máximo de um mês, eleição indireta para o novo presidente da República.

Fora disso, é casuísmo para atender interesses subalternos. E todas as vezes que se burlaram os dispositivos constitucionais por circunstâncias de momento o Brasil mergulhou na escuridão. Assim foi na crise da renúncia de Jânio Quadros. A fatura veio poucos anos depois, com o golpe de 1964 e com a noite mais longa do país: 21 anos de ditadura. Não devemos repetir essa tragédia.

Pescadores de águas turvas são como vivandeiras. Estão sempre à espreita para surfar no caos. Não seria diferente agora. Eles estão aí com a cantilena das Diretas Já.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

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Adeus à insanidade

Dinheiro dos outros (Foto: Arquivo Google)

por Hubert Alquéres

Há um ano, o Brasil estava sem rumo e à beira do precipício. Pagávamos o preço do voluntarismo, do intervencionismo e dirigismo estatal, frutos de uma loucura chamada “nova matriz econômica”. Mambembe, o país se equilibrava sobre o tripé da insanidade: inflação alta, recessão e juros estratosféricos.

Tudo estava desalinhado.

A política externa andava para trás, amarrava-se ideologicamente ao terceiro-mundismo e ao bolivarianismo, nos condenava à irrelevância no concerto das nações.

O Brasil perdia o investment grade, afugentava os investidores. A principal empresa do país via-se à beira de quebrar, em decorrência de investimentos desastrosos (Pasadena, Abreu e Lima, Comperj, entre outros), da política de represamento de preços do petróleo e da corrupção, claro.

Os bancos estatais transferiam recursos públicos para grupos privados amigos do rei (e da rainha) a juros de pai para filho. Por meio de subsídios disfarçados foram transferidos para os chamados “campeões nacionais” US$ 120 bilhões, de 2009 a 2015, quase o mesmo que o Plano Marshall.

Impossível avaliar o primeiro ano de Michel Temer sem levar em consideração o mundo desajustado deixado por Dilma Rousseff.

Sim, por ordem na casa, era sua primeira tarefa. A segunda era encaminhar as reformas.

Com essas duas condições, seu sucessor poderá receber um país minimamente organizado, apetrechado para alcançar o crescimento e para adotar políticas públicas promotoras da cidadania e da justiça social.

A questão, portanto, é saber se Temer está cumprindo o que dele o momento histórico exige.

Uma leitura isenta levará a uma resposta positiva, apesar dos pesares. Vejamos: a espiral inflacionária, que ameaçava trazer de volta fantasmas do passado, refluiu para o centro da meta, condição necessária para a queda consistente da taxa básica de juros, que logo deverá baixar para a casa de um dígito.

O ambiente econômico hoje é outro. A agenda das reformas — ainda não concluída embora bem encaminhada — contribui para o retorno da confiança dos investidores, assim como o freio no expansionismo fiscal por meio da PEC do teto dos gastos públicos.

O risco Brasil recua ao patamar de janeiro de 2015. A agência de risco Moody’s eleva a nota da Petrobras, a estatal volta a dar lucro. Mesmo Celso Rocha Barros, um crítico do governo, elogia a equipe econômica e considera que “a mudança no BNDES também foi uma correção necessária após vários anos em que o banco se distanciou de sua função”.

A maior recessão da história vai ficando para trás. Mas a retomada da economia acontece lentamente e esse é o nó.

O passivo deixado pelos anos de terra arrasada é imenso, uma queda do PIB de 9% em dois anos, de 10% na renda dos brasileiros e 14 milhões de desempregos.

Seria ingenuidade, ou má fé, acreditar que este quadro perverso seria revertido em 12 meses.  Quem está desempregado, claro, quer solução imediata para seu drama e isto explica em grande medida a baixa popularidade de Temer.

Organizada minimamente a casa em seu primeiro ano de governo, a grande tarefa agora é fazer com que o desemprego entre em marcha regressiva, mas a devastação dos anos Dilma só permitirá que o país retome o patamar da pré-crise em dois ou três anos.

Para cumprir essa missão, Temer terá de vencer a mãe de todas as batalhas: a reforma previdenciária. Isso lhe custa popularidade, óbvio. Mas em que lugar do mundo o sistema previdenciário foi reformado com apoio popular?  Como quimioterapia, a reforma é remédio grave, mas necessário na atual situação.

Uma boa maneira de se avaliar a primeira etapa do governo Temer é cotejar seu receituário com o “programa de emergência” dos economistas de Lula, que propõe incentivo ao crédito através de empréstimos subsidiados nos bancos públicos para as famílias e empresas voltarem a se endividar, aumento do endividamento público para alavancar os investimentos pela via do “alongamento da dívida privada” e a redução do compulsório dos bancos.

