As várias faces de Lula

Por Hubert Alquéres

Lula pode ser acusado de tudo, menos de dogmático. Seu ex-marqueteiro João Santana chamava a atenção para o lado camaleônico do seu cliente. Segundo ele, Lula ora vestia a fantasia do “fraquinho” ora a do “fortão”. O próprio caudilho já se definiu como uma metamorfose ambulante. Para além de uma avaliação ética, é inegável sua flexibilidade e capacidade de trabalhar com vários cenários.

A ambivalência é um traço de sua trajetória política, desde os tempos de sindicalista, quando saia pela tangente toda vez que lhe cobravam uma definição ideológica. Já como presidente foi o autor da famosa frase “se você conhecer uma pessoa muita idosa e esquerdista é porque ela está com problema. Se você conhecer uma pessoa muito nova de direita, também está com problema”. Conforme seu objetivo pode dizer coisas que até Deus duvida. Em novembro de 2017, afirmou: “nem eu sou de extrema esquerda e nem Bolsonaro é de extrema-Direita.”

Durma-se com um barulho desses.

Elegível novamente, Lula exercita, mais uma vez, sua flexibilidade em fazer discursos absolutamente diferentes, conforme a plateia a que se destina ou as circunstâncias que o rodeiam.

Dois dias após o ministro Edson Fachin do STF anular sua condenação em Curitiba no caso do triplex, fez o discurso típico do “Lulinha, paz e amor”. Disse estar despido de mágoas e apelou para o “não tenham medo de mim”, numa clara referência ao mercado financeiro. Ainda que não o diga, esboçou uma nova “carta aos brasileiros” cujo subtexto foi a pregação de uma união nacional. Em torno dele, é claro.

Ali estava o Lula dócil ou “fraquinho”, para usar a imagem de João Santana. O modelo conciliador e empático da fala tem uma razão de ser. Sua estratégia parte do pressuposto de que 2022 será a reprodução da polarização de 2018 e, para isolar Jair Bolsonaro, é preciso atrair o centro liberal e democrático. Ora, se o inimigo é o atual presidente, não haveria razão para atacar o centro, que pode ser seu aliado de amanhã.

Surpreendentemente, o tom foi outro na última sexta feira, um dia após a maioria do STF ter votado a favor da suspeição do ex-juiz Sérgio Moro e anulação das provas no caso do triplex. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o ex-presidente proferiu um discurso furibundo e cheio de indignações, direcionando sua ira para os “golpistas” e as elites, a quem acusou de serem os responsáveis pelo aumento da fome entre os brasileiros. Bolsonaro foi deixado em segundo plano, claro indicativo de que o alvo de suas imprecações são todos aqueles que foram favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff.

O vídeo intitulado #Lula2022 é a ressureição do Lula “fortão”, do nós contra ele, pronto para voltar ao poder pelos braços do povo, sem concessões ao mercado, às elites e às forças moderadas. Mira-se nos exemplos de Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas, que voltaram ao poder nos ombros do povo. É a liturgia do caudilho messiânico destinado a reconstruir um passado vendido como virtuoso. Nessa leitura, a crise brasileira nada teria a ver com a hecatombe ética, política e econômica dos governos petistas.

Como entender a diferença de modulação do discurso pacificador de 10 de março?  O argumento de que o vídeo se volta para pôr em pé de guerra a militância pode ser uma explicação. Mas não a principal.

O cientista político e professor da UFBA Paulo Fábio Dantas Neto observa que o roteiro eleitoral do ex-presidente pode mudar se houver um derretimento da popularidade de Bolsonaro a ponto de deixá-lo de fora do segundo turno. Nessa hipótese a direita mais hesitante poderia se compor com o centro liberal-democrático.

O faro de Lula indicaria que sua volta ao poder seria bem mais difícil no caso de ter de enfrentar, na segunda rodada, um político com o perfil moderado e conciliador. Seu adversário ideal é o presidente, mas e se ele ficar no meio do caminho?

Por enquanto é uma mera hipótese e joga contra ela a disparidade histórica do chamado centro democrático. Há o risco de reproduzir o erro de 2018, quando foi para a disputa presidencial de forma pulverizada. Mas começa a se esboçar nesse campo a ideia da unidade.

Como diz o ditado, onde há fumaça há fogo. Políticos experientes como Gilberto Kassab já levam em conta a possibilidade da pandemia e crise econômica deixar Bolsonaro de fora do segundo turno. Também em política é melhor prevenir do que remediar, e Lula, desde já, tem a vacina para enfrentar o pior dos cenários. Daí adotar uma estratégia ambivalente, capaz de responder a uma ou outra hipótese.

