Forças e fraquezas da terceira via

Por Hubert Alquéres

A terceira via atravessa uma situação paradoxal. De um lado, setores que foram pilares da candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 – como os empresários e até mesmo os militares – começam a apostar em uma alternativa na próxima disputa presidencial que evite a polarização de 2018. Conta a seu favor a existência de uma grande faixa do eleitorado refratário às candidaturas de Lula e Bolsonaro. Suas chances são diretamente proporcionais à deterioração da popularidade do presidente, hipótese plausível face o risco do país ingressar em um quadro de estagflação no curto prazo.

Nuvens de chumbo se anunciam para 2022. O desempenho do PIB vem sendo revisado para próximo de zero (ou negativo), enquanto já está contratada uma forte alta da taxa de juros, provavelmente superior a 11% ao ano. A inflação continuará a ser um grande problema, sobretudo para os mais pobres, com tendência do desemprego voltar a crescer.

Tudo isso como resultante do descompromisso do governo com a responsabilidade fiscal, sinalizado pela sua intenção de furar o teto dos gastos para viabilizar o Auxílio Brasil, ajuda de R$ 400,00 ao mês até dezembro de 2022.

Esse quadro já vem levando empresas de consultoria, como a Eurásia, a admitir a possibilidade de Bolsonaro ficar fora do segundo turno. Se alguém afirmasse isso no primeiro semestre, seria visto como lunático.

Com base na mudança do cenário político, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, recomenda que a terceira via tenha como estratégia tirar Bolsonaro do segundo turno, recuperando o eleitorado historicamente de centro que migrou para o presidente, em 2018. Há um raciocínio pragmático nesta conclusão: Lula estaria consolidado para ir para o segundo turno.

Visto por esse ângulo, o centro teria uma enorme avenida à sua frente, com os ventos soprando a seu favor.

Mas há o outro lado da moeda, que consiste no ponto fraco da terceira via: sua dispersão. Já são onze seus presidenciáveis. Isso dificulta a definição de uma candidatura. Quem tem tantas alternativas finda não tendo nenhuma. Foi assim em 2018, quando o centro, pulverizado, deu vexame. Se repetir o erro, corre o risco de desaparecer, como aconteceu recentemente no Peru.

Falta também um discurso capaz de empolgar o eleitorado. Até agora, quem tem um projeto minimamente elaborado é Ciro Gomes, mas é um programa passadista, dos tempos do nacional-desenvolvimentismo. O discurso do nem-nem é muito pouco para empolgar o Brasil.

A terceira via terá de dizer aos brasileiros qual o seu projeto para o país e qual o caminho para promover a conciliação nacional.

As duas dificuldades, dispersão e falta de um projeto, não são insuperáveis, mas dependem, no curto de prazo, de quatro fatores que ocorrerão até o final do ano: a oficialização da União Brasil, a candidatura de Rodrigo Pacheco, a de Sérgio Moro e o desfecho das prévias do PSDB.

No caso da União Brasil ainda não está claro se o novo partido será um protagonista, ofertando uma candidatura agregadora, como poderia ser a do ex-ministro Henrique Mandetta. Também pode apostar em um outsider, como o apresentador Datena. Ou abrir mão de ter um candidato. Nesse caso, apesar de ter amplo tempo de televisão e ser líder em matéria de recursos dos fundos partidário e eleitoral, a União Brasil pode ser um gigante de pés de barro, sem peso real na disputa presidencial.

O xadrez da terceira via ficou mais complexo com a entrada de duas novas peças: Rodrigo Pacheco e Sérgio Moro.

Atribuía-se a candidatura do presidente do Senado ao pragmatismo de Gilberto Kassab de lançar um candidato a presidente apenas para ter a liberdade de construir palanques regionais – em sintonia com seu objetivo estratégico de eleger a maior bancada no Congresso – para depois apoiar Lula no segundo turno.

Essa leitura pode ser equivocada. Mesmo que, por hipótese, esse tenha sido o objetivo inicial de Kassab, Rodrigo Pacheco não entraria na disputa se sua candidatura não fosse para valer e não houvesse a possibilidade real da terceira via deslocar Bolsonaro do segundo turno. Nesta semana Pacheco filia-se ao PSD, em ato em Brasília, no simbólico memorial JK. No último sábado, ao participar de uma agenda organizada por Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, Pacheco estava afiado. E deu pistas das linhas mestras de seu discurso de campanha, que incluiu se alinhar à imagem desenvolvimentista e conciliadora de Juscelino Kubitscheck, tendo como eixo o binômio união-desenvolvimento.

A partir de novembro, Sérgio Moro peregrinará pelo país para lançar seu livro. Na verdade, estará dando o pontapé inicial de sua pré-candidatura pelo Podemos, partido ao qual se filiará no próximo dia 10. Ela embute o risco de, em vez de agregar, criar uma nova polarização no país, entre lavajatistas e antilavajatistas. Atingido por decisões do STF, o ex-juiz vai usar sua candidatura para defender sua biografia. De uma certa forma, Lula fez o mesmo em 2018, por meio da candidatura de Fernando Haddad.

Com Ciro correndo em faixa própria numa candidatura inarredável, os olhos voltam-se para as prévias tucanas, dia 21 de novembro. Se vencer, João Doria sairá fortalecido, respaldado ainda pelo bom desempenho de seu governo e por contar com forte apoio do mundo dos negócios. Seria preciso muito poder de argumento para convencê-lo a desistir em nome da união. Dito de outra forma: como aposta Rodrigo Maia, Doria seria o próprio nome da unidade. A conferir.

Em outra faixa corre Eduardo Leite. O governador gaúcho cresceu na disputa interna ainda sem ameaçar a liderança de Doria. Seu discurso tem similaridade com o de Pacheco no tocante à união e remete ao “choque de capitalismo” pregado por Mario Covas. Se vitorioso, ele diz estar aberto ao entendimento em torno de um nome comum da terceira via, sem fazer de si uma cláusula pétrea.

As onze pré-candidaturas estão na fase de testar sua viabilidade. Dificilmente haverá rearranjos antes de abril ou maio do ano que vem. Se resistir à união e perder o timing, a terceira via deixará de montar no cavalo encilhado que está passando à sua porta.