Ora, tudo isso estava na famigerada “nova matriz econômica”. Tudo isso fez do Brasil do lulopetismo uma casa de loucos, que, em boa hora, deixou de existir.

Um ano após o impeachment, o Brasil não é mais o país dos sobressaltos, do imponderável de Almeida na economia. Saímos do sanatório geral para o mundo da previsibilidade.

Convenhamos, é um feito e tanto para um governo de transição.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

O dique do Rio Sena

Emmanuel Macron (Foto: Aurelien Meunier / Getty Images)Emmanuel Macron (Foto: Aurelien Meunier / Getty Images)

por Hubert Alquéres

A onda nacional-populista que ameaçava se espraiar pelo velho continente com a força de um tsunami encontrou seu dique de contenção às margens do Rio Sena. A vitória consagradora de Emmanuel Macron afasta, por pelo menos cinco anos, o fantasma de o extremismo xenófobo e racista levar a Europa a ingressar nas trevas de uma nova idade média.

A ideia de uma Europa una, aberta à livre circulação das pessoas e das mercadorias, na qual os países membros dirimem seus conflitos pela via pacífica, ganhou fôlego com o resultado do segundo turno da eleição francesa.Na verdade, a barreira de contenção começou a ser construída em março na Holanda, quando, contrariando prognósticos, a extrema direita teve desempenho bem aquém do projetado por analistas e institutos de pesquisas.

Ali a Europa optou pelo centro e teve início o refluxo da maré isolacionista inaugurada com a vitória do Brexit na Grã-Bretanha.

Em setembro será a vez da Alemanha, mas em ambiente bem mais confortável. A extrema-direita não tem a menor chance e a disputa se dará entre dois eurocêntricos: a chanceler Ângela Merkel, da União Democrática Cristã e o socialdemocrata Martin Schultz, ex-presidente do parlamento europeu. E a favorita é Ângela Merkel.

No mesmo domingo da eleição de Macron, ela conseguiu expressiva vitória nas eleições regionais do norte da Alemanha.  Pesquisas já apontam uma frente de oito pontos em favor de Merkel.  A oito meses da eleição, a vantagem pode desaparecer, claro, mas   parece que a “schulzmania” embalada pela posição do candidato do SPD nas questões sociais chegou ao seu limite.

A derrota de Marine Le Pen dá fôlego para as forças civilizatórias encontrarem soluções para as mazelas da globalização. Foram essas mazelas que levaram a antiga classe operária excluída da globalização a votar nos dois extremos, no primeiro turno: Marine e Ménchelon.

A vitória do candidato do Em Marche abre espaço para a agenda xenófoba e racista ceder lugar à verdadeira agenda do 21, onde a repartição mais equitativa da riqueza gerada pela globalização é a pedra de toque para o dique não estourar mais adiante.

Sem isso, as desigualdades sociais e regionais, o desemprego, as migrações desordenadas, as crises humanitárias se ampliarão, sobretudo se for levado em conta as tendências para os próximos vinte anos, onde o avanço da inteligência artificial e da robótica levará ao desaparecimento de 47% dos empregos tradicionais.

Positivamente, começa a haver uma tomada de consciência sobre a necessidade de se responder à agenda do 21. O próprio Macron é expressão de uma inflexão da Terceira Via que desaguou em governos de centro-direita, para hoje se apresentar como de centro esquerda.

O centro hegemônico da Europa, baseado a partir de agora na dobradinha MM – Merkel Macron –, tende a desempenhar papel estabilizador e progressista. Essa dupla terá de se entender sobre a reforma da União Europeia, com vistas torná-la mais flexível.

Internamente, o novo presidente da França terá o desafio de promover as reformas necessárias para a retomada do crescimento, condição necessária para a incorporação dos excluídos no mundo do trabalho e na economia moderna, e, ao mesmo tempo, atender à demanda social com a qual manifestou compromisso durante a campanha.

Não é uma tarefa fácil. O orçamento público da França corresponde a 56% do seu PIB. Diminuir para 52%, implica em reformas que provocam resistências em qualquer lugar no planeta. E é nesse ambiente que Macron vai enfrentar as eleições legislativas de junho.

Um primeiro feito ele já conseguiu. Seu partido apresentará candidatos nas 577 circunscrições eleitorais. Mas isso só não basta. Será preciso conquistar maioria. Do contrário, terá de fazer um governo de coabitação. Mas com quem? Com os republicanos de Fillon? Com os socialistas dizimados pelas urnas?

Com maioria parlamentar ou com governo de coabitação, Macron estará sob fogo cerrado de sua principal oponente, que saiu robustecida pelo voto de um terço dos franceses. A extrema esquerda de Ménchelon também não lhe dará trégua.

Sim, Mélenchon pode ser a dinamite de Le Pen para explodir o dique do Rio Sena, em 2022.