Os discursos do “Lulinha paz e amor” e do “nós versus eles” são elementos dessa estratégia flexível, capaz de se moldar às mudanças de vento. De fato, é precisa a afirmação do Paulo Fábio: Lula não é para amadores.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação e da Câmara Brasileira do Livro. Escreve às 4as feiras no blog do Noblat: https://veja.abril.com.br/blog/noblat/as-varias-faces-de-lula-por-hubert-alqueres/

Me dá um dinheiro aí

Por Hubert Alquéres

A Cúpula dos líderes sobre o Clima, com início nesta 5ª feira, marca a volta dos Estados Unidos à cabeceira da mesa, na sua tentativa de liderar o mundo pelo exemplo. Será também um marco na nova ordem política global em que as relações comerciais tendem a ser ditadas pela agenda ambiental, com o mundo marchando para uma economia de baixo carbono. O lugar do Brasil na mesa na qual Jair Bolsonaro se sentará não é o mais confortável. O presidente terá exatamente três minutos para convencer os outros 39 chefes de estado de que haverá uma mudança radical na sua política para o meio ambiente.

Uma leitura ingênua da sua carta ao presidente dos Estados Unidos pode nos induzir à crença de que, de fato, haverá uma mudança de rumo. O tom moderado da missiva destoa bastante do seu discurso na Assembleia da ONU de 2019, quando fez a defesa do modelo de ocupação da Amazônia pautado na exploração predatória de suas riquezas e na devastação da maior floresta tropical do mundo.

Como palavras os ventos levam e o papel aceita tudo, Joe Biden foi o primeiro a desconfiar que a conversão de Bolsonaro é só coisa para americano ver. Em vez de declaração genérica sobre acabar com o desmatamento até 2030, compromisso, diga-se de passagem, já assumido pelo Brasil em 2009 e em 2015, Bolsonaro é intimado a apresentar metas e um cronograma concreto. Sem isso, não adianta vir de pires na mão.

A descrença da comunidade internacional se justifica pelo dano causado ao meio ambiente e à imagem do Brasil nestes 27 meses de governo Bolsonaro. De referência na questão ambiental desde a Eco-92, o Brasil foi reduzido à condição de pária. Em vez de fortalecer uma das legislações mais avançadas do mundo e seus organismos de fiscalização, o presidente e o ministro Ricardo Salles passaram a desconstruí-los.

Não é de se espantar, portanto, que o desmatamento tenha crescido no seu governo como nunca antes. Agora mesmo tivemos o maior desmatamento do mês de março dos últimos dez anos.

Sim, Bolsonaro inverteu uma tendência em curso que levou a uma queda expressiva do desmatamento entre 2009 e 2012, graças a um dos mais avançados planos de prevenção e proteção, o da Amazônia. Ao tempo em que estigmatizou ambientalistas, ONGs, instituições como o Inpe, lideranças indígenas e ribeirinhos, sua política extrativista deu eco aos madeireiros, garimpeiros e setores atrasados do agronegócio.

A pressão para mudança de mentalidade e de atitude não vem só do exterior. O moderno agronegócio, principal responsável pelo bom desempenho das exportações brasileiras, tem plena consciência do quanto a devastação pode levar as commodities brasileiras a perder terreno no mercado mundial. Grandes corporações também sentiram o tamanho do perigo e pressionam o presidente para apresentar metas mais ousadas e mais concretas na Cúpula dos líderes sobre o clima.

Está em jogo a inserção do Brasil na nova política global. As nossas relações comerciais com os Estados Unidos e com a União Europeia serão ditadas pela maneira como vamos nos inserir no grande pacto ambiental. Se como protagonista, como fomos até bem pouco tempo, ou sem sequer ter assento à mesa.

A cooperação internacional, inclusive financeira, só virá se o Brasil for de fato parceiro desse pacto, com a compreensão da profunda mudança da maneira como o mundo e as próprias corporações estão se reorganizando. A sustentabilidade passou a ser um valor central nas relações comerciais entre países e governos.

Há uma corrida entre os Estados Unidos e a China para decidir quem liderará o mundo na direção de uma economia de baixo carbono. Os americanos têm consciência de que estão ficando para trás, com os chineses sendo os maiores produtores e exportadores de painéis solares, turbinas eólicas, baterias e carros elétricos. 

