Uma tragédia que não temos o direito de esquecer

por HUBERT ALQUÉRES

Kassab, Serra e Marrey (ao telefone): solidários numa tragédia que abalou centenas de milhares de pessoas.

Há exatos seis anos, às 18h50 do dia 17 de julho de 2007, o Airbus-A320 da TAM, voo 3054, saiu da pista do aeroporto de Congonhas e explodiu ao colidir com um prédio do outro lado da avenida. 199 pessoas perderam suas vidas e o Brasil se chocou com a maior tragédia aérea de sua história.
Acidentes ocorrem por falhas humanas e de equipamentos. E as circunstâncias para o voo 3054 eram totalmente desfavoráveis: chovia, a pista estava escorregadia, faltavam ranhuras para produzir mais atrito entre as rodas e o chão e evitar derrapagens.
Havia outros agravantes: 10 meses antes, um acidente envolvendo um Boeing da Gol, escancarou uma crise no sistema aéreo do país que obrigou o Congresso Nacional a criar a CPI do Apagão Aéreo, houve greve e prisão de controladores de voo, a falta de comando do governo ficou evidente e o despreparo das companhias parece ter se tornado constante.
Na época, dirigentes sindicais, pilotos e comissários declararam que o acidente “não deve e não pode ser visto como uma fatalidade, e sim como um resultado do descaso das autoridades, na regulação e na fiscalização do setor aéreo, e da corrida das empresas do setor por redução de custos”.
Lula, então presidente da República, se omitiu e demorou 73 horas para se dirigir a nação e falar sobre o acidente.

No olho do furacão
No momento da tragédia, estava em meu gabinete no andar térreo do Palácio dos Bandeirantes. Era Secretário de Comunicação de São Paulo e aguardava para assistir os telejornais da noite quando o governador José Serra ligou de sua sala dizendo que um acidente acabara de acontecer no aeroporto de Congonhas. Subi imediatamente pelas escadas, saltando os degraus de dois em dois.
As primeiras imagens na TV eram terríveis e Serra estava ao telefone com o prefeito da cidade, Gilberto Kassab, discutindo sobre as primeiras medidas a serem tomadas no âmbito dos Governos Estadual e Municipal.
Ele criou um gabinete de crise composto pelos secretários Aloysio Nunes Ferreira (da Casa Civil), Luiz Antônio Marrey Filho (da Justiça), Ronaldo Marzagão (da Segurança Pública) e eu mesmo, da Comunicação. Todos entraram imediatamente em ação. Logo de início montei uma equipe que deveria ficar de plantão no Palácio para atender as demandas da imprensa (e as repercussões foram tão grandes que as demandas vieram de todo o planeta). Com a equipe, preparamos comunicados e orientações para os jornalistas sobre como seriam os trabalhos no Instituto Médico Legal ou no hotel que serviria de base para que as famílias das vítimas ficassem alojadas e acompanhassem os trabalhos que viriam a se estender por várias semanas até que todos os corpos fossem liberados. Diante da gravidade da situação e para enfrentar uma tragédia dessa dimensão, também liguei para ex-secretários de comunicação para que ajudassem a pensar nas ações a serem deflagradas a partir daquele momento. Oswaldo Martins, que havia sido secretário de comunicação de Mario Covas, ajudou a recuperar as medidas que tomou quando um Fokker 100 da TAM caiu em Congonhas em 31 de outubro de 1996. Roger Ferreira, secretário de comunicação de Geraldo Alckmin na gestão 2002-2006, começou a produzir textos e sugestões como a nota decretando luto oficial. O amigo jornalista Eleno Mendonça ficou responsável por fazer uma pesquisa sobre acidentes aéreos ao redor do mundo e quais as medidas e posturas adotadas.
Logo após as primeiras providências, o governador decidiu ir para Congonhas acompanhar os trabalhos de resgate dos corpos e dar solidariedade aos familiares das vítimas. Apesar das advertências da Defesa Civil de que ainda não era o momento, pois havia risco de explosões na área do acidente, Serra cumpriu o papel que se esperava dele como cidadão e líder político.
Fomos de helicóptero e no trajeto ficamos em silencio a maior parte do tempo. Estava frio e São Paulo, sempre tão acolhedora e diversa, parecia perceber a tristeza que se abateria sobre todos assim que os telejornais começassem a transmitir a dimensão da tragédia.
O aeroporto de Congonhas foi oficialmente inaugurado em 12 de abril de 1936, com arquitetura charmosa e funcional, e onde durante muito tempo frequentei corredores e ambientes para acompanhar meu pai que era apaixonado por aviões, pilotava monomotores por puro prazer e gostava de levar os filhos.
Naquela noite, do alto, com todas as luzes apagadas, Congonhas era triste e sombrio. O aeroporto, que surgiu na cidade para ser também um ponto de encontro, era palco de uma tragédia sem precedentes.
Era o início de uma sequencia de semanas extremamente dificeis e que mudaram radicalmente minha forma de encarar a vida. E expôs para a sociedade as deficiências crônicas da infraestrutura dos aeroportos brasileiros.

