Os infiltrados

Que há uma ação orquestrada por parte de setores ultrarradicais parece não haver dúvidas.

A vida tem dessas ironias. A esquerda rupturista sempre sonhou com uma greve política como antessala da tomada do poder, mas hoje quem está utilizando o expediente é a extrema direita. Já não são os 46 centavos no preço do diesel a principal reivindicação dos caminhoneiros, eles querem mesmo é a derrubada do presidente Michel Temer. Depois de ceder tudo e não receber a devida contrapartida dos grevistas o governo passou a denunciar a existência de infiltrados no movimento.

A favor da tese do Palácio do Planalto pesam as palavras do presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros, José da Fonseca Lopes, segundo as quais o movimento paredista foi desvirtuado “por pessoas que querem derrubar o governo”. Fosenca denuncia a existência de “ um grupo muito forte de intervencionistas nisso aí”.

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Que há uma ação orquestrada por parte de setores ultrarradicais parece não haver dúvidas. Afinal, de onde surgem caminhonetes distribuindo bandeiras do Brasil e faixas de “intervenção militar” nos bloqueios? Não se conhece a face dos “infiltrados”, seriam eles agitadores de redes sociais como o motorista “Chorão”, de Osasco, e o advogado de Ituiutaba André Janones? Ou há organizações mais estruturadas por detrás do caos instalado?

Se tudo fosse obra de infiltrados, seria fácil de resolver, bastaria acionar a Polícia Federal e os órgãos de inteligência. O problema é que não é.

O fantasma de 2013 voltou a rondar o país, agora com coloração de extrema direita. A “politização” da greve dos caminhoneiros expressa um sentimento que perpassa transversalmente a sociedade, manifestado no panelaço do beautiful people dos Jardins paulista e da Zona Sul carioca, mas também em manifestações em apoio aos caminhoneiros de motoboys e motoristas de micro-ônibus e transporte escolar.

Por detrás de tudo estaria um sentimento difuso contra a corrupção e contra os políticos, como bem observou Fernando Gabeira. Esse sentimento esteve presente nas jornadas do impeachment de Dilma Rousseff e foi equacionado pela via constitucional. Hoje não se vislumbra uma saída virtuosa, capaz de levar a nação a se reencontrar consigo mesma.

O “Fora Temer”, não é apenas o abaixo o governo. É o abaixo os partidos, abaixo o Congresso, abaixo o STF, tal o fracasso destes poderes em corresponder aos anseios da sociedade. No fundo, é um “que vayan todos e vengan los militares”.

A ideia da ditadura como solução para os problemas nacionais faz parte da nossa herança positivista. Agora ressurge com respaldo de camadas populares e se vê reforçada porque as Forças Armadas passaram a ser vistas como o Posto Ipiranga, solução para tudo. A intervenção militar é uma saída inexequível, sem apoio do deputado Jair Bolsonaro, pois isto frustraria seus planos de ser presidente. E se a extrema direita tem chances de chegar ao poder pelo voto, por que vai apelar às armas, há cinco meses do desfecho da disputa presidencial?

No curto prazo, o risco de ruptura institucional está afastado, mas o Brasil enfrenta seu momento mais delicado desde a redemocratização. A disputa presidencial se dará em clima de alta instabilidade, podendo se desdobrar em desordem social. É o terreno fértil para o discurso da ordem, bandeira hoje nas mãos do candidato da extrema-direita. Quanto mais a esquerda apostar no caos e engrossar o caldo do “Fora Temer” e “Fora Pedro Parente”, mais levará água para o moinho de Jair Bolsonaro.

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo

Ciro, paz e amor?

Ciro Gomes procura dar copy-paste no “Lulinha, paz e amor”

Escaldado por suas derrotas anteriores, Ciro Gomes procura dar copy-paste no “Lulinha, paz e amor”. É como se o espírito do Lula-2002 tivesse baixado no presidenciável do PDT, tal a semelhança entre a estratégia cirista e a de Lula na sua primeira vitória para presidente. O pedetista está à procura do seu José de Alencar – quem sabe Benjamin Steinbruch – para sinalizar para o “mundo da produção e da oferta” a busca de alianças “amplas, magnânimas e sem purismo ideológico excludente”, segundo seu guru Roberto Mangabeira Unger.

