Os infiltrados

Que há uma ação orquestrada por parte de setores ultrarradicais parece não haver dúvidas.

A vida tem dessas ironias. A esquerda rupturista sempre sonhou com uma greve política como antessala da tomada do poder, mas hoje quem está utilizando o expediente é a extrema direita. Já não são os 46 centavos no preço do diesel a principal reivindicação dos caminhoneiros, eles querem mesmo é a derrubada do presidente Michel Temer. Depois de ceder tudo e não receber a devida contrapartida dos grevistas o governo passou a denunciar a existência de infiltrados no movimento.

A favor da tese do Palácio do Planalto pesam as palavras do presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros, José da Fonseca Lopes, segundo as quais o movimento paredista foi desvirtuado “por pessoas que querem derrubar o governo”. Fosenca denuncia a existência de “ um grupo muito forte de intervencionistas nisso aí”.

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Que há uma ação orquestrada por parte de setores ultrarradicais parece não haver dúvidas. Afinal, de onde surgem caminhonetes distribuindo bandeiras do Brasil e faixas de “intervenção militar” nos bloqueios? Não se conhece a face dos “infiltrados”, seriam eles agitadores de redes sociais como o motorista “Chorão”, de Osasco, e o advogado de Ituiutaba André Janones? Ou há organizações mais estruturadas por detrás do caos instalado?

Se tudo fosse obra de infiltrados, seria fácil de resolver, bastaria acionar a Polícia Federal e os órgãos de inteligência. O problema é que não é.

O fantasma de 2013 voltou a rondar o país, agora com coloração de extrema direita. A “politização” da greve dos caminhoneiros expressa um sentimento que perpassa transversalmente a sociedade, manifestado no panelaço do beautiful people dos Jardins paulista e da Zona Sul carioca, mas também em manifestações em apoio aos caminhoneiros de motoboys e motoristas de micro-ônibus e transporte escolar.

Por detrás de tudo estaria um sentimento difuso contra a corrupção e contra os políticos, como bem observou Fernando Gabeira. Esse sentimento esteve presente nas jornadas do impeachment de Dilma Rousseff e foi equacionado pela via constitucional. Hoje não se vislumbra uma saída virtuosa, capaz de levar a nação a se reencontrar consigo mesma.

O “Fora Temer”, não é apenas o abaixo o governo. É o abaixo os partidos, abaixo o Congresso, abaixo o STF, tal o fracasso destes poderes em corresponder aos anseios da sociedade. No fundo, é um “que vayan todos e vengan los militares”.

A ideia da ditadura como solução para os problemas nacionais faz parte da nossa herança positivista. Agora ressurge com respaldo de camadas populares e se vê reforçada porque as Forças Armadas passaram a ser vistas como o Posto Ipiranga, solução para tudo. A intervenção militar é uma saída inexequível, sem apoio do deputado Jair Bolsonaro, pois isto frustraria seus planos de ser presidente. E se a extrema direita tem chances de chegar ao poder pelo voto, por que vai apelar às armas, há cinco meses do desfecho da disputa presidencial?

No curto prazo, o risco de ruptura institucional está afastado, mas o Brasil enfrenta seu momento mais delicado desde a redemocratização. A disputa presidencial se dará em clima de alta instabilidade, podendo se desdobrar em desordem social. É o terreno fértil para o discurso da ordem, bandeira hoje nas mãos do candidato da extrema-direita. Quanto mais a esquerda apostar no caos e engrossar o caldo do “Fora Temer” e “Fora Pedro Parente”, mais levará água para o moinho de Jair Bolsonaro.

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo

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