O presidente do dissenso

Foto: pessoas protestam contra o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, próximo a Blair House em Washington nos Estados Unidos – 17/03/2019 (Julia Braun/VEJA.com)

por Hubert Alquéres

Chama a atenção a infinita capacidade de Jair Bolsonaro em criar conflitos desnecessários. O mais estridente deles, com o presidente da Câmara Rodrigo Maia, sem o qual é quimera pensar na aprovação da Reforma da Previdência. Não é apenas com Maia que o presidente da República está em pé de guerra, é com todo o mundo real da política, que ele, de forma messiânica, acredita poder varrer do mapa.

As consequências da negação da política como a arte de construir consensos saltam a olhos vistos. Há pouco mais de um mês os ventos sopravam favoráveis ao governo.

Os recém eleitos presidentes da Câmara e do Senado tinham disposição de ajudar o presidente, o DEM poderia desempenhar o mesmo fator de governabilidade que o PMDB jogou em gestões passadas, e os novos projetos de Reforma da Previdência e contra o crime causaram boa impressão no Congresso e na sociedade. O mercado apostava no sucesso dessa empreitada.

Não por obra da natureza, mas por erros do próprio governo, os ventos mudaram de direção. Carente de uma articulação política minimamente digna do nome, o governo cometeu erros primários ao abrir várias frentes de luta no próprio Congresso. O mais grosseiro deles foi o de propor uma reestruturação amena da carreira dos militares juntamente com uma reforma da Previdência que exige sacrifícios de toda a sociedade.

Mais: o presidente quer tirar a castanha do fogo com a mão dos parlamentares ao terceirizar a responsabilidade sobre a aprovação da reforma. Como no Congresso o mais ingênuo tira a meia sem tirar o sapato, não tem votos para aprová-la. É uma situação sui generis: amplamente vitorioso nas urnas não conseguiu, em três meses, organizar sua base de sustentação.

Mudou o humor das ruas, como atestou a pesquisa Ibope, mudou o humor do mercado. O capital político de Bolsonaro vai se estiolando por ter dobrado a aposta na estratégia da demonização da política e da priorização da agenda ideológica. Essa estratégia lhe rendeu votos, mas é insuficiente para governar em uma democracia onde o Congresso é forte.

A aposta no emparedamento do poder Legislativo pela “pressão das massas” só gerou novos conflitos, até porque auxiliares seus, como o ministro Sérgio Moro, também sentem-se encorajados para peitar Rodrigo Maia. O presidente não constrói consenso nem mesmo no interior do bolsonarismo, palco da guerra intestina entre pragmáticos e ideológicos. O necessário chega pra lá do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, Ministro da Secretaria de Governo, em Olavo de Carvalho não deixa de ser mais um capítulo de uma disputa autofágica.

Como o presidente comunga dos mesmos pontos de vista da autoproclamada ala anti-establishment do Bolsonarismo, a tendência é o aprofundamento do isolamento do governo e de nova perda da popularidade presidencial.

O mercado já captou que a reforma da Previdência começa a subir no telhado. Como o clima azedou, o ministro Paulo Guedes cancelou sua participação na reunião da CCJ da Câmara, na qual defenderia a proposta de reforma do governo. O ministro corria o risco de falar para as moscas porque líderes partidários articulavam um boicote à reunião.

Cada vez mais seus olhos voltam-se para os militares, na esperança de que ponham um freio no voluntarismo messiânico de Jair Bolsonaro. As estrelas do general Hamilton Mourão, sem nenhum trocadilho, vão ofuscando as de Jair Bolsonaro, com o PIB prestigiando um jantar com o vice-presidente.

Não é um quadro consolidado, mas Maia já fala em “blindar a reforma da Previdência”, tal a inapetência do governo para viabilizá-la por meio da desobstrução da política.

O presidente insiste em ignorar uma lição elementar: em política, cisca-se para dentro.

O presidente do dissenso

Rasputins

Por Hubert Alquéres

Grígori Iefimovritch Rasputin, um camponês rústico da província siberiana de Tobolsk, mandava muito na Rússia dos czares Nicolau e Alessandra Romanov. Não tinha cargo algum no governo, mas fazia e desfazia ministros. Seu fanatismo religioso e seu discurso fundamentalista em defesa da monarquia eram música para os ouvidos da família imperial. Sabia como ninguém usar intriga, bajulação, ignorância, mentira e fraqueza humana para a expansão de sua influência na Casa dos Romanov.