O corte e cola não para aí. Ciro demoniza o PMDB, a quem várias vezes chamou de quadrilha, assim como Lula demonizou no início do primeiro mandato. Também persegue aliança com o PP do seu xará Ciro Nogueira, um dos partidos mais envolvidos na Lava-Jato. O PR de Waldemar da Costa Neto é outro que será muito bem vindo no caminhão da sua campanha. O mesmo PR que deu o vice de Lula.

Mas todos na carroceria, pois os partidos de centro-direita serão aliados de segunda categoria, uma vez que a boleia está reservada para o PSB e o PC do B, segundo lideranças pedetistas que adoram repetir a frase de Leonel Brizola: “na carroceria cabe todo mundo, mas na boleia só quem confia”. Nos anos do lulopetismo, quem estava na carroceria pulou rapidinho para a boleia do aparato estatal. E com Ciro, como será?

Utilitarismo à parte, Ciro vem se pautando por uma verdade cristalina: a esquerda sozinha não ganha eleição, assim como discurso radical de qualquer coloração é o caminho mais rápido para a derrota. Sua guinada à “direita” faz sentido. O pedetista ainda não tem a sua “Carta aos Brasileiros”, mas está perto.

Em recente entrevista, o responsável pelo programa econômico de sua campanha, Mauro Benevides Filho, adiantou ideias capazes de provocar infarto em segmentos da esquerda. Segundo ele, “sem o ajuste fiscal o Brasil irá a bancarrota” e, pasmem, “é preciso migrar o sistema da Previdência para o de capitalização de contas individuais, no qual a aposentadoria é resultado do que cada um poupa na vida”.

Só para lembrar: na ditadura chilena, o general Augusto Pinochet fez uma reforma previdenciária por meio da adoção do sistema de capitalização, o que não retira o mérito da proposta.

Ciro em 2002 dizia “o mercado que se lixe”, hoje seu coordenador econômico busca aproximação e acena para o mercado assegurando que contratos serão respeitados e juros não irão cair por decreto. E mais: discorda dos economistas petistas segundo os quais ‘os problemas fiscais se resolvem pelo crescimento”.

O “Ciro, paz e amor” não passou no teste da sabatina desta semana do jornal Folha de S.Paulo. Sem papas na língua, desdisse Benevides Filho nas questões da Previdência e do Teto dos Gastos, além de anunciar que entrará em rota de colisão com o Congresso para revogar a reforma trabalhista. Sua metralhadora giratória não poupou ninguém, nem o PSDB, a quem xingou de golpista e antipovo, mas quer os tucanos no seu palanque de segundo turno. Só foi generoso mesmo com Maduro, ao criticar o “ativismo antichavista” e relativizar a ideia de fraude na eleição venezuelana.

Com não tem perfil de aglutinador e é conflitivo, seu pavio curto, mais uma vez falou mais alto.

Não é à toa que Lula o apelidou de Tilápia, aquele peixe que para ser fisgado não precisa de isca. Basta o anzol.

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo

As duas faces de Geisel

Como a História julgará o ex-presidente Ernesto Geisel, penúltimo mandatário antes do fim da ditadura militar no Brasil?

Como o general condutor da distensão lenta, gradual e segura que aplainou o terreno para o recuo organizado dos militares aos quartéis e para a pacífica transição democrática? Ou como o presidente frio e sanguinário que teria autorizado o assassinato de opositores do regime, conforme revelação de documento da CIA?

Como a História não comporta maniqueísmos, uma leitura mais serena da bombástica revelação da agência de inteligência norte-americana sugere que o general-presidente foi as duas coisas ao mesmo tempo. E não há contradição nisso.

Seu projeto de abertura, até para ser palatável a seus pares, teria como pressuposto uma terrível “limpeza do terreno”. O massacre do Comitê Central do PCB e o assassinato de dirigentes do PC do B na chacina da Lapa, se encaixariam nessa “estratégia”.

Ao governo do antecessor de Geisel, general Emílio Garrastazu Médici, coube a missão de exterminar as organizações da esquerda armada. Para isso, concedeu extrema autonomia aos órgãos de repressão. Médici patrocinou os anos dourados da tigrada, que pode cometer seus “excessos” sem prestar satisfação a ninguém. E deixou como herança para seu sucessor a anarquia militar, com personagens como o Delegado Fleury ou o coronel do exército Carlos Alberto Brilhante Ustra inteiramente fora do controle.

