Realismo socialista

por Hubert Alquéres

O filme “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, disponível na Netflix, é uma peça digna do realismo socialista dos tempos de Josef Stalin e seu principal teórico, Andrej Zdanov. Dos anos 30 aos 50, a cultura soviética converteu-se em arte oficial, a serviço de uma ideologia e de um Estado totalitário. Entre suas características estavam o utilitarismo – a arte deveria embutir nas massas a confiança no socialismo – e o maniqueísmo. Os heróis, normalmente proletários, soldados ou camponeses, eram idealizados como puros e saudáveis. Já os burgueses como parasitas, decrépitos e decadentes.

Petra se coloca a serviço da ideologia petista ao apropriar-se da história, dando ar de verdade à versão, segundo a qual o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula foram uma trama das elites, da mídia e – não podia faltar – dos interesses estrangeiros.

Como Narciso, que acha feio o que não é espelho, Petra considera como golpistas e oligárquicos tudo o que não se encaixa na narrativa do Partido dos Trabalhadores. A começar pelas manifestações multitudinárias das jornadas de junho de 2013, onde, pasmem, já estaria o germe do “golpe”, como se elas fossem o ovo da serpente do qual saiu Bolsonaro.

Na sua versão a serpente toma corpo por meio da decisão da elite de sacrificar um de seus braços (a turma do colarinho branco, que pela primeira vez na nossa História foi para a cadeia) para extirpar a esquerda do poder. A ideia de uma elite raivosa cujos interesses teriam sido contrariados por Lula não guarda a menor coerência com a realidade. Afinal, segundo o próprio ex-presidente, nunca os banqueiros ganharam tanto como em seu governo.

E nunca empresários escolhidos pelo rei se aproveitaram tanto do Estado quanto nos anos do lulopetismo.

O Bolsa-Família representou algumas migalhas para o andar de baixo, enquanto os escolhidos do andar de cima se lambuzavam no jantar farto da chamada nova matriz econômica. Essa é a verdade que “Democracia em vertigem” joga para debaixo do tapete, da mesma maneira que trata Antonio Palocci e José Dirceu com relevância menor do que a de uma nota de pé de página. Stalin apagava das fotos seus desafetos. Petra Costa esconde do espectador os petistas que chafurdaram na lama.

Tudo se passa como se petistas não tivessem enriquecido pessoalmente e como se o próprio Lula não tivesse obtido vantagens indevidas.

Para a cineasta, o PT apenas cometeu crime de Caixa 2, e ameniza supondo como algo que todo mundo fez. Para provar a tese do “roubei sim, mas quem não roubou”, se vale do depoimento de Nestor Cerveró assegurando que sempre existiu corrupção na Petrobras. Propositadamente, escoimou da tela a informação de diversos ex-funcionários da estatal envolvidos no Petrolão, segundo os quais a corrupção pontual ganhou escala sistêmica e se institucionalizou quando o lulopetismo chegou ao poder.

Tal como o Pravda só divulgava as “verdades” da nomenclatura soviética, o filme chancela as “verdades” do PT. Assim, Lula se viu forçado a se aliar com o PMDB e os partidos da “direita” porque no Brasil se “Jesus Cristo tivesse de governar, teria de se aliar com Judas”. Para a cineasta o único pecadilho dos governos Lula e Dilma teria sido se render a essa realidade, em vez de fazer a reforma política – essa panaceia sobre a qual o PT se agarra para justificar seus crimes.

Nessa versão romanceada, a quebra da Petrobras não se deu pela combinação de má gestão com a corrupção. Nada teria a ver com investimentos desastrosos como Abreu e Lima, Pasadena, Comperj e outros. Muito menos com a intervenção e represamento de preços operados por Dilma. Seria consequência da conspiração de potências estrangeiras interessadas em quebrar a Petrobras para se apossar das riquezas do Pré-Sal.

Já a culpa pela maior crise econômica da história do país, responsável por doze milhões de desempregados, é atribuída ao fim do boom das commodities, nada tendo a ver com o desastre da política econômica do herói Lula ou da super honesta e mártir Dilma Roussef.