O Brasil pode tirar dividendos dessa corrida. Tem ativos enormes: a Amazônia, o pantanal e fontes imensas de energia renovável. Pode ser um protagonista importante da nova moldura climática do mundo. E não pode se contentar ao papel que o ministro Ricardo Salles condenou o país em sua apresentação à equipe de John Kerry.

Humilha o Brasil o slide de um cachorro abanando o rabo em frente a uma máquina de frango assado com cifrões nos olhos e o título “expectativa de pagamento”.

Por aí Bolsonaro queimará a sua última oportunidade para entrar em sintonia com o mundo. Nenhum líder mundial se deixará levar por promessas genéricas cujo objetivo é embasar o discurso do “ei, você aí, me dá um dinheiro aí”. Nisso o vice-presidente Hamilton Mourão tem razão, não cai bem ao Brasil o papel de mendigo.

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Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação e da Câmara Brasileira do Livro. Este artigo foi publicado originariamente em

Educação encalha na lama ideológica

Por Hubert Alquéres

Até a metade a década de 1990 o Brasil não tinha um diagnóstico do seu sistema educacional. As políticas públicas voltadas para a área eram formuladas sem evidências ou instrumentos científicos. Essa realidade começou a ser mudada na gestão do ex-ministro Paulo Renato Souza, quando surgiu um sistema de avaliação no país –Enem (1998), Provão (1996), Saeb (na reformulação de 1995)–, e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) passou a ter um papel estratégico para a melhoria do ensino, sobretudo o básico, e para o acesso ao ensino superior. Desde o ano 2000 o país também participa do Pisa, exame internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em 2007 surgiu o Ideb.

Mudaram-se governos, mas o sistema permaneceu e foi fortalecido com o tempo. Hoje há um largo consenso sobre a importância do Enem e da relevância da avaliação, ao contrário dos tempos de sua criação, quando sofreu resistências do corporativismo e do atraso de quem o considerava como obra do neoliberalismo.

A cultura avaliativa só não é unanimidade porque o viés ideológico de uma direita fundamentalista incrustada nos postos de comando do MEC a vê como instrumento do comunismo.

Na gestão de Milton Ribeiro, quarto ministro da Educação do governo Bolsonaro, o Inep passa por um desmanche, com o esvaziamento de suas funções e a debandada de quadros qualificados. A atualização do Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico –Ideb, que avalia as escolas– saiu da alçada do instituto, migrando para o controle da Secretaria Executiva do MEC. O ministério também iniciou processo para elaborar uma prova de alfabetização, elemento vital para a credibilidade do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), sem a participação do Inep.

Por trás dessas mudanças está o objetivo de adotar o método fônico na alfabetização e execrar o construtivismo como obra de comunistas.

Da mesma maneira também querem excluir a Base Nacional Comum Curricular da atualização do Ideb. Registre-se: a BNCC e a Reforma do Ensino Médio foram dois grandes passos para colocar a Educação no patamar dos países mais bem ranqueados no Pisa. Devemos isso ao ex-ministro Mendonça Filho e sua equipe, quando estiveram à frente do MEC, no governo de Michel Temer.

O Inep é vítima ainda de uma dança das cadeiras que contamina diversos postos estratégicos do MEC. Desde o início do governo Bolsonaro o instituto está no seu quarto presidente. A qualificação técnica para a ocupação destes postos foi substituída pelo alinhamento ideológico, como aconteceu com a escolha do coordenador responsável pelo Enem, coronel-aviador Alexandre Gomes da Silva. A alta rotatividade acontece também na Secretaria da Educação Básica, que vai para o sexto secretário. O ministério está no seu quarto secretário-executivo, assim como sua Secretaria do Ensino Superior. Reportagens da Folha nos últimos dois dias mostram bem este quadro.

Milton Ribeiro vem concretizando a agenda que seu antecessor, Abraham Weintraub, não conseguiu, até em decorrência do seu estilo estridente e truculento. De fala mansa, o atual ministro admitiu a ala ideológica do governo que, perdendo espaço em outras áreas, quer fazer do MEC seu último bunker. Nesse sentido, Ribeiro tem sido mais danoso para a Educação do que seu antecessor. Quem apostou em mudança por ele ter um estilo mais afável amarga enorme frustração.

Dado a acompanhar o presidente em inaugurações e solenidades, o ministro abriu a porteira do ministério para a boiada do olavismo passar. O líder da ala ideológica é o secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim, ex-aluno de Olavo de Carvalho

Ainda na gestão de Vélez, o MEC tentou modificar o edital de aquisição de livros didáticos para excluir referências sobre a violência contra a mulher e questões de gêneros, bem como alusões à violação dos direitos humanos durante o regime militar.