Geisel assumiu o governo com a missão de promover o recuo organizado para os quartéis, o que seria impossível em um clima de quebra da disciplina ou de plena autonomia do aparato repressivo. De um lado, precisava enquadrar os sanguinários, como o fez nos episódios do afastamento dos generais Ednardo D’Ávila e Sílvio Frota. De outro, não podia dispensar seus serviços, pois ainda havia “inimigos internos” a serem enfrentados.

Exterminada a esquerda militarista o alvo passou a ser o PCB, sobretudo após a derrota do regime nas eleições de 1974. É fácil entender a escolha do novo inimigo número um. Segundo a comunidade de informações da época, o PCB era a organização que encontrava “maior receptividade e facilidade de penetração junto às classes política, operária e religiosa e intelectual… a melhor organização na aplicação da política de acumulação de forças”.

Há, portanto, lógica nas revelações da CIA.

Uma coisa, porém, é reconhecê-las como elementos esclarecedores para a avaliação da História. Outra é a sua apropriação com fins de ruptura do pacto que permitiu a transição democrática. A revisão da Lei da Anistia, como já querem alguns, só tornará mais turvo o ambiente.

Os anos de chumbos foram bem mais complexos do que uma guerra entre “bandidos e mocinhos”. Ainda que não tenha o mesmo peso na balança da História, a esquerda, sobretudo a armada, também cometeu suas atrocidades.

Sentimentos revanchistas de quem ainda não desistiu de um acerto de contas com os militares, provocarão os mesmos sentimentos no lado contrário. É hora de virar essa página.

 

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo

A revolução da alegria

O maio parisiense abalou os alicerces e valores da sociedade patriarcal, sisuda e machista.

Sob o signo de aquários, um vento libertário varreu o planeta e fez de 1968 um ano ímpar na história. O maio parisiense, com sua revolução geracional, abalou os alicerces e valores da sociedade patriarcal, sisuda e machista.

Em Paris estudantes erguiam barricadas. Nos EUA queimavam em praça pública a convocação para a Guerra do Vietnã. No Brasil caminhavam contra o vento na passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. E no México eram massacrados na Plaza de Las Três Culturas, em Tiateloico. Os ventos que sopraram em 1968 até hoje estão por aí. O mundo não voltou a ser o mesmo após o maio parisiense, em matéria de valores e costumes.

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A Revolução da Alegria, como é chamado o maio parisiense, teve início no dia 2 daquele mês, na universidade de Nanterre, onde estudava Daniel Cohn Bendit, que viria a ser sua principal liderança. Rapidamente adquiriu densidade, com adesão dos trabalhadores à revolta estudantil.

O austero Partido Comunista de George Marchais foi surpreendido pela irreverência dos estudantes e no início foi contrário à revolta, mas no dia 13 de maio aderiu e sua central convocou uma greve geral. No auge do movimento paredista Paris ficou sem transportes públicos e outros serviços. Seis milhões de grevistas ocuparam 300 fábricas.

Parecia a concretização da propalada aliança “operária-estudantil” tão sonhada pelo intelectual trotskista Alain Krivine, um dos gurus da revolta estudantil.

Durante um mês a França esteve paralisada, mas Charles De Gaulle reagiu com a convocação de eleições para junho. A partir daí o maio francês virou história. É possível revisitá-la por meio do twitter “Veja 1968 Agora”, de Ricardo Noblat, onde estão registrados fatos memoráveis daqueles dias.

A juventude não confiava em ninguém com mais de 30 anos, com raríssimas exceções. O conflito era de gerações: “Professores, sois tão velhos quanto a vossa cultura, o vosso modernismo nada mais é que a modernização da polícia, a cultura está em migalhas”.

Não se visava uma tomada física do poder, mas sim a “imaginação no poder”.

E imaginação é o que não faltou. A começar pelas frases pichadas nos muros da cidade. Diziam os estudantes: “A Revolução tem de ser feita nos homens, não nas coisas”, “Sejam realistas, exijam o impossível”, “É proibido proibir”, “O sonho é realidade”, “Destruam as engrenagens”.