O que mudou?
Passados seis anos, o que mudou? O Brasil avançou e conta hoje com aeroportos modernos, capazes de fazer frente a eventos importantes que sediará, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas?
É mais do que evidente que não. Quando da época da tragédia do Airbus da TAM, o governo Lula, numa operação de puro marketing, anunciou mundos e fundos. Que seria construído um terceiro aeroporto em São Paulo, que faria uma grande expansão do Aeroporto de Cumbica e outras medidas que nunca saíram do papel.
Nestes seis anos, os aeroportos viveram vários momentos de congestionamento. Movido por seu ranço estatista, o governo Dilma pouco avançou nas privatizações que poderiam levar à modernização da infraestrutura aeroportuária. Os que foram privatizados estiveram submetidos a normas tão restritivas, que não atraíram grupos com larga experiência em administração de aeroportos internacionais de primeira linha, como o de Frankfurt e outros.
Agora, a terceira gestão petista corre atrás do prejuízo e anuncia para o segundo semestre nova rodada de privatizações com critérios que seriam mais atrativos para os grandes “players”, com experiência internacional em administração de excelentes aeroportos. Rendeu-se, assim, a evidência de que as poucas privatizações realizadas não produziram o resultado desejado.
Nada assegura o sucesso, em tempo hábil, das próximas privatizações. O elefante branco chamado Infraero continuará tendo um papel de peso no comando de nossos aeroportos. E há uma dificuldade crônica do governo de tirar do papel projetos que anuncia. Suas falhas de gestão podem atrasar mais ainda estas privatizações, o que pode gerar um caos nos aeroportos, durante os dois eventos mundiais que vamos sediar.
Para não falar na mobilidade urbana, na integração destes aeroportos com um sistema de transportes urbanos confortável, capaz de prestar serviços de qualidade aos milhões de turistas que virão ao Brasil para assistir a Copa e as Olimpíadas.
Passados seis anos da tragédia que não podemos, não queremos e nem temos o direito de esquecer, nossos aeroportos continuam na pré-história.
Suas mazelas ficarão expostas nos eventos da Copa e das Olimpíadas.

Uma resposta em “Uma tragédia que não temos o direito de esquecer

  1. Já virou clichê que o Brasil tem memória curta; que os escândalos de hoje serão sempre sucedidos pelos de amanhã; que os poucos minutos dedicados à política e economia nos telejornais não dar conta de tudo.
    Tudo verdade, triste verdade. Ainda, eu espero.
    Este país abençoado não sofre com guerras, furacões ou tsunamis para devastá-lo e criar instintivamente um sentimento de comoção.
    Mas tragédias não falta ao povo brasileiro para aprender duras lições de cidadania, desde que os fatos ocupem seu lugar na história e deixem as marcas necessárias no imaginário brasileiro.

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