À época, teve de recuar, em razão da reação de educadores, parlamentares e setores da sociedade. Pois bem, na atual gestão o edital foi alterado na direção da exclusão nos livros didáticos de temas que o presidente e sua ala ideológica consideram como “propaganda comunista”.

O obscurantismo dá as cartas também na Coordenação Geral dos Livros Didáticos, com a recente nomeação de Sandra Ramos como coordenadora. Ela é “terrivelmente evangélica”, adepta do Escola Sem Partido e defensora de se introduzir o criacionismo na Base Nacional Comum Curricular, em contraposição à teoria da evolução de Charles Darwin. Defende ainda a exclusão de questões referentes à cultura africana e a indígena.

No momento, o grande foco do ministro da Educação é a aprovação de uma lei que viabilize o ensino domiciliar, o chamado “homeschooling”. Ribeiro defende que a missão de socialização das crianças e adolescentes desempenhada pelas escolas seja da “família, clubes, bibliotecas e até pelas igrejas, por que não”? E pensar que a Constituição define a educação como laica…

A prioridade dada ao tema é emblemática e escancara uma distorção: estima-se no Brasil a existência de 35 mil famílias dispostas a migrar para o ensino familiar –um universo de crianças bastante residual, se comparado com os 47 milhões de estudantes das redes municipais e estaduais do ensino básico.

Prioridades invertidas, visão distorcida por lentes ideológicas, que enxerga professores e livros escolares como instrumentos de lavagem cerebral e de propaganda do comunismo, levam a educação brasileira a se comparar ao cargueiro Evergreen, encalhado no Canal de Suez durante seis dias.

O canal no qual a educação está encalhada é o do lodaçal ideológico. Daí só sairá se a maré mudar. No governo Bolsonaro, impossível. Os educadores já perderam todas as esperanças de que alguma coisa boa saia de uma gestão que é a continuidade do weintraubismo por outros meios.

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Artigo publicado no site do jornal Folha de S.Paulo:

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2021/04/educacao-encalha-na-lama-ideologica.shtml

Livro não é luxo

Por Vitor Tavares, Diego Drumond, Hubert Alquéres e Luciano Monteiro

Jorge Amado, um dos maiores escritores da literatura brasileira, estaria atônito com a intenção do Governo Federal de incluir na reforma tributária a taxação de 12% no preço dos livros.

Em 1945, Amado foi o deputado federal mais votado do estado de São Paulo e tornou-se membro da Assembleia Nacional Constituinte. Deve-se ao autor de “Gabriela, Cravo e Canela” e “Capitães de Areia” a emenda que instituiu na Constituição de 1946 a imunidade fiscal do papel destinado a impressão de livros, jornais e revistas. O então deputado tinha como objetivo estimular a leitura no país, tornando-a acessível aos mais pobres. 

Os constituintes de 1988 tiveram o mesmo propósito de Jorge Amado ao consolidar a isenção, vedando à união, estados e municípios criar qualquer tipo de imposto sobre livros.

Há uma lógica cristalina na isenção. Quanto mais barato o preço do livro, mais pessoas de menor poder aquisitivo ingressam no mundo da leitura. O inverso também é verdadeiro. Quanto mais caro, mais o mercado editorial se elitizará.

Não se sabe de que cartola foi tirada a ideia de que ler livro é coisa de gente rica. Ela é defendida pelo governo na defesa do PL 3887 que institui a Contribuição Social Sobre Operações com Bens e Serviços (CBS). A desmenti-la existe uma série de dados. Olhando o mercado como um todo, os livros mais vendidos no Brasil são a Bíblia, os didáticos e paradidáticos. Não consta que a maioria dos religiosos e dos estudantes brasileiros sejam das classes mais altas. Ao fazer um recorte para os livros não-didáticos, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (IBGE) mostra que o consumo está dividido em 50% entre as famílias com renda acima de dez salários mínimos e abaixo desse valor.

Outros dados relevantes estão na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2019-2020, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Itaú Cultural. O estudo comprova que hoje existe um contingente de 27 milhões de brasileiros das classes C, D e E que são consumidores de livros.  Isso significa que uma eventual aplicação da CBS, ao aumentar o preço dos livros, vai prejudicar o acesso justamente da população mais vulnerável.