Não há precedente histórico de a extrema direita pavimentar o caminho da esquerda, mas são vários os exemplos no sentido contrário A ascensão de Hitler no início dos anos trinta está aí para nos lembrar do perigo da junção dos dois extremos.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

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Deixar de ser retardatário

por Hubert Alquéres

Em Educação, somos um país retardatário. A universalização do ensino ocorreu na Revolução Industrial do século XIX, como necessidade do desenvolvimento capitalista. Mas no Brasil foram precisos outros cem anos para se assegurar o acesso de toda criança à escola, com a criação do Fundef – Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental. Nos anos 1930, quando o Brasil tomou o rumo da industrialização e urbanização, os signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova – Fernando de Azevedo, Lourenço Filho, Anísio Teixeira, entre outros, já alertavam que o nosso país estava atrás do México, Uruguai, Argentina e Chile em matéria educacional, apenas para falar nos países latino-americanos.

Ingressamos no terceiro milênio sem alterar esta realidade, mas com um duplo desafio: de um lado, zerar o passivo do século XX, a começar pela universalização do ensino médio e, de outro, avançar na agenda do século XXI, sobre a qual não podemos nos furtar sob pena de, pela enésima vez, perdermos o bonde da história. Pior: de continuar a condenar gerações de jovens ao despreparo e as empresas brasileiras à comer poeira na corrida global da competitividade.

A educação vive hoje um momento de transição, em escala planetária. Nossas salas de aulas, a divisão rígida das matérias e o modo de ensinar deveriam estar acompanhando os novos tempos. É inexorável que as escolas estejam muito diferentes em poucos anos. O próprio papel do professor, atualmente um transmissor do conhecimento, não será o mesmo com tantas fontes de aprendizado, tão diversificadas e à disposição de todos. Marchamos para um ensino cada vez mais multidisciplinar e transversal, onde as aulas expositivas se combinarão com o estudo por projetos, a exemplo do que já acontece em outros países.

A atual divisão do mundo de trabalho é completamente distinta daquela do chão de fábrica hierarquizado da era industrial. O mercado de trabalho requer, cada vez mais, profissionais que saibam atuar em grupo, com espírito de liderança e de cooperação.

Dos jovens de hoje se exige competência na comunicação escrita e oral, respeito à diversidade e rigoroso domínio de conteúdos específicos.

Formar esses profissionais, formar os jovens como cidadãos plenos, é a missão da escola do século XXI. Ou acompanhamos essa revolução ou se ampliará mais ainda o fosso entre a rede pública de ensino e as escolas de boa qualidade do ensino privado.  Ou avançamos nesta direção ou a desigualdade social em nosso país se tornará ainda mais profunda.

O núcleo familiar também já não é o mesmo. Não vivemos mais naquela sociedade rígida, patriarcal, de valores vitorianos. Nesse novo mundo que se descortina, tarefas antes da alçada do núcleo familiar, ou da religião, foram delegadas às escolas. Elas passaram a ter também a ter a missão da formação ética dos alunos, de ensinar-lhes a discernir o certo do errado, para não cair em armadilhas, de usar para o bem essa grande conquista da humanidade chamada hiperconectividade.

O sistema educacional tem de ser repensado como o todo. A começar pelas faculdades de Educação, responsáveis pela formação de quadros. Há que se adotar uma política educacional de estado, que não mude conforme o governo de plantão, como acontece hoje em escala nacional, estadual e municipal.

O desafio da Educação básica não é de responsabilidade exclusiva do poder Executivo. É também dos pais e da sociedade como um todo.

Continuaremos a andar de lado se o foco não for o professor, se não for a sua capacitação e permanente atualização para que ele domine, plenamente, o conteúdo das disciplinas, a dificílima arte de ensinar e, sobretudo, vença o desafio de fazer o aluno aprender.

Tudo passa pala revalorização dos professores, pelo resgate de sua autoestima. Por fazer do magistério uma carreira de excelência, com status na sociedade, como já foi no passado.

A meritocracia é o caminho para se superar o pacto de mediocridade, no qual as escolas fingem que ensinam e os alunos pensam que aprendem.

Por aí, deixaremos de ser um país retardatário para nos colocarmos nos mesmo patamar das nações que fizeram da Educação a alavanca para o crescimento sustentado e para uma sociedade mais justa.

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Artigo publicado no livro A Escola que Queremos organizado pelo Renato Nalini.

Hubert Alquéres é professor, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP, na Escola de Engenharia Mauá e no Colégio Bandeirantes. Foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo e presidente da Imprensa Oficial do Estado.