Era também um embusteiro de vida devassa, grosseiro e de vocabulário chulo. Disfarçava sua alma degenerada se apresentando como um “homem de Deus”, em cruzada contra os infiéis. Mais temido do que adorado, a corte inteira o adulava. Pobre de quem não caísse em sua graça.

Rasputin virou sinônimo de personalidades obscuras que, em circunstâncias especialíssimas de crise e degradação de valores, arrastaram seus países para aventuras com desfechos trágicos.

No governo de Isabelita Perón, José Lopes Rega (”El Bruxo”) era chamado de “Rasputin argentino”. Ex mordomo do casal Perón, construiu seu poder manipulando a personalidade fraca da viúva de Perón, uma adepta do ocultismo. O Rasputin portenho fundou a famigerada AAA – Associação Anticomunista Argentina -, que mergulhou o país em um mar de sangue.

Como o Rasputin dos Romanov, Olavo de Carvalho manda muito na era Bolsonaro.  E como Lopes Rega faz de sua cruzada anticomunista uma ferramenta para se impor na corte que hoje manda no Brasil.

As semelhanças não param aí. Seu poder decorre das relações privilegiadas com a nova família real, para usar uma expressão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. E abusa das armas da intriga, bajulação, ignorância, mentira e fraqueza humana para estender seus tentáculos sobre todo o governo. Eles chegam até o presidente por meio de seus filhos ou pelas redes sociais. No gabinete presidencial instalou um discípulo seu, Filipe Martins, na estratégica função de assessor internacional do presidente.

Diretamente, fez os ministros da Educação e das Relações Estaduais, dois bunkers da ala radical do Bolsonarismo.

Pobre de quem cai em desgraça com ele. O ministro da Educação, Vélez Rodriguez, está por um fio desde o “ponham-no pra fora” de Olavão. A senha foi dada, com Olavo deixando de reconhecer a paternidade da nomeação de Vélez para o MEC. A ala pragmática e técnica do Ministério foi defenestrada desde que o presidente entregou em uma bandeja a cabeça de Luiz Antônio Tozi, exigência do líder da cruzada ideológica do Bolsonarismo.

Todos o temem, todos o bajulam. Brilhou mais do que Bolsonaro no jantar na casa do embaixador brasileiro em Washington. Paparicado por todos sentou-se bem ao lado do presidente, como se fosse a segunda maior autoridade presente. O ministro Paulo Guedes não poupou hiperbolismo ao chamá-lo de líder da “revolução liberal”.

Assim como Rasputin desafiava nobres com bastante influência na corte czarista, sua versão brasileira sente-se suficientemente forte para comprar briga com o núcleo mais consistente do governo, os militares.

Por meio de uma linguagem grosseira e absolutamente imprópria, os chamou de “cagões e golpistas”, pregando abertamente que Bolsonaro se livre deles. Do contrário, disse, seu governo acabará em seis meses. Nutre ódio particular ao vice-presidente Hamilton Mourão, a quem, dos Estados Unidos, xingou de estúpido. Em defesa da “pureza” da “revolução bolsonariana” acusa o general de aliado de Nicolàs Maduro e de representar a infiltração comunista no governo.

Olavo de Carvalho seria apenas uma figura caricata a enriquecer o folclore político nacional se por trás do seu histrionismo não existisse o risco de, por sua influência, arrastar o país para aventuras extremamente perigosas.

A história está aí para provar que Rasputins sempre fizeram mal aos seus países.

Rasputins

Faça sua aposta: pragmáticos ou ideológicos?

O clássico embate repete-se com força no governo Bolsonaro

Por Hubert Alquéres

Charge: Olavo de Carvalho (por Loredano na VEJA)

Toda vez que a disputa entre pragmáticos e ideológicos se estabeleceu em um governo, a balança pendeu para os primeiros. O exemplo mais clássico foi a China de Deng XiaoPing, com a derrota da “Gang de Xangai”. O resultado também não foi diferente no primeiro governo Lula, com a prevalência de Antonio Palocci e Luiz Gushiken sobre José Dirceu. O mesmo aconteceu na disputa entre Pedro Malan e os “desenvolvimentistas” da era FHC.