Quem compartilha da tese de que “quem lê livro é rico”, visão elitista e ultrapassada do consumo de livros, age no sentido inverso da inclusão e melhoria da educação no país. Os defensores da taxação não devem ter visitado as Bienais do Livro que ocorrem na maioria dos estados brasileiros, capitaneadas pelas edições de São Paulo e do Rio de Janeiro. Bastaria passar os olhos nesses encontros para constatar que a frase não se sustenta em pé. Grande parte do público era de jovens da classe C, fenômeno que tem se repetido em sucessivas feiras de livros.

Também conviria aos defensores da tributação conhecer a Festa Literária das Periferias (Flup), indicada ao Prêmio Jabuti de 2020 na categoria “Fomento à Leitura” por acreditar no papel transformador que um livro pode ter na vida de quem tem poucos recursos. Nas edições da Flup, 97% do público se declararam leitores frequentes.

O livro é ferramenta básica de educação, conhecimento, cidadania e de mobilidade social. Existe uma comprovada correlação entre crescimento econômico, melhoria da escolaridade e aumento da acessibilidade ao livro. É preciso enfatizar que onerar e encarecer os livros será um desinvestimento no crescimento futuro do Brasil, sem falar em desestímulo no combate contra a desigualdade. Além disso, a proposta de taxar o livro vai na contramão da Lei 10.753/2003, que instituiu a Política Nacional do Livro e que tem como objetivo garantir o acesso e uso do livro a todos os cidadãos.

Se a medida prosperar, o setor calcula que o preço de uma obra literária terá um aumento médio de 20%. A consequência será uma profunda desorganização do mercado editorial, com impacto no emprego e quebra de editoras e livrarias. Mais grave: desestímulo à leitura, aí sim, transformando-a em um bem acessível apenas às elites.

Onde o governo foi buscar tamanha inspiração?

Na América Latina, apenas Chile e Guatemala tributam os livros. O Reino Unido, por exemplo, acelerou os planos para zerar a alíquota sobre os livros.

Perto de nós, o Uruguai nos faz passar vergonha. Quando veio a pandemia, seu governo incluiu livros na cesta básica distribuída para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Entre as obras distribuídas, clássicos de Hermann Hesse, Aldous Huxley, Alberto Camus, Júlio Verne e George Orwell. A literatura uruguaia foi contemplada com escritores canônicos, como Horácio Quiroga e Juan José Morosoli, e contemporâneos como Fabian Severo. Não pensem que o governo do país vizinho é de esquerda. É de centro-direita, profundamente democrático e amante da liberdade.

A democratização do saber e da cultura só foi possível graças a Gutemberg, o inventor da imprensa. Antes dele, os livros eram escritos em pergaminhos e de circulação restrita a mosteiros, conventos e algumas pouquíssimas universidades. A invenção de Gutemberg possibilitou que milhões e milhões de pessoas saíssem da escuridão, se alfabetizassem e tivessem acesso a um bem que antes era privilégio da elite eclesiástica e da nobreza.

A proposta do governo quer voltar a esses tempos.

O cachimbo do sectarismo

Por que tanto medo do manifesto dos presidenciáveis?

Por Hubert Alquéres

Vem de longe o sectarismo de parcela da esquerda brasileira. Em diversas passagens da nossa história confundiu quem era o inimigo a ser batido, fazendo o jogo de quem verdadeiramente ameaçava a democracia. Antes dos anos de chumbo, preferiu combater a conciliação de João Goulart em vez de somar forças em torno da candidatura de Juscelino Kubitschek e assim evitar o golpe militar de 1964.

Essa mesma esquerda dizia que a Arena e o MDB eram farinha do mesmo saco. Não votou em Tancredo Neves no colégio eleitoral, em 1984, sob o pretexto de não participar da “farsa eleitoral”. Na verdade, confiou no patriotismo dos liberais e dos democratas, com aos quais foi possível o país superar a ditadura e elaborar a Constituição mais avançada de sua história. Que aliás, a tal esquerda se recusou a assinar.

Autorreferente, jamais aceitou alianças cuja hegemonia não fosse dela própria. Fez oposição sem quartel ao governo de Fernando Henrique Cardoso, opondo-se ao Plano Real, a quem acusava de ser neoliberal. Chegou ao cúmulo de se opor ao Fundef, ao Enem e a programas de transferências de renda, como o Bolsa-Escola, acusado de “assistencialista”.