“Democracia em vertigem” é pura arte oficial de um partido e seu projeto de poder. Pretende empolgar a militância e dar argumentos mentirosos para o embate político. Está a serviço de uma ideologia assim como estiveram alguns intelectuais brasileiros que emprestaram sua criatividade a uma causa totalitária.

Um deles, Jorge Amado, escreveu uma obra hagiográfica, “O mundo da paz”, na qual define Stalin como “mestre, guia, e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior general, aquilo que de melhor a sociedade produziu”.

Anos depois, o escritor baiano tomou conhecimento dos crimes de Stalin e teve a honestidade intelectual de renegar sua obra, desautorizando uma nova reedição. Quem sabe um dia a ficha caia. Terá Petra Costa a coragem de Jorge Amado?

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat: https://veja.abril.com.br/blog/noblat/realismo-socialista/

O Congresso surpreende

Eunício Oliveira (PMDB-CE)

por Hubert Alquéres

No alto de sua sabedoria, Ulysses Guimarães respondia “esperem o próximo Congresso” para quem reclamava da baixa qualidade do Parlamento. O velho cacique tinha razão. A cada nova legislatura, sentia-se saudades da antiga. Essa lógica está sendo contrariada pela atual.  Ainda é cedo para concluir que a mudança é definitiva, mas é visível sua melhora em relação à anterior, nesses primeiros meses.

Um exemplo disso é o parecer do relator da reforma da Previdência, deputado Samuel Moreira, produto de um maior protagonismo do Congresso.

Pela primeira vez há a possibilidade real do Parlamento aprovar uma reforma robusta, que, se não é a ideal, aproxima-se da meta do governo de economizar um trilhão de reais nos próximos dez anos. Não deixa de ter razão o economista Marcos Lisboa ao considerar o relatório como “quase um milagre”.

Governos com forte base parlamentar, como os de Fernando Henrique Cardoso ou de Michel Temer, tentaram, mas, por razões diversas, não conseguiram fazer uma reforma previdenciária que fizesse a diferença. O “milagre” acontece agora porque há um bloco reformista no Parlamento, composto por 12 partidos. O parecer do relator expressa o consenso desse campo majoritário, além de e diminuir as resistências à reforma.

O sistema democrático tem seus freios e contrapesos, no qual cada Poder tem sua autonomia, mas é também controlado por outros poderes. A Câmara, sob o comando e liderança do deputado Rodrigo Maia, exerce esse papel ao produzir um parecer de uma PEC de autoria do Executivo, levando em conta não apenas o necessário ajuste fiscal, mas também a proteção aos mais pobres; os aposentados de baixa renda e o aposentado rural.

Esvaziou, portanto, o discurso de sindicalistas e da oposição de acusar a reforma de ser contra os pobres e a favor dos banqueiros.

O Congresso é o fórum adequado – e legítimo – para a mediação de interesses conflitantes. Nele, não basta marcar posições. É preciso saber construir maiorias pela via do entendimento. Isso implica em ceder no secundário para manter o principal, motivo pelo qual alguns privilégios ainda permaneceram intocáveis. O ministro Paulo Guedes parece não entender isso, quando acusa o relatório de ter desfigurado o projeto inicial do governo.

Ainda está para ser explicada a atitude do ministro de, em vez de se postar como um arquiteto da vitória, assumir a condição de derrotado. Sobretudo porque Guedes vinha tendo uma boa interlocução com o universo político e com seu gesto comprometeu uma parceria que poderia dar bons frutos.

Jair Bolsonaro não pode acusar o Congresso de inviabilizar seu governo. Não há pauta bomba, até a oposição está sendo arrastada para o jogo da negociação política, como aconteceu na aprovação da suplementação orçamentária.

O maior protagonismo do Congresso decorre, em grande medida, das limitações do governo. Ou melhor, da sua enorme capacidade de se perder em questiúnculas e de fabricar crises em escala. Em quatro dias, tivemos as demissões do presidente dos Correios, do general Santos Cruz e de Joaquim Levy, todas elas por motivos ideológicos.