Anunciaram e garantiram que os tucanos iam se dividir

Por Hubert Alquéres

Como na música de Assis Valente, o mundo não se acabou após a realização do primeiro debate dos presidenciáveis inscritos nas prévias do PSDB, promovido pelo jornais O Globo e Valor Econômico. Quem esperava caneladas entre os tucanos Arthur Virgílio, João Doria e Eduardo Leite se surpreendeu com o clima civilizado.

No debate as convergências foram bem maiores do que as raras e esparsas estocadas. Nas poucas questões em que os participantes divergiram, mostraram um salutar embate de ideias e visões de mundo.

Havia o temor de que as prévias acentuassem a eterna compulsão dos tucanos a se dividirem. Ainda mais porque, ao contrário dos Estados Unidos, não há no Brasil a tradição dos partidos de escolher seus candidatos a presidente por meio de primárias partidárias. Lá os pré-candidatos se chocam nas disputas internas, tanto dos democratas como dos republicanos, mas no final os partidos saem unidos em torno do vencedor e a democracia interna fortalecida. Um bom exemplo é o que aconteceu na eleição mais recente: Kamala Harris pegou pesado contra Joe Biden nas prévias do Partido Democrata, mas no final foi a companheira de chapa do atual presidente dos Estados Unidos.

No Brasil o risco é, em vez de soldar a unidade partidária, o conflito desaguar no terreno do imponderável. O PSDB decidiu correr esse risco, numa postura ousada e corajosa. O único precedente no país foi a disputa entre Lula e Eduardo Suplicy para definir o presidenciável do PT na eleição de 1998. Mas foi um arremedo de prévia, apenas um jogo para a plateia.

Reconheça-se, é muito mais saudável a escolha de um candidato a presidente por meio do debate e da disputa interna do que por falsas unanimidades ou pela vontade imperial dos caciques políticos.

Embora ainda seja cedo para um juízo definitivo – ainda serão realizados mais dois debates e vai correr um mês até a realização da prévia marcada para 21 de novembro -, os tucanos têm motivo para estarem otimistas quanto à possibilidade de saírem fortalecidos após a disputa interna. Não que não tenha havido críticas indiretas entre os três postulantes, mas elas foram pontuais.

Também seria demais esperar que o debate acontecesse de forma angelical. Os três candidatos são de carne e osso e estão numa disputa política. Mas, perto do que é comum nas primárias americanas, o debate dos tucanos foi civilizadíssimo.

O clima de fim de mundo não aconteceu por uma questão básica, conforme ficou claro nos pronunciamentos de Doria, Leite e Virgílio. Os três têm a mesma fé na democracia e o mesmo receituário para promover a retomada do crescimento e o enfrentamento das mazelas sociais.

Entendem que é impossível enfrentar a questão da desigualdade sem o saneamento do Estado, daí a unanimidade em torno da responsabilidade fiscal, das reformas estruturantes e das privatizações como pré-condição para a retomada da capacidade de investimentos do Estado, sobretudo na área social.

A rigor, essa é a cultura do PSDB, advinda do governo Fernando Henrique Cardoso, quando os tucanos reorganizaram o Estado, sanearam o sistema bancário, venceram a inflação com o Plano Real e lançaram os pilares da política econômica baseada no tripé: responsabilidade fiscal, meta inflacionária e câmbio flutuante. Estranhamente, abriram mão destes princípios nas disputas presidenciais seguintes, não sabendo defender o seu legado.

O que se viu no debate foi uma espécie de volta às origens. Não gratuitamente, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e Franco Montoro foram citados várias vezes.  A reafirmação dos fundamentos de uma política econômica vitoriosa e da necessidade de proteger a moeda brasileira se torna mais importante no momento em que a inflação volta a corroer o poder aquisitivo da população, sobretudo dos mais pobres, e a fome atormenta a vida dos mais vulneráveis.

Sem trocadilho, no real a disputa é mesmo entre João Doria e Eduardo Leite, embora Arthur Virgílio seja um quadro que remete o PSDB aos seus melhores dias, quando o então senador foi líder do governo FHC no Congresso Nacional.

Os governadores de São Paulo e do Rio Grande do Sul também têm história e realizam governos vitoriosos. Os dois têm legitimidade e condições de liderar o PSDB na disputa presidencial do próximo ano e de serem artífices da construção de uma terceira via.

Ainda há um longo caminho a ser percorrido, mas os tucanos têm motivos respirar aliviados. Ao contrário das previsões catastrofistas, as prévias não estão sendo um fator de divisão.

Mais tarde isso pode ser um exemplo de coesão para toda a sociedade brasileira.

Na Ditadura diversitária

Por Hubert Alquéres

Devemos ao iluminismo a construção de um discurso universal, baseado na lógica e na razão. Seus ideais inspiraram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na Revolução Francesa, em 1789, bem como a Declaração da Independência dos Estados Unidos, em 1776. O princípio de que todos os homens nascem iguais e tem direitos iguais, independentemente da cor de sua pele, de seu sexo e de sua religião, voltaria a ser reafirmado na Declaração Dos Direitos Humanos das Nações Unidas de 1948.

A democracia, até hoje o melhor sistema de governo criado pela humanidade, é filha legítima desses avanços civilizatórios. Mas a franquia do voto para todos -pobres, analfabetos, mulheres ou negros- só foi conquistada com muita luta e tendo como pilar o conceito de “cada cabeça um voto”. Ou seja, o voto do pobre vale o mesmo que o voto do rico, assim como o voto do homem vale o mesmo que o voto da mulher, o do religioso o mesmo do ateu e, assim, sucessivamente.

A busca do bem comum, por sua vez, sempre orientou a ação das forças progressistas e foi por aí que a sociedade avançou. Toda vez em que as diferenças foram acentuadas em detrimento do discurso universal de igualdade houve retrocesso. Não se nega a existência de diferenças e da diversidade, mas elas não podem agir como elemento corrosivo daquilo que conforma uma nação: um destino comum, construído ao longo de sua história.