Quando chegou ao poder, deu o dito por não dito. Adotou, no primeiro governo de Lula, a mesma política econômica de Fernando Henrique e ampliou os programas sociais, mudando a denominação. Do ventre desse grupo nasceu o “nós contra eles” e a “herança maldita”, que desgraçadamente se espraiaram na política brasileira e nos levou ao governo de Jair Bolsonaro.

O uso do cachimbo do sectarismo deixou a esquerda com a boca torta e a considerar como direita tudo o que não é espelho.

Não é de se estranhar, portanto, que tenha espalhado nas redes sociais sua bile por causa do “Manifesto pela Consciência Democrática”, assinado por seis presidenciáveis do chamado Polo Democrático. Em especial, vociferaram contra Ciro Gomes, tido como traidor desde a sua recusa em apoiar o candidato do PT no segundo turno de 2018.

O próprio Fernando Haddad se encarregou de desclassificar Ciro ao compartilhar uma postagem do também petista Breno Altman, segundo a qual ao assinar o manifesto “Ciro Gomes conclui sua ruptura com o campo progressista”. Isso faz lembrar uma passagem da política pernambucana. Quando a esquerda fazia aliança com Cid Sampaio o chamava de empresário progressista, e quando estava em lado oposto acusava Cid de usineiro, latifundiário e reacionário.

O coro contra o manifesto foi engrossado por Lula e Gleisi Hoffman, ambos ressaltando que cinco dos signatários – os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS), o ex-ministro Luiz Mandetta e os empresários João Amoêdo e Luciano Huck – votaram em Bolsonaro no segundo turno, enquanto Ciro viajou para Paris para não votar em Haddad. Para os petistas, eles seriam os responsáveis pela vitória do atual presidente.

O desastre dos anos Dilma, a corrupção na Petrobras, o aparelhamento do estado pelo PT não teriam nada a ver com a vitória de Bolsonaro, nessa versão fantasiosa.

A deslegitimação do manifesto, sob o pretexto de um pecado original de seus autores, é amplificada por articulistas cujas teclas não escamoteiam seu viés ideológico. Segundo esses escribas os seis presenciáveis não teriam moral para falar em democracia por causa de seu posicionamento em 2018.

Pela métrica do pecado original, Ulysses Guimarães jamais deveria ter liderado a frente democrática responsável pelo fim da ditadura porque apoiou o golpe de 1964. Da mesma maneira figuras como Teotônio Vilella, Severo Gomes ou José Sarney, não teriam legitimidade para empunhar a bandeira da democracia porque em algum momento de suas vidas apoiaram ou participaram de governos do regime militar.

É preciso fazer um registro, para não cair no mesmo erro do sectarismo. É injusto qualificar toda a esquerda como sectária. Neste escopo não se enquadram políticos como Flávio Dino, governador do Maranhão, ou Marcelo Freixo, duas vozes que consideraram o manifesto positivo e legítimo. Por ora, são exceções. O próprio Freixo sofre na pele o estigma de seus companheiros de partido, por defender uma frente no Rio de Janeiro que vá da esquerda a Eduardo Paes, PSDB e Rodrigo Maia, tudo para derrotar o bolsonarismo no seu bunker principal.

Na verdade a esquerda lulista e o próprio caudilho não são contrários a toda e qualquer frente ampla, mas apenas àquelas sobre as quais não tenham a hegemonia. Como a articulação do polo democrático fugiu do controle, Lula e os seus juntaram suas vozes à dos bolsonaristas contra os autores do manifesto.

Se nada garante que os seis presidenciáveis se unirão em 2022 fica uma pergunta: por que tanto medo do centro democrático?

Como diz o ditado, não se chuta cachorro morto. O lulismo percebeu que as placas tectônicas se moveram com o manifesto, abrindo a possibilidade de quebrar, em 2022, a polarização Lula-Bolsonaro. Ao ex interessa a reedição da polarização na qual ele seja a expressão do bem e o presidente a do mal. Em tais condições, no segundo turno seria só correr para o abraço pois, para evitar o mal maior, todo o centro embarcaria na sua candidatura no segundo turno.

Só que o filme pode não terminar de acordo com roteiro traçado. Em 2018 o Partido dos Trabalhadores poupou Bolsonaro em todo o primeiro turno, na crença de que pela força da inércia todos estariam com Haddad na segunda rodada. Isso pode se repetir em 2022, sobretudo porque o petismo está, desde já, implodindo pontes para a próxima sucessão presidencial.

Seria mais prudente adotar uma política de boa vizinhança entre o centro e a esquerda mirando para o futuro. Mas as viseiras do hegemonismo impedem a esquerda sectária de olhar para os lados.