 

Esqueçam o que defendi

Memória (Foto: Arquivo Google)

por Hubert Alquéres

No início dos anos 80 nascia no ABC paulista o chamado sindicalismo combativo, tendo como bandeiras a modernização das relações de trabalho por meio de livres negociações entre patrões e trabalhadores e o fim da unicidade sindical – apenas um sindicato por categoria em uma mesma base territorial – com a consequente adesão do país à Convenção 87 da Organização Internacional do Trabalho, consagradora do princípio do pluralismo sindical. Ele também pregava o fim do imposto sindical obrigatório que a recém fundada Central Única dos Trabalhadores considerou, em seu primeiro congresso, como pilar de uma “legislação sindical fascista.”

O sindicalismo moderno era então um fator de oxigenação do mundo do trabalho e expressão da transformação de um país de uma classe operária de origem agrária protegida por uma legislação paternalista – a CLT – para uma nação dotada de uma classe de trabalhadores essencialmente urbana e desenvolvida, produto do dinamismo do parque industrial brasileiro.

Para os trabalhadores modernos, a CLT engessava as relações trabalhistas, impedindo que o acordado prevalecesse sobre o legislado. A modernização da legislação trabalhista era uma bandeira comum às duas principais centrais do país – a CUT e a Força Sindical.

Naquele universo, em qualquer assembleia sindical havia sempre alguém lembrando que a CLT era uma cópia da Carta del Lavoro de Mussolini. O então metalúrgico Lula ia mais além, dizia que a CLT era o AI-5 dos trabalhadores.

Quem, naquela época, diria que, passados trinta anos, um presidente da Central Única dos Trabalhadores, Wagner Freitas, ocuparia espaço em um jornal de circulação nacional para considerar a CLT “um marco civilizatório das relações entre o capital e a classe trabalhadora”.

E quem diria que chegaria o dia em que CUT mandaria esquecer as bandeiras que defendeu e se oporia a uma reforma trabalhista na qual o acordado prevalece sobre legislado; que leva em consideração as profundas alterações do modo de se produzir e do mundo do trabalho; e que acaba com o famigerado imposto sindical.
Sim, no caso do imposto sindical, a Central Única dos Trabalhadores hoje está de braços dados com o atraso e acasalou-se com o peleguismo de sindicatos cartoriais. Não faz muito tempo, a CUT, então presidida pelo sindicalista Arthur Henrique, fez uma campanha com o slogan “Diga não ao imposto sindical”. Isto foi em 2012. Qual mudança substantiva houve para a central petista ter mudado de posição?

Na linha do esqueça o que defendi está também Lula. Sua memória seletiva está lhe levando a esquecer que como presidente propugnava a reforma trabalhista.  Vamos às suas palavras na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social (CDES), de 17 de maio 2007: “Não é possível que algumas coisas feitas em 1943 não precisem de mudanças para 2007, 2008. O mundo do trabalho mudou, houve evolução, a condição de trabalho é outra”.

Certamente Lula dirá, sem apresentar um só dado, que no seu governo a reforma trabalhista não retiraria direitos, ao contrário da reforma do presidente Michel Temer, batendo na tecla da precarização do trabalho.

Não foi bem assim. Na mesma reunião do CDES, o então presidente defendeu contratos especiais de trabalho para jovens de 15 a 24 anos não incorporados ao mercado de trabalho, desdenhando dos resmungos de alguns petistas e sindicalistas que torciam o nariz para a ideia: “Tem companheiro que fala que não pode ter um contrato especial porque vai precarizar o jovem e torná-lo um trabalhador diferente. Tudo bem, mas trabalhador diferente ele já é sem trabalhar”.

Por que o mesmo diagnóstico não se aplica, então, aos contratos especiais de trabalho previstos na proposta Temer?

Talvez a melhor defesa da necessidade da reforma trabalhista esteja numa cartilha da CUT, elaborada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para explicar o projeto de lei Acordo de Coletivo Especial, apresentado a Dilma em 2011: “Um passo fundamental para inovar no campo das relações de trabalho é reconhecer que a atual legislação não dá conta de resolver todas as demandas e conflitos, tampouco superar e atender as expectativas dos trabalhadores e empresas em situações únicas, específicas, para as quais a aplicação do direito no padrão celetista não mais alcança resultados satisfatórios”.

Em outro ponto da cartilha, a CUT afirma: “a lei tolhe a autonomia dos trabalhadores e empresários, impondo uma tutela pelo Estado, que, como toda tutela, se converte em barreira para o estabelecimento de um equilíbrio mais consistente. Onde existe controle excessivo e regras engessadas, a liberdade morre.

Corretíssimo. Pena que a Central Única dos Trabalhadores só pense assim quando o partido do qual é correia de transmissão está no poder. Quando está na oposição, esquece o que defendeu. E o que escreveu.

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Este artigo foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, no Blog do Noblat:

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