A emergência de movimentos identitários em meio ao fenômeno da fragmentação das classes sociais faz acender o sinal amarelo sobre o risco da desconstrução da nação e da própria democracia liberal. Autor dos livros “As Sinhás pretas da Bahia” e “Relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária”, o antropólogo e historiador Antônio Risério tem sido incansável no combate ao identitarismo. Segundo ele, a diversidade vem se transformando em ideologia, no sentido de uma visão falsa e distorcida da sociedade. É dele o conceito de “ditadura diversitária”.

Em recente artigo, Risério denunciou que o princípio de “cada cabeça um voto” está ameaçado pela adoção – na representação política – de cotas raciais ou de gênero. A conformação do Parlamento, por exemplo, não se daria pelo voto igualitário e sim de forma censitária. Se as mulheres, por exemplo, são tanto por cento da sociedade, teriam a mesma proporção nas casas legislativas. A regra demográfica valeria também para as raças e “povos originários” – a nova modalidade de se chamar os indígenas.

O Brasil não chegou à situação do Chile que, na recente eleição de sua Constituinte, para defender uma maior participação das mulheres, definiu que elas teriam 50% das cadeiras do Parlamento. Realizadas as eleições, deu-se o inusitado. As mulheres tiveram mais de 50% dos votos, e onze parlamentares eleitas para elaborar e aprovar a nova Constituição do país perderam suas cadeiras para assegurar a paridade entre homens e mulheres.

Ainda não chegamos a tanto, mas estamos nos esforçando. A cota para mulheres foi instituída nas candidaturas, por meio da obrigação dos partidos de reservar 30% para o registro de candidatas. Com o aval do presidente TSE, ministro Roberto Barroso, a presidente do Podemos, deputada Renata Abreu, quer que a reserva para as mulheres não seja apenas na lista das candidaturas, mas nas cadeiras do Parlamento.

Barroso já propôs que sejam reservadas 20% das cadeiras da Câmara para as mulheres, como forma de “quebrar o ciclo de discriminação”. Recentemente o Senado aprovou Emenda Constitucional ao Código Eleitoral, instituindo que, para efeito de distribuição dos recursos dos fundos partidário e eleitoral, os votos em mulheres e negros contarão em dobro.

O grande risco é de o Brasil cair no que o antropólogo e historiador chamou de uma variante do fascismo italiano e que Getúlio Vargas tentou copiar no Estado Novo: a composição do Parlamento a partir das corporações. Só que agora em vez de serem corporações classistas, seriam representações identitárias: mulheres, negros, “povos originários”, e assim por diante.

Não está em questão as cotas sociais como porta de entrada nas universidades, importante medida para a ascensão social da camadas historicamente marginalizadas. Também não se nega bandeiras específicas da luta pelos direitos da mulher, contra o racismo e pelos direitos indígenas. Mas elas não podem ser elementos de divisão da sociedade e devem ser parte da luta pelo bem comum.

Se para Marx a luta de classes era o motor da história, para os diversitários é a luta identitária, a luta da mulher contra o homem, do preto contra o branco, do índio contra o explorador branco. Por trás dessa categoria mental está uma visão distorcida, segundo a qual o homem branco é visto como explorador e escravagista e a história da sociedade ocidental, inclusive a do Brasil, a história da opressão, da escravidão e da exploração.

A esquerda identitária ainda não percebeu que pode provar do próprio veneno, com corporações conservadoras reivindicando cotas nas instituições do Estado. Os evangélicos já deram o primeiro passo, cobrando do presidente Jair Bolsonaro a nomeação para a vaga aberta no STF de alguém “terrivelmente evangélico”. Amanhã podem muito bem reivindicar uma participação na Câmara proporcional à sua presença na sociedade. Ora, se uns podem ter cota no Parlamento, por que outros não podem?

A concepção da luta de classes como motor da história levou à ditadura do proletariado. A da luta identitária com o mesmo papel pode nos levar à ditadura diversitária.

Melhor ficar com a democracia representativa e seu alicerce de cada cabeça um voto.

Fascismo vermelho

Por Hubert Alquéres

O uso da violência como forma de dirimir divergências é um velho cacoete de parte da esquerda brasileira. No passado não muito distante disputas sindicais terminavam em pancadaria e agressões físicas. Imaginava-se que essa prática estivesse superada, mas não é bem assim. No domingo, essa esquerda patrocinou mais um episódio lamentável, quando militantes com camisas da CUT e do PT tentaram espancar no ato da Avenida Paulista o ex-governador, ex-ministro e pré-candidato a presidente, Ciro Gomes.

Pouco momentos antes o presidenciável do PDT foi vaiado pela claque do Partido da Causa Operária – PCO –, um grupelho cuja intolerância é inversamente proporcional à sua significância. Em julho, o mesmo PCO agrediu militantes do PSDB em outra manifestação no mesmo local. Reincidente, o grupúsculo continua impávido na mesa onde participam os membros da coordenação dos atos do “Fora Bolsonaro”, com direito à palavra. No domingo, seu representante no palanque da Paulista aproveitou os poucos minutos de visibilidade para xingar Ciro de “canalha”.

Não se trata de casos isolados. E nem Ciro é a única vítima da intolerância dos que se julgam guardiões da linha justa e correta.

A deputada Tabata Amaral, uma das melhores parlamentares da atual safra, tem sido alvo de uma campanha agressiva. Nas redes sociais de militantes de esquerda proliferam ameaças físicas à sua pessoa, além de xingamentos que em nada se diferenciam do vocabulário truculento e desqualificado dos bolsonaristas.

O ator, pré-candidato a deputado federal e petista de carteirinha, José de Abreu, divulgou um twitter com a seguinte mensagem: “se eu encontro (Tabata) na rua, soco até ser preso”. Diante da forte reação à sua ameaça, ensaiou um pedido de desculpas à deputada em um artigo mal-ajambrado publicado pela Folha de S.Paulo. Outro petista de primeira linha, Frei Leonardo Boff, tentou justificar as agressões, ao argumentar: “não nos esqueçamos de que Tabata estudou nos Estados Unidos, apoiada por um biliardário brasileiro”.