“O que queremos é que as ideias voltem a ser perigosas”, dizia o escritor Guy Debord. Crítico aos blocos ocidental e soviético, Debord deu embasamento teórico à revolta estudantil, apesar de ser um “velho” de 37 anos.

A Revolução da Alegria foi de tudo um pouco. Revolução gerencial, cultural, sexual, de valores e costumes. Derrubou tabus, mas guardou dentro de si uma enorme contradição: ao mesmo tempo em que se pretendia libertária, foi influenciada pelo trotskismo, o maoísmo e o guevarismo, correntes de pensamento totalitário.

Os estudantes glamourizavam a Revolução Cultural chinesa, como símbolo do poder jovem, enquanto na China os guardas vermelhos empapavam-se de sangue, torturando e assinando milhões de pessoas, sob o mando do “grande timoneiro” Mao Tsé-Tung. E o Che Guevara venerado nas barricas parisienses era o mesmo que levou homossexuais e dissidentes para as masmorras cubanas.

Lado triste da alegria revolucionária, que ainda perdura na cabeça de muitos.

 

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo

FHC e o caminho das pedras

Novo livro resgata o papel do Estado como elemento promotor de igualdade

Hubert Alquéres & Tibério Canuto *


Retomamos o tema abordado em nosso anterior artigo “O inferno astral do PSDB”.

Não mais em relação às causas da maior crise da história da socialdemocracia brasileira, a essas alturas já sobejamente conhecidas. Importa agora enfrentar a velha pergunta que habita as cabeças pensantes do tucanato:

O que fazer para o partido superar a perda de identidade e se reconciliar consigo mesmo e com os brasileiros por meio de um projeto para a nação?

A resposta não é tarefa fácil. Sobretudo porque a falta de rumo não é privativa do PSDB. Desde o segundo mandato de Lula o país está à deriva, confinado em um círculo de giz do qual não consegue sair, pois as saídas disponíveis no mercado político não levam a lugar nenhum, a não ser a devaneios regressistas. Não se trata de formular uma resposta “para dentro”, pois o PSDB só salvará a si mesmo se for capaz de formular uma proposta de salvação do país.

Contudo, não partimos do zero. Já há bastante massa crítica e luz no horizonte.

O novo livro de Fernando Henrique, Crise e Reinvenção da Política (Companhia das Letras, 2018), escrito em parceria com Sérgio Fausto e Miguel Darcy de Oliveira, fornece um roteiro para levar o Brasil a outro patamar civilizatório e tirar das cordas a socialdemocracia brasileira, se ela seguir o mapa da mina apontado por seu maior quadro intelectual e político.

Ainda que não se dirija especificamente ao PSDB e seja muito mais abrangente, o projeto esboçado por FHC traduz bem quais seriam os valores e ideias-força da socialdemocracia nas condições de um mundo no qual as classes não são mais a “força exclusiva da história”, de uma sociedade fragmentada, de crise do chamado Estado de Bem-Estar Social, de perda de poder dos Estados nacionais e onde ganham relevância “movimentos de cidadãos” e “mudanças duradouras requerem a institucionalização de novas práticas e valores”.

Nesse mundo de crise da democracia representativa, de seus partidos, sindicatos e instituições, o grande desafio da política democrática é a reconexão entre o “mundo da vida e da sociedade” e o “mundo das instituições e do Estado”. Em síntese, o novo papel da política seria identificar o terreno comum que poderia servir de elemento de conexão, que não é a expressão do somatório de interesses identitários. A existência desse espaço se dá porque, ao contrário do que se propaga, a sociedade contemporânea não se move pelo “individualismo possessivo que valoriza exclusivamente a competição de uns contra os outros e mede o progresso em termos econômicos estreitos”.

A reconexão passa por reconhecer que as pessoas são portadoras de direitos e que é necessário encontrar o “terreno comum” (common ground) em uma sociedade fragmentada. Ou seja, “encontrar o terreno público ou privado, no qual o interesse das pessoas se encontra e em nome do qual um país cria um destino nacional”. A nova agenda é definida pelo que une os brasileiros, tanto em questões concretas – segurança, equilíbrio fiscal, tributação progressiva, previdência, meio-ambiente, saúde, educação, entre outros – mas também nos valores da “liberdade, igualdade, dignidade e solidariedade”.

