Liberticidas

Hans River mentiu à CPI, ao caluniar a jornalista. Bolsonaro deu fórum de verdade às suas palavras abjetas.

Por Hubert Alquéres

Liberdades que nos são caras, conquistadas com tantos sacrifícios, vêm sofrendo ataques quase diários, muitas vezes por figuras obscuras que saem do anonimato para chocar a nação. Mal esfriou o caso da censura a clássicos da nossa literatura como “Os Sertões” de Euclides da Cunha, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, ou “Macunaíma”, de Mário de Andrade, surge um novo e espantoso episódio. A liberdade de imprensa – sem a qual não se pode falar em ordenamento democrático – volta a ser agredida, desta vez pelo depoimento de Hans River do Rio Nascimento na CPMI das Fake News.

A ofensa, por sí só gravíssima, foi amplificada de forma ultrajante pelo presidente Jair Bolsonaro. Sem qualquer respeito ao decoro e à liturgia, ele ultrapassou todos os limites ao difamar a jornalista Patrícia Campos de Melo, ofendendo ainda todas as mulheres com seu machismo chulo.

Nunca um presidente da República desceu tanto como nesse lamentável episódio que envergonha o país. Talvez tenha perdido o controle dos nervos com o noticiário sobre a morte do capitão miliciano Adriano Nóbrega, ou escolhido o caminho do insulto para encobrir manchetes que o desagradam.

O liberticida Hans River mentiu à CPI, ao caluniar a jornalista. Bolsonaro deu fórum de verdade às suas palavras abjetas.

A infâmia é tão absurda, que seria absolutamente desnecessário defender a jornalista se não estivéssemos vivendo tempos de ignorância e do uso da mentira com fins intimidatórios e de destruição de reputações.

Mais do que apenas defendê-la das acusações sórdidas, o momento exige defesa da liberdade de imprensa. É ela que foi ofendida, é ela que constantemente tem sido agredida por um presidente que dá banana aos jornalistas, encerra de forma autoritária entrevistas e manipula verba publicitária com fins persecutórios aos meios de comunicação que não se dispõem a fazer coberturas chapa-branca.

Bolsonaro nutre um ódio particular à TV Globo e ao jornal Folha de S.Paulo, mas sua guerra é contra a liberdade de imprensa. Até agora, já proferiu cerca de 120 ataques a meios de comunicação e a seus profissionais. Suas ofensas são amplificadas pelas brigadas virtuais do bolsonarismo, numa tentativa de impedir que jornalistas exerçam sua função de investigar e informar.

No campo da cultura, a censura está de volta. Não da forma institucional, mas pela manipulação de verbas e da utilização enviesada de espaços públicos. Em nome da defesa de “valores cristãos” centros culturais públicos passaram a adotar filtros ideológicos e deixaram de exibir peças teatrais, filmes ou qualquer evento cujo conteúdo desagrade os novos cruzados.

Cultura virou trincheira da guerra contra o “marxismo cultural” e da defesa dos “valores cristãos”. O marcatismo tupiniquim criou seu index. Ícones como Chico Buarque de Holanda e Fernanda Montenegro são vistos como malditos. A monumental produção cultural de um povo é tachada de esquerdista por quem se julga com a missão divina de criar uma “arte heróica, nacional e cristã”.

Os direitos humanos, cuja observância é definidora do estágio civilizatório de um país, também são alvos de deboche e desrespeito. A ideologia oficial o vê aplicável apenas aos “cidadãos do bem”. Nessa categoria mental, um sicário como Adriano Nóbrega, é alçado à condição de herói e inocentado pelo presidente por não ter sentença transitada em julgado.

O péssimo exemplo vem de cima. O livro de cabeceira de Bolsonaro é “A verdade sufocada”, do torturador Brilhante Ustra, outro herói do presidente. E ele não está só nessa subversão de valores na qual torturados viram algozes e torturadores vítimas. O general Luiz Eduardo Rocha Paiva, conselheiro da Comissão da Anistia, leva o livro de Ustra para orientar seu voto nas reuniões da comissão.

Como o presidente não dá exemplo, os liberticidas se sentem estimulados para conspirarem contra as liberdades. Seu próprio clã defende o AI-5 ou dissemina mentiras nas redes sociais. Tão ou mais grave do que as infâmias ditas foi a panfletagem em defesa de Hans River nas redes pelo deputado e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro.

Hans River não é um lobo solitário. A ele somam-se torquemadas de esquina que associam o rock às drogas e ao satanismo, fazem elegia à escravidão, quando não psicografam Goebbels. Estão encastelados no poder, em casamatas como as da Educação e da Cultura, e no próprio Palácio do Planalto.

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