É a inversão de valores. Em vez de condenar os agressores, joga-se a culpa nas vítimas, por conta de suas posições políticas. O ódio a Ciro tem como base suas críticas a Lula e ao fato de não ter apoiado formalmente Fernando Haddad no segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Por causa disso vem sendo acusado de ter se vendido à “direita neoliberal”. De direita, Ciro não tem nada. Suas alianças estão mais à esquerda do que as de Lula e seu programa econômico é mais nacional-desenvolvimentista do que o do presidenciável do PT.

Já Tabata cometeu um pecado imperdoável, segundo os cânones da esquerda: votou a favor da reforma da Previdência. Foi o bastante para ser condenada à fogueira da inquisição.

Há uma profunda incoerência entre a estreiteza de quem agride quem não reza pela sua cartilha os convida para manifestações de união, como pretendia ser a do último domingo. Falar de Frente Ampla e ao mesmo tempo estigmatizar parceiros é dar uma enorme contribuição para o fracasso da bandeira “Fora Bolsonaro”. O sectarismo certamente foi um dos fatores, tanto para o esvaziamento da manifestação do dia 12 de setembro, convocadas pela centro-direita, quanto para a do último domingo.

Registre-se, vozes de esquerda condenaram a agressão a Ciro, entre elas Gleisi Hoffmann. Mas o PT que ela preside não assinou a nota de solidariedade ao pedetista, assinada por vários partidos. Assim como a CUT, apesar de convidada, não assinou a nota de solidariedade das centrais sindicais. Lula simplesmente se recusou a falar sobre o assunto. Como diz o provérbio popular, quem cala, consente.

A intolerância, a dificuldade de conviver com a divergência e a agressão física sempre estiveram presentes na história desta esquerda. Stalin simplesmente eliminou fisicamente quem ousou discordar dele.  Até hoje Cuba não tolera críticas ao seu regime e quem ousa discordar é chamado de “gusano” e contrarrevolucionário. Na Nicarágua, Daniel Ortega prendeu seis candidatos a presidente que disputariam com ele a eleição de novembro, enquanto o chavismo implantou um regime de perseguição e de eliminação de adversários.

A rigor, a esquerda que age assim não se distingue do fascismo. A categoria mental é a mesma: a relativização dos valores e a negação da democracia como um valor universal – os fins justificam os meios e a violência é a parteira da história.

Como disse Ciro, não existe só o fascismo de verde e amarelo. Há também o fascismo de vermelho. Mais uma vez, ele mostra a sua cara.

Bolsonaro e a agenda da educação

Por Hubert Alquéres

Antes mesmo da pandemia provocada pelo coronavírus, o mundo já passava por intensas transformações. Elas vinham provocando impacto direto na forma da sociedade produzir e se organizar, em um claro indicativo de que estamos no limiar de uma nova era.

O Brasil, por absoluta incompetência e falta de foco, segue firme para, mais uma vez, ser retardatário na Educação. Perde-se tempo e energia discutindo uma agenda ideológica que não terá o condão de alterar o quadro sofrível do sistema educacional brasileiro. No governo de Jair Bolsonaro, o Ministério da Educação foi transformado em uma trincheira do olavismo em sua guerra contra o “marxismo cultural” e é incapaz de articular estados e municípios na tarefa de garantir o aprendizado necessário para dezenas de milhões de estudantes.

Enquanto patinamos, a Educação passa por intensas transformações em escala planetária.

Tudo está em mutação, desde o currículo e a arquitetura da sala de aula, ao papel do professor, cada vez menos detentor do monopólio do conhecimento e mais um gestor do processo de aprendizagem. Também já não se concebe mais uma educação com disciplinas estanques, que não se comunicam entre si.

O pano de fundo dessas transformações é a quarta revolução industrial, com o advento da Robótica, da Inteligência Artificial e do Big-Data. O novo desafio da Educação é formar os jovens em um mundo volátil, instável, complexo e ambíguo, para utilizar a definição do Plano Educação 2030, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico-OCDE.

E a Covid-19 tem acelerado o redesenho de nossas vidas. Na economia, na cultura, na maneira das pessoas se relacionarem, na política e na própria educação.

Nos próximos 15 anos, muitas profissões desaparecerão e o trabalho rotineiro – manual ou intelectual – será realizado por máquinas. Sobreviverão apenas as atividades que robôs e a inteligência artificial não têm condições de substituir o homem. Cada vez mais o mercado exigirá de seus profissionais resiliência, curiosidade, autorregulação, capacidade de liderança, cooperação, entre outras habilidades socioemocionais.

As escolas só conseguirão desempenhar a contento a nova missão se trouxerem o aluno para o centro, transformando-o em protagonista da sua própria aprendizagem. O ensino de matemática, português e ciências naturais continua tão importante quanto antes, mas tão fundamental quanto esse conhecimento é desenvolver no aluno estas habilidades não cognitivas que farão a diferença na construção do seu futuro.

A reforma do Ensino Médio e a definição da Base Nacional Curricular Comum para o Ensino Básico, aprovados no governo anterior, foram passos decisivos no sentido de colocar o Brasil em sintonia com as mudanças já adotadas nos países melhores ranqueados no sistema internacional de avaliação. 

A falta de continuidade de políticas educacionais, uma das causas do nosso atraso, é responsável, entre outros efeitos, para o fato de que apenas 5% dos concluintes do Ensino Médio tenham uma formação satisfatória.

Ao chegar a 1.000 dias de governo, Bolsonaro tem muito pouco a mostrar em matéria educacional. Simplesmente porque não entendeu até agora que a única ideologia pertinente é a da aprendizagem.

Essa deveria ser agenda de uma política educacional transformadora e de Estado.

Merkel fará falta

Por Hubert Alquéres

Após 75 anos, os alemães irão às urnas no próximo domingo sem que seu primeiro-ministro dispute a eleição. Depois de 16 anos no poder, Angela Merkel sai do palco político para entrar para a história. Em um mundo marcado por forças centrífugas – xenofobismo, racismo, isolacionismo, crise migratória, entre outras – Merkel fez a diferença.

