O Bolsonaro que vai às urnas

Por Hubert Alquéres

É visível a mudança de estratégia de Jair Bolsonaro. O candidato antissistema de 2018 repaginou-se. Não por boniteza, mas por precisão, como o sapo de Guimarães Rosa. Quando elegeu-se presidente, vestiu a fantasia de outsider, apesar de ser um político com 30 anos de mandato. À época, o eleitorado estava em busca de um candidato “diferente de tudo o que está aí”, capaz de empunhar a bandeira da anticorrupção e de ser alternativa ao desastre dos anos petistas de Dilma Rousseff.

Naquele quadro, foi possível se eleger presidente com pouquíssimo tempo televisivo, sem palanques regionais, sem alianças com partidos tradicionais, sem recursos financeiros e concorrendo por uma legenda inexpressiva. A próxima sucessão presidencial será disputada em condições inteiramente diferentes. A eleição será decidida à moda antiga. Contarão de forma predominante a estrutura de campanha e a política de alianças.

E a cabeça dos brasileiros estará voltada mais para as questões econômicas que dizem de perto à sua sobrevivência, como inflação e desemprego. São elas que vão decidir o voto dos brasileiros, como as pesquisas já vem indicando. Mesmo a pandemia, responsável por quase 620 mil mortes, não terá o mesmo peso. A corrupção não deixou de ser uma preocupação, mas hoje é bem menos determinante do que em 2018.

Esse é o pano de fundo da mudança de rota de Bolsonaro. Em setembro deste ano, o presidente marchava celeremente para disputar a reeleição quase na condição de um pato manco. Colaborava para isso a sua agenda retrógrada e um condomínio governista sem o menor traquejo para o jogo da política, que tinha como principal eixo o núcleo militar.

A necessidade levou o presidente a se acasalar com o Centrão, trazendo os profissionais da política para o coração do governo. É um casamento de conveniência, que abre uma vereda para ter tempo de TV, palanques regionais e recursos para disputar a reeleição. Esse é o sentido de sua filiação ao PL, sua nona legenda.

A partir daí passou a fazer política, estabelecendo uma maioria no Congresso costurada pelas verbas do orçamento secreto. Ainda que à custa da desmoralização do seu ministro da Economia – bem como do comprometimento com a responsabilidade fiscal e com o teto de gastos – passou a contar com seu programa social.

O Auxílio Brasil, aprovado com uma mãozinha da oposição, lhe deu um discurso para disputar o eleitorado mais carente. Hoje é Lula que, segundo as pesquisas, tem a preferência de 60% dos eleitores que ganham até dois salários-mínimos. Quem tem a caneta presidencial nas mãos não morre antes da hora, sempre tem margem de manobra. A mais recente de Bolsonaro é acenar com um programa de microcrédito que pode beneficiar 20 milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo não descuidou de sua retaguarda. A aprovação pelo Senado de André Mendonça como novo ministro do Supremo Tribunal Federal teve a simbologia de fidelizar o apoio da bancada evangélica e o da cúpula das diversas igrejas que conformam o universo dos evangélicos. Em 2018, dois terços desse eleitorado votou em Jair Bolsonaro. A assunção do ministro Mendonça ao STF não garante automaticamente o voto dos evangélicos, mas ajuda bastante.

É bem possível que a nova estratégia de Bolsonaro seja menos uma obra sua e mais de seu novo parceiro, o Centrão. Mas o beneficiário é ele por contar com meios mais adequados para a disputa presidencial do próximo ano.

O fato de ser a estratégia mais apropriada – até porque a alternativa a ela seria o desastre da agenda golpista, negacionista e reacionária – não quer dizer que ela venha a ter êxito, entendido por isso a sua reeleição. Tudo dependerá de como a economia estará na hora H e no dia D. Ou melhor, como estará o humor dos brasileiros. Normalmente, quando a sensação é de bem-estar vota-se com o governo, quando é de mal-estar, na oposição.

O impacto eleitoral do Auxílio Brasil ou de outras medidas populistas com fins eleitoreiros podem ser mitigados pela estagnação da economia em 2022, combinada com inflação alta. Esse binômio infelizmente sempre tem levado ao aumento da fome, da pobreza, da perda de renda e do emprego.

Se esse quadro previsto pela maioria dos economistas e agências de risco se confirmar, as chances da reeleição serão remotas. Mas convém não decretar que, do ponto de vista eleitoral, Bolsonaro já está morto.

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