O clássico embate repete-se com força no governo Bolsonaro, tendo como polos os militares e a chamada ala olavista, incrustada em áreas estratégicas, como o Ministério da Educação e o Itamaraty. O Bolsonarismo nunca foi um bloco monolítico. Em um primeiro momento, os ideológicos deram o tom.

Menos por expressar a ampla base social responsável pela vitória de Jair Bolsonaro e mais porque no coração do presidente, assim como em seu núcleo familiar, habita os mesmos valores do guru da extrema-direita, Olavo de Carvalho.

Isto adiciona incertezas quanto ao desfecho dessa queda de braços. Mas a vida está mostrando ao presidente que governo nenhum do planeta logra sucesso tendo como combustível a ideologia. O extremismo não tem o poder de fazer a economia girar.

Ao contrário, leva o governo a dispersar forças, quando deveria concentrá-las em vencer a atual mãe de todas as suas batalhas: a reforma da Previdência. A fórceps, o presidente está tendo de se render ao pragmatismo, inclusive na sua relação com o mundo “impuro” da política.

As desastradas tuitadas de Bolsonaro – a divulgação de um vídeo escatológico foi a gota d’água -, bem como declarações intempestivas, revelaram a urgente necessidade de se estabelecer um “cordão sanitário” em torno de sua figura. Ninguém melhor para a missão do que os militares, acostumados a raciocinar estrategicamente e altamente disciplinados. O racionalismo de sua cultura positivista pesa muito na hora do vamos ver.

As pataquadas cometidas pelo ministro do Exterior Ernesto Araújo, levaram a uma intervenção branca no Itamaraty em questões sensíveis, como a crise da Venezuela, a transferência da nossa embaixada para Jerusalém e nas relações com os países árabes,

O Ministério da Educação, em vez de se dedicar ao difícil desafio de construir um consenso nacional em torno da melhoria da qualidade de ensino, tornou-se palco da guerra autofágica entre ideológicos e pragmáticos.

Depois do desastre de seu e-mail aos professores, o ministro Ricardo Vélez Rodriguez passou a ouvir seu assessor pragmático, coronel Ricardo Wagner Rodetti, para se pôr em sintonia com a direção dos ventos. Exagerou na dose ao rebaixar para cargos figurativos ex-alunos de “Olavão”.  O contragolpe veio com Bolsonaro mandando demitir o coronel Rodetti.

Balcanizado, o MEC é palco de uma ferrenha disputa pelo poder. Entre a cruz e a caldeirinha, o ministro Vélez teve de adiar sua viagem de 15 dias a Israel e desagradou os dois lados ao dar uma de Salomão na demissão de seis ocupantes de postos estratégicos. O próprio ministro está balançando no cargo.  Até mesmo seu padrinho Olavo de Carvalho já deu o brado de “ponham-no para fora”, se não seguir a cartilha dos fundamentalistas.

Se na política externa os pragmáticos conseguiram neutralizar as incursões ensandecidas, no MEC, no final da tarde desta 3a feira, o olavismo avançou mais uma casa.

Olavo de Carvalho exigiu e o ministro degolou a cabeça do segundo homem da pasta, o Secretário Executivo Luiz Antônio Tozi. A vitória de Olavão decorreu do seu “prestígio” junto ao presidente e aos seus filhos.

Tozi, um quadro técnico formado pelo ITA e que atuou com competência na rede de escolas técnicas da Fundação Paula Souza em São Paulo, é respeitado entre educadores e era visto como o avalista de que o MEC priorizaria o conteúdo educacional, em lugar da agenda ideológica. Recentemente participou de um Seminário Internacional organizado em conjunto pelo Todos Pela Educaçao, a FGV e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), e causou a melhor das impressões entre educadores brasileiros e estrangeiros.

Nesse imbróglio o Ministro mudou de lado como o camaleão muda de cor e mais uma vez a Educação paga o preço de uma rinha que não é sua.