Se a União Europeia sobreviveu a tantas tempestades, deve muito a ela. Sim, foi a âncora em um período da história extremamente conturbado. Seu estilo moderado e paciente, muitas vezes injustamente interpretado como vacilante, foi o necessário contraponto a lideranças conflitivas como Donald Trump, Boris Johnson ou Vladimir Putin.

O movimento nacional-populista que levou ao Brexit e a emergência de uma extrema-direita em vários países do continente, encontrou na primeira-ministra da Alemanha seu dique de contenção. Ela sempre soube ser dura quando necessário. Assim foi na crise financeira internacional de 2008, quando condicionou a ajuda financeira da União Europeia à Grécia e outros países a um duro ajuste fiscal. À época, até Barack Obama pediu que ela fosse mais flexível em relação às exigências aos gregos. Não cedeu e assim salvou a própria União Europeia e sua moeda.

Como Oto Von Bismarck, foi chamada de Chanceler de Ferro, por sua determinação. Navegou contra a maré na crise migratória da Europa em 2015, a pior desde a Segunda Guerra. Enquanto países vizinhos construíam muros para impedir a entrada de imigrantes que fugiam de guerras ou da fome, a primeira-ministra se dispôs a receber 450 mil deles, por considerar aquela como uma crise humanitária. No final de 2019 a Alemanha era o país europeu que mais abrigou refugiados: um milhão e 150 mil, metade deles vindo da Síria.

Recebeu críticas de outros países europeus e por causa disso viu emergir no seu próprio país uma extrema-direita xenófoba e com traços neonazistas, representada pela Alternativa para a Alemanha. Mas fez o certo e a história está lhe dando razão. Não há o menor perigo da extrema-direita voltar ao poder na eleição de domingo. A Alternativa para a Alemanha vem perdendo densidade eleitoral, devendo ficar em quarto ou quinto lugar na composição do Parlamento alemão.

Foi uma liderança previsível mas, em um mundo profundamente instável e em convulsão, a previsibilidade é virtude. Teve o dom da conciliação, de buscar soluções negociadas para grandes impasses. Negociou com a Inglaterra um Brexit menos traumático, com Vladimir Putin uma saída para a crise com a Ucrânia; e construiu consensos internos e na União Europeia.

Em aliança com Emmanuel Macron foi o grande freio à onda eurocética que varreu o continente, após a vitória de Trump nos Estados Unidos e do Brexit na Inglaterra. A sobrevivência da União Europeia mostrou sua importância com o advento da maior crise sanitária mundial desde 1919, quando se tornou necessária uma resposta conjunta do bloco.

Enquanto Trump pregava o negacionismo, Angela Merkel levou a pandemia a sério, manteve a população bem-informada e adotou as medidas sanitárias recomendadas por especialistas. Sua condução firme no combate à Covid 19 foi reconhecida pelos alemães, com a aprovação do seu governo chegando à casa de 80%.

A ortodoxia econômica que marcou sua atuação na crise financeira internacional de 2008 daria lugar a uma outra postura diante da necessidade da reconstrução da Europa no pós pandemia, articulando um pacote de mais de 750 bilhões de euros voltados para a ajuda aos países do bloco. O eurocentrismo sairá da pandemia fortalecido, enquanto os eurocéticos perdem terreno.

A Alemanha marcha hoje para a economia de baixo carbono, com 48% de sua energia sendo produzida de forma limpa: eólica e solar. As treze usinas nucleares que existiam foram fechadas em seu governo. E as térmicas com base no carvão vêm sendo substituídas por fontes renováveis.

Merkel é uma estadista de centro-direita, portanto conservadora, assim como era conservador outro político alemão democrata cristão que também fez história: Konrad Adenauer, o pai da reconstrução da Alemanha pós Segunda Guerra Mundial.  Mas não faz dos seus valores conservadores um dogma. Surpreendeu, por exemplo, ao criar as condições para aprovar em seu país o casamento de pessoas do mesmo gênero.

Carinhosamente chamada de “mutti” (mãe) pelos alemães e de um estilo de vida simples e discreto, é um caso raro de mandatário no auge da carreira política que sai do palco para se dedicar à vida privada. Com o seu recolhimento, fecham-se as cortinas da era Merkel. Fará muita falta em mundo que ainda não exorcizou plenamente os demônios da intolerância, do racismo e da xenofobia.

Bolsonaro agradece

por Hubert Alquéres

Adversários históricos desde o final dos anos 30, Carlos Lacerda e o ator Mário Lago, militante do Partido Comunista Brasileiro, se encontraram atrás das grades, logo após o AI-5. Coube a Lacerda quebrar o gelo: “Mário, na cadeia esquerda e direita se falam, não?”

O ator riu e trocou um aperto de mão. Dois anos antes Carlos Lacerda, principal liderança civil do golpe de 1964, tinha sido um dos protagonistas da Frente Ampla, unindo-se com Jango e Juscelino em torno da bandeira da redemocratização.

A história está cheia de exemplos como esses, nos quais forças políticas de espectro ideológico diferentes deixaram suas divergências de lado em momento de grandes adversidades para derrotar o inimigo comum.

Mas também de contraexemplos. O mais clássico aconteceu na Alemanha em 1933. Adolf Hitler não teve a maioria dos votos, mas ascendeu ao poder graças à divisão entre esquerda, centro e direita. Os comunistas alemães consideravam a socialdemocracia como o principal inimigo, chamando-a de “social-fascismo”.

As oposições brasileiras deram uma demonstração de que não aprenderam com a história, como evidenciam as fracassadas manifestações do último domingo. Em vez de se unirem, acentuaram sua divisão, dando uma enorme mão a Jair Bolsonaro, que pôde tripudiar: “É digno de dó”.

Nas redes sociais petistas, o tom era de comemoração pelo fiasco das manifestações convocadas inicialmente pelo MBL e o Vem pra Rua.  Em artigo na Folha, Guilherme Boulos não disfarçou sua empolgação pelo fato de “a terceira via não ter empolgado muita gente”.

O deboche de Bolsonaro poderia também ser estendido à manifestação organizada pela esquerda no Sete de Setembro. Ela também ficou longe de fazer sombra à manifestação golpista do feriado da Independência. Se juntar os seis mil manifestantes do ato de domingo com os quinze mil do ato do Anhangabaú ainda assim estarão bem distantes dos 125 mil do ato bolsonarista.

O fracasso do dia 12 tem vários motivos, mas sem sombra de dúvida contribuiu, e muito, o sectarismo mútuo. Do lado da esquerda, o PT soltou uma nota saudando “todas as manifestações Fora Bolsonaro”. Era coisa para inglês ver.

Nas redes sociais petistas viralizou o hashtag #FiqueemCasacomLula”. O MBL e o Vem pra Ruas foram tachados de fascistas e golpistas. Em vez de saudar o desgarramento desses movimentos do bolsonarismo, preferiram acicatá-los, criando obstáculos para a construção de uma frente ampla. Ironia significativa da vida: petistas e bolsonaristas soltando fogos porque as ruas ficaram vazias.

O velho hegemonismo, marca registrada do Partido dos Trabalhadores, volta a se manifestar. Frente Ampla, tudo bem, desde que a hegemonia seja sua. Boulos é explícito no seu artigo, defendendo a liderança da esquerda porque é ela que tem força para pôr gente na rua. A eliminação do centro é o sonho de consumo de parte da esquerda. No máximo, admite-se sua participação como caudatário.

O sectarismo, contudo, não é monopólio da esquerda. Os organizadores do dia 12 o convocaram inicialmente com um viés equivocado. O “nem Lula nem Bolsonaro” é, no máximo, uma bandeira eleitoral de determinados setores minoritários até mesmo no espectro do centro. Verdade é que na quinta-feira foi alterado o objetivo da manifestação para o “Fora Bolsonaro”, mas já era tarde.

A ala mais fundamentalista do antilulismo foi a Avenida Paulista com faixas e camisetas com a palavra de ordem divisionista. Vide o Pixuleco do Vem pra Rua, com as figuras de Lula e Bolsonaro. Ora, se já não havia boa vontade do PT e do PSOL com o ato, a direita, deu o pretexto para a campanha da esquerda de esvaziamento das manifestações.

A divisão contribuiu para o fracasso, mas não foi a principal causa. As ruas esvaziadas foram um atestado de que a classe média das jornadas de 2013 e do impeachment de Dilma ainda não se descolou do bolsonarismo a ponto de aderir à bandeira do “Fora Bolsonaro”. A “Declaração à Nação” de Bolsonaro também pode ter tido um efeito desmobilizador, com parte de seus eleitores voltando ao seu estuário natural.

O sentimento anti Lula e anti PT é forte até mesmo entre os segmentos das camadas médias que se descolaram do bolsonarismo. Pesquisa do Monitor do Debate Político do Meio Digital da USP realizada com manifestantes de domingo indicou que 38% deles não aceitam dividir as ruas com o PT e a CUT.

Esse não é um dado a ser comemorado. Sem o apoio da classe média, o Fora Bolsonaro é uma bandeira difícil de ser alcançada. O próprio tempo conspira contra ela. Quanto mais próxima a eleição, menor a possibilidade de concretização.

Isso não torna inútil a costura de uma Frente Ampla, ao contrário. Diante da possibilidade de uma derrota eleitoral, Bolsonaro pode tentar dar o golpe antes da eleição. Não se iludam, tem uma base social para seu intento. Provavelmente não repetirá o erro de Donald Trump de tentar o golpe após a derrota anunciada.

A união das oposições –  ao lado dos freios e contrapesos do nosso Estado de Direito Democrático – é o antídoto para a realização das eleições aos moldes já definidos e o respeito aos seus resultados.  Tudo que atrapalhe a união, deve ser deixado de lado. Tudo que contribua para a unidade deve ser perseguido.

Isso requer desprendimento, tolerância e conciliação. A divisão é uma forte aliada de Bolsonaro. Se não superá-la, as oposições podem se ver na situação de Mário Lago e Carlos Lacerda, trocando aperto de mão apenas na cadeia.

A economia e o povo vão mal

Por Hubert Alquéres

A divulgação do desempenho negativo do PIB do terceiro trimestre se encarregou de triturar mais uma das afirmações triunfalistas de Paulo Guedes. Poucos dias antes o ministro alardeava que a economia se recuperava em forma de V.

Repetindo sua postura de animador de auditório, Guedes tem insistido em acenar com um bom desempenho econômico em 2022. Seu otimismo exagerado não tem respaldo na realidade e já existem vários sinais da deterioração do ambiente econômico, com o pessimismo se espraiando no mundo da produção e financeiro.

De fato, é impossível ser otimista diante de uma inflação próxima de 8%, por mais que Guedes diga que, mesmo com esse índice, “o Brasil está no jogo”. A inércia inflacionária está de volta, com a inflação passada influenciando a inflação futura. Nessa toada, poderá chegar à casa de dois dígitos, em 2022. Para contê-la, o Banco Central terá de continuar elevando a taxa de juros e, assim, inibindo a atividade econômica.

Os juros futuros da dívida pública já estão na casa de 10%. A projeção do PIB de 2022 vem sendo puxada para baixo, situando-se entre 1% a 1,5%, bem inferior aos 2,5% projetados no orçamento encaminhado pelo governo ao Congresso Nacional. A deterioração da situação fiscal, com o risco de o governo apelar para a “contabilidade criativa”, tipo a PEC dos precatórios, adiciona mais incertezas e temores.

Desemprego alto, escalada inflacionária, desvalorização do real, crise energética, instabilidade política e estagnação econômica criam um clima de insegurança e impedem a retomada dos investimentos. Todos esses ingredientes estiveram presentes na crise que levou ao impeachment de Dilma Rousseff e a continuidade de seu governo ficou insustentável quando a inflação chegou à casa de dois dígitos.

Seu impacto na vida das pessoas, sobretudo nas camadas de menor poder aquisitivo, é dramático. A sensação de mal-estar dos brasileiros fica refletida na baixa aprovação do presidente.

Em vez de ascender socialmente, as pessoas descem degraus da escala social. Quem era classe B, virou classe C e quem era C virou D ou E. O brasileiro tem na memória o estrago que a inflação causou no passado em suas vidas. A volta dela é intolerável.

A crise reduziu a pó o capital político do ministro da Economia. A afirmação mais generosa do PIB sobre sua gestão é de que “Guedes é bom na teoria e no slogan, mas ruim na execução.” Os mais cáusticos dizem que trocou a função de ministro para ser mais um bajulador de Bolsonaro.

Do alto de sua empáfia, Paulo Guedes assumiu o Ministério no início do governo menosprezando os trinta anos anteriores de condução da economia, como se nada de positivo tivesse sido construído antes dele e como se houvesse uma política econômica única pós democratização do país. Prometia uma “revolução liberal” com crescimento sustentado.

Não entregou nada. Delfim Neto, liberal de raiz, tem um diagnóstico devastador sobre o desempenho do governo na economia: “É desanimador, uma coisa inconcebível! Um estado caótico, sem programa, sem projeto”.

Grande parte da culpa, senão a principal, é da radicalização do presidente. A crise política incide profundamente na crise econômica, afugenta a atração de investidores e paralisa a máquina pública. Com um agravante: o presidente é absolutamente inepto para governar. Aliás, tem ojeriza a essa arte. Acha que governar é tuitar agressões, ir a solenidades, fazer motociatas.

A pressão pela reeleição de Bolsonaro pode levar o governo, com a aquiescência de Guedes, a adotar medidas populistas sem sustentação fiscal. O cabo de guerra entre a equipe econômica e o “Centrão” tende a se acentuar, com o bloco avançando em áreas econômicas e a provável recriação do Ministério do Planejamento.

O que está ruim pode piorar. Vide a aprovação da reforma do Imposto de Renda. A Câmara dos Deputados conseguiu a proeza de tornar pior o projeto encaminhado pela equipe econômica, que já era bastante ruim.

Nos tempos do “milagre econômico” do regime militar, o presidente Emílio Garrastazu Médici dizia que “a economia vai bem, mas o povo vai mal”. Com Jair Bolsonaro, a economia e o povo vão mal.

Em tempo: as manifestações deste 7 de setembro devem aprofundar o isolamento de Bolsonaro e o coro pelo impeachment vai crescer com a possível adesão anunciada pelo PSDB e também pelo PSD do Gilberto Kassab. Os atos aconteceram com a participação exclusiva do núcleo duro de Bolsonaro que hoje representa apenas 12% do eleitorado. Manifestações são feitas para ampliar o apoio a determinada bandeira. A de Bolsonaro não agregou, espantou!

O PIB descola de Bolsonaro

Por Hubert Alquéres

Até pela natureza de seus negócios, via de regra empresários são pró-governo, seja ele qual for. Desde a redemocratização em 1985, apenas no final do governo Dilma Rousseff adotaram postura oposicionista. Exatamente por isso, o significado do manifesto assinado por mais de 200 entidades e empresários – por ora com divulgação suspensa por decisão monocrática do presidente da Fiesp, Paulo Skaf –  vai bem além do seu teor, interpretado como anódino por muitos analistas.

O texto representa uma mudança de postura diante de Jair Bolsonaro desde a sua eleição, quando, encantados com o discurso ultraliberal de Paulo Guedes, o apoiaram. Ainda que tenham tido toda cautela do mundo para não citar expressamente o governo, é mais do que óbvio a quem os signatários se dirigiam ao pregar a “harmonia entre os poderes”. 

Os empresários têm plena consciência de que quem hoje conspira contra “a estabilidade e a segurança jurídica e harmonia”, essenciais para a nação e o ambiente de negócios.

Se dúvidas havia, o próprio governo se encarregou de dirimi-las ao disparar a operação para evitar a divulgação do manifesto. A Febraban, principal entidade na articulação da iniciativa, passou a ser objeto da ira governamental e alvo de críticas do ministro da Economia. Guedes responsabilizou a entidade dos banqueiros pelo que considerou conteúdo oposicionista do manifesto. Em represália, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil ameaçaram se desfiliar da Febraban. Enfim, o governo passou recibo, acusou o golpe.

Sem interlocução com o mundo da produção e das finanças, o governo teve de apelar para o presidente da Câmara, Arthur Lira, para convencer Skaf da suspensão da divulgação. Esse papel caberia a Paulo Guedes. No limite, a outro membro da equipe econômica, mas o desarranjo institucional causado por Bolsonaro lacrou os canais de diálogo.

Verdade, as palavras empregadas no texto dos empresários foram extremamente prudenciais. Dificilmente poderia ser diferente, por representar a média do pensamento do setor privado. Mas nele há segmentos bem mais assertivos, como atestam a posição da Febraban e o manifesto dos agronegócios. Esse, sem meias palavras na defesa dos trinta anos de democracia e da alternância do poder.

O pano de fundo do descolamento é, por um lado, a crise econômica, e por outro, a radicalização de Bolsonaro. A deterioração das expectativas decorre de erros cometidos pela equipe de Guedes, mas também da instabilidade política gerada pela escalada radical do presidente, que poderá saltar de patamar no Sete de Setembro se ele persistir na mesma toada.

O ex-presidente Castello Branco dizia que “é fácil entrar numa ditadura, difícil é sair dela”. Isso pode ter sido verdade nos anos 60, nos tempos da guerra-fria e de um Brasil menos complexo. Bolsonaro deve estar descobrindo que já não é tão fácil assim. A sociedade brasileira sofisticou-se de lá para cá.

O país conta com estruturas civis articuladas e ativas. Sua economia é extremamente integrada à mundial, o arcabouço institucional construído na Constituição de 1988 tem se demonstrado resiliente, apesar dos pesares. E os freios e contrapesos próprios de uma sociedade organizada em um Estado de Direito Democrático não se limitam apenas aos aparelhos do Estado. A eles somam-se uma imprensa consciente do seu papel e organizações civis, formando aquilo que Gramsci chamou de Estado ampliado, existente no mundo ocidental.

Bolsonaro está sentindo agora o grau de resiliência desse Estado ampliado. Talvez por isso venha modulando o tom das manifestações de Sete de Setembro. Se antes entendia os atos do Dia da Independência como uma demonstração de força para avançar em sua estratégia, passou a jogar na defensiva para não tornar irreversível o consenso nacional em torno do seu impeachment.

Quanto à sua relação com o PIB, essa trincou de vez. Como o relógio corre contra o presidente, o empresariado já está em busca de um presidenciável que encarne o espírito da pacificação pregado pelo manifesto. A Praça é dos Três Poderes.

O que esperar deste 7 de setembro

Por Hubert Alquéres

A última vez em que um presidente mobilizou as massas para emparedar outro poder da República foi numa sexta-feira 13, em março de 1964. Com a realização do Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, o então presidente da República João Goulart tentou contornar a correlação de forças, que lhe era desfavorável no Congresso Nacional, por meio da pressão das ruas para tentar levar adiante seu programa de reformas de base.

Em meio de uma multidão de 150 mil pessoas – um mar de gente para um país de pouco mais de 70 milhões de habitantes –  Jango deixou-se embriagar pelo sucesso, confiante ainda em seu “dispositivo militar”. O ato – chamado pejorativamente por Carlos Lacerda de “Comício das Lavadeiras porque só tinha tanques e trouxas” -, foi a senha para que seus adversários vissem na sua realização a intenção de João Goulart de promover uma ruptura institucional com fins continuístas.

Jair Bolsonaro adota estratégia semelhante para o 7 de setembro, quando pretende dar uma demonstração de força para encurralar o Congresso Nacional e o STF. Suas duas bandeiras são o voto impresso e o impeachment do ministro Alexandre de Moraes. Essas são as justificativas para os atos nos quais o presidente se fará presente em São Paulo e Brasília. O verdadeiro objetivo é transformar a data numa conclamação para uma ruptura institucional, algo que vem anunciando já há um bom tempo. Como ele disse recentemente: “será o último recado”.

Hoje as condições para um golpe, de qualquer natureza, são absolutamente inexistentes, pois o quadro é bastante diferente de 1964. Não vivemos tempos de guerra-fria, não há apoio de empresários e nem a mobilização de amplos setores da classe média, como houve em 1964. As próprias Forças Armadas emitem sinais de que não embarcarão em uma aventura. Ademais, a inflação, o desarranjo fiscal, o aumento da taxa de juros, o desemprego, a morte de 570 mil pessoas por covid, decorrem de erros de seu governo.

Bolsonaro está profundamente isolado, mas este é o calibre do perigo. Governantes de índole totalitária quando acuados viram homem-bomba. O 7 de setembro pode se transformar em uma grande ameaça para a democracia, tal o grau de tumulto que pode gerar.  Se não conta com as Forças Armadas para um golpe, conta com um “dispositivo” baseado em policiais militares e grupos paramilitares que estão sendo convocados para o ato e podem ir armados. 

O caso do coronel Aleksander Lacerda, corretamente afastado pelo governador João Doria do Comando de Policiamento do Interior-7 da Polícia Militar, é o mais visível do envolvimento de bolsões de policiais na convocação. Tais bolsões não representam as polícias militares, nem o coronel representa a valorosa PM paulista, mas tem poder de criar confusão e transformar o 7 de setembro naquilo que o ex-ministro da Defesa, Raul Jungmann, chamou de “pior dos cenários”.

Em julho, quando ainda não se falava dos riscos da data, Jungmann vislumbrou a seguinte hipótese: a partir de policiais militares ou de bolsonaristas armados, cria-se em algum estado um clima de caos e de violência não debelado pela PM. O governador então pede ao presidente da República uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que no ordenamento jurídico do Brasil é uma operação prevista na Constituição Federal realizada exclusivamente por ordem do presidente e na qual autoriza o uso das Forças Armadas. O pedido não é atendido por Bolsonaro e o governador recorre então ao STF que atende ao pleito, por ser constitucional. Cria-se, assim, o impasse entre as instituições.

Não quer dizer que o pior dos cenários vai acontecer, mas os governadores acenderam o sinal amarelo para que suas Polícias Militares não saiam do controle e para evitar a ilegal participação do pessoal da ativa nos atos do próximo mês. Não se pode ter ilusão de que Bolsonaro recuará, mas isto não tira o mérito da união dos 25 governadores reunidos em Brasília em torno da necessidade do diálogo para debelar o confronto que se avizinha. Se não atender ao apelo, o que provavelmente acontecerá, o presidente vai aprofundar seu isolamento.

De volta ao 13 de março de 1964: o comício da Central do Brasil foi o ponto de inflexão nas próprias Forças Armadas que, até aquele momento, estavam atentas ao princípio da legalidade. A presença do então ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, no palanque de Jango fez soar as sirenes e acender o sinal vermelho. Poucos dias depois veio a resposta dura. A primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi mais massiva e contou com 500 mil participantes. Ela ocorreu em 19 de março de 1964 em decorrência ao que foi considerado, por militares e setores conservadores predominantes na sociedade brasileira, uma ameaça representada pelas ações dos grupos radicais e pelo comício de Goulart. Dezoito dias depois o presidente foi deposto. Estrategicamente, o ato da Central foi um grande erro de João Goulart.

Jair Bolsonaro pode estar cometendo o seu grande erro de cálculo, conforme sejam os acontecimentos de 7 de setembro. A participação de policiais militares da ativa carrega o risco da contaminação das Forças Armadas. Se PM pode, por que oficial do Exército não pode? Valores caros como a hierarquia e a disciplina estão sendo postos em xeque, desde a não punição do General Eduardo Pazuello.

Ao ser o promotor da anarquia e baderna o presidente Jair Bolsonaro pode estar criando um fosso imenso com as instituições militares.  E se o 7 de setembro transbordar em violência e caos, contribuirá para que se forme no país uma amplíssima mobilização nacional em torno do seu impeachment, a ponto de Arthur Lira acenar com a possibilidade. Daí será um pulo para que o Palácio do Jaburu e a figura do vice-presidente, Hamilton Mourão, passem a ser o centro das atenções.