A relação entre o Executivo e o Legislativo vem se dando à base das desconfianças mútuas. O avanço do “parlamentarismo branco” é mais um fator de tensão entre os dois poderes. No sistema presidencialista a transferência do protagonismo para o Congresso é uma anomalia.

Para utilizar a linguagem do presidente: casamento algum se sustenta à base da desconfiança. Na maioria das vezes nem mesmo se consuma. E o Congresso percebeu isso antes do presidente.

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat: https://veja.abril.com.br/blog/noblat/o-congresso-surpreende/

Desafios que nos unem

por Hubert Alquéres

Em seu livro “O progressista de ontem e o do amanhã”, Mark Lilla, intelectual da esquerda liberal dos Estados Unidos, faz uma profunda crítica à prioridade dada a causas identitárias, que teria sido grande responsável pela derrota do Partido Democrático para o republicano Donald Trump. Segundo Lilla, seu partido não tratou de questões comuns as pessoas mas apegou-se à bandeiras de nichos que, em vez de unir, muitas vezes dividem a sociedade.

No Brasil os partidos derrotados na sucessão presidencial ainda não fizeram uma reflexão semelhante sobre seu desastre eleitoral. Tateiam no escuro, sem um discurso capaz de promover sua reconciliação com os brasileiros. O maior partido de oposição, o PT, está preso ao passado, tendo como única bandeira o “Lula Livre”.  De forma simplista, todos eleitores de Jair Bolsonaro são colocados em um mesmo saco pela esquerda, como se conservadorismo e reacionarismo fossem sinônimos.

Uma pesquisa da Fundação Tide Setubal joga luz ao debate para entender a cabeça de grande parte do eleitorado que votou em Bolsonaro. Não a dos fiéis radicais, mas daqueles que não são bolsonaristas na origem. A maioria dos entrevistados não se diz de direita, embora seja apegada a valores tido como conservadores, como a valorização do núcleo familiar, da religião e da ordem.

Esse cidadão entende que a desigualdade é o grande problema do país. Apesar de reconhecer a discriminação e aceitar a união estável entre pessoas do mesmo sexo, é muito crítico às bandeiras identitárias e políticas afirmativas, como cotas raciais. Considera que essas questões jogam um brasileiro contra o outro.

Entender por que esse eleitor votou em Bolsonaro não é difícil. Para Mark Lilla, tal qual Trump, o presidente soube falar o que é comum aos brasileiros, por meio de temas transversais, enquanto os partidos de centro e da esquerda não empunharam a bandeira do bem comum. Paradoxalmente, o discurso do presidente estreitou pós eleição, voltando-se para seus nichos: caminhoneiros, evangélicos, entre outros. Isso explica, em grande medida, a perda de sua popularidade.

Se olharmos para nossa história recente, os progressistas se deram bem quando tiveram um discurso amplo, para todos os brasileiros. Assim foi com a bandeira a favor da democracia durante o regime militar ou com a estabilização da moeda e o Plano Real de Fernando Henrique Cardoso. E toda vez que a ala progressista priorizou bandeiras que dividem a sociedade, se isolou, amargou derrotas.

A pesquisa da Fundação Tide Setubal dá a pistas sobre duas questões presentes nas preocupações do brasileiro médio: ordem e igualdade.  E o quanto ele é refratário a temas comportamentais.

Em artigo recente, cientista político Paulo Fábio Dantas Neto, da UFBA, fez uma distinção interessante entre o conservadorismo e populismo reacionário, para propor a reconstrução de pontes entre conservadores e progressistas. Elas já existiram no passado.

Dialogar requer uma postura de escuta ativa. E nem sempre a verdade está com os progressistas. Valores como a defesa da família, da religião, da ética, do combate à corrupção não podem ser uma muralha a dividi-los. Guardadas as respectivas diferenças e características, que precisam ser assumidas e reforçadas, também é importante buscar consensos.

Não será surpresa que descubram que têm muito mais desafios em comum do que conflitos.