Como não é dado a raciocínio estratégico, o guru dos “olivetes” – é assim que chama seus ex-alunos aboletados na máquina pública – também comete erros. Abertamente atacou os militares, sobretudo o vice-presidente.

O general Mourão vocaliza aquilo que pensam os ministros fardados e os da caserna mas, que não se manifestam publicamente. Olavo de Carvalho está chamando gente grande para briga. Os militares são o núcleo fundamental de um “presidencialismo de caserna”.

Superestimou também a firmeza ideológica de seus discípulos com sua conclamação para que eles saiam do governo. Pregou no deserto.

Todo ideológico é também pragmático quando está em jogo pegar ou largar o osso.

___________________________________________

Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja em 13 de março de 2019:

Faça sua aposta: pragmáticos ou ideológicos?

 

De volta à política

O Bolsonarismo prestou um enorme desserviço com seu discurso do “contra tudo o que está aí”.

Por Hubert Alquéres

Senadores se preparam para segunda reunião preparatória para eleição do presidente do Senado – 02/02/2019  (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Escorraçada nas urnas e demonizada nas redes sociais como pecado mortal, a negociação política começa a sair do exílio.

Aos trancos e barrancos o próprio presidente Jair Bolsonaro vai se rendendo ao óbvio:  impossível aprovar a Reforma da Previdência sem uma ampla negociação com o Congresso. O presidente começa a perceber que vai precisar de aliados, e muitos, se quiser fazer acontecer o seu governo.

A negociação é uma via de mão dupla, na qual ônus e bônus são compartilhados entre parceiros. Isso não tem nada de ilegítimo ou de antirrepublicano.

O Bolsonarismo prestou um enorme desserviço com seu discurso do “contra tudo o que está aí”. Simplificações grosseiras levaram a classificar o “presidencialismo de coalizão” como sinônimo do toma-lá-dá-cá, como se fosse possível, em um quadro de pulverização partidária, governar sem esse modelo.

Aberrações ocorridas, sobretudo nos governos petistas, devem ser combatidas e descartadas. Mas confundi-las como inerentes à coalizão é jogar fora a criança com a água suja da banheira.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso mostrou ser possível governar a partir dessa modelagem, associando-a a outro patamar ético. A conferir se Bolsonaro terá a mesma competência ou se continuará prisioneiro do discurso que se mostrou útil para a sua vitória nas eleições, mas absolutamente insuficiente para governar.

O recado tem sido dado de maneira muito explícita pelos partidos e parlamentares. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, sucessivamente tem cobrado do presidente que organize a sua base no Congresso. Parte da dificuldade reside no fato de Bolsonaro, à despeito de ter sido deputado por quase 30 anos, sempre ter feito política de forma bélica, dando caneladas, sendo pouco afeito ao trabalho de construir consensos, de fazer o meio de campo.

Seu time no Congresso, o PSL, não ajuda. É formado por vários amadores, muitos em primeiro mandato. A própria deputada novata Joice Hasselmann, catapultada a líder do governo, tem brilho próprio, mas falta-lhe experiência e estofo para exercer uma função tão estratégica.

O estilo voluntarista do presidente também atrapalha. Antes mesmo do jogo começar, anunciou recuos na reforma da Previdência, em seus aspectos mais “impopulares”. Ora, se o presidente é o primeiro a ceder, a troco de que os parlamentares vão carregar o andor da impopularidade?

É uma questão de tempo para o ex-capitão entregar o comando das articulações a políticos profissionais, principalmente a Maia e ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Mas eles só aceitarão a tarefa se não forem figuras ornamentais, se tiverem bala na agulha na hora da negociação política.

Os líderes partidários não têm pressa. Sabem que a governabilidade passa por eles. O Centrão continuará sendo tão importante como em outras gestões recentes, e o DEM estará para Bolsonaro assim como o MDB esteve para governos passados. Como são do ramo, retardam a entrada na base governista na certeza de que se valorizam com isso. O que se espera deles é que a relação se dê com valores republicanos.

A verdade é que a velha política está de volta. E isso não é necessariamente ruim.

 

___________________________________________

Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja em 06 de março de 2019:

De volta à política