A reimersão nos valores que vêm da Revolução Francesa e estão no DNA da socialdemocracia se faz necessária porque eles foram rebaixados nos últimos anos. A bandeira da igualdade – entendida aí não só como direitos e deveres iguais, mas também como igualdade de oportunidades – tende a marcar o século XXI assim como a bandeira da democracia e da liberdade marcou o século XX.

Sociedade, Mercado e Estado

Em certo sentido, o PSDB rendeu-se ao valor ultraliberal segundo o qual a liberdade econômica por si só leva à igualdade social. Talvez essa seja a principal diferença entre uma esquerda democrática comprometida com o reformismo social e o pensamento liberal ortodoxo. A grande linha divisória entre as duas correntes está exatamente na valorização do reformismo social – e, portanto, no papel do Estado na promoção da justiça social e na proteção da sociedade. As duas correntes não se diferenciam pela questão da privatização, dos fundamentos da economia de mercado, e sim pela valoração que dão à universalização dos direitos sociais. O divisor de águas, portanto, é a igualdade.

A conquista da igualdade de oportunidades não será alcançada se o país não enfrentar os gargalos da questão distributivista: a revisão dos gastos do Estado e o sistema de tributação, tanto para fazer o bolo da economia crescer como para reduzir as desigualdades sociais. Impossível alcançar tais objetivos por meio de uma tributação regressiva, que, na verdade, penaliza principalmente os mais pobres. Não se trata de fazer o bolo crescer para depois distribuir, mas de crescer e distribuir ao mesmo tempo, por meio de um sistema tributário progressivo.

Talvez o grande mérito do livro de Fernando Henrique seja o de resgatar o papel do Estado como elemento promotor da igualdade. Não se trata de propor um retorno ao papel do Estado como motor do desenvolvimento econômico, do protagonismo estatal na economia. Também não se trata de opor Estado e Mercado ou de reduzir a sociedade a estes dois entes, como se não houvesse um terceiro elemento: o público. A sociedade não é nem estatal, nem de mercado. Quem é de mercado é a economia.

Neste arcabouço, os inimigos da mudança estão plenamente identificados: “de um lado, o estatal-corporativismo, de outro o fundamentalismo de mercado. Ambos incompatíveis com o mundo contemporâneo”. O fundamentalismo, diz Fernando Henrique, “reduz o bem comum ao mercado e concebe a sociedade como um ajuntamento de indivíduos cujo objetivo é maximizar sua capacidade de acumulação e consumo. Já a esquerda antiquada abraça um estatismo que a isola das vibrações da sociedade contemporânea e a torna aliada das corporações”.

Estado e mercado não devem ser endeusados ou demonizados. Ambos podem desempenhar papel positivo, nas condições indicadas em Crise e Reinvenção da Política: “Assim como o Estado precisa ser constitucionalmente limitado em seus poderes, submetidos a mecanismos de freios e contrapesos, e obediente à soberania popular, o mercado deve ser regulado por regras estáveis que deem previsibilidade aos agentes econômicos, ao mesmo tempo em que limitam seu poder.”

O certo é que na crítica à ineficiência do Estado e à concepção estatista da esquerda atrasada não se pode semear confusão. O discurso do quanto menos Estado melhor e a visão deística segundo a qual o mercado seria mais competente para gerar riqueza e prover a sociedade de bens públicos não resistem ao olhar crítico de Fernando Henrique. Segundo ele, nem na mais liberal das economias, a americana, o mercado foi ou é capaz de prover a sociedade dos bens necessários a seu desenvolvimento.

Os tucanos deveriam ler mais Fernando Henrique, antes de sair por aí cultivando o fetiche do mercado. De acordo com o ex-presidente, o mercado “acentua desigualdades preexistentes ou cria novas, sem ter capacidade de autocorrigir-se”. Esse papel deve caber ao Estado.

O futuro do PSDB está na razão direta da capacidade que tiver de se distinguir tanto das ideias ultrapassadas da velha esquerda, quanto do chauvinismo autoritário da nova direita. E de enfrentar os três entraves às mudanças: “o ultraliberalismo que prega que o mercado resolve tudo, a velha esquerda burocrática e estatista e os corporativistas”, que operam nas duas pontas, Estado e mercado.