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A Educação precisa de paz

Por Hubert Alquéres

Nenhum país do mundo alcançou o crescimento sustentado sem construir um amplo pacto para alavancar a qualidade da Educação. E em nenhum lugar a Educação deu o salto necessário em clima de guerra ideológica, caça às bruxas, denuncismo, estigmatização de professores ou falta absoluta de diretrizes; traços marcantes desses cinco meses do governo Bolsonaro na área educacional.

Nesse curto espaço de tempo, o MEC foi palco de uma guerra intestina entre alas do bolsonarismo. No seu interior instalou-se uma dança de cadeiras, responsável por dezenas de demissões nos principais escalões do Ministério.

Aquilo que educadores de diversas colorações temiam de fato aconteceu. O ministro Abraham Weintraub está causando mais danos do que o seu antecessor Ricardo Vélez Rodriguez, tal tem sido sua obstinação em levar até as últimas consequências a guerra contra o “marxismo cultural”.

Questões que poderiam ser enfrentadas de maneira racional, como o contingenciamento de verbas em decorrência da queda da arrecadação, as deficiências do sistema de ensino federal, ou a prioridade do ensino básico (de resto defendida pela ampla maioria dos educadores), foram ideologizadas pelo ministro em um ambiente punitivo.

Como disse o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia, “a sociedade foi para as ruas tratar da Educação porque o ministro assumiu o ministério falando ‘vou cortar 30% da universidade A, B e C”. De fato, as declarações de Weintraub de que puniria as universidades que fossem palco de ”balbúrdia” incendiaram a pradaria.  Da mesma maneira, suas afirmações contra o ensino de ciências humanas colocaram mais lenha na fogueira.

Reconheça-se, Weintraub conseguiu a proeza de levar às ruas estudantes, professores, funcionários e pais de alunos. Não para reclamar por salários, mas em defesa da Educação, algo raro em nossa história de reinvidicações quase sempre corporativistas. E na esteira fez ressurgir a UNE, entidade esvaziada desde seu aparelhamento por forças de esquerda.

Sua resposta às manifestações foi criticada amplamente, desagradando até mesmo a setores moderados do governo. Sem apresentar provas, acusou, irresponsavelmente, professores de fazer proselitismo em salas de aula em favor dos atos públicos. Como se não bastasse, o MEC divulgou uma nota oficial que transformou o denuncismo em política oficial de Estado, prática abjeta usada e larga escala na Revolução Cultural da China, também adotada na Alemanha de Hitler e na União Soviética de Stalin.

Ninguém é ingênuo. Há sempre quem queira se apropriar de manifestações legítimas da sociedade. Que o diga a presidente do PT, Gleisi Hoffman, ávida por enfiar de contrabando nos atos em defesa da Educação a bandeira do “Lula Livre”. Mas este tipo de oportunismo também aconteceu nas manifestações pró-governo, onde uma minoria adotou palavras de ordem antidemocráticas.  Tanto em um caso como no outro, os desvios não tiraram a legitimidade das ruas.

Falta ao ministro respeito à liturgia do cargo. Convocado pela Câmara, ofendeu deputados ao insinuar que eles nunca trabalharam na vida. No dia da segunda manifestação, divulgou um vídeo patético, onde aparece dançando com um guarda-chuva, como se fosse o Gene Kelly em “Dançando na Chuva”.  O propósito do vídeo foi  transferir responsabilidades sobre o desleixo com o Museu Nacional.

Difícil crer que o atual titular da pasta, por falta de serenidade e de liderança, leve a bom termo a missão que até agora tem relegado a segundo plano.

No final do ano termina a validade do Fundeb, instrumento fundamental para o financiamento da Educação. Sua renovação exigirá muita negociação entre os entes federativos e os gestores da área educacional. Se esse processo não for bem conduzido, retroagiremos a antes de 1996, quando o ministro Paulo Renato Souza criou o Fundo.

Weintraub já deu provas soberbas de que não é apenas o homem errado no lugar errado. É uma persona non grata por ser o grande obstáculo ao que a Educação mais precisa atualmente: paz.

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Este artigo foi publicado originalmente no site da revista Veja, no Blog do Noblat:

A Educação precisa de paz