Como deixa claro o livro de FHC, isso passa “por perseverar com convicção e esperança na luta pela liberdade, pela igualdade e pela dignidade humana”. O caminho das pedras passa também por uma agenda progressista e contemporânea, “libertária nos costumes e, radicalmente, socialdemocrata no distributivismo”. Se o PSDB se perder em seus labirintos, ou se deixar-se afogar nas águas turvas do aviltamento dos valores, estará queimando as caravelas. Como navegantes errantes, não voltarão ao porto seguro dos princípios que são a razão de sua existência como força transformadora.


* Hubert Alquéres é  professor, membro da Academia Paulista da Educação, colaborador do blog Noblat/site Veja; Tibério Canuto é jornalista.

O caminho da reinvenção

FHC apresenta um roteiro para enfrentar o grande desafio da política democrática nos tempos atuais

Todos concordam num ponto: o país está sem rumo e já faz muito tempo.

O mundo mudou, a sociedade mudou, mas andamos em círculos, perdendo, mais uma vez, o bonde da história. Os presidenciáveis e seus partidos não disseram até agora a que vieram em matéria de apresentar um projeto para a nação. Nesse deserto de ideias, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é exceção. Em seu novo livro, “Crise e Reinvenção da Política”, ele descortina os caminhos que podem levar o Brasil a um novo patamar civilizatório e deixar para trás a maior crise de sua história.

A sociedade contemporânea, segundo o ex-presidente, distingue-se de sua antecessora, a sociedade urbano-industrial, em suas formas de sociabilidade bem como em suas crenças e valores. Em vez de ser as “classes sociais” o motor exclusivo da história, ganham relevância os “movimentos de cidadãos” e o fato de que “mudanças duradouras requerem a institucionalização de novas práticas e valores”. A partir daí FHC apresenta um roteiro para enfrentar o grande desafio da política democrática nos tempos atuais: a reconexão entre o “mundo da vida e da sociedade” e o “mundo das instituições e do Estado”.

A reconexão passa por reconhecer que as pessoas são portadoras de direitos e que é necessário encontrar o terreno comum (common ground), em uma sociedade fragmentada. Ou seja, em “encontrar o terreno público ou privado, no qual o interesse das pessoas se encontra e em nome do qual um país cria um destino nacional”. A nova agenda é definida pelo que une os brasileiros, tanto em questões concretas – segurança, previdência, meio-ambiente, saúde, educação, entre outros – mas também nos valores da “liberdade, igualdade, dignidade e solidariedade”.

Fernando Henrique valoriza não apenas nos valores que a humanidade persegue desde a Revolução Francesa, mas também em princípios caros à socialdemocracia: “uma agenda progressista e contemporânea para o Brasil deve ser libertária em relação aos temas comportamentais e, decididamente, socialdemocrata no que diz respeito às questões distributivistas”. É como se estivesse mandando um recado direto para seu partido.

Identifica também os agentes da mudança e os que a ela se contrapõem. Os primeiros seriam um bloco popular, democrático e progressista, formado por partidos, setores da sociedade e movimentos sociais. As forças resistentes seriam a velha esquerda com suas ideias ultrapassadas e a direita autoritária e chauvinista.

É na articulação sociedade-mercado-Estado que ressurge um Fernando Henrique socialdemocrata até a medula. “A economia é de mercado, a sociedade não”.

Critica as corporações, os privilégios estatais, a distribuição regressiva da carga tributária, o crédito subsidiário às empresas amigas do rei. Reafirma o papel do Estado na proteção aos mais carentes, seu papel de regulador do mercado e provedor de serviços públicos de qualidade.

E é avassalador na crítica ao ultramercadismo: “No embalo da crítica à corrupção e à ineficiência do Estado, vem ganhando corpo uma visão ultraliberal que defende que quanto menos Estado, melhor; o mercado seria competente não apenas para gerar emprego como também para prover a sociedade com bens públicos… Essa postura simplista se esquece que nem mesmo na mais liberal economia do mundo, a americana, o mercado foi capaz por si mesmo de prover a sociedade dos bens necessários. Além disso, o mercado acentua desigualdades preexistentes ou cria novas. O papel dessa correção é do Estado”.

Fernando Henrique descortina um alentado caminho para a reinvenção da política. E o faz como agente político da mudança, como deixou claro ao citar Marx: “os filósofos apenas interpretam